{"id":341157,"date":"2026-04-07T05:00:00","date_gmt":"2026-04-07T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=341157"},"modified":"2026-04-07T05:00:00","modified_gmt":"2026-04-07T09:00:00","slug":"como-a-inteligencia-artificial-interfere-na-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=341157","title":{"rendered":"Como a Intelig\u00eancia Artificial interfere na cultura"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Enquanto algumas lojas produzem almofadas de Natal com imagens criadas com intelig\u00eancia artificial e as redes sociais fazem viralizar m\u00fasicas sint\u00e9ticas que auxiliam na manuten\u00e7\u00e3o do tempo de tela \u2013 ambas as situa\u00e7\u00f5es com elementos direcionados a um p\u00fablico espec\u00edfico \u2013, grandes marcas contratam designers para produzir cole\u00e7\u00f5es originais, retiram do ar campanhas criadas com IA e acertam, pela l\u00f3gica de mercado, ao investir no fator humano, agregador de valor \u2013 principalmente diante do popular, cujo foco se limita \u00e0 fun\u00e7\u00e3o e ao pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Essa possibilidade de produ\u00e7\u00e3o est\u00e9tica em massa com direcionamento espec\u00edfico de classe, na contram\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o social da arte na era de sua reprodutibilidade t\u00e9cnica, como informado por Walter Benjamin, tem a inten\u00e7\u00e3o clara do lucro, cuja margem aumenta diante de fatores como rapidez, praticidade e baixo custo com o uso de intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Se o artista de massa sacralizado j\u00e1 esvaziava o sentido do que \u00e9 arte ao assumir o papel de produtor-protagonista com conte\u00fados pasteurizados, os conte\u00fados produzidos sinteticamente que o fazem balan\u00e7ar no pedestal nada mais s\u00e3o que uma retroalimenta\u00e7\u00e3o dessa l\u00f3gica<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>As novas regras da ind\u00fastria \u201ccultural\u201d \u2013 com Adorno e Horkheimer ainda atuais \u2013 estabelecem a linha de corte social da intelig\u00eancia artificial, seja no uso sem responsabilidade com o objetivo de baratear custos com designers, fot\u00f3grafos, diretores de arte etc., seja na implos\u00e3o da pr\u00f3pria din\u00e2mica dessa ind\u00fastria, como no caso da m\u00fasica <em>Sina de Of\u00e9lia<\/em>, vers\u00e3o sint\u00e9tica em portugu\u00eas da m\u00fasica <em>The Fate of Ophelia<\/em>, de autoria de uma das maiores autoridades em produ\u00e7\u00f5es direcionadas ao consumo, Taylor Swift.<\/p>\n<p>Se o artista de massa sacralizado j\u00e1 esvaziava o sentido do que \u00e9 arte ao assumir o papel de produtor-protagonista com conte\u00fados pasteurizados, os conte\u00fados produzidos sinteticamente que o fazem balan\u00e7ar no pedestal nada mais s\u00e3o que uma retroalimenta\u00e7\u00e3o dessa l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o para a\u00ed. O pr\u00f3prio uso das ferramentas de intelig\u00eancia artificial tamb\u00e9m entra na conta da diferencia\u00e7\u00e3o de classe. Enquanto autodenominados especialistas indicam que as ferramentas de intelig\u00eancia artificial generativa ficaram na primeira onda e que agora \u00e9 a vez dos agentes aut\u00f4nomos personalizados, exigindo n\u00edvel t\u00e9cnico especializado para o desenvolvimento, as plataformas disponibilizam planos gratuitos ou de baixo custo para o uso, com o incentivo adicional de redes sociais espec\u00edficas para o compartilhamento de material sint\u00e9tico.<\/p>\n<p>Enquanto surgem trends como a de compartilhar \u201cseu namorado(a) ideal\u201d criado por intelig\u00eancia artificial e produtos que prometem conex\u00e3o em tempo integral, como os \u00f3culos de realidade aumentada integrados com IA, outros tipos de conte\u00fado v\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, como os que indicam o aumento da busca por equipamentos tecnol\u00f3gicos anal\u00f3gicos e que o novo sin\u00f4nimo de luxo \u00e9 uma vida desconectada.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Para compor o quadro, a personaliza\u00e7\u00e3o das redes, anunciada pelo Google h\u00e1 quase duas d\u00e9cadas e adensada pelos algoritmos em redes sociais, \u00e9 fichinha perto da engrenagem a servi\u00e7o da infocracia \u2013 conceito elaborado por Byung-Chul Han para descrever o atual regime, que passou da biopol\u00edtica, com o controle dos corpos, de Foucault, ao dom\u00ednio neural \u2013, composta pelas ferramentas de intelig\u00eancia artificial, as quais incentivam o uso para mais e mais atividades (os e-mails de comunica\u00e7\u00e3o incluem indica\u00e7\u00f5es para a cria\u00e7\u00e3o de treinos de muscula\u00e7\u00e3o, elabora\u00e7\u00e3o de dietas e escrita r\u00e1pida, por exemplo), com a tend\u00eancia de centralizar a coleta e o uso de dados dos usu\u00e1rios.<\/p>\n<p>Se, na ind\u00fastria cultural, as escolhas n\u00e3o s\u00e3o verdadeiramente nossas, como as afirma\u00e7\u00f5es de Adorno e Horkheimer, e, diante do regime de informa\u00e7\u00e3o, as escolhas ocorrem no n\u00edvel pr\u00e9-reflexivo, como apresentado por Byung-Chul Han, quem verdadeiramente tem poder de escolha? E quem comanda as escolhas e aqueles que pensam escolher?<\/p>\n<p>O ponto central dessa quest\u00e3o, no entanto, talvez n\u00e3o seja a resposta a essas perguntas, mesmo diante de uma estratifica\u00e7\u00e3o de classe que, em certa medida, determine quem produz e lucra com intelig\u00eancia artificial e quem n\u00e3o tem poder de escolha, mas sim os limites de uso impostos tanto pelo desenvolvimento tecnol\u00f3gico \u2013 as previs\u00f5es iniciais de consolida\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial geral miravam nos anos de 2026 e 2027, mas j\u00e1 foram adiadas para 2029 e 2030 \u2013 quanto pela aceita\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, seja pela busca por uma vida menos conectada e mais anal\u00f3gica, seja em um n\u00edvel anterior ao da consci\u00eancia \u2013 atire a primeira pedra quem n\u00e3o sentiu uma estranha sensa\u00e7\u00e3o, ruim e inexplic\u00e1vel, diante de conte\u00fados sint\u00e9ticos.<\/p>\n<p><em><strong>Cibele Alexandre Uchoa<\/strong>, doutoranda em Direito Constitucional, \u00e9 s\u00f3cia-fundadora do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais (IBDCult) e CEO Hiperlink P&amp;D.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto algumas lojas produzem almofadas de Natal com imagens criadas com intelig\u00eancia artificial e as redes sociais fazem viralizar m\u00fasicas&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":341158,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-341157","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/341157","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=341157"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/341157\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/341158"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=341157"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=341157"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=341157"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}