{"id":329673,"date":"2026-04-02T08:25:12","date_gmt":"2026-04-02T12:25:12","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=329673"},"modified":"2026-04-02T08:25:12","modified_gmt":"2026-04-02T12:25:12","slug":"quinta-feira-santa-leia-relato-sobre-celebracao-no-brasil-do-seculo-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=329673","title":{"rendered":"Quinta-feira Santa: leia relato sobre celebra\u00e7\u00e3o no Brasil do s\u00e9culo 19"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p><em>Reconhecida como patrim\u00f4nio cultural imaterial de dois estados, Bahia e Goi\u00e1s, a Prociss\u00e3o do Fogar\u00e9u \u00e9 tradicionalmente realizada na Quinta-Feira Santa. O ato remonta \u00e0 pris\u00e3o de Jesus no Monte das Oliveiras, como descrita nos Evangelhos. A tradi\u00e7\u00e3o surgiu no s\u00e9culo 18 e \u00e9 mantida em diferentes cidades dos dois estados, incluindo Serrinha (BA) e Goi\u00e1s (GO). Em Salvador (BA), foi realizada at\u00e9 1874, organizada pela Irmandade de Miseric\u00f3rdia.<\/em><\/p>\n<p><em>A partir de ent\u00e3o, a celebra\u00e7\u00e3o acabou por ser proibida, como relata o escritor e pesquisador Manoel Querino (1851-1923) no <a href=\"https:\/\/www2.senado.leg.br\/bdsf\/bitstream\/handle\/id\/774118\/000618878_Bahia_outrora_vultos_factos_populares_Querino_1916.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y\">livro<\/a> A Bahia de Outrora, publicado em 1916. Em um cap\u00edtulo da obra, transcrito abaixo com a ortografia atualizada, ele descreve a prociss\u00e3o e explica os motivos para seu fim na capital baiana: os populares costumavam agredir as pessoas que representavam o Gato da Miseric\u00f3rdia, personagem criado para substituir os soldados romanos \u2013 precisamente porque eles tamb\u00e9m eram alvo de viol\u00eancia.<\/em><\/p>\n<h2>\u201cA PROCISS\u00c3O DE FOGAR\u00c9US<\/h2>\n<p>Representava a captura do Nazareno, \u00e0 noite, no Jardim das Oliveiras pelos judeus, guiados pelo maldito disc\u00edpulo que ia entregar o Divino Mestre aos seus algozes, sendo o sinal convencionado o \u00f3sculo na face.<\/p>\n<p>Na quinta-feira santa, ou de Endoen\u00e7as, \u00e0s oito horas da noite, desfilava a enorme prociss\u00e3o de fogar\u00e9us da igreja da Miseric\u00f3rdia. O pr\u00e9stito era assim constitu\u00eddo; na frente, um indiv\u00edduo com o estandarte, ao qual o povo dava o nome de Pend\u00e3o, com a vistosa inscri\u00e7\u00e3o em letras de ouro \u2014 S. P. Q. R., atestando a solidariedade do povo romano cora as arbitrariedades que iam praticar com Jesus Cristo.<\/p>\n<p>Depois, vinham os sete passos da Paix\u00e3o, em pain\u00e9is, cada um guarnecido por dois sacerdotes e dois irm\u00e3os da Miseric\u00f3rdia, conduzindo tocheiros, com os respectivos balandraus, vestimenta com capuz e mangas largas. Possantes et\u00edopes conduziam pesadas lanternas de ferro, pendurados do topo de fortes varas de madeira. Nelas ardiam estopa, breu e aguar\u00e1s, produzindo enorme clar\u00e3o. Os irm\u00e3os da Miseric\u00f3rdia abriam alas \u00e0 passagem das diversas dignidades do clero, e, bem assim, aos m\u00fasicos da orquestra, que acompanhavam os c\u00e2nticos.<\/p>\n<p>O fagote, instrumento de madeira, de timbre melanc\u00f3lico, imprimia sens\u00edvel tristeza ao ato. Duas personagens jocosas quebravam a impon\u00eancia da solenidade. Uma, o enxota c\u00e3es ou farricoco, trajando t\u00fanica roxa, com capuz, que lhe cobria a cabe\u00e7a e o rosto, mal deixando perceber os olhos e a boca, conduzia uma baliza reluzente, para o exerc\u00edcio do seu cargo.<\/p>\n<p>A outra, com igual uniforme, era designada pelo nome de Gato da Miseric\u00f3rdia. Competia-lhe a fun\u00e7\u00e3o de dar o sinal preciso para o pr\u00e9stito parar ou prosseguir, servindo-se de atroadora matraca. Esta personagem, durante o itiner\u00e1rio da prociss\u00e3o, era constantemente perseguida por populares, apesar de estar garantida por pra\u00e7as de pol\u00edcia.<\/p>\n<p>O primeiro ponto visitado era a igreja de Nossa Senhora da Ajuda. Ali a imagem de Cristo, conduzida pelo respectivo escriv\u00e3o, era colocada numa banqueta, preparada para esse fim; o capel\u00e3o cantava tr\u00eas vezes o Senhor Deus, Miseric\u00f3rdia, findo o que retiravam-se todos, repetindo a mesma cerim\u00f4nia, em todas as igrejas do Curato da S\u00e9.<\/p>\n<p>Ao recolher a prociss\u00e3o, havia serm\u00e3o, pregado por um dos afamados oradores sagrados do tempo. Terminado este ato, os irm\u00e3os, convidados e pessoas gradas encaminhavam-se para a sala das sess\u00f5es, e, ali, lhes era oferecido pelo provedor, em exerc\u00edcio, farta mesa, com empadas, frigideiras, doces, pasteis e vinho velho do Porto.<\/p>\n<p>Na provedoria do conselheiro Manuel Pinto de Souza Dantas extinguiu-se a prociss\u00e3o de fogar\u00e9us, em consequ\u00eancia de grande conflito, que tomou propor\u00e7\u00f5es assustadoras, acontecendo serem alguns irm\u00e3os atingidos por pedras, atiradas no Gato da Miseric\u00f3rdia. Decorreu isso em 1874. Em substitui\u00e7\u00e3o, adotou-se a cerim\u00f4nia do Lavap\u00e9s, missa cantada, e prociss\u00e3o do Sant\u00edssimo no claustro.\u201d<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www2.senado.leg.br\/bdsf\/bitstream\/handle\/id\/774118\/000618878_Bahia_outrora_vultos_factos_populares_Querino_1916.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y\"><em>A Bahia de Outrora<\/em><\/a>, Manuel Querino.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reconhecida como patrim\u00f4nio cultural imaterial de dois estados, Bahia e Goi\u00e1s, a Prociss\u00e3o do Fogar\u00e9u \u00e9 tradicionalmente realizada na Quinta-Feira&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":329674,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-329673","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/329673","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=329673"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/329673\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/329674"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=329673"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=329673"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=329673"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}