{"id":331331,"date":"2026-04-03T05:01:00","date_gmt":"2026-04-03T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=331331"},"modified":"2026-04-03T05:01:00","modified_gmt":"2026-04-03T09:01:00","slug":"por-que-a-midia-precisa-mudar-a-forma-como-noticia-a-violencia-contra-a-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=331331","title":{"rendered":"Por que a m\u00eddia precisa mudar a forma como noticia a viol\u00eancia contra a mulher"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\">\n<div class=\"postMainImage_post-main-image-info__AaDnR\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/04\/01165332\/violencia-mulher.jpg.webp\" \/><span>O enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher exige uma mudan\u00e7a de postura em que a comunica\u00e7\u00e3o deixe de ser um espelho passivo da trag\u00e9dia e passe a ser uma ferramenta ativa de preven\u00e7\u00e3o (Foto: Imagem criada utilizando Open AI\/Gazeta do Povo)<\/span><\/div>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A cobertura jornal\u00edstica sobre crimes de viol\u00eancia contra a mulher no Brasil costuma seguir um roteiro que, embora pare\u00e7a meramente informativo, carrega lacunas cr\u00edticas para a seguran\u00e7a p\u00fablica. Ao noticiar um feminic\u00eddio, o foco recai quase invariavelmente sobre o desfecho tr\u00e1gico e os detalhes do crime, mas raramente se dedica o mesmo espa\u00e7o para responder como uma mulher que esteja passando por uma situa\u00e7\u00e3o semelhante deve agir e onde pode encontrar amparo.<\/p>\n<p>Como advogada e ex-coordenadora de Pol\u00edticas para Mulheres em S\u00e3o Paulo, tenho observado que a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma dimens\u00e3o estrutural da viol\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 apenas um reflexo do que acontece na sociedade, mas uma engrenagem que pode acelerar ou frear a barb\u00e1rie. Ocupar esse espa\u00e7o de fala \u00e9 urgente para introduzirmos no Brasil o que a ci\u00eancia e a sa\u00fade p\u00fablica chamam de M\u00e9todo Papageno.<\/p>\n<blockquote class=\"postQuote_post-quote-container__KXTpH\">\n<p> O enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher exige uma mudan\u00e7a de postura em que a comunica\u00e7\u00e3o deixe de ser um espelho passivo da trag\u00e9dia e passe a ser uma ferramenta ativa de preven\u00e7\u00e3o<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O conceito, emprestado das diretrizes da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) para a preven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio, \u00e9 perfeitamente aplic\u00e1vel ao feminic\u00eddio. Enquanto o &#8220;Efeito Werther&#8221; explica como a cobertura sensacionalista gera um cont\u00e1gio social \u2013 estimulando agressores em potencial a repetirem o ato por identifica\u00e7\u00e3o ou busca por notoriedade \u2013, o M\u00e9todo Papageno prop\u00f5e o oposto: uma comunica\u00e7\u00e3o que protege, educa e oferece sa\u00eddas.<\/p>\n<p>Ao analisarmos casos emblem\u00e1ticos, de \u00c2ngela Diniz, nos anos 70, a epis\u00f3dios recentes como os de Erika Satelis ou Tatiane Spitzner, vemos um padr\u00e3o de &#8220;revitimiza\u00e7\u00e3o institucional&#8221;. Quando a imprensa foca na roupa da v\u00edtima, no seu comportamento ou em uma suposta &#8220;paix\u00e3o avassaladora&#8221; do assassino, ela retira a responsabilidade do criminoso e a transfere para a mulher. Mais do que isso: ao transformar trag\u00e9dias em entretenimento de massa (a chamada espetaculariza\u00e7\u00e3o), a m\u00eddia dessensibiliza a sociedade. O crime deixa de ser uma viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos para virar um cap\u00edtulo de novela.<\/p>\n<p>Dados do Sistema Nacional de Informa\u00e7\u00f5es de Seguran\u00e7a P\u00fablica (SINESP) revelam um padr\u00e3o alarmante: picos de registros de feminic\u00eddios muitas vezes sucedem per\u00edodos de hipervisibilidade midi\u00e1tica de casos extremos. Isso sugere que a forma como narramos a morte de uma mulher pode estar servindo de &#8220;manual&#8221; silencioso para o agressor vizinho.<\/p>\n<p>A aplica\u00e7\u00e3o do M\u00e9todo Papageno no contexto brasileiro, alinhada aos princ\u00edpios da Lei Maria da Penha, defende que o dever de cuidado deve se sobrepor ao desejo pela audi\u00eancia imediata. Uma cobertura \u00e9tica \u00e9 aquela que n\u00e3o apenas relata o fato, mas que se torna um elo entre a mulher em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade e o servi\u00e7o p\u00fablico que pode salv\u00e1-la.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Portanto, a responsabilidade institucional sobre o que \u00e9 veiculado precisa ser compartilhada entre o Estado, as empresas de comunica\u00e7\u00e3o e as plataformas digitais. N\u00e3o se trata de restringir a liberdade de imprensa, mas de qualificar o exerc\u00edcio dessa liberdade para que ela cumpra sua fun\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Precisamos entender que a comunica\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel \u00e9 uma estrat\u00e9gia de seguran\u00e7a p\u00fablica. O sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o, mas a palavra sem crit\u00e9rio \u00e9 uma arma. O enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher exige uma mudan\u00e7a de postura em que a comunica\u00e7\u00e3o deixe de ser um espelho passivo da trag\u00e9dia e passe a ser uma ferramenta ativa de preven\u00e7\u00e3o. Afinal, informar com responsabilidade \u00e9, acima de tudo, um compromisso com a vida.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em><strong>Daniele Akamine<\/strong>, advogada, membro da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da OAB-SP e especialista em pol\u00edticas p\u00fablicas. Foi coordenadora de Pol\u00edticas para Mulheres da cidade de S\u00e3o Paulo.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Jocelaine Santos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/jocelaine-santos\/\">Jocelaine Santos<\/a><\/p>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher exige uma mudan\u00e7a de postura em que a comunica\u00e7\u00e3o deixe de ser um&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":331332,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-331331","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/331331","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=331331"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/331331\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/331332"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=331331"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=331331"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=331331"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}