{"id":347710,"date":"2026-04-09T16:28:46","date_gmt":"2026-04-09T20:28:46","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=347710"},"modified":"2026-04-09T16:28:46","modified_gmt":"2026-04-09T20:28:46","slug":"o-brasil-e-a-internacional-do-crime","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=347710","title":{"rendered":"O Brasil e a Internacional do Crime"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p><em>\u201cEm 1990 j\u00e1 se via vir abaixo o campo socialista (&#8230;) \u00c9 nesse preciso momento que o PT lan\u00e7a a formid\u00e1vel proposta de criar o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/foro-de-sao-paulo\/\">Foro de S\u00e3o Paulo<\/a>, trincheira onde n\u00f3s pud\u00e9ssemos encontrar os revolucion\u00e1rios de diferentes tend\u00eancias, de diferentes manifesta\u00e7\u00f5es de luta e de partidos no governo, concretamente o caso cubano. Essa iniciativa, que encontrou r\u00e1pida acolhida, foi uma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o e uma esperan\u00e7a de que tudo n\u00e3o estava perdido.\u201d<\/em> (Farc, Sauda\u00e7\u00e3o ao Foro de S\u00e3o Paulo, 25 de janeiro de 2007)<\/p>\n<p><em>Brasil, pa\u00eds do futuro<\/em>. \u00c9 bem prov\u00e1vel que, hoje, essa alcunha n\u00e3o brotasse da pena do brilhante intelectual judeu exilado nos tr\u00f3picos entre os anos de 1940 e 1942. Tristes tr\u00f3picos \u2013 como diria um outro intelectual judeu \u2013 onde, no fim das contas, o primeiro veio a se suicidar.<\/p>\n<p>Tivesse sido pensada nos dias atuais, a alcunha n\u00e3o teria mesmo um intelectual por autor, mas possivelmente um integrante do <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/pcc\/\">Primeiro Comando da Capital<\/a> ou do <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/hezbollah\/\">Hezbollah<\/a>. \u00c9 que hoje, diferentemente dos anos 1940, o Brasil parece ter virado novamente o pa\u00eds do futuro&#8230; Mas apenas para o crime organizado transnacional.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O Brasil sob o luloalexandrismo deixa de ser apenas um pa\u00eds com corrup\u00e7\u00e3o end\u00eamica para se tornar um n\u00f3 ativo nas engrenagens do crime transnacional<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Eis o que se depreende da reportagem recentemente publicada na coluna de Andreza Matais, no portal Metr\u00f3poles. Em meio a certa fadiga moral \u2013 um estado de quase anestesia coletiva ap\u00f3s uma rotina de esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o renitentemente impunes, por envolverem virtualmente toda a elite governante do pa\u00eds \u2013, a mat\u00e9ria, intitulada \u201cRede de lavagem usada pelo Careca do <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/inss\/\">INSS <\/a>movimentou R$ 39 bilh\u00f5es\u201d, repercutiu menos do que deveria. Dentre outras informa\u00e7\u00f5es importantes a\u00ed reveladas, uma chama aten\u00e7\u00e3o em especial:<\/p>\n<p><em>\u201cAo rastrear as transa\u00e7\u00f5es do empres\u00e1rio Ant\u00f4nio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, a CPMI do INSS no Congresso Nacional encontrou uma das maiores redes de lavagem de dinheiro j\u00e1 descobertas no Brasil. Formada por pelo menos 41 empresas de fachada, <strong>a rede movimentou pelo menos R$ 39 bilh\u00f5es e era usada, inclusive, por criminosos ligados \u00e0 fac\u00e7\u00e3o Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao grupo terrorista liban\u00eas Hezbollah<\/strong>.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Que <em>plot twist<\/em> degradante! De promessa civilizat\u00f3ria para pensadores europeus desiludidos com os horrores de sua terra natal, o Brasil virou um entreposto funcional de circuitos globais de poder obscuro, onde crime organizado, aparato estatal e ret\u00f3rica ideol\u00f3gica convergem sem maiores constrangimentos. A reportagem do Metr\u00f3poles mostra uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural profunda, na qual o Brasil sob o luloalexandrismo deixa de ser apenas um pa\u00eds com corrup\u00e7\u00e3o end\u00eamica para se tornar algo qualitativamente distinto: um n\u00f3 ativo nas engrenagens do crime transnacional.<\/p>\n<p>Mas, para compreender a verdadeira natureza dessa muta\u00e7\u00e3o, conv\u00e9m recuar algumas d\u00e9cadas. Quando, no in\u00edcio dos anos 1990, a conceituada rep\u00f3rter americana Claire Sterling (correspondente internacional do\u00a0<em>Reader\u2019s Digest<\/em>, da\u00a0<em>New York Times Magazine<\/em>, do\u00a0<em>Washington Post <\/em>e do\u00a0<em>Financial Times<\/em>, entre outros) abandonou seu projeto inicial para escrever <em>Thieve\u2019s World: The Threat of the New Global Network of Organized Crime<\/em> (\u201cO Mundo dos Bandidos: A Amea\u00e7a da Nova Rede Global do Crime Organizado\u201d), ela havia percebido algo que escapava \u00e0 maioria dos analistas: o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica n\u00e3o significara o fim de uma ordem criminosa, mas sua metamorfose em escala global. As velhas rivalidades entre sindicatos do crime deram lugar a uma coopera\u00e7\u00e3o in\u00e9dita, uma verdadeira <em>pax mafiosa<\/em>, sob a qual organiza\u00e7\u00f5es antes concorrentes passaram a operar como um cons\u00f3rcio planet\u00e1rio.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>O que Sterling descreveu como uma novidade hist\u00f3rica tornou-se, tr\u00eas d\u00e9cadas depois, o pano de fundo do mundo em que vivemos. Mas h\u00e1 um detalhe crucial que frequentemente passa despercebido: essa globaliza\u00e7\u00e3o do crime n\u00e3o se deu \u00e0 margem da pol\u00edtica, mas em \u00edntima conex\u00e3o com ela. Desde as opera\u00e7\u00f5es de narc\u00f3ticos <a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Red-Cocaine-Drugging-America-West\/dp\/1899798048\">concebidas no interior do bloco sovi\u00e9tico<\/a> \u2013 como instrumento deliberado de desestabiliza\u00e7\u00e3o do Ocidente \u2013 at\u00e9 as ditaduras narcossocialistas latino-americanas mais recentes, h\u00e1 um fio de continuidade que liga estrat\u00e9gia geopol\u00edtica, ideologia e criminalidade.<\/p>\n<p>Na <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/america-latina\/\">Am\u00e9rica Latina<\/a>, o Foro de S\u00e3o Paulo era idealizado por Fidel Castro, <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/lula\/\">Luiz In\u00e1cio Lula da Silva<\/a> e Hugo Ch\u00e1vez no mesmo per\u00edodo de que trata Sterling. Desde ent\u00e3o, um modelo de governan\u00e7a varreu o continente: a do criminoso que atravessa o espelho da ilegalidade e emerge, do outro lado, como estadista \u2013 ungido n\u00e3o apenas pelo voto, mas por uma aura moral cuidadosamente constru\u00edda pela <em>intelligentsia<\/em> de esquerda. O que antes era delito passa a ser descrito como \u201cluta\u201d; o que era viol\u00eancia, como \u201cresist\u00eancia\u201d; e o que era narcotr\u00e1fico, como \u201cinstrumento geopol\u00edtico\u201d. \u00a0Em suma, com o Foro de S\u00e3o Paulo, a Am\u00e9rica Latina tornou-se o continente em que os criminosos se reinventam como estadistas e retornam \u00e0 cena p\u00fablica n\u00e3o como r\u00e9us, mas como \u00e1rbitros morais.<\/p>\n<p>Durante anos, esse papel de <em>hub<\/em> regional do crime transnacional foi desempenhado, com efici\u00eancia brutal, pelo chavismo venezuelano (ver, sobre isso, o livro <em>Hugo Ch\u00e1vez, O Espectro<\/em>, do jornalista Leonardo Coutinho). A simbiose entre Estado, narcotr\u00e1fico e grupos insurgentes \u2013 notadamente as Farc \u2013 transformou a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/venezuela\/\">Venezuela <\/a>num laborat\u00f3rio acabado dessa fus\u00e3o entre poder pol\u00edtico e economia criminosa. Sob a b\u00ean\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica de Havana, a coca\u00edna deixou de ser um \u201cproblema\u201d para se tornar um instrumento de luta geopol\u00edtica, um meio de financiar regimes e corroer advers\u00e1rios.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A Am\u00e9rica Latina tornou-se o continente em que os criminosos se reinventam como estadistas e retornam \u00e0 cena p\u00fablica n\u00e3o como r\u00e9us, mas como \u00e1rbitros morais<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O que se observa agora \u00e9 um deslocamento parcial desse eixo. Hoje, \u00e9 o Brasil que vem assumindo o papel que antes era da Venezuela chavista. Em primeiro lugar, porque o chavismo foi praticamente aleijado por Donald Trump, mas tamb\u00e9m porque o Brasil passou a oferecer algo que Caracas jamais conseguiu garantir plenamente: escala, capilaridade institucional e, sobretudo, legitimidade formal.<\/p>\n<p>A engrenagem revelada no caso do INSS \u00e9 exemplar nesse sentido. N\u00e3o se trata apenas de corrup\u00e7\u00e3o no sentido cl\u00e1ssico \u2013 desvio de recursos p\u00fablicos por agentes privados com a cumplicidade de funcion\u00e1rios estatais. Trata-se de algo mais sofisticado: a utiliza\u00e7\u00e3o de estruturas aparentemente leg\u00edtimas como plataformas de circula\u00e7\u00e3o de capital il\u00edcito em volumes que s\u00f3 fazem sentido quando inseridos em redes mais amplas, potencialmente transnacionais.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que o luloalexandrismo entra como fator decisivo. Sob essa configura\u00e7\u00e3o de poder \u2013 na qual o Executivo e o Judici\u00e1rio aparelhado operam em sincronia t\u00e1cita, protegendo aliados e neutralizando advers\u00e1rios \u2013, cria-se um ambiente institucional peculiar: est\u00e1vel o bastante para atrair fluxos financeiros globais, mas suficientemente opaco para dificultar qualquer escrut\u00ednio efetivo. A combina\u00e7\u00e3o \u00e9 perfeita para quem precisa lavar dinheiro em escala industrial.<\/p>\n<p>N\u00e3o, isso n\u00e3o significa dizer que o Brasil se tornou uma \u201cnarcoditadura\u201d nos moldes cl\u00e1ssicos \u2013 castrista e chavista \u2013 e j\u00e1 ultrapassados. O que temos \u00e9 algo talvez mais adaptado ao s\u00e9culo 21: um regime h\u00edbrido, no qual a apar\u00eancia de normalidade democr\u00e1tica convive com pr\u00e1ticas t\u00edpicas de sistemas de exce\u00e7\u00e3o, criando uma zona cinzenta ideal para a opera\u00e7\u00e3o de redes il\u00edcitas.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Nesse contexto, decis\u00f5es judiciais que ampliam o sigilo, flexibilizam garantias processuais ou concentram poder discricion\u00e1rio deixam de ser meros desvios institucionais e passam a ter implica\u00e7\u00f5es sist\u00eamicas. Junto a uma pol\u00edtica externa que faz lobby em defesa das maiores organiza\u00e7\u00f5es narcoterroristas locais \u2013 e que j\u00e1 operam francamente no exterior \u2013, essas decis\u00f5es pol\u00edticas disfar\u00e7adas de direito contribuem, direta ou indiretamente, para a constru\u00e7\u00e3o de um ambiente em que a previsibilidade jur\u00eddica \u2013 essencial para qualquer economia l\u00edcita \u2013 \u00e9 substitu\u00edda por uma previsibilidade seletiva, funcional apenas para quem est\u00e1 alinhado com o centro de poder. \u00c9 a imagem mesma do \u201cEstado dual\u201d descrito por Ernst Fraenkel em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Alemanha nazista.<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o de Claire Sterling permanece atual: quando as fronteiras \u2013 geopol\u00edticas ou institucionais \u2013 se tornam porosas, o crime organizado n\u00e3o apenas se adapta, mas prospera de maneira exponencial. No caso brasileiro, essa porosidade n\u00e3o decorre apenas de fatores externos, mas de escolhas internas, de um arranjo de poder que, ao priorizar a autopreserva\u00e7\u00e3o acima de qualquer coisa, acaba por inviabilizar os mecanismos de controle que poderiam conter tais din\u00e2micas.<\/p>\n<p>Resta saber se haver\u00e1, em algum momento, disposi\u00e7\u00e3o para encarar essa realidade sem anestesia \u2013 ou se continuaremos a tratar cifras bilion\u00e1rias como meras curiosidades estat\u00edsticas, enquanto o pa\u00eds desliza, quase sem perceber, para uma posi\u00e7\u00e3o cada vez mais funcional \u00e0s engrenagens do poder criminoso global.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEm 1990 j\u00e1 se via vir abaixo o campo socialista (&#8230;) \u00c9 nesse preciso momento que o PT lan\u00e7a a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":347711,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-347710","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/347710","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=347710"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/347710\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/347711"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=347710"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=347710"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=347710"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}