{"id":316206,"date":"2026-03-28T07:00:00","date_gmt":"2026-03-28T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=316206"},"modified":"2026-03-28T07:00:00","modified_gmt":"2026-03-28T11:00:00","slug":"da-carta-aos-evangelicos-a-familia-em-conserva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=316206","title":{"rendered":"Da carta aos evang\u00e9licos \u00e0 fam\u00edlia em conserva"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/02\/16133533\/WhatsApp-Image-2026-02-16-at-13.34.06.jpg.webp\" \/><span>Alegoria de &#8220;fam\u00edlias em lata de conserva&#8221; da Acad\u00eamicos de Niter\u00f3i gerou rea\u00e7\u00f5es de conservadores. (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Sociais &#8211; X)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>H\u00e1 momentos em que um pa\u00eds se revela menos pelos seus programas oficiais do que pelas imagens que escolhe celebrar. A fala pode mentir. A propaganda pode recalibrar a mensagem. A nota p\u00fablica pode aparar arestas. Mas a imagem, quando emerge do inconsciente pol\u00edtico de um grupo, costuma dizer mais do que o texto cuidadosamente revisado pelo marketing. Foi exatamente isso que aconteceu no Brasil recente. O problema n\u00e3o \u00e9 apenas uma frase de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/lula\/\">Lula<\/a>, nem apenas um desfile de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/carnaval\/\">carnaval<\/a>. O problema \u00e9 a linha que une as duas coisas. Em 2022, a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/familia\/\">fam\u00edlia <\/a>apareceu como valor a ser cortejado. Em 2023, como discurso a ser combatido. Em 2026, como caricatura a ser ridicularizada.<\/p>\n<p>Vale a pena recordar o primeiro ponto dessa sequ\u00eancia. Durante a campanha de 2022, Lula e seu entorno compreenderam que n\u00e3o seria poss\u00edvel governar o Brasil real sem ao menos falar a linguagem moral do Brasil profundo. N\u00e3o por acaso, a campanha investiu no aceno \u00e0 fam\u00edlia e \u00e0 religiosidade. Em abril daquele ano, a pr\u00f3pria cobertura pol\u00edtica registrou a tentativa de \u201crevalorizar a fam\u00edlia\u201d, com Lula dizendo que era preciso fazer com que \u201cas fam\u00edlias passem a ter valor nesse pa\u00eds\u201d. Meses depois, na carta dirigida aos <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/evangelicos\/\">evang\u00e9licos<\/a>, o ent\u00e3o candidato prometeu respeitar integralmente a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/liberdade-religiosa\/\">liberdade religiosa<\/a>, afirmou que jamais fecharia igrejas, garantiu que n\u00e3o criaria obst\u00e1culos ao livre funcionamento dos templos e ainda assumiu o compromisso de \u201cfortalecer as fam\u00edlias\u201d, reconhecendo nelas um valor central de sua pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Esse esfor\u00e7o de aproxima\u00e7\u00e3o tinha uma raz\u00e3o simples: a esquerda brasileira sabia que, sem reduzir a desconfian\u00e7a de crist\u00e3os, conservadores, pais de fam\u00edlia e eleitores identificados com o patriotismo c\u00edvico, permaneceria confinada a uma bolha sociol\u00f3gica. O ponto \u00e9 que, passada a elei\u00e7\u00e3o, a m\u00e1scara caiu com rapidez desconcertante. Em junho de 2023, j\u00e1 na Presid\u00eancia, Lula afirmou no Foro de S\u00e3o Paulo: \u201cAqui no Brasil, n\u00f3s enfrentamos o discurso do costume, o discurso da fam\u00edlia, o discurso do patriotismo, ou seja, aqui n\u00f3s enfrentamos o discurso de tudo aquilo que a gente aprendeu historicamente a combater\u201d. A frase \u00e9 devastadora n\u00e3o apenas pelo conte\u00fado, mas pela franqueza. Ela funciona como uma esp\u00e9cie de confiss\u00e3o ideol\u00f3gica. O que, na campanha, era linguagem de sedu\u00e7\u00e3o eleitoral reaparece no governo como linguagem de guerra cultural.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A esquerda ainda imagina que fam\u00edlia, f\u00e9 e patriotismo s\u00e3o apenas slogans de campanha manipul\u00e1veis, e n\u00e3o realidades morais densas, v\u00ednculos concretos e lealdades existenciais<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 aqui que o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/cronicas-de-um-estado-laico\/ridicularizacao-evangelicos-carnaval-financiamento-publico\/\">carnaval de 2026 deixa de ser folclore e passa a ser sintoma<\/a>. A homenagem da Acad\u00eamicos de Niter\u00f3i a Lula n\u00e3o se limitou a exaltar a biografia do presidente. Ela tamb\u00e9m exp\u00f4s, em forma visual, quem seria o inimigo simb\u00f3lico do enredo. De um lado, Bolsonaro apareceu associado \u00e0 figura de um palha\u00e7o preso, com roupas listradas e tornozeleira eletr\u00f4nica. De outro, surgiu a ala dos \u201cneoconservadores em conserva\u201d, cuja pr\u00f3pria explica\u00e7\u00e3o p\u00fablica falava na \u201cdita fam\u00edlia tradicional\u201d, formada por homem, mulher e filhos, acondicionada numa lata em tom de deboche. O alvo, portanto, n\u00e3o era apenas um advers\u00e1rio partid\u00e1rio. O alvo era um universo moral inteiro: a fam\u00edlia tradicional, a sensibilidade crist\u00e3, o imagin\u00e1rio conservador, o brasileiro comum que ainda cr\u00ea que pai, m\u00e3e, filhos, f\u00e9 e p\u00e1tria n\u00e3o s\u00e3o palavras vergonhosas.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que tanta gente percebeu ali n\u00e3o uma ironia inofensiva, mas um esc\u00e1rnio dirigido. A OAB-RJ, de forma eloquente, repudiou o epis\u00f3dio por enxergar nele <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/intolerancia-religiosa\/\">intoler\u00e2ncia religiosa<\/a> e afronta \u00e0 liberdade de cren\u00e7a. E com raz\u00e3o. Porque o que estava em jogo n\u00e3o era meramente a liberdade art\u00edstica de uma escola de samba, mas a sele\u00e7\u00e3o de um objeto de ridiculariza\u00e7\u00e3o. Quando s\u00edmbolos, h\u00e1bitos, convic\u00e7\u00f5es e estruturas morais associados especialmente ao mundo <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/cristianismo\/\">crist\u00e3o <\/a>passam a ser retratados como atraso, caricatura ou material de esc\u00e1rnio, j\u00e1 n\u00e3o estamos apenas diante de uma diverg\u00eancia est\u00e9tica. Estamos diante de um gesto de deslegitima\u00e7\u00e3o cultural. Em linguagem simples: uma parcela expressiva do pa\u00eds foi transformada em caricatura para divertir a elite que se considera iluminada.<\/p>\n<p>Quem acompanha o debate p\u00fablico com um m\u00ednimo de honestidade intelectual percebe o padr\u00e3o. N\u00e3o se trata de um epis\u00f3dio isolado, de uma fala infeliz arrancada do contexto, nem de uma licen\u00e7a carnavalesca que tenha ido longe demais. Trata-se de uma gram\u00e1tica recorrente. Em per\u00edodo eleitoral, fala-se em di\u00e1logo, respeito, fam\u00edlia, f\u00e9, povo. Passado o risco das urnas, volta a carga sem\u00e2ntica antiga: fam\u00edlia vira pauta atrasada; patriotismo vira suspeita; <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/religiao\/\">religi\u00e3o <\/a>p\u00fablica vira inc\u00f4modo; convic\u00e7\u00f5es morais tradicionais viram material apto \u00e0 ridiculariza\u00e7\u00e3o. A transi\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre a mesma: da corte ao desprezo, da sedu\u00e7\u00e3o \u00e0 hostilidade, do pedido de confian\u00e7a \u00e0 exibi\u00e7\u00e3o p\u00fablica de desd\u00e9m.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Talvez o aspecto mais revelador de tudo isso seja o seguinte: a esquerda brasileira continua sem compreender por que fracassa reiteradamente quando tenta se aproximar do eleitorado evang\u00e9lico e do chamado Brasil profundo. E fracassa porque ainda parte de um erro de diagn\u00f3stico. Imagina que fam\u00edlia, f\u00e9 e patriotismo s\u00e3o apenas slogans de campanha manipul\u00e1veis, e n\u00e3o realidades morais densas, v\u00ednculos concretos e lealdades existenciais. Mas ningu\u00e9m suporta por muito tempo ser bajulado na campanha e ridicularizado na cultura. Ningu\u00e9m aceita serenamente que aquilo que lhe d\u00e1 identidade e sentido apare\u00e7a, no primeiro momento, como valor respeit\u00e1vel e, no instante seguinte, como objeto de combate hist\u00f3rico ou fantasia de carnaval.<\/p>\n<p>O ponto decisivo, portanto, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pol\u00edtico. \u00c9 civilizacional. Uma sociedade entra em zona de risco quando suas classes dirigentes j\u00e1 n\u00e3o conseguem distinguir entre cr\u00edtica leg\u00edtima e desprezo antropol\u00f3gico. A fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 uma lata. O patriotismo n\u00e3o \u00e9 patologia. A f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 um res\u00edduo folcl\u00f3rico que o <em>establishment<\/em> cultural tolera em privado, mas humilha em p\u00fablico. O Brasil real continua de p\u00e9, apesar do deboche. E talvez seja exatamente isso o que mais incomoda certos setores: descobrir, elei\u00e7\u00e3o ap\u00f3s elei\u00e7\u00e3o, que o povo que eles tratam como atraso ainda \u00e9 o povo que sustenta moralmente a na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No fim das contas, a sequ\u00eancia fala por si. Em 2022, pediram confian\u00e7a em nome da fam\u00edlia. Em 2023, confessaram que aprenderam historicamente a combat\u00ea-la. Em 2026, colocaram-na numa lata. H\u00e1, sim, um padr\u00e3o aqui. E o pa\u00eds fareja esse padr\u00e3o com rapidez cada vez maior. Quando a fam\u00edlia deixa de ser reconhecida como base da sociedade e passa a ser desenhada como objeto de zombaria, o problema j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 carnavalesco. \u00c9 pol\u00edtico, moral e profundamente revelador.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alegoria de &#8220;fam\u00edlias em lata de conserva&#8221; da Acad\u00eamicos de Niter\u00f3i gerou rea\u00e7\u00f5es de conservadores. 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