{"id":331329,"date":"2026-04-03T05:02:00","date_gmt":"2026-04-03T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=331329"},"modified":"2026-04-03T05:02:00","modified_gmt":"2026-04-03T09:02:00","slug":"jesus-condenado-antes-mesmo-de-ser-julgado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=331329","title":{"rendered":"Jesus, condenado antes mesmo de ser julgado"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A narrativa do julgamento de Jesus Cristo, quando lida para al\u00e9m de sua centralidade religiosa e simb\u00f3lica, revela uma das mais antigas e impressionantes representa\u00e7\u00f5es da fal\u00eancia do devido processo. N\u00e3o se trata apenas de um epis\u00f3dio fundante da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, mas de um paradigma hist\u00f3rico daquilo que o processo penal jamais deveria admitir: a substitui\u00e7\u00e3o da apura\u00e7\u00e3o imparcial dos fatos por uma engrenagem orientada, desde o in\u00edcio, \u00e0 confirma\u00e7\u00e3o de uma culpa previamente afirmada. O ponto decisivo n\u00e3o reside unicamente na dramaticidade do desfecho, mas no itiner\u00e1rio que a ele conduz.<\/p>\n<p>O que se entrev\u00ea nos relatos evang\u00e9licos \u00e9 menos um ju\u00edzo no sentido pr\u00f3prio do termo e mais uma encena\u00e7\u00e3o formal de legitimidade para um resultado j\u00e1 politicamente desejado. A decis\u00e3o, em subst\u00e2ncia, precede a prova; a condena\u00e7\u00e3o antecede a instru\u00e7\u00e3o; o r\u00e9u comparece perante seus julgadores n\u00e3o para ser verdadeiramente ouvido, mas para ser sacrificado sob a apar\u00eancia de um procedimento.<\/p>\n<p>Essa chave de leitura, quando articulada com a tradi\u00e7\u00e3o jur\u00eddica judaica e com os par\u00e2metros que mais tarde se consolidariam como exig\u00eancias m\u00ednimas de um processo justo, permite identificar v\u00edcios que, em linguagem contempor\u00e2nea, seriam qualificados como grav\u00edssimos. Os Evangelhos sin\u00f3ticos registram, de forma eloquente, a busca de testemunhos destinados n\u00e3o \u00e0 elucida\u00e7\u00e3o da verdade, mas \u00e0 sustenta\u00e7\u00e3o da condena\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se vai ao encontro da prova para testar uma hip\u00f3tese; procura-se a prova que confirme uma conclus\u00e3o j\u00e1 estabelecida. \u00c9 precisamente nesse movimento que se instala a mais profunda pervers\u00e3o do processo penal: a invers\u00e3o de sua l\u00f3gica cognitiva. O processo deixa de ser um m\u00e9todo de controle da acusa\u00e7\u00e3o e converte-se em instrumento de sua valida\u00e7\u00e3o. O \u00f3rg\u00e3o que deveria apurar passa a selecionar; a autoridade que deveria duvidar passa a confirmar; a estrutura que deveria conter o poder punitivo passa a servi-lo. Onde a imparcialidade desaparece, resta apenas a liturgia da condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A isso se soma a evidente precariedade do material probat\u00f3rio. Os relatos de testemunhos contradit\u00f3rios, desencontrados e insuficientes para uma converg\u00eancia segura n\u00e3o representam mero detalhe narrativo, mas atingem o cora\u00e7\u00e3o do problema. Em qualquer tradi\u00e7\u00e3o jur\u00eddica minimamente comprometida com a justi\u00e7a, sobretudo em mat\u00e9ria de vida e morte, a consist\u00eancia probat\u00f3ria constitui pressuposto elementar de legitimidade.<\/p>\n<p>A prova, para condenar, h\u00e1 de ser id\u00f4nea, coerente, submetida a controle e capaz de afastar a d\u00favida razo\u00e1vel. Quando, apesar da fragilidade dos testemunhos, a persecu\u00e7\u00e3o avan\u00e7a at\u00e9 o resultado extremo, o que se tem n\u00e3o \u00e9 um erro acidental do sistema, mas a revela\u00e7\u00e3o de que o sistema, naquele caso, j\u00e1 n\u00e3o operava para conhecer a verdade, e sim para produzir um inimigo juridicamente elimin\u00e1vel.<\/p>\n<p>O cotejo com a lei mosaica e com a tradi\u00e7\u00e3o jur\u00eddico-rab\u00ednica acentua ainda mais o desconforto. Ainda que a reconstru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica deva ser feita com prud\u00eancia, evitando simplifica\u00e7\u00f5es ou anacronismos indevidos, \u00e9 imposs\u00edvel ignorar o contraste entre o ideal normativo de cautela em causas capitais e a atmosfera de urg\u00eancia, exce\u00e7\u00e3o e predisposi\u00e7\u00e3o condenat\u00f3ria que envolve o caso.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Antes mesmo da acusa\u00e7\u00e3o formal, j\u00e1 se constr\u00f3i a figura p\u00fablica do culpado. Antes da produ\u00e7\u00e3o da prova, j\u00e1 se delineia a certeza social da condena\u00e7\u00e3o. Antes da senten\u00e7a, j\u00e1 se exige do juiz n\u00e3o o cumprimento da Constitui\u00e7\u00e3o, mas a confirma\u00e7\u00e3o do clamor<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o judaica valorizava a seriedade extrema do ju\u00edzo penal, a necessidade de testemunhos consistentes, a prud\u00eancia decis\u00f3ria e a conten\u00e7\u00e3o diante da pena m\u00e1xima. O que se extrai da narrativa da paix\u00e3o, ao contr\u00e1rio, \u00e9 a compress\u00e3o do tempo reflexivo, a intensifica\u00e7\u00e3o do interesse persecut\u00f3rio e a manipula\u00e7\u00e3o do procedimento para que ele n\u00e3o opere como garantia, mas como canal de execu\u00e7\u00e3o de uma vontade anterior. Em termos modernos, poder-se-ia dizer que a forma foi capturada pela finalidade il\u00edcita: conservou-se o rito apenas o suficiente para vestir de legalidade aquilo que, em sua ess\u00eancia, j\u00e1 era decis\u00e3o de for\u00e7a.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o a oscila\u00e7\u00e3o da imputa\u00e7\u00e3o e a elasticidade oportunista dos fundamentos acusat\u00f3rios. O conflito, inicialmente situado em chave religiosa, \u00e9 deslocado para o terreno pol\u00edtico quando se torna necess\u00e1rio obter do poder romano a san\u00e7\u00e3o definitiva, sob a autoridade de P\u00f4ncio Pilatos. A muta\u00e7\u00e3o do enquadramento revela um expediente recorrente em experi\u00eancias autorit\u00e1rias de persecu\u00e7\u00e3o: quando uma narrativa n\u00e3o basta para destruir o acusado, adapta-se a narrativa \u00e0 inst\u00e2ncia julgadora que se deseja mobilizar.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa, ent\u00e3o, a coer\u00eancia interna da acusa\u00e7\u00e3o, mas sua utilidade estrat\u00e9gica. O r\u00e9u n\u00e3o \u00e9 processado porque uma imputa\u00e7\u00e3o juridicamente est\u00e1vel se confirmou; ele \u00e9 enquadrado sucessivamente nas figuras que melhor sirvam \u00e0 sua neutraliza\u00e7\u00e3o. O direito, a\u00ed, j\u00e1 n\u00e3o funciona como limite ao arb\u00edtrio, mas como linguagem instrumental de sua operacionaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente por isso que o julgamento de Jesus transcende o campo da exegese b\u00edblica e se projeta como poderosa advert\u00eancia para o presente. A modernidade alterou os meios, mas n\u00e3o suprimiu a patologia fundamental. Hoje, o que outrora se produzia nos corredores do poder religioso e imperial frequentemente se reproduz nos tribunais paralelos da opini\u00e3o p\u00fablica, das redes sociais, do espet\u00e1culo midi\u00e1tico e dos vazamentos seletivos.<\/p>\n<p>Antes mesmo da acusa\u00e7\u00e3o formal, j\u00e1 se constr\u00f3i a figura p\u00fablica do culpado. Antes da produ\u00e7\u00e3o da prova, j\u00e1 se delineia a certeza social da condena\u00e7\u00e3o. Antes da senten\u00e7a, j\u00e1 se exige do juiz n\u00e3o o cumprimento da Constitui\u00e7\u00e3o, mas a confirma\u00e7\u00e3o do clamor. O processo, ent\u00e3o, passa a correr atr\u00e1s de uma culpa que j\u00e1 circula pronta no imagin\u00e1rio coletivo. E, quando o ambiente externo se deixa contaminar por narrativas unilaterais, a pr\u00f3pria jurisdi\u00e7\u00e3o corre o risco de perder sua reserva de independ\u00eancia e de interiorizar, ainda que inconscientemente, a expectativa de puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que o paralelo se torna particularmente eloquente. O chamado julgamento paralelo nada mais \u00e9 do que a atualiza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea do veredicto antecipado. Muda o cen\u00e1rio; permanece a estrutura. Primeiro, fabrica-se o personagem socialmente intoler\u00e1vel. Em seguida, selecionam-se fragmentos, vers\u00f5es e signos capazes de fixar sua culpabilidade perante o p\u00fablico.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Depois, toda hesita\u00e7\u00e3o garantista passa a ser vista como cumplicidade, e toda exig\u00eancia probat\u00f3ria mais rigorosa \u00e9 acusada de obst\u00e1culo moral \u00e0 justi\u00e7a. Por fim, absolver torna-se quase imposs\u00edvel, n\u00e3o necessariamente porque a prova seja robusta, mas porque o custo simb\u00f3lico da absolvi\u00e7\u00e3o j\u00e1 foi artificialmente tornado insuport\u00e1vel. A condena\u00e7\u00e3o deixa de ser o resultado de um processo e passa a ser o pressuposto emocional que o processo deve apenas confirmar.<\/p>\n<p>Sob a lente do processo penal democr\u00e1tico, a li\u00e7\u00e3o do julgamento de Jesus \u00e9 severa e atual\u00edssima. O maior risco para a justi\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 apenas na ilegalidade ostensiva, facilmente identific\u00e1vel. Est\u00e1, sobretudo, na eros\u00e3o progressiva das garantias por mecanismos de convencimento pr\u00e9vio, por press\u00f5es extraprocessuais e por narrativas que sequestram a cogni\u00e7\u00e3o do julgador, afastando-o da posi\u00e7\u00e3o de terceiro imparcial.<\/p>\n<p>Nenhum sistema jur\u00eddico resiste intacto quando o acusado passa a ser percebido, desde o in\u00edcio, como algu\u00e9m que comparece ao processo apenas para ouvir a formaliza\u00e7\u00e3o de uma culpa j\u00e1 assentada. Nesse ambiente, o contradit\u00f3rio perde densidade real, a presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia converte-se em ret\u00f3rica vazia, a prova deixa de ser crit\u00e9rio de conhecimento e a senten\u00e7a se transforma em chancela de uma condena\u00e7\u00e3o social preexistente.<\/p>\n<p>O processo de Jesus, assim compreendido, n\u00e3o \u00e9 apenas uma mem\u00f3ria tr\u00e1gica da hist\u00f3ria sagrada. \u00c9, tamb\u00e9m, uma advert\u00eancia permanente contra a tenta\u00e7\u00e3o de subordinar a justi\u00e7a ao medo, \u00e0 conveni\u00eancia pol\u00edtica, \u00e0 press\u00e3o popular ou \u00e0 necessidade de oferecer um culpado \u00e0 comunidade. Sua perman\u00eancia simb\u00f3lica decorre precisamente disso: ele mostra, de modo quase arquet\u00edpico, como a jurisdi\u00e7\u00e3o pode ser degradada quando o poder decide eliminar algu\u00e9m e utiliza a forma jur\u00eddica n\u00e3o para limitar essa decis\u00e3o, mas para ornament\u00e1-la.<\/p>\n<p>Quando se busca testemunho para confirmar o que j\u00e1 se quer decidir; quando se manipula a imputa\u00e7\u00e3o para adapt\u00e1-la ao foro mais \u00fatil; quando a urg\u00eancia pol\u00edtica comprime as exig\u00eancias de prud\u00eancia; quando a condena\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 pronta antes da defesa, o que se tem n\u00e3o \u00e9 justi\u00e7a imperfeita, mas nega\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria ideia de justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Em um verdadeiro Estado de Direito, o processo penal n\u00e3o existe para satisfazer paix\u00f5es coletivas, mas para impedir que elas governem o destino do acusado. A sua nobreza reside justamente em frustrar a tenta\u00e7\u00e3o do veredicto f\u00e1cil, da culpa intuitiva, da puni\u00e7\u00e3o aclamada.<\/p>\n<p>Por isso, a leitura jur\u00eddico-pol\u00edtica do julgamento de Jesus continua t\u00e3o perturbadora: ela recorda que a injusti\u00e7a penal come\u00e7a muito antes da senten\u00e7a, no instante em que o acusado deixa de ser tratado como sujeito de direitos e passa a ser percebido como um condenado em busca de ritual. E toda vez que isso ocorre, seja no Sin\u00e9drio antigo, seja nos tribunais midi\u00e1ticos do presente, o processo j\u00e1 n\u00e3o serve \u00e0 verdade nem \u00e0 justi\u00e7a, mas apenas \u00e0 administra\u00e7\u00e3o solene de uma condena\u00e7\u00e3o previamente desejada.<\/p>\n<p><strong><em>Marcelo Aith<\/em><\/strong><em> \u00e9 advogado criminalista, doutorando em Estado de Derecho y Gobernanza Global pela Universidad de Salamanca \u2013 ESP, mestre em Direito Penal pela PUC-SP. Latin Legum Magister (LL.M) em Direito Penal Econ\u00f4mico pelo Instituto Brasileiro de Ensino e Pesquisa \u2013 IDP. Especialista em Blanqueo de Capitales pela Universidad de Salamanca.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A narrativa do julgamento de Jesus Cristo, quando lida para al\u00e9m de sua centralidade religiosa e simb\u00f3lica, revela uma das&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":331330,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-331329","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/331329","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=331329"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/331329\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/331330"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=331329"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=331329"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=331329"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}