{"id":333688,"date":"2026-04-04T05:01:00","date_gmt":"2026-04-04T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=333688"},"modified":"2026-04-04T05:01:00","modified_gmt":"2026-04-04T09:01:00","slug":"emprego-nao-cura-crack-o-autoengano-das-politicas-para-moradores-de-rua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=333688","title":{"rendered":"Emprego n\u00e3o cura crack: o autoengano das pol\u00edticas para moradores de rua"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Poucas ideias s\u00e3o t\u00e3o emocionalmente sedutoras quanto a de \u201cdar emprego para moradores de rua\u201d. A proposta soa humana, solid\u00e1ria, civilizada. Apela ao nosso melhor instinto moral e, justamente por isso, costuma ser recebida com aplausos imediatos. Quem, em s\u00e3 consci\u00eancia, ousaria se opor a uma iniciativa que promete dignidade, renda e reinser\u00e7\u00e3o social para quem vive nas ruas? O problema come\u00e7a quando confundimos boas inten\u00e7\u00f5es com bons resultados.<\/p>\n<p>Projetos desse tipo se multiplicam pelo Brasil exatamente na mesma propor\u00e7\u00e3o em que cresce a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua. Florian\u00f3polis n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio: repete um roteiro j\u00e1 testado dezenas de vezes em outras cidades. A pergunta que raramente \u00e9 feita \u00e9 simples e inc\u00f4moda: se essas pol\u00edticas funcionassem, por que o problema s\u00f3 aumenta?<\/p>\n<p>A resposta exige abandonar o conforto das narrativas f\u00e1ceis e encarar a realidade como ela \u00e9. A principal causa da perman\u00eancia das pessoas nas ruas hoje n\u00e3o \u00e9 a falta de oportunidade de emprego. \u00c9 a depend\u00eancia qu\u00edmica, especialmente de crack e drogas semelhantes. Ignorar esse fato n\u00e3o \u00e9 compaix\u00e3o, \u00e9 autoengano.<\/p>\n<p>Acreditar que um dependente qu\u00edmico severo, morador das ruas, conseguir\u00e1 manter estabilidade profissional \u00e9 uma fantasia. Pode at\u00e9 aceitar o emprego em um momento de maior lucidez, nos primeiros dias ou semanas. Mas, quando a abstin\u00eancia se imp\u00f5e, a l\u00f3gica da sobreviv\u00eancia qu\u00edmica fala mais alto. O resultado costuma ser previs\u00edvel: abandono do trabalho, faltas recorrentes, desaparecimentos durante o expediente ou conflitos constantes com o empregador. N\u00e3o por maldade, mas por incapacidade objetiva de sustentar uma rotina minimamente funcional.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Boas inten\u00e7\u00f5es n\u00e3o bastam. Sem diagn\u00f3stico correto, n\u00e3o h\u00e1 tratamento poss\u00edvel. E, longe do diagn\u00f3stico, os rem\u00e9dios errados continuar\u00e3o sendo aplicados, com custo humano, social e moral cada vez maior<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Esse \u00e9 um dado t\u00e3o conhecido que os pr\u00f3prios programas revelam sua fragilidade sem perceber. Quase sempre anunciam com entusiasmo quantas pessoas foram contratadas. Raramente informam quantas permaneceram empregadas ap\u00f3s um ou dois meses. N\u00e3o \u00e9 descuido estat\u00edstico. \u00c9 porque os n\u00fameros n\u00e3o ajudam a narrativa de que basta um emprego para o morador de rua. Ainda assim, essas iniciativas continuam sendo defendidas com fervor. E aqui entra o fator decisivo: conveni\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Dar emprego para moradores de rua \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o gera desgaste. Ao contr\u00e1rio, gera manchetes positivas, fotos emocionadas e discursos edificantes. \u00c9 o tipo de pol\u00edtica que produz capital simb\u00f3lico imediato. J\u00e1 enfrentar a depend\u00eancia qu\u00edmica exige decis\u00f5es duras, debates impopulares e enfrentamento direto de tabus ideol\u00f3gicos. Exige interna\u00e7\u00e3o, disciplina, coer\u00e7\u00e3o legal em certos casos e enfrentamento do discurso romantizado sobre drogas. Tudo o que um pol\u00edtico avesso a riscos eleitorais prefere evitar.<\/p>\n<p>Na l\u00f3gica da pol\u00edtica de curto prazo, vale mais parecer que se est\u00e1 fazendo algo do que fazer o que realmente funciona. Afinal, a pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o vem antes dos resultados de longo prazo. E quem sabe quem ser\u00e1 o prefeito dali a alguns anos? Por que assumir o \u00f4nus pol\u00edtico de medidas dif\u00edceis se \u00e9 poss\u00edvel apostar em solu\u00e7\u00f5es que comovem e rendem aplausos imediatos?<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 perverso. Ao oferecer respostas simb\u00f3licas, adiamos as respostas necess\u00e1rias. Ao insistir em pol\u00edticas que ignoram o diagn\u00f3stico correto, afastamo-nos ainda mais da possibilidade de cura.<\/p>\n<p>Esse racioc\u00ednio foi exposto com brutal clareza por Theodore Dalrymple, psiquiatra e ensa\u00edsta brit\u00e2nico que trabalhou por d\u00e9cadas com dependentes qu\u00edmicos, criminosos e moradores de rua. Em um de seus textos mais citados, ele afirma: \u201cO sentimentalismo \u00e9 a indulg\u00eancia emocional que substitui o pensamento s\u00e9rio\u201d. Dalrymple mostra que pol\u00edticas p\u00fablicas guiadas pela emo\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o pela realidade, produzem exatamente o oposto do que prometem.<\/p>\n<p>Para ele, a recusa em nomear o problema \u00e9 parte do pr\u00f3prio problema. Ao negar a centralidade da depend\u00eancia qu\u00edmica, criam-se pol\u00edticas que tratam sintomas perif\u00e9ricos e ignoram a doen\u00e7a. \u00c9 como oferecer uma bengala a quem precisa de cirurgia. A inten\u00e7\u00e3o pode ser boa, mas o resultado, salvo rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, \u00e9 in\u00f3cuo.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Nada disso significa desprezo ou falta de compaix\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio. Levar o problema a s\u00e9rio \u00e9 o primeiro gesto de respeito verdadeiro com quem vive nas ruas e com a sociedade que convive diariamente com as consequ\u00eancias desse fracasso coletivo.<\/p>\n<p>Enquanto insistirmos em confundir emo\u00e7\u00e3o com efic\u00e1cia, seguiremos multiplicando programas bem-intencionados e colhendo resultados p\u00edfios. Boas inten\u00e7\u00f5es n\u00e3o bastam. Sem diagn\u00f3stico correto, n\u00e3o h\u00e1 tratamento poss\u00edvel. E, longe do diagn\u00f3stico, os rem\u00e9dios errados continuar\u00e3o sendo aplicados, com custo humano, social e moral cada vez maior.<\/p>\n<p>Talvez seja hora de trocar a pergunta confort\u00e1vel \u201cquem \u00e9 contra dar emprego?\u201d por uma bem mais honesta: estamos realmente interessados em resolver o problema ou apenas em nos sentir bem enquanto ele cresce?<\/p>\n<p><em><strong>Bruno Souza<\/strong>, empres\u00e1rio e mestre em Sociologia Pol\u00edtica (UFSC). Foi secret\u00e1rio municipal de Assist\u00eancia Social de Florian\u00f3polis (SC), deputado estadual (2019\u20132023) e vereador na capital catarinense (2017\u20132019).<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucas ideias s\u00e3o t\u00e3o emocionalmente sedutoras quanto a de \u201cdar emprego para moradores de rua\u201d. 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