{"id":351714,"date":"2026-04-11T05:02:00","date_gmt":"2026-04-11T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=351714"},"modified":"2026-04-11T05:02:00","modified_gmt":"2026-04-11T09:02:00","slug":"o-que-o-progressismo-moderno-nunca-vai-conseguir-entender","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=351714","title":{"rendered":"O que o progressismo moderno nunca vai conseguir entender"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>H\u00e1 um momento em<em> Hell or High Water <\/em>(2016), o filme com roteiro de Taylor Sheridan que precedeu e, em certos aspectos, anunciou toda a sua obra televisiva posterior, em que um cowboy encurralado por um inc\u00eandio, tentando conduzir seu gado para longe das chamas pelas margens do Rio Brazos, olha de soslaio para um dos protagonistas e murmura, com uma amargura seca e direta:<em> \u201cIt\u2019s the 21st century and I\u2019m racing a fire tothe river with three hundred cattle. No wonder my kids don\u2019twanna do this nonsense for aliving<\/em>\u201d (\u201cEstamos no s\u00e9culo XXI e eu estou correndo contra o tempo para apagar um inc\u00eandio no rio com trezentas cabe\u00e7as de gado. N\u00e3o me admira que meus filhos queiram fazer essa loucura para ganhar a vida\u201d).\u00a0A cena n\u00e3o tem qualquer consequ\u00eancia direta para o enredo; ela n\u00e3o retorna, n\u00e3o \u00e9 mencionada de novo, n\u00e3o busca resposta. E \u00e9 por isso que importa.<\/p>\n<p>Pelo menos importou para mim como algu\u00e9m que nasceu e cresceu no pampa ga\u00facho. Ali, numa elipse narrativa de aparente irrelev\u00e2ncia, encontra-se algo que a imagina\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea dominante, progressista, urbana, terap\u00eautica, gerencial, tornou-se estruturalmente incapaz de produzir: uma observa\u00e7\u00e3o verdadeira sobre como se vive, dita sem a moldura de uma causa, sem o <em>pathos<\/em> de uma campanha, sem os clich\u00eas politicamente corretos.<\/p>\n<p>O cowboy n\u00e3o pede nada. N\u00e3o interpela o espectador. N\u00e3o sugere solu\u00e7\u00f5es. Apenas constata, com a placidez de quem j\u00e1 sabe que n\u00e3o ser\u00e1 ouvido, que certo modo de vida chegou ao seu crep\u00fasculo; e que a quest\u00e3o relevante n\u00e3o \u00e9 como salv\u00e1-lo, mas o que significa perd\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Ora, \u00e9 exatamente esse tipo de pergunta que a imagina\u00e7\u00e3o progressista dos nossos tempos n\u00e3o consegue fazer sem imediatamente respond\u00ea-la, sem embal\u00e1-la em pol\u00edtica de financiamento, em projeto de agricultura familiar, em festival de cultura, em document\u00e1rio sobre resili\u00eancia comunit\u00e1ria. A diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 de inten\u00e7\u00e3o; \u00e9 de estrutura imaginativa. O progressismo contempor\u00e2neo, com seu repert\u00f3rio de causas, suas liturgias de indigna\u00e7\u00e3o gerenciada, sua convic\u00e7\u00e3o de que todo problema tem solu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica ou legislativa, perdeu a capacidade de contemplar uma perda sem convert\u00ea-la em plataforma.<\/p>\n<p>E \u00e9 justamente por isso que Wendell Berry e Taylor Sheridan, penso eu, s\u00e3o relevantes hoje: n\u00e3o como nost\u00e1lgicos, n\u00e3o como reacion\u00e1rios, mas como os \u00fanicos que nos fazem reimaginar seriamente, como a pol\u00edtica, a terra e as rela\u00e7\u00f5es humanas poderiam ser pensadas a partir da terra, e n\u00e3o do ar condicionado de um escrit\u00f3rio em Nova York ou S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Esse argumento exige, antes de tudo, uma clarifica\u00e7\u00e3o sobre o que se entende por \u201cimagina\u00e7\u00e3o\u201d. N\u00e3o se trata aqui de fantasia, de utopia, de projeto. Trata-se, para usar uma distin\u00e7\u00e3o que o pr\u00f3prio Berry elaborou ao longo de d\u00e9cadas de ensa\u00edstica, da diferen\u00e7a entre o abstrato e o concreto: entre a ideia de uma comunidade e uma comunidade espec\u00edfica, entre o conceito de terra e esta terra aqui, com este cheiro e este declive e estes mortos enterrados neste canto.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A imagina\u00e7\u00e3o progressista de hoje \u00e9, em seu n\u00facleo mais profundo, uma imagina\u00e7\u00e3o do abstrato: ela pensa em &#8216;comunidades marginalizadas&#8217;, em &#8216;territ\u00f3rios vulner\u00e1veis&#8217;, em &#8216;ecossistemas amea\u00e7ados&#8217;, categorias que existem no discurso antes de existirem no mundo<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O diagn\u00f3stico mais preciso dessa deriva progressista foi feito por Mark Lilla em <em>The Once and Future Liberal<\/em> (2017): Lilla argumenta que o progressismo contempor\u00e2neo trocou a linguagem da cidadania, necessariamente concreta, territorial, institucional, pela linguagem da identidade, que \u00e9 por natureza fragment\u00e1ria e avessa ao universal, resultando num discurso politicamente impotente que fala com intensidade sobre o mundo mas sem o enraizamento capaz de transform\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A imagina\u00e7\u00e3o progressista de hoje \u00e9, em seu n\u00facleo mais profundo, uma imagina\u00e7\u00e3o do abstrato: ela pensa em \u201ccomunidades marginalizadas\u201d, em \u201cterrit\u00f3rios vulner\u00e1veis\u201d, em \u201cecossistemas amea\u00e7ados\u201d, categorias que existem no discurso antes de existirem no mundo, e que se aplicam a qualquer lugar porque n\u00e3o pertencem a nenhum lugar em particular.<\/p>\n<p>Wendell Berry, poeta, romancista, ensa\u00edsta e fazendeiro nascido em 1934 em Port Royal, no Kentucky, que desde 1965 cultiva a mesma terra ancestral, passou a vida inteira argumentando que essa substitui\u00e7\u00e3o do concreto pelo abstrato \u00e9 a raiz de todos os outros problemas: ecol\u00f3gicos, pol\u00edticos, comunit\u00e1rios e morais. Vale notar que a palavra &#8220;abstra\u00e7\u00e3o&#8221;, ou &#8220;abstrato&#8221;, \u00e9 o termo que aparece com maior frequ\u00eancia em seus ensaios, reiterando a convic\u00e7\u00e3o central de que o mal moderno \u00e9, em sua raiz, um mal imaginativo: a substitui\u00e7\u00e3o do particular pelo geral, do concreto pelo conceitual.<\/p>\n<p>Russell Kirk, ao resenhar em 1978 <em>The Unsettling of America<\/em>, obra seminal de Berry, percebeu imediatamente o que estava em jogo: n\u00e3o uma cr\u00edtica ambiental, n\u00e3o uma plataforma agr\u00e1ria, mas uma reimagina\u00e7\u00e3o completa das condi\u00e7\u00f5es de uma vida politicamente respons\u00e1vel. Kirk, que situou Berry na linhagem de pensadores que compreendem a cultura como insepar\u00e1vel da terra que a sustenta e a pol\u00edtica como insepar\u00e1vel da cultura, comparou-o a Virg\u00edlio, pois o que Berry prop\u00f5e, contra toda a corrente da modernidade progressista, \u00e9 que a pol\u00edtica come\u00e7a onde os p\u00e9s tocam o ch\u00e3o, n\u00e3o onde as ideias alcan\u00e7am os c\u00e9us.<\/p>\n<p>Taylor Sheridan, nascido em 1970 na Carolina do Norte mas criado em Fort Worth, no Texas, onde seu imagin\u00e1rio se formou durante visitas \u00e0 fazenda materna em Cranfills Gap, chegou a essa mesma intui\u00e7\u00e3o por um caminho completamente diferente: d\u00e9cadas de pap\u00e9is menores em televis\u00e3o, antes de reinventar-se como roteirista depois dos quarenta anos, produzindo <em>Sicario<\/em> (2015), <em>Hell or High Water<\/em> e <em>Wind River<\/em> (2017) em r\u00e1pida sucess\u00e3o, e depois construindo o vasto universo televisivo de <em>Yellowstone<\/em> (2018-2024) e seus desdobramentos, incluindo <em>1883<\/em> (2021), <em>1923<\/em> (2022) e <em>The Madison<\/em> (2026). Estou unindo ambos por afinidades est\u00e9ticas encontradas em seus trabalhos.<\/p>\n<p>Os dois nunca se citaram mutuamente e provavelmente jamais se encontraram. O que os une n\u00e3o \u00e9 influ\u00eancia, mas converg\u00eancia: a converg\u00eancia de dois temperamentos que, por caminhos radicalmente distintos, chegaram \u00e0 mesma convic\u00e7\u00e3o, a de que a imagina\u00e7\u00e3o dominante do nosso tempo \u00e9 profundamente inadequada para pensar o que realmente importa, e que essa inadequa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 acidental mas constitutiva. Ali\u00e1s, o ensaio de Berry sobre computadores (<em>Why I Am not Going To Buy A Computer<\/em>), publicado originalmente na revista <em>Harper&#8217;s<\/em> em 1987, \u00e9 um bom exemplo dessa converg\u00eancia temperamental: Berry n\u00e3o recusa a tecnologia por ignor\u00e2ncia, mas porque compreende que toda ferramenta pressup\u00f5e e refor\u00e7a uma forma de imaginar o mundo, e que o computador pressup\u00f5e e refor\u00e7a precisamente a imagina\u00e7\u00e3o abstrata, acelerada e desenraizada que ele passa a vida contestando.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>O que a imagina\u00e7\u00e3o progressista urbana n\u00e3o consegue imaginar, e aqui chegamos ao ponto, \u00e9 precisamente o que Berry e Sheridan imaginam com toda a clareza: que h\u00e1 formas de vida organizadas em torno de v\u00ednculos concretos com lugares concretos, com vizinhos concretos, com mortos concretos, que n\u00e3o s\u00e3o res\u00edduos do passado a serem gerenciados na transi\u00e7\u00e3o para um futuro melhor, mas alternativas leg\u00edtimas e moralmente s\u00e9rias ao modo de vida urbano-progressista.<\/p>\n<p>Que a pol\u00edtica pensada a partir do ch\u00e3o, da responsabilidade com este vale, este rancho, esta bacia hidrogr\u00e1fica, esta comunidade de almas espec\u00edficas, produz uma compreens\u00e3o das obriga\u00e7\u00f5es humanas que nenhuma abstra\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica consegue replicar; e que a recusa dessas formas de vida, ou sua absor\u00e7\u00e3o como est\u00e9tica de consumo, n\u00e3o representa progresso, mas empobrecimento: da imagina\u00e7\u00e3o, da pol\u00edtica e da capacidade humana de habitar o mundo.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o central de Berry, em toda a sua obra, poemas, ensaios e a extensa saga ficcional de Port William, que se estende do per\u00edodo da Guerra Civil americana at\u00e9 o presente, \u00e9 justamente esta: o que se perde, e o que se torna impens\u00e1vel, quando uma civiliza\u00e7\u00e3o substitui o concreto pelo abstrato, o lugar pelo espa\u00e7o, a comunidade pela rede, a responsabilidade pela solidariedade gerenciada?<\/p>\n<p>Em <em>The Unsettling of America<\/em> (1977), Berry argumenta que a crise ecol\u00f3gica e agr\u00e1ria da Am\u00e9rica n\u00e3o \u00e9 primariamente t\u00e9cnica ou econ\u00f4mica, mas imaginativa: trata-se de uma civiliza\u00e7\u00e3o que aprendeu a pensar a terra como recurso, algo a ser explorado, otimizado, eventualmente preservado como parque, e perdeu a capacidade de pens\u00e1-la como lugar de habita\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel, como dom confiado que exige cuidado intergeracional. A agroind\u00fastria, para Berry, n\u00e3o \u00e9 apenas uma pol\u00edtica errada; \u00e9 o produto de uma imagina\u00e7\u00e3o deturpada: a imagina\u00e7\u00e3o de quem nunca precisou, de fato, viver das consequ\u00eancias de suas pr\u00f3prias decis\u00f5es sobre um peda\u00e7o espec\u00edfico de terra.<\/p>\n<p>Ora, \u00e9 exatamente essa imagina\u00e7\u00e3o deturpada que Sheridan coloca em cena, e coloca para perder. Em <em>Yellowstone<\/em>, o rancho dos Dutton, fam\u00edlia de pecuaristas que controla, h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es, a maior propriedade privada cont\u00edgua de Montana, \u00e9 permanentemente amea\u00e7ado por figuras que encarnam, com uma precis\u00e3o quase aleg\u00f3rica, a imagina\u00e7\u00e3o abstrata do progressismo urbano: o especulador imobili\u00e1rio que v\u00ea a terra como ativo de balan\u00e7o, o ambientalista que quer converter o rancho em parque nacional, o pol\u00edtico que administra territ\u00f3rios que jamais pisou.<\/p>\n<p>John Dutton (Kevin Costner), o patriarca, resiste a todos eles, e o que \u00e9 crucial \u00e9 que a s\u00e9rie n\u00e3o o apresenta como her\u00f3i simples nem como vil\u00e3o simp\u00e1tico, mas como um homem que compreende algo que seus advers\u00e1rios s\u00e3o estruturalmente incapazes de compreender: que h\u00e1 um tipo de conhecimento sobre um lugar que s\u00f3 se adquire vivendo nele por gera\u00e7\u00f5es, e que esse conhecimento \u00e9 politicamente relevante de um modo que nenhum estudo de impacto ambiental ou plano de desenvolvimento regional consegue replicar.<\/p>\n<blockquote>\n<p> O progressismo contempor\u00e2neo, com seu repert\u00f3rio de causas, suas liturgias de indigna\u00e7\u00e3o gerenciada, sua convic\u00e7\u00e3o de que todo problema tem solu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica ou legislativa, perdeu a capacidade de contemplar uma perda sem convert\u00ea-la em plataforma<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 nesse ponto que Yellowstone produz um dos seus momentos imaginativamente mais ousados, e tamb\u00e9m mais desconcertantes para um espectador formado na imagina\u00e7\u00e3o progressista. Ao longo da s\u00e9rie, John Dutton e Thomas Rainwater (Gil Birmingham), o chefe da na\u00e7\u00e3o Crow adjacente ao rancho, desenvolvem uma rela\u00e7\u00e3o que desafia qualquer leitura simples de colonizador e colonizado, de opressor e v\u00edtima, de inimigos hist\u00f3ricos que a consci\u00eancia contempor\u00e2nea exigiria que continuassem sendo.<\/p>\n<p>O que emerge entre eles, lentamente, contrariando todas as expectativas do moralismo identit\u00e1rio, \u00e9 algo que s\u00f3 pode ser descrito como um entendimento quase-transcendental: dois homens que, por raz\u00f5es completamente diferentes e a partir de hist\u00f3rias radicalmente opostas, chegaram \u00e0 mesma compreens\u00e3o de que aquela terra espec\u00edfica exige guardi\u00f5es, e de que a batalha entre eles \u00e9 infinitamente menos importante do que a batalha comum contra os que n\u00e3o sabem o que \u00e9 guardar.<\/p>\n<p>Rainwater, um personagem que a imagina\u00e7\u00e3o progressista contempor\u00e2nea n\u00e3o sabe bem o que fazer, j\u00e1 que n\u00e3o cabe na categoria do ind\u00edgena-como-v\u00edtima-a-ser-reparada, nem na do aliado-pol\u00edtico-a-ser-mobilizado, compreendeu com a lucidez pragm\u00e1tica de quem jogou o jogo jur\u00eddico e pol\u00edtico por d\u00e9cadas sem jamais confundi-lo com a verdade, que a terra ancestral de seu povo n\u00e3o ser\u00e1 protegida por discursos de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, mas por alian\u00e7as concretas com quem, independentemente de sua origem, partilha o mesmo v\u00ednculo de responsabilidade com aquele ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Dutton, por sua vez, reconhece em Rainwater n\u00e3o o outro que a narrativa progressista exigiria que ele expiasse, mas o \u00fanico interlocutor capaz de compreender o que ele sabe: que pertencer a um lugar \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o um direito, e que essa obriga\u00e7\u00e3o n\u00e3o pergunta pela cor da pele de quem a cumpre. \u00c9 uma vis\u00e3o inc\u00f4moda. \u00c9 tamb\u00e9m, argumentar\u00edamos, uma vis\u00e3o mais verdadeira do que qualquer alternativa que a imagina\u00e7\u00e3o dominante consegue formular.<\/p>\n<p>Em <em>The Madison<\/em> (2026), Sheridan radicaliza esse argumento por uma via inesperadamente elegante. Aqui n\u00e3o h\u00e1 inimigos externos, n\u00e3o h\u00e1 especuladores a repelir, n\u00e3o h\u00e1 pol\u00edtica a combater. O que h\u00e1 \u00e9 uma fam\u00edlia da elite nova-iorquina, os Clyburn, liderados pela matriarca Stacy (Michelle Pfeiffer), que chega ao vale do Rio Madison, em Montana, depois da morte acidental do patriarca Preston (Kurt Russell), \u00fanico elo entre a fam\u00edlia e aquela terra.<\/p>\n<p>Os Clyburn chegam sem saber usar um banheiro externo, sem saber o que \u00e9 uma horta, sem saber ficar parados diante de uma paisagem sem rolar o feed do smartphone. Sheridan n\u00e3o os apresenta assim para humilh\u00e1-los, mas para mostrar o que se perde quando gera\u00e7\u00f5es inteiras crescem sem nenhuma rela\u00e7\u00e3o de reciprocidade com um lugar concreto: perde-se n\u00e3o apenas uma habilidade pr\u00e1tica, mas uma forma inteira de compreender o que significa ter obriga\u00e7\u00f5es, o que significa reconhecer atos de gentileza, o que significa pertencer, o que significa ser respons\u00e1vel por algo que existia antes de voc\u00ea e continuar\u00e1 existindo depois.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A s\u00e9rie, descrita pela produ\u00e7\u00e3o como a obra mais \u00edntima de Sheridan, apresenta pela primeira vez no seu universo um advers\u00e1rio n\u00e3o externo mas interno: n\u00e3o o especulador ou o pol\u00edtico, mas a pr\u00f3pria incapacidade da fam\u00edlia de imaginar uma forma de vida diferente daquela que sempre conheceu. Nova York, que a s\u00e9rie retrata com uma antipatia \u00e0s vezes excessiva e \u00e0s vezes reveladora, n\u00e3o \u00e9 apenas um lugar diferente de Montana; \u00e9 uma forma diferente de imaginar o que uma vida humana \u00e9 e para que serve.<\/p>\n<p>Seria tentador, e aqui o argumento exige honestidade, concluir que o universo de Sheridan se organiza inteiramente em torno da terra como dom sagrado a preservar. <em>Landman<\/em> (2024) complica essa leitura de modo produtivo, e talvez seja o mais honesto de seus trabalhos precisamente porque n\u00e3o resolve o que n\u00e3o tem resolu\u00e7\u00e3o. Tommy Norris (Billy Bob Thornton), gerente de opera\u00e7\u00f5es numa empresa petrol\u00edfera do Texas, e que, no entanto, enuncia, numa conversa com a advogada corporativa Rebecca Savage (Kayla Wallace), algo que Berry compreenderia com toda a clareza. Quando Rebecca expressa sua dificuldade em defender juridicamente algo que considera moralmente errado, Tommy responde com aquela franqueza seca que Sheridan reserva para seus personagens mais honestos: se ela realmente acredita no que diz, pode vender a Mercedes, comprar uma bicicleta e montar uma tenda, mas isso n\u00e3o mudar\u00e1 o fato de que todos os outros continuam vivendo do petr\u00f3leo que ela ajuda a produzir. O terreno moral elevado, observa Tommy, \u00e9 um lugar frio e solit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ora, o que Tommy Norris enuncia n\u00e3o \u00e9 cinismo, ou n\u00e3o \u00e9 apenas cinismo. \u00c9 a consci\u00eancia, dolorosa e l\u00facida, de que habitar o mundo moderno \u00e9 habitar uma contradi\u00e7\u00e3o que nenhum discurso resolve: somos todos herdeiros de uma civiliza\u00e7\u00e3o constru\u00edda sobre a explora\u00e7\u00e3o de recursos que agora sabemos serem finitos e destrutivos, e a pergunta n\u00e3o \u00e9 se podemos escapar dessa heran\u00e7a, pois n\u00e3o podemos, pelo menos n\u00e3o individualmente, n\u00e3o de um dia para o outro, mas como ser respons\u00e1vel dentro dela.<\/p>\n<p>Berry formulou essa tens\u00e3o de outro \u00e2ngulo, mas com a mesma recusa do consolo f\u00e1cil: a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 opor o puro ao impuro, o rural ao urbano, o org\u00e2nico ao industrial, mas reconhecer que estamos todos, de modos diferentes, comprometidos com um sistema cujas consequ\u00eancias recusamos ver. A diferen\u00e7a entre Tommy e Rebecca n\u00e3o \u00e9 que um seja realista e a outra idealista; \u00e9 que Tommy assumiu a contradi\u00e7\u00e3o e Rebecca ainda tenta terceiriz\u00e1-la para o cliente.<\/p>\n<p>A conversa entre os dois \u00e9, nesse sentido, um pequeno tratado sobre a hipocrisia estrutural do moralismo contempor\u00e2neo: condena-se o sistema do qual se depende, deslocando a culpa e evitando a pr\u00f3pria cumplicidade. Como observa Jonathan Haidt em <em>The Righteous Mind <\/em>(2012), trata-se de um moralismo \u201cWEIRD\u201d, ancorado em princ\u00edpios abstratos e pouco atento \u00e0s condi\u00e7\u00f5es concretas que os sustentam. Tommy n\u00e3o \u00e9 mais virtuoso; \u00e9 apenas mais honesto sobre onde est\u00e1.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O que a imagina\u00e7\u00e3o progressista urbana n\u00e3o consegue imaginar \u00e9 precisamente o que Berry e Sheridan imaginam com toda a clareza: que h\u00e1 formas de vida organizadas em torno de v\u00ednculos concretos com lugares concretos, com vizinhos concretos, com mortos concretos<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, uma obje\u00e7\u00e3o s\u00e9ria a tudo o que foi dito at\u00e9 aqui, e ela merece ser enunciada com a clareza que merece, em vez de ser deixada impl\u00edcita como se fosse menor. William Galston argumentou em <em>Anger, Fear, Domination: Dark Passions and the Power of Political Speech<\/em>, publicado pela Yale University Press em setembro de 2025, que as democracias liberais est\u00e3o em crise precisamente porque aprenderam a ignorar o que ele chama de \u201cpaix\u00f5es sombrias\u201d, o medo, a raiva, a humilha\u00e7\u00e3o, o ressentimento, o impulso de domina\u00e7\u00e3o, como se fossem ru\u00eddos irracionais a serem gerenciados, e n\u00e3o for\u00e7as pol\u00edticas prim\u00e1rias com ra\u00edzes em experi\u00eancias reais de perda e deslocamento.<\/p>\n<p>O <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/liberalismo\/\">liberalismo<\/a>, observa Galston, orienta-se pela ideia do interesse pr\u00f3prio temperado pela raz\u00e3o, acrescida de emo\u00e7\u00f5es civicamente \u00fateis como o patriotismo e a empatia; e essa orienta\u00e7\u00e3o, que funcionou razoavelmente bem em d\u00e9cadas de crescimento e estabilidade, mostrou-se estruturalmente cega para o momento em que as condi\u00e7\u00f5es mudaram e as paix\u00f5es sombrias come\u00e7aram a oferecer a quem as soube mobilizar uma vantagem ret\u00f3rica e eleitoral esmagadora.<\/p>\n<p>Os demagogos vencem n\u00e3o porque mentem, mas porque dizem, em linguagem deturpada e com prop\u00f3sitos frequentemente cru\u00e9is, algo que as institui\u00e7\u00f5es liberais se recusaram a dizer: que h\u00e1 raz\u00f5es reais para o medo, que h\u00e1 humilha\u00e7\u00f5es reais a serem reconhecidas, que h\u00e1 perdas reais que nenhuma pol\u00edtica redistributiva consegue inteiramente compensar.<\/p>\n<p>Ora, a quest\u00e3o que Berry e Sheridan colocam, e que Galston, vindo de dentro do liberalismo, consegue formular mas n\u00e3o resolver, \u00e9 anterior e mais radical: de onde v\u00eam essas paix\u00f5es sombrias? Galston as trata como vulnerabilidades internas da democracia liberal, como for\u00e7as que os demagogos exploram e que os estadistas respons\u00e1veis deveriam aprender a domesticar com ret\u00f3rica adequada.<\/p>\n<p>\u00c9 uma resposta honesta e sofisticada, mais honesta do que a maior parte do pensamento liberal contempor\u00e2neo, que prefere diagnosticar as paix\u00f5es sombrias como patologias de ignor\u00e2ncia ou preconceito a perguntar pelo que as produziu. Mas Berry diria, e Sheridan mostraria, com a c\u00e2mera pousada no cowboy do Rio Brazos ou em Tommy Norris ou nos Clyburn desorientados diante da paisagem de Montana, que as paix\u00f5es sombrias n\u00e3o s\u00e3o primariamente um problema de ret\u00f3rica pol\u00edtica.<\/p>\n<p>S\u00e3o o produto de um desenraizamento real: da substitui\u00e7\u00e3o do lugar concreto pelo espa\u00e7o abstrato, da comunidade pelo mercado, da responsabilidade pela solidariedade gerenciada, do v\u00ednculo pelo contrato. O medo que Galston identifica como paix\u00e3o sombria a ser domesticada \u00e9, na gram\u00e1tica de Berry, o medo perfeitamente racional de quem viu sua forma de vida ser desfeita pela agroind\u00fastria, pela financeiriza\u00e7\u00e3o, pelos departamentos universit\u00e1rios de ci\u00eancias humanas, pela indiferen\u00e7a de uma classe pol\u00edtica que administra territ\u00f3rios que jamais precisou habitar.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A raiva que os demagogos exploram \u00e9, na dramaturgia de Sheridan, a raiva de John Dutton vendo o rancho ser convertido em parque, de Thomas Rainwater vendo a terra ancestral ser gerenciada por quem nunca dormiu nela, de Tommy Norris ouvindo Rebecca Savage proclamar princ\u00edpios que ela mesma n\u00e3o vive. N\u00e3o \u00e9 uma raiva inventada. \u00c9 uma raiva com endere\u00e7o, e o endere\u00e7o, frequentemente, \u00e9 a pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o progressista que a diagnostica como paix\u00e3o sombria sem reconhecer sua pr\u00f3pria cumplicidade na produ\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es que a tornaram poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Galston est\u00e1 certo que o liberalismo precisa aprender a falar essa l\u00edngua em vez de ignor\u00e1-la. Mas Berry e Sheridan sugerem algo mais inc\u00f4modo: que aprender a falar a l\u00edngua das paix\u00f5es sombrias sem mudar as condi\u00e7\u00f5es que as produzem \u00e9, no melhor dos casos, uma forma sofisticada de gest\u00e3o do descontentamento, e no pior, mais uma vers\u00e3o do Bem gerenciado que se apresenta como solu\u00e7\u00e3o e \u00e9 parte do problema.<\/p>\n<p>Aqui reside, pois, a contribui\u00e7\u00e3o mais profunda de ambos \u00e0 reimagina\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e das rela\u00e7\u00f5es humanas no nosso tempo. Contra a imagina\u00e7\u00e3o progressista de hoje, que pensa a pol\u00edtica como gest\u00e3o de identidades, a terra como quest\u00e3o ambiental, as rela\u00e7\u00f5es como redes de solidariedade a serem expandidas indefinidamente, Berry e Sheridan prop\u00f5em, cada um a seu modo, uma imagina\u00e7\u00e3o radicalmente diferente, alguns diriam, conservadora: a pol\u00edtica como responsabilidade concreta com pessoas e lugares espec\u00edficos; a terra como dom que imp\u00f5e obriga\u00e7\u00f5es e n\u00e3o apenas direitos; as rela\u00e7\u00f5es como v\u00ednculos que exigem perman\u00eancia, proximidade e o tipo de conhecimento m\u00fatuo que s\u00f3 o tempo e a co-habita\u00e7\u00e3o produzem.<\/p>\n<p>Berry chamou isso, numa formula\u00e7\u00e3o que Kirk reconheceu imediatamente como burkeana em seu esp\u00edrito mais profundo, de <em>membership<\/em>: pertencimento que compreende os vivos, os mortos e os ainda n\u00e3o nascidos, os homens e a terra que os sustenta. A palavra aparece com peso conceitual pleno em <em>The Wild Birds<\/em> (1986), quando o personagem Burley Coulter explica que o v\u00ednculo entre os habitantes de Port William compreende tamb\u00e9m os mortos, os animais e a pr\u00f3pria terra, estendendo a no\u00e7\u00e3o de pertencimento para al\u00e9m dos limites estritamente humanos, e tornando-o, assim, radicalmente incompat\u00edvel com qualquer forma de pol\u00edtica que pense os v\u00ednculos humanos como contratos volunt\u00e1rios entre indiv\u00edduos aut\u00f4nomos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora. \u00c9 uma descri\u00e7\u00e3o precisa de como se organiza a vida moral em Port William, no Kentucky, ou no vale Madison, em Montana, ou nas reservas crow \u00e0s margens do rancho Dutton: n\u00e3o em torno de princ\u00edpios abstratos de justi\u00e7a ou inclus\u00e3o, mas em torno de obriga\u00e7\u00f5es concretas com pessoas que t\u00eam nomes e hist\u00f3rias, e com uma terra que tem cheiro e mem\u00f3ria e consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>O progressismode hoje, com sua \u00eanfase em direitos universais, em identidades fluidas, em comunidades que se formam e dissolvem ao sabor das plataformas digitais, n\u00e3o tem categoria para esse tipo de v\u00ednculo. N\u00e3o porque seja do mal, mas porque sua imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o alcan\u00e7a o concreto com suficiente seriedade.<\/p>\n<p>Sheridan, ao contr\u00e1rio de Berry, n\u00e3o tem paci\u00eancia ou temperamento para a elabora\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. Ele \u00e9, antes de tudo, um dramaturgo, com forte intui\u00e7\u00e3o para o conflito, para a viol\u00eancia como revela\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter, para os dilemas que n\u00e3o se resolvem em discurso mas em ato. Sheridan constr\u00f3i mundos em que esse tecido est\u00e1 se desfazendo em tempo real. Os Duttons perdem. Os Clyburn chegam tarde. Os irm\u00e3os Howard de <em>Hell or High Water<\/em> roubam bancos para salvar o rancho materno. Tommy Norris extrai petr\u00f3leo sabendo o que extrai. Rainwater joga o jogo que detesta para proteger o que ama. Sheridan n\u00e3o oferece vit\u00f3ria. Oferece algo mais raro e acho mais valioso: a consci\u00eancia n\u00edtida do que se perde quando a imagina\u00e7\u00e3o concreta \u00e9 derrotada pela imagina\u00e7\u00e3o abstrata do capital, do Estado e do moralismo que n\u00e3o precisa viver com as consequ\u00eancias do que professa.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que os dois convencem, afetiva e imaginativamente, de um modo que a imagina\u00e7\u00e3o progressista, com toda a sua maquinaria discursiva, n\u00e3o consegue. N\u00e3o porque prometam para\u00edso rural. N\u00e3o porque neguem os problemas reais do interior americano, a pobreza, o isolamento, a viol\u00eancia, a opress\u00e3o hist\u00f3rica que a terra guarda em cada camada de solo.<\/p>\n<p>Berry \u00e9 o primeiro a reconhecer tudo isso; \u00e9 o primeiro, de fato, a exigir que sejamos respons\u00e1veis por isso. Mas ele e Sheridan convencem porque partem do ch\u00e3o em vez de partir das ideias; porque tratam a terra, a comunidade e as rela\u00e7\u00f5es como realidades que resistem \u00e0 abstra\u00e7\u00e3o em vez de mat\u00e9ria-prima para projetos; porque recusam, cada um \u00e0 sua maneira, a tenta\u00e7\u00e3o do consolo f\u00e1cil, a campanha, o document\u00e1rio, o festival, a hashtag, e ficam com a pergunta dura: o que significa, concretamente, ser respons\u00e1vel por um lugar e por uma comunidade, e o que se perde quando essa responsabilidade se dissolve?<\/p>\n<p>Numa \u00e9poca em que a imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dominante oscila entre o gerencialismo tecnocr\u00e1tico e o moralismo identit\u00e1rio, duas formas diferentes da mesma incapacidade de pensar o concreto com seriedade, essa pergunta \u00e9, ela pr\u00f3pria, um ato pol\u00edtico. N\u00e3o no sentido de que conduza a uma plataforma ou a um partido, mas no sentido mais profundo: o de reimaginar o que a pol\u00edtica \u00e9 para, quem ela serve, e a partir de onde ela deveria pensar.<\/p>\n<p><em><strong>Natan Fantin <\/strong>\u00e9 escritor, tradutor e professor do ensino b\u00e1sico, graduado e metre em Filosofia pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS).<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um momento em Hell or High Water (2016), o filme com roteiro de Taylor Sheridan que precedeu e, em&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":351715,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-351714","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/351714","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=351714"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/351714\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/351715"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=351714"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=351714"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=351714"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}