{"id":349577,"date":"2026-04-10T10:42:29","date_gmt":"2026-04-10T14:42:29","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=349577"},"modified":"2026-04-10T10:42:29","modified_gmt":"2026-04-10T14:42:29","slug":"a-compra-da-cnn-pela-paramount-e-o-fim-do-jornalismo-tal-como-o-conhecemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=349577","title":{"rendered":"A compra da CNN pela Paramount (e o fim do jornalismo tal como o conhecemos)"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A compra da Warner Bros. Discovery pela Paramount, que est\u00e1 em vias de finaliza\u00e7\u00e3o, significar\u00e1 muito mais do que parece. N\u00e3o ser\u00e1 apenas uma mudan\u00e7a de propriedade sobre o destino de est\u00fadios hist\u00f3ricos de cinema, seus cat\u00e1logos valiosos e canais tradicionais de not\u00edcias. Est\u00e1 em jogo tamb\u00e9m o futuro da autonomia da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e a pr\u00f3pria ess\u00eancia do jornalismo.<\/p>\n<p>O foco deste artigo \u00e9 entender como a fus\u00e3o de poder tecnol\u00f3gico, financeiro e editorial amea\u00e7a a autonomia jornal\u00edstica em qualquer democracia.<\/p>\n<h2>I &#8211; Da esquerda para a direita, por enquanto<\/h2>\n<p>Em agosto de 2025, foi conclu\u00edda a fus\u00e3o entre Skydance Media e Paramount Global, com David Ellison assumindo o comando da nova empresa, chamada Skydance Paramount. David \u00e9 filho de Larry Ellison, fundador da Oracle, uma das figuras mais poderosas do capitalismo tecnol\u00f3gico americano, pr\u00f3ximo de Donald Trump e pe\u00e7a central na sustenta\u00e7\u00e3o do novo grupo de m\u00eddia, pois \u00e9 dele que vem o dinheiro.<\/p>\n<p>Com a fus\u00e3o, os Ellison passaram a controlar um dos principais canais de TV dos EUA, a CBS. A emissora foi rapidamente reorientada de maneira vis\u00edvel, com o desmonte de estruturas ligadas \u00e0 diversidade, equidade e inclus\u00e3o, a substitui\u00e7\u00e3o de quadros e a nomea\u00e7\u00e3o de figuras associadas a uma vis\u00e3o mais conservadora do jornalismo e da cultura. O resultado est\u00e1 sendo uma rede menos identificada com a linguagem progressista que marcou boa parte da imprensa americana nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Se a aquisi\u00e7\u00e3o da Warner pela Paramount vingar, Ellison passar\u00e1 a controlar tamb\u00e9m a CNN, o famoso canal de not\u00edcias da TV a cabo de vi\u00e9s igualmente progressista. A rede, embora n\u00e3o lidere a audi\u00eancia como a Fox News, possui enorme peso simb\u00f3lico e proje\u00e7\u00e3o internacional. Por isso, se a CNN sofrer uma inflex\u00e3o semelhante \u00e0 da CBS, o que \u00e9 esperado, a mudan\u00e7a tende a ser ainda mais impactante mundo afora, inclusive no Brasil, onde o canal tamb\u00e9m atua.<\/p>\n<p>Progressistas podem lamentar, conservadores podem comemorar, mas o problema ou solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 no vi\u00e9s pol\u00edtico-ideol\u00f3gico de um \u00f3rg\u00e3o de m\u00eddia, seja qual for. O problema \u00e9 quando se submete o jornalismo, que pressup\u00f5e apura\u00e7\u00e3o factual e compromisso com a verdade, ao controle de uma determinada vis\u00e3o de mundo, de uma narrativa. Neste caso, deixa de ser jornalismo para se tornar, na melhor das hip\u00f3teses, propaganda.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 novidade. O que sim \u00e9 novo \u2014 e progressistas e conservadores n\u00e3o parecem perceber \u2014 \u00e9 que os Ellison n\u00e3o est\u00e3o apenas mudando o vi\u00e9s da cobertura. Est\u00e3o automatizando a pr\u00f3pria l\u00f3gica de sele\u00e7\u00e3o da realidade.<\/p>\n<h2>II &#8211; O Imp\u00e9rio do Algoritmo<\/h2>\n<p>Se at\u00e9 aqui os grandes grupos de m\u00eddia detinham imp\u00e9rios de pr\u00e9dios e antenas, os Ellison operam um imp\u00e9rio de nuvem e c\u00f3digos, em cujo ecossistema a Oracle impera. A empresa fornece uma infraestrutura diferente, que organiza dados, acelera rotinas, prev\u00ea comportamentos e incorpora intelig\u00eancia artificial \u00e0s etapas mais sens\u00edveis da produ\u00e7\u00e3o. Isso muda muito mais do que parece.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas de substitui\u00e7\u00e3o do trabalho humano pela intelig\u00eancia artificial. A l\u00f3gica aqui \u00e9 mais sutil e profunda: redesenha o ambiente em que decis\u00f5es editoriais, escolhas criativas e estrat\u00e9gias de distribui\u00e7\u00e3o passam a ser tomadas.<\/p>\n<p>O ecossistema Ellison sugere a consolida\u00e7\u00e3o de um modelo em que jornalismo e entretenimento deixam de ser campos separados e passam a operar como partes de uma mesma engrenagem t\u00e9cnica, financeira e algor\u00edtmica.<\/p>\n<p>A m\u00eddia j\u00e1 \u00e9 hoje calibrada, analisada e distribu\u00edda segundo par\u00e2metros de efici\u00eancia que a intelig\u00eancia artificial tende a acelerar e sofisticar ainda mais. No jornalismo, significa crescente capacidade de definir pautas, classificar temas e antecipar rea\u00e7\u00f5es do p\u00fablico, n\u00e3o com base na import\u00e2ncia dos temas, mas em tend\u00eancias de audi\u00eancia e sinais de engajamento.<\/p>\n<p>Um exemplo concreto: se o algoritmo detecta que not\u00edcias sobre uma bobagem que viralizou nas redes sociais mant\u00eam o p\u00fablico atento, enquanto an\u00e1lises econ\u00f4micas provocam abandono, as pautas de economia tendem a diminuir, at\u00e9 desaparecer, independentemente de sua import\u00e2ncia para a compreens\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p>O resultado pode ser um jornalismo mais eficiente na captura da aten\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m mais homog\u00eaneo, mais dependente de m\u00e9tricas e mais inclinado a confirmar expectativas do que a confront\u00e1-las. No setor de entretenimento, esse movimento j\u00e1 se encontra mais avan\u00e7ado. A intelig\u00eancia artificial vem sendo usada para apoiar o desenvolvimento de roteiros, a an\u00e1lise de personagens, a segmenta\u00e7\u00e3o de p\u00fablicos, a previs\u00e3o de consumo e a otimiza\u00e7\u00e3o da p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo isso amplia a velocidade, o alcance e a capacidade de ajuste, mas tamb\u00e9m altera a pr\u00f3pria natureza da decis\u00e3o criativa. Antes mesmo de uma obra existir, passa a pesar a pergunta sobre sua probabilidade de funcionar segundo os modelos dispon\u00edveis. O espa\u00e7o da inven\u00e7\u00e3o continua existindo, mas em ambiente cada vez mais estreito, delimitado por sistemas capazes de calcular riscos, prever comportamentos e orientar escolhas com crescente sofistica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse ponto, a quest\u00e3o pol\u00edtica se torna mais complexa. N\u00e3o se trata apenas de deslocar o jornalismo para a direita ou para a esquerda. Essa disputa ideol\u00f3gica \u00e9 apenas a superf\u00edcie de um problema mais grave. O que est\u00e1 em curso \u00e9 algo mais s\u00e9rio: a substitui\u00e7\u00e3o progressiva da busca pela verdade factual por uma l\u00f3gica de ader\u00eancia ao p\u00fablico, em que o crit\u00e9rio decisivo deixa de ser a robustez da apura\u00e7\u00e3o e passa a ser a capacidade de manter audi\u00eancia, gerar perman\u00eancia e reduzir atrito.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia de tabloidiza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia n\u00e3o \u00e9 nova. Mas com IA e Oracle, a mudan\u00e7a vai al\u00e9m da acelera\u00e7\u00e3o de um processo antigo. Estamos mudando sua natureza. Antes, havia pelo menos a possibilidade de confronta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, de jornalistas questionarem suas pr\u00f3prias m\u00e9tricas. Agora, as m\u00e9tricas questionam a si mesmas, automaticamente, em tempo real. Ningu\u00e9m deliberadamente escolher\u00e1 a mediocridade, ela emergir\u00e1 naturalmente do sistema.<\/p>\n<p>Nesse ambiente, o jornalismo corre o risco de se aproximar cada vez mais da l\u00f3gica do entretenimento, n\u00e3o porque tenha abandonado a seriedade, mas porque incorporou os mesmos incentivos que moldam a ind\u00fastria do espet\u00e1culo. A Oracle, nesse cen\u00e1rio, deixa de ser uma empresa de tecnologia e passa a ser uma empresa de infraestrutura que re\u00fane tudo <strong>\u2014<\/strong> m\u00eddia, dados, decis\u00f5es, audi\u00eancia \u2014 e permite esse novo arranjo de poder.<\/p>\n<p>Talvez essa seja a consequ\u00eancia mais importante da compra da Warner pela Paramount: a consolida\u00e7\u00e3o de um modelo em que o poder n\u00e3o se mede apenas pela propriedade dos est\u00fadios ou pela audi\u00eancia dos canais, mas pela capacidade de integrar m\u00eddia, tecnologia e intelig\u00eancia artificial num mesmo sistema de organiza\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que passar\u00e1 a controlar os mecanismos de forma\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio em um ambiente dominado por poucos conglomerados, algumas dinastias familiares e uma tecnologia capaz de influenciar, prever e enquadrar quase tudo. Justo por isso que a autonomia jornal\u00edstica tende a se tornar uma raridade. Nesse caso, \u00e9 de se questionar se ainda poder\u00e1 se chamar de jornalismo.<\/p>\n<h2>III &#8211; O Futuro<\/h2>\n<p>O que mais impressiona \u00e9 a perda da consci\u00eancia dessa captura do jornalismo. O algoritmo define a pauta, mas os editores acreditam estar escolhendo livremente.<\/p>\n<p>Antes, a possibilidade de resist\u00eancia era uma garantia da autonomia jornal\u00edstica. Recusar uma ordem vinda de cima ou de fora, confrontar o patrocinador, questionar a m\u00e9trica. Um editor podia olhar para os n\u00fameros e dizer: &#8220;n\u00e3o, isso \u00e9 importante mesmo que ningu\u00e9m leia&#8221;. Um rep\u00f3rter podia apresentar uma hist\u00f3ria que n\u00e3o funcionava no algoritmo, mas que precisava ser contada e os editores a bancavam por causa disso.<\/p>\n<p>Agora, a resist\u00eancia exigiria n\u00e3o apenas coragem, mas apar\u00eancia de insanidade. Porque o sistema n\u00e3o funciona por coer\u00e7\u00e3o expl\u00edcita. Funciona por conveni\u00eancia matem\u00e1tica. As op\u00e7\u00f5es de escolha ser\u00e3o pr\u00e9-delimitadas de tal forma que optar por algo imprevisto soar\u00e1 como loucura ou sabotagem.<\/p>\n<p>Pior do que ser dirigido \u00e9 acreditar que se est\u00e1 caminhando com as pr\u00f3prias pernas. E \u00e9 exatamente isso que o futuro parece nos reservar: um mundo em que ningu\u00e9m precisar\u00e1 mais escolher a narrativa, porque a narrativa j\u00e1 ter\u00e1 escolhido por todos &#8211; e ningu\u00e9m perceber\u00e1. A autonomia jornal\u00edstica n\u00e3o morre por censura expl\u00edcita. Morre quando a liberdade se torna uma ilus\u00e3o.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A compra da Warner Bros. 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