{"id":346019,"date":"2026-04-08T16:29:48","date_gmt":"2026-04-08T20:29:48","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=346019"},"modified":"2026-04-08T16:29:48","modified_gmt":"2026-04-08T20:29:48","slug":"o-que-a-republica-brasileira-precisa-aprender-com-maquiavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=346019","title":{"rendered":"O que a rep\u00fablica brasileira precisa aprender com Maquiavel"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/04\/08172842\/maquiavel-santi-di-tito.jpg.webp\" \/><span>Detalhe de retrato de Nicolau Maquiavel pintado por Santi di Tito. (Foto: Wikimedia Commons\/Dom\u00ednio p\u00fablico)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>H\u00e1 um problema que toda teoria da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/democracia\/\">democracia <\/a>tenta resolver antes de admitir que existe: o problema do tempo. Uma rep\u00fablica livre pode durar? A liberdade pol\u00edtica tem condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia ou carrega, desde o in\u00edcio, o germe da pr\u00f3pria dissolu\u00e7\u00e3o? O grande historiador pol\u00edtico J.G.A. Pocock fez dessa pergunta o centro de sua vida intelectual. O seu <em>The Machiavellian Moment<\/em>, publicado em 1975, \u00e9 um dos livros mais ambiciosos da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/filosofia-politica\/\">filosofia pol\u00edtica<\/a> do s\u00e9culo 20 e ainda hoje ignorado pela maioria dos que opinam sobre democracia, principalmente no Brasil.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O argumento central de Pocock come\u00e7a com Arist\u00f3teles, passa por Maquiavel e desemboca nos fundadores da rep\u00fablica americana. O fio condutor \u00e9 filos\u00f3fico, e vale a pena segui-lo com aten\u00e7\u00e3o. Toda rep\u00fablica \u2013 toda ordem pol\u00edtica fundada na participa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os e na lei comum \u2013 existe no tempo. Ela nasceu, tem uma estrutura presente e vai, inevitavelmente, declinar. Os gregos chamavam esse decl\u00ednio de <em>phthora<\/em>, a \u201ccorrup\u00e7\u00e3o\u201d, a deteriora\u00e7\u00e3o das formas pol\u00edticas. O problema \u00e9 ontol\u00f3gico, n\u00e3o exatamente de car\u00e1ter: toda forma pol\u00edtica carrega, na sua estrutura, a condi\u00e7\u00e3o do que perece.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A <em>virt\u00f9<\/em> que sustenta a rep\u00fablica \u00e9 uma intelig\u00eancia pr\u00e1tica, e pr\u00e1ticas se perdem quando n\u00e3o se praticam. O mercado, sozinho, n\u00e3o forma cidad\u00e3os<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Maquiavel foi o primeiro pensador moderno a encarar essa condi\u00e7\u00e3o sem ilus\u00f5es teol\u00f3gicas e sem a consola\u00e7\u00e3o de uma provid\u00eancia que garantisse o final feliz. A rep\u00fablica florentina existia sob o que Maquiavel chamou de <em>fortuna<\/em> \u2013 n\u00e3o a Roda providencial de Bo\u00e9cio, que a escol\u00e1stica medieval havia integrado ao plano divino, mas a conting\u00eancia pura, sem teleologia e sem reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">E o que a rep\u00fablica podia opor \u00e0 fortuna? <em>Virt\u00f9<\/em> \u2013 a energia pol\u00edtica dos cidad\u00e3os, a capacidade de deliberar e de resistir \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o interna. A excel\u00eancia c\u00edvica, a disposi\u00e7\u00e3o de tomar parte ativa na vida comum e de defender a ordem que torna essa vida poss\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Pocock chamou de \u201c<em>momento maquiaveliano<\/em>\u201d o instante em que uma rep\u00fablica confronta sua pr\u00f3pria finitude e decide agir apesar dela. \u00c9 um momento de lucidez tr\u00e1gica: sabe-se que a ordem n\u00e3o dura para sempre, e ainda assim se escolhe sustent\u00e1-la. Essa escolha demanda cidad\u00e3os, n\u00e3o consumidores. Demanda participa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o delega\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua. Demanda a consci\u00eancia de que a liberdade p\u00fablica \u00e9 uma conquista fr\u00e1gil, n\u00e3o um dado natural que persiste sozinho enquanto os indiv\u00edduos cuidam de seus interesses privados.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Aqui o argumento de Pocock converge com uma cr\u00edtica que se tornaria central na filosofia pol\u00edtica do fim do s\u00e9culo 20: a cr\u00edtica ao <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/liberalismo\/\">liberalismo <\/a>atomista. O liberalismo de John Locke \u2013 e, depois, de tantos economistas que pretenderam transformar Locke em ci\u00eancia \u2013 imagina o indiv\u00edduo como unidade autossuficiente que precede a pol\u00edtica. H\u00e1 um estado de natureza, h\u00e1 direitos naturais. A sociedade \u00e9 um contrato entre propriet\u00e1rios que abrem m\u00e3o de parte de sua liberdade natural para garantir a seguran\u00e7a do restante. A rep\u00fablica, nesse modelo, \u00e9 um mecanismo de prote\u00e7\u00e3o dos direitos pr\u00e9-pol\u00edticos. Os cidad\u00e3os podem ignor\u00e1-la, desde que ela funcione como seguro de vida.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Pocock, lendo Maquiavel e os republicanos florentinos, inverteu a imagem. A liberdade pol\u00edtica n\u00e3o antecede a rep\u00fablica: ela \u00e9 produzida pela rep\u00fablica. O cidad\u00e3o que se retira da vida p\u00fablica para administrar seu patrim\u00f4nio privado n\u00e3o exerce sua liberdade; ao contr\u00e1rio, a est\u00e1 abandonando ao primeiro tirano que se apresentar com promessas. A <em>virt\u00f9<\/em> que sustenta a rep\u00fablica \u00e9 uma intelig\u00eancia pr\u00e1tica, e pr\u00e1ticas se perdem quando n\u00e3o se praticam. O mercado, sozinho, n\u00e3o forma cidad\u00e3os. A propriedade, sozinha, n\u00e3o gera compromisso com a coisa p\u00fablica.<\/p>\n<blockquote class=\"postQuote_post-quote-container__KXTpH\">\n<p>O Brasil produziu institui\u00e7\u00f5es republicanas sem produzir cultura republicana. Copiou a forma sem internalizar a subst\u00e2ncia. O resultado \u00e9 uma democracia que oscila entre o clientelismo e o populismo<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A tese tem implica\u00e7\u00f5es que o debate pol\u00edtico atual raramente enfrenta com honestidade. O Brasil produziu institui\u00e7\u00f5es republicanas sem produzir cultura republicana. Copiou a forma sem internalizar a subst\u00e2ncia. O resultado \u00e9 uma democracia que oscila entre o clientelismo e o populismo, entre o voto como troca de favor e o l\u00edder como redentor carism\u00e1tico \u2013 exatamente as duas formas de corrup\u00e7\u00e3o que Maquiavel identificou como mortais para uma rep\u00fablica.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O clientelismo dissolve a <em>virt\u00f9<\/em> c\u00edvica na depend\u00eancia pessoal; o populismo a dissolve na identifica\u00e7\u00e3o emocional com um indiv\u00edduo. Em ambos os casos, o cidad\u00e3o desaparece e o cliente ou o f\u00e3 toma seu lugar.<\/p>\n<p>Pocock escreveu <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/historia\/\">hist\u00f3ria <\/a>das ideias, n\u00e3o filosofia normativa. O que seu trabalho oferece \u00e9 um diagn\u00f3stico de estrutura: rep\u00fablicas morrem quando os cidad\u00e3os acreditam que a liberdade se conserva sem esfor\u00e7o, quando a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se reduz ao voto peri\u00f3dico e o cidad\u00e3o entrega o resto do tempo \u00e0 administra\u00e7\u00e3o de seus interesses privados. O momento maquiaveliano \u00e9 o instante em que essa ilus\u00e3o se dissipa. \u00c0s vezes, a dissipa\u00e7\u00e3o chega cedo o suficiente para que haja rea\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes, n\u00e3o. E parece que n\u00f3s estamos d\u00e9cadas postergando esse encontro com o pr\u00f3prio tempo.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Detalhe de retrato de Nicolau Maquiavel pintado por Santi di Tito. 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