{"id":335363,"date":"2026-04-04T19:41:58","date_gmt":"2026-04-04T23:41:58","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=335363"},"modified":"2026-04-04T19:41:58","modified_gmt":"2026-04-04T23:41:58","slug":"por-que-o-gosto-musical-se-cristaliza-na-juventude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=335363","title":{"rendered":"Por que o gosto musical se cristaliza na juventude?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Quem frequenta o YouTube j\u00e1 sabe: basta acessar uma m\u00fasica com mais de dez anos de exist\u00eancia para encontrar coment\u00e1rios nost\u00e1lgicos do tipo: &#8220;Isso sim \u00e9 que \u00e9 m\u00fasica, e n\u00e3o esse lixo que temos hoje&#8221;.<\/p>\n<p>Talvez a qualidade da m\u00fasica realmente esteja caindo, mas tamb\u00e9m \u00e9 fato que o gosto musical envolve aspectos subjetivos. As prefer\u00eancias nessa seara se cristalizam na juventude e mudam muito pouco ao longo da vida.<\/p>\n<p>A constata\u00e7\u00e3o vem de um <a href=\"https:\/\/dl.acm.org\/doi\/10.1145\/3708319.3733673\">estudo recente<\/a>, produzido por pesquisadores das universidades de Primorska, da Eslov\u00eania, e J\u00f6nk\u00f6ping e Gotenburgo, da Su\u00e9cia. Eles avaliaram os dados de mais de 40 mil usu\u00e1rios, de dezenas de pa\u00edses diferentes, cadastrados na plataforma de streaming Last.fm. Como o site solicita que os usu\u00e1rios informem a data de nascimento, foi poss\u00edvel estabelecer compara\u00e7\u00f5es de acordo com a idade.<\/p>\n<p>Segundo os autores, os h\u00e1bitos musicais se ampliam na transi\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia para a idade adulta. Na meia-idade, o espectro se estreita, enquanto as escolhas musicais se tornam mais pessoais e influenciadas por experi\u00eancias anteriores.<\/p>\n<h2>Regulador de emo\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p>\u201cOs resultados indicam que, com o passar dos anos, as prefer\u00eancias dos usu\u00e1rios mudam de conte\u00fado altamente diversificado e n\u00e3o personalizado para conte\u00fado menos diversificado, por\u00e9m mais personalizado\u201d, aponta o estudo. \u201cOs ouvintes mais jovens preferem principalmente lan\u00e7amentos recentes, mas essa prefer\u00eancia diminui com a idade, dando lugar a uma mistura de faixas recentes e nost\u00e1lgicas. Aos 40 anos, os usu\u00e1rios se dedicam predominantemente \u00e0 nostalgia, ouvindo m\u00fasicas da adolesc\u00eancia\u201d, sintetizam os autores.<\/p>\n<p>O neurocientista Gabriel Gaudencio do R\u00eago, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, afirma que o estudo identificou um fen\u00f4meno real: \u201cQuando jovens, estamos mais abertos a buscar novas informa\u00e7\u00f5es e est\u00edmulos. Somos mais sens\u00edveis \u00e0s tend\u00eancias culturais e aos est\u00edmulos sociais. Ou seja, acabamos nos expondo \u00e0s novidades musicais, seja pela m\u00eddia ou por eventos a que vamos com amigos\u201d, analisa.<\/p>\n<p>Segundo R\u00eago, a m\u00fasica exerce um papel importante na forma\u00e7\u00e3o da identidade, um processo que se consolida justamente com o in\u00edcio da vida adulta. \u201cQuando crescemos, vamos formando nossa identidade, somos menos propensos a novidades, e tendemos a usar a m\u00fasica para refor\u00e7ar experi\u00eancias identit\u00e1rias (m\u00fasicas que me lembrem \u2018quem eu sou\u2019 ou de eventos passados), assim como somos mais \u2018especialistas\u2019 em saber quais m\u00fasicas geram o efeito desejado (a m\u00fasica como um regulador de emo\u00e7\u00f5es)\u201d, diz ele.<\/p>\n<p>Um fen\u00f4meno parecido acontece em outros aspectos da vida, afirma o professor. \u201cOutro exemplo similar \u00e9 o das nossas rela\u00e7\u00f5es sociais. Somos mais propensos a buscar estimula\u00e7\u00e3o social quando jovens e tendemos a gostar de conhecer novas pessoas. Quanto mais velhos, tendemos a manter as amizades que j\u00e1 constru\u00edmos para relembrar hist\u00f3rias passadas ou nos sentirmos bem\u201d.<\/p>\n<h2>Mecanismos neurol\u00f3gicos<\/h2>\n<p>Outros levantamentos buscam explicar as mudan\u00e7as neurol\u00f3gicas que ancoram estas mudan\u00e7as. <\/p>\n<p>Utilizando tomografia por emiss\u00e3o de p\u00f3sitrons (PET) e resson\u00e2ncia magn\u00e9tica funcional (fMRI), um grupo de pesquisadores da Universidade McGill, em Montreal, no Canad\u00e1, j\u00e1 conseguiu identificar os mecanismos neurol\u00f3gicos e hormonais vinculados \u00e0 experi\u00eancia de ouvir can\u00e7\u00f5es: o prazer provocado pela audi\u00e7\u00e3o leva \u00e0 libera\u00e7\u00e3o de dopamina, neurotransmissor que atua no c\u00e9rebro para produzir as sensa\u00e7\u00f5es de recompensa, prazer e motiva\u00e7\u00e3o. \u201cNossos resultados ajudam a explicar por que a m\u00fasica \u00e9 t\u00e3o valorizada em todas as sociedades humanas\u201d, <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/21217764\/\">apontam<\/a> os autores do estudo, publicado em 2011.<\/p>\n<p>Essa resposta \u00e9 amplificada durante a adolesc\u00eancia, enquanto o c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal, respons\u00e1vel pelas fun\u00e7\u00f5es executivas superiores, segue em forma\u00e7\u00e3o at\u00e9 por volta dos 25 anos. Da\u00ed que, na transi\u00e7\u00e3o para a vida adulta, as pessoas alcancem o chamado \u201cpico de reminisc\u00eancia\u201d, o per\u00edodo em que seu senso de identidade est\u00e1 se formando e a m\u00fasica que toca durante essa forma\u00e7\u00e3o se integra estruturalmente a ele. \u00c9, portanto, um per\u00edodo crucial para a forma\u00e7\u00e3o do gosto musical para o restante da vida.<\/p>\n<p>Posteriormente, os ouvintes mais velhos se restringem a ciclos cada vez mais espec\u00edficos, quase inteiramente ancorados em m\u00fasicas da adolesc\u00eancia e do in\u00edcio da vida adulta. Enquanto can\u00e7\u00f5es familiares garantem a libera\u00e7\u00e3o de dopamina sem custo de processamento de informa\u00e7\u00f5es, as novas precisam ser repetidas diversas vezes para que o c\u00e9rebro realize o reconhecimento de padr\u00f5es necess\u00e1rio para que o circuito de recompensa seja ativado.<\/p>\n<p>Em outras palavras, torna-se mais custoso alcan\u00e7ar a mesma recompensa quando se ouvem can\u00e7\u00f5es novas \u2013 ainda que seja poss\u00edvel, desde que a pessoa se dedique \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e deliberada de novidades. A maior parte das pessoas mais velhas n\u00e3o embarca em uma jornada de explora\u00e7\u00e3o musical, mas ela \u00e9 poss\u00edvel. Se n\u00e3o fizerem este esfor\u00e7o, na medida em que envelhecem, os ouvintes podem at\u00e9 interagir com novos lan\u00e7amentos, mas retornam a m\u00fasicas favoritas antigas com mais frequ\u00eancia do que os ouvintes mais jovens.<\/p>\n<h2>Oportunidade de melhoria<\/h2>\n<p>O trabalho dos pesquisadores baseados na Su\u00e9cia e na Eslov\u00eania teve como objetivo principal contribuir para a melhoria dos sistemas de recomenda\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas. E aponta que um servi\u00e7o que recomenda o mesmo tipo de m\u00fasica, da mesma forma, para todos, corre o risco de n\u00e3o encontrar o que diferentes grupos realmente desejam.<\/p>\n<p>Do ponto de vista dos sistemas de recomenda\u00e7\u00e3o, os achados representam uma grande oportunidade: se eles forem projetados levando em considera\u00e7\u00e3o como os gostos evoluem ao longo da vida, eles podem apoiar ativamente a identidade e o bem-estar das pessoas. Para os ouvintes mais jovens, podem promover a explora\u00e7\u00e3o e a descoberta.<\/p>\n<p>Para os ouvintes mais velhos, as descobertas podem ajudar a equilibrar a nostalgia com material novo cuidadosamente selecionado, ajudando a m\u00fasica a permanecer uma fonte de reflex\u00e3o e autorrealiza\u00e7\u00e3o ao longo da vida. \u201cAlgoritmos que ajustam a diversidade e a personaliza\u00e7\u00e3o com base na idade podem atender melhor \u00e0s variadas prefer\u00eancias entre os diferentes grupos et\u00e1rios\u201d, conclui o trabalho.<\/p>\n<p>S\u00e3o propostas relevantes, quando se considera que, <a href=\"https:\/\/www.statista.com\/topics\/6408\/music-streaming\/?srsltid=AfmBOorTRtciZCqwvpHHXTOFaJ6We5vmA8g_Ahj57zhlMow1Marox2uB\">de acordo<\/a> com a plataforma de dados Statista, mais de 700 milh\u00f5es de pessoas no mundo consomem m\u00fasica utilizando servi\u00e7os pagos de streaming \u2013 um volume que d\u00e1 uma dimens\u00e3o da import\u00e2ncia que a m\u00fasica preserva junto a pessoas de diversas geografias e culturas. \u201cDentre as diversas fun\u00e7\u00f5es da m\u00fasica, tais como as culturais, de lazer ou mesmo de intera\u00e7\u00e3o social, uma que se destaca \u00e9 sua capacidade de modular emo\u00e7\u00f5es\u201d, afirma R\u00eago. \u201cOutra fun\u00e7\u00e3o importante \u00e9 a de identidade: a m\u00fasica pode ressaltar ou nos conectar a certos aspectos de nossa hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>O professor, ali\u00e1s, diz que a pr\u00f3pria experi\u00eancia pessoal corrobora as descobertas dos cientistas: &#8220;No geral, ainda escuto as m\u00fasicas da juventude\u201d, diz.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem frequenta o YouTube j\u00e1 sabe: basta acessar uma m\u00fasica com mais de dez anos de exist\u00eancia para encontrar coment\u00e1rios&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":335364,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-335363","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/335363","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=335363"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/335363\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/335364"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=335363"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=335363"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=335363"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}