{"id":316204,"date":"2026-03-28T07:00:00","date_gmt":"2026-03-28T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=316204"},"modified":"2026-03-28T07:00:00","modified_gmt":"2026-03-28T11:00:00","slug":"ter-um-filho-hoje-quando-a-esperanca-vence-o-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=316204","title":{"rendered":"Ter um filho hoje: quando a esperan\u00e7a vence o medo"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Minha filha,<\/p>\n<p>Talvez voc\u00ea ainda seja muito jovem para entender tudo isso. Talvez, agora, tudo o que voc\u00ea queira seja correr, rir, fazer perguntas imposs\u00edveis e me pedir uma hist\u00f3ria para dormir. Mas, um dia, voc\u00ea ler\u00e1 estas linhas. E eu gostaria que voc\u00ea soubesse por que, para mim, o seu nascimento \u2014 e o de qualquer crian\u00e7a \u2014 \u00e9 t\u00e3o importante.<\/p>\n<p>J\u00e1 pensei muito sobre isso. No fim, as sociedades se revelam: voc\u00ea consegue saber quem elas s\u00e3o pela forma como tratam aqueles que est\u00e3o apenas come\u00e7ando a existir. Aqueles que n\u00e3o podem falar, se defender ou provar que \u201cs\u00e3o \u00fateis\u201d para alguma coisa. E tamb\u00e9m pela forma como falam deles.<\/p>\n<p>Vivemos numa era em que tudo \u00e9 medido. Avaliamos, calculamos e planejamos. E, quase sem perceber, come\u00e7amos a encarar o nascimento da mesma forma: como algo que precisa ser cuidadosamente orquestrado, autorizado ou evitado, se n\u00e3o se encaixar. Celebramos anivers\u00e1rios, sim. Mas nem sempre ficamos felizes quando nascem muitos filhos. Gostamos de hist\u00f3rias de come\u00e7os\u2026 desde que n\u00e3o compliquem demais as coisas.<\/p>\n<p>H\u00e1 um pensador franc\u00eas, Fabrice Hadjadj, que diz algo que me toca profundamente: nascer n\u00e3o \u00e9 apenas um fato biol\u00f3gico. \u00c9 chegar ao mundo sem ter feito nada para merecer. Sem curr\u00edculo, sem m\u00e9rito, sem qualifica\u00e7\u00f5es. Simplesmente existir. E isso \u00e9 perturbador.<\/p>\n<p>Porque, a\u00ed, a quest\u00e3o deixa de ser t\u00e9cnica ou m\u00e9dica e se torna algo muito mais inc\u00f4modo: \u00e9 bom que algu\u00e9m exista simplesmente por existir? Ou o seu direito \u00e0 vida depende de certas condi\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Durante s\u00e9culos, a vida era recebida. Era algo dado. Depois vinha o esfor\u00e7o para corresponder \u00e0s expectativas. Hoje, parece que a l\u00f3gica se inverteu: primeiro avaliamos e s\u00f3 depois deixamos ir. A tecnologia \u2014 que trouxe muitas coisas boas \u2014 tamb\u00e9m come\u00e7ou a filtrar. A decidir quais vidas parecem vi\u00e1veis e quais n\u00e3o. E faz isso silenciosamente. N\u00e3o por \u00f3dio, mas por efici\u00eancia. N\u00e3o por crueldade, mas por gest\u00e3o. \u00c9 por isso que \u00e9 t\u00e3o perturbador.<\/p>\n<p>Hadjadj diz algo provocativo:<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 que o aborto \u00e9 um direito, toda mulher que concorda em gerar uma vida em seu ventre \u00e9 uma Joana d\u2019Arc.\u201d<\/p>\n<p>Pode parecer exagerado. Mas aponta para algo real: num contexto em que impedir o nascimento \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel, permitir que algu\u00e9m nas\u00e7a come\u00e7a a parecer uma decis\u00e3o que deve ser respeitada. \u00c0s vezes, contra a corrente. \u00c0s vezes, em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>N\u00e3o porque ter um filho seja heroico em si, mas porque implica afirmar algo muito simples: que a vida n\u00e3o precisa ser justificada para come\u00e7ar. A t\u00e9cnica n\u00e3o \u00e9 o problema. O problema surge quando ela deixa de servir \u00e0 vida e passa a avali\u00e1-la. Quando deixa de se importar e come\u00e7a a decidir quem merece estar ali.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma palavra que raramente usamos: esperan\u00e7a. N\u00e3o se trata de ingenuidade, nem de achar que tudo vai dar certo. \u00c9 mais uma forma de permanecermos fi\u00e9is \u00e0 nossa humanidade, mesmo quando essa humanidade \u00e9 fr\u00e1gil, dependente ou desconfort\u00e1vel.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Defender a vida dos nascituros n\u00e3o \u00e9 olhar para o passado com nostalgia. \u00c9 lembrar algo fundamental: a dignidade n\u00e3o \u00e9 concedida por leis ou maiorias. Ela vem em primeiro lugar. A lei deveria reconhec\u00ea-la, n\u00e3o fabric\u00e1-la<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Quando voc\u00ea nasceu, n\u00e3o sab\u00edamos nada sobre o que voc\u00ea se tornaria. Nenhum talento, nenhuma conquista, nenhum plano. E n\u00e3o importava. Voc\u00ea era valiosa simplesmente por existir. \u00c9 simples assim. Talvez seja por isso que, hoje, o nascimento seja mais uma vez um marco importante. N\u00e3o porque garanta a felicidade, mas porque nos lembra de algo fundamental: a vida n\u00e3o \u00e9 explicada. Ela \u00e9 recebida.<\/p>\n<p>E aceitar que algu\u00e9m nasce \u2014 sem garantias, sem c\u00e1lculos perfeitos \u2014 ainda pode ser um ato de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Com todo o meu amor,<\/p>\n<p>papai.<\/p>\n<p><strong>\u00a92026 Revista Suroeste. Publicado com permiss\u00e3o. Original em espanhol: <a href=\"https:\/\/revistasuroeste.cl\/2026\/03\/23\/contra-el-miedo-a-que-alguien-nazca\/\">Contra el miedo a que alguien nazca<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha filha, Talvez voc\u00ea ainda seja muito jovem para entender tudo isso. 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