{"id":342813,"date":"2026-04-07T17:10:33","date_gmt":"2026-04-07T21:10:33","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=342813"},"modified":"2026-04-07T17:10:33","modified_gmt":"2026-04-07T21:10:33","slug":"a-infantilizacao-dos-adultos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=342813","title":{"rendered":"A infantiliza\u00e7\u00e3o dos adultos"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/04\/07180918\/coluna-trigo-infantilizacao.jpg.webp\" \/><span>A infantiliza\u00e7\u00e3o dos adultos corre solta no Brasil, levando todos a depender do pai Estado para sua subsist\u00eancia e at\u00e9 para saber o que pensar e dizer. (Foto: Imagem criada utilizando ChatGPT\/Gazeta do Povo)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Muito se falou sobre a Lei Felca e a adultiza\u00e7\u00e3o precoce das crian\u00e7as. Mas outro fen\u00f4meno mereceria ainda mais aten\u00e7\u00e3o, pelo impacto profundo que tem na sociedade: o projeto de infantiliza\u00e7\u00e3o dos adultos, que parece estar sendo promovido de forma deliberada pelo Estado brasileiro.<\/p>\n<p>Trata-se de uma engenharia institucional sofisticada que transforma cidad\u00e3os maduros em eternos dependentes, como se fossem filhos que nunca saem de casa. O resultado \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o de adultos biologicamente crescidos, mas psicologicamente infantis: indiv\u00edduos que temem a liberdade tanto quanto a crian\u00e7a teme o escuro.<\/p>\n<p>Uma crian\u00e7a depende materialmente dos pais e \u00e9 por eles orientada, corrigida e disciplinada. Dela n\u00e3o se espera autonomia plena, mas obedi\u00eancia e submiss\u00e3o. Quando este modelo \u00e9 replicado em escala nacional, surge o adulto infantilizado: algu\u00e9m que prefere a seguran\u00e7a da tutela estatal \u00e0 incerteza de assumir responsabilidades. Convertido em \u201cfilho eterno\u201d, ele recebe mesada, obedece \u00e0s regras impostas \u201cpara o seu bem\u201d e aprende que qualquer problema deve ser resolvido pelo \u201cpai\u201d Estado, e n\u00e3o pelo seu esfor\u00e7o pessoal.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O adulto infantilizado \u00e9 algu\u00e9m que prefere a seguran\u00e7a da tutela estatal \u00e0 incerteza de assumir responsabilidades<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O custo social dessa din\u00e2mica \u00e9 alto. Aos poucos vai se consolidando uma cultura de acomoda\u00e7\u00e3o, na qual empreender \u00e9 visto como tolice, e o emprego formal, como armadilha. O risco \u00e9 substitu\u00eddo pela prote\u00e7\u00e3o e o m\u00e9rito, tratado com desconfian\u00e7a. A pobreza deixa de ser combatida com seriedade e passa a ser gerenciada, com o prop\u00f3sito de manter o eleitor cativo.<\/p>\n<p>Esse processo alimenta a cultura da vitimiza\u00e7\u00e3o. Constantemente lembrado de sua vulnerabilidade, o indiv\u00edduo passa a se ver mais como v\u00edtima das circunst\u00e2ncias do que como agente de transforma\u00e7\u00e3o. A responsabilidade pessoal d\u00e1 lugar \u00e0 reivindica\u00e7\u00e3o permanente por direitos. Em vez de \u201ceu conquisto\u201d, instala-se o \u201ceu mere\u00e7o\u201d. Todos os fracassos s\u00e3o atribu\u00eddos ao \u201csistema\u201d, aos \u201cricos\u201d ou ao \u201cmercado\u201d.<\/p>\n<p>O processo de infantiliza\u00e7\u00e3o avan\u00e7a por dois caminhos principais: a depend\u00eancia econ\u00f4mica e a tutelagem regulat\u00f3ria.<\/p>\n<p>A depend\u00eancia econ\u00f4mica \u00e9 o primeiro pilar. \u00c9 claro que pol\u00edticas sociais s\u00e3o necess\u00e1rias em um pa\u00eds com tanta desigualdade: o problema est\u00e1 na forma como essas pol\u00edticas s\u00e3o desenhadas, ampliadas e instrumentalizadas politicamente. Dados recentes mostram que quase metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira vive em lares que recebem algum tipo de transfer\u00eancia direta do governo.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>O que era para ser assistencialismo emergencial se tornou uma rede permanente de manuten\u00e7\u00e3o de lealdade pol\u00edtica. O benefici\u00e1rio aprende, j\u00e1 na escola \u2013 que muitos estudantes j\u00e1 s\u00e3o pagos para frequentar \u2013, que o Estado \u00e9 o provedor supremo. O esfor\u00e7o, a resili\u00eancia e a disposi\u00e7\u00e3o para prosperar e enfrentar desafios perdem for\u00e7a diante da garantia de um repasse mensal.<\/p>\n<p>Durante a pandemia, ali\u00e1s, o Aux\u00edlio Emergencial demonstrou com clareza como \u00e9 f\u00e1cil criar depend\u00eancia em massa. Milh\u00f5es de pessoas que nunca tinham recebido nada do governo passaram a considerar o dep\u00f3sito mensal como um direito natural. Passada a pandemia, quando o aux\u00edlio, como estava previsto, terminou, a press\u00e3o por sua volta foi imediata \u2013 e eleitoralmente eficaz.<\/p>\n<p>O segundo pilar \u00e9 a tutelagem regulat\u00f3ria. Sob o pretexto de proteger, educar ou garantir o bem-estar das pessoas, o Estado multiplica normas, restri\u00e7\u00f5es e comandos que invadem todos os aspectos da vida privada. N\u00e3o basta ao Estado prover: ele quer decidir o que cada um pode comer, dizer, consumir, pensar ou sentir.<\/p>\n<p>O cidad\u00e3o adulto \u00e9 tratado como incapaz de gerir a pr\u00f3pria vida. A linguagem \u00e9 policiada, comportamentos banais s\u00e3o normatizados, e escolhas pessoais s\u00e3o reinterpretadas como quest\u00f5es de interesse p\u00fablico. Essa interfer\u00eancia constante cria uma massa de indiv\u00edduos economicamente vulner\u00e1veis e psicologicamente condicionados a aceitar, ou ao menos tolerar, decis\u00f5es que antes seriam contestadas.<\/p>\n<blockquote>\n<p>N\u00e3o basta ao Estado prover: ele quer decidir o que cada um pode comer, dizer, consumir, pensar ou sentir<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A Lei Felca, embora leg\u00edtima em sua inten\u00e7\u00e3o de proteger crian\u00e7as da adultiza\u00e7\u00e3o precoce, exemplifica bem esse esp\u00edrito intervencionista. Ela refor\u00e7a a ideia de um Estado superpai que vigia, orienta e decide por todos. A liberdade de escolha, marca da maturidade, \u00e9 gradualmente substitu\u00edda pela prote\u00e7\u00e3o coercitiva. O indiv\u00edduo \u00e9 desautorizado como sujeito moral, e o Estado assume o papel de tutor onipresente.<\/p>\n<p>Essa infantiliza\u00e7\u00e3o fragiliza as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, porque o debate pol\u00edtico se deteriora e se transforma em uma briga de irm\u00e3os pela aten\u00e7\u00e3o do pai-Estado. Mas a democracia exige cidad\u00e3os capazes de tomar decis\u00f5es informadas, avaliar riscos e assumir consequ\u00eancias \u2013 o que n\u00e3o acontece quando o eleitor \u00e9 tratado como algu\u00e9m que precisa ser permanentemente guiado pela m\u00e3o.<\/p>\n<p>T\u00e3o importante quanto impedir que crian\u00e7as se tornem adultas precocemente \u00e9 evitar que adultos permane\u00e7am crian\u00e7as para sempre. O Estado precisa deixar de atuar como pai. O povo precisa deixar de se comportar como filho. \u00c9 hora de crescer.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A infantiliza\u00e7\u00e3o dos adultos corre solta no Brasil, levando todos a depender do pai Estado para sua subsist\u00eancia e at\u00e9&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":342814,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-342813","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/342813","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=342813"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/342813\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/342814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=342813"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=342813"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=342813"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}