{"id":315236,"date":"2026-03-27T14:26:24","date_gmt":"2026-03-27T18:26:24","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=315236"},"modified":"2026-03-27T14:26:24","modified_gmt":"2026-03-27T18:26:24","slug":"polo-centenario-de-moveis-de-sc-quer-selo-internacional-para-distinguir-madeira-macica-de-mdf-e-paineis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=315236","title":{"rendered":"Polo centen\u00e1rio de m\u00f3veis de SC quer selo internacional para distinguir madeira maci\u00e7a de MDF e pain\u00e9is"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A hist\u00f3ria de um polo industrial raramente se escreve apenas com n\u00fameros de exporta\u00e7\u00e3o ou metros quadrados de galp\u00e3o. Em <strong>S\u00e3o Bento do Sul<\/strong>, no Planalto Norte de Santa Catarina, ela foi talhada em fibras de pinus e imbuia, lixada por gera\u00e7\u00f5es de imigrantes europeus e seus descendentes. Nesta jornada de mais de 100 anos, um novo cap\u00edtulo se apresenta para legitimar um legado na produ\u00e7\u00e3o de m\u00f3veis de madeira maci\u00e7a.<\/p>\n<p>O Sebrae vem estudando, junto aos empres\u00e1rios da regi\u00e3o, a possibilidade de conquistar a <strong>certifica\u00e7\u00e3o de Indica\u00e7\u00e3o Geogr\u00e1fica (IG)<\/strong> para o produto feito nas f\u00e1bricas de S\u00e3o Bento do Sul, Campo Alegre e Rio Negrinho, cidades formadoras do polo centen\u00e1rio \u2014 esse processo come\u00e7ou em 2019. Embora reconhecidas nacional e internacionalmente pela qualidade dos m\u00f3veis, as empresas da regi\u00e3o ainda n\u00e3o haviam sido submetidas aos crit\u00e9rios formais de certifica\u00e7\u00e3o junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi).<\/p>\n<p>A iniciativa, conduzida pelo Sebrae, envolve sindicatos empresariais e a Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias de Santa Catarina (Fiesc). Segundo o gerente regional Luiz Carlos da Silva, o trabalho passa por sensibilizar os industriais locais sobre a import\u00e2ncia da Indica\u00e7\u00e3o Geogr\u00e1fica e dar condi\u00e7\u00f5es para que eles possam se adequar para usarem a certifica\u00e7\u00e3o como diferencial, principalmente visando o mercado externo.<\/p>\n<p>De acordo com o cronograma, o dossi\u00ea com evid\u00eancias hist\u00f3ricas e t\u00e9cnicas deve ser encaminhado ao Inpi at\u00e9 novembro de 2026, e a expectativa do setor \u00e9 ter a confirma\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o at\u00e9 o final do ano que vem. O Sebrae mapeou <strong>100 empresas na regi\u00e3o<\/strong> que estariam habilitadas para a certifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>O saber fazer: das barricas para erva-mate \u00e0 mob\u00edlia para exporta\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o com a madeira remonta ao s\u00e9culo XIX, quando a imigra\u00e7\u00e3o europeia, composta majoritariamente por alem\u00e3es, poloneses e tchecos, encontrou no Planalto Norte um vasto estoque de florestas nativas. Inicialmente, o of\u00edcio da marcenaria era uma ferramenta de sobreviv\u00eancia, servindo para a constru\u00e7\u00e3o das moradias e dos itens b\u00e1sicos de subsist\u00eancia.<\/p>\n<p>A industrializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o come\u00e7ou diretamente para a produ\u00e7\u00e3o de m\u00f3veis, mas pela necessidade de escoar a produ\u00e7\u00e3o de erva-mate por meio de barricas. Foi nesse processo que as t\u00e9cnicas de trabalho com a madeira come\u00e7aram a ser aprimoradas at\u00e9 a funda\u00e7\u00e3o das primeiras serrarias e f\u00e1bricas da regi\u00e3o na virada para o s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Nos anos seguintes, o que era utilit\u00e1rio ganhou contornos de arte e <em>design<\/em>. Pe\u00e7as inspiradas no acervo do Museu Imperial, no Rio de Janeiro passaram a ser replicadas na regi\u00e3o, utilizando a <strong>imbuia nativa<\/strong>, madeira que se tornou sin\u00f4nimo de alta qualidade e durabilidade.<\/p>\n<p>O conceito de <strong>&#8220;m\u00f3veis para durar a vida inteira&#8221;<\/strong> consolidou-se, tendo como um dos seus maiores expoentes a M\u00f3veis Cimo (que encerrou atividades na d\u00e9cada de 1980). A f\u00e1brica, que chegou a ser uma das maiores do estado e operava como uma engrenagem central da economia local, \u00e9 simbolizada hoje por sua chamin\u00e9 remanescente de 45 metros, localizada em S\u00e3o Bento do Sul.<\/p>\n<p>Esse passado artesanal e industrial forneceu a base t\u00e9cnica que permitiu ao polo evoluir para a exporta\u00e7\u00e3o em larga escala, a partir dos anos 1980, sem abandonar a ess\u00eancia da madeira maci\u00e7a, mesmo com a transi\u00e7\u00e3o para o pinus reflorestado por quest\u00f5es ambientais e legislativas. De acordo com dados do Sindicato das Ind\u00fastrias da Constru\u00e7\u00e3o e do Mobili\u00e1rio de S\u00e3o Bento do Sul (Sindusmobil), a venda para exporta\u00e7\u00e3o de m\u00f3veis em Santa Catarina, no ano passado, foi de R$ 240 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>&#8220;Regra dos 95%&#8221;: diferencial t\u00e9cnico separa o polo catarinense<\/h2>\n<p>O gerente regional do Sebrae explica que o hist\u00f3rico foi fundamental para o diagn\u00f3stico que deu in\u00edcio ao processo da IG. Segundo ele, o estudo de viabilidade apontou que a regi\u00e3o preenchia 95% dos quesitos necess\u00e1rios para o reconhecimento de proced\u00eancia. A avalia\u00e7\u00e3o levou em conta crit\u00e9rios como territorialidade, m\u00e9todo de produ\u00e7\u00e3o e governan\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;Trata-se de dar nome e selo a um modelo produtivo que preserva uma l\u00f3gica pr\u00f3pria, distinta do padr\u00e3o adotado por grande parte do mercado nacional&#8221;, explica o gestor. Enquanto o cen\u00e1rio moveleiro no Brasil, historicamente, passou a adotar os pain\u00e9is de madeira processada, como o MDF e o MDP, como base de sua produ\u00e7\u00e3o, o polo catarinense se manteve fiel ao longo dos anos \u00e0 madeira em sua forma s\u00f3lida.<\/p>\n<p>De acordo com Silva, cerca de 95% da produ\u00e7\u00e3o de outros polos brasileiros utilizam chapas como mat\u00e9ria-prima principal. No Planalto Norte catarinense, os n\u00fameros mostram o inverso: a madeira maci\u00e7a comp\u00f5e 95% do que \u00e9 fabricado, em um encadeamento produtivo que envolve desde a produ\u00e7\u00e3o renov\u00e1vel da \u00e1rvore at\u00e9 o <em>design<\/em> final.<\/p>\n<p>&#8220;Tem muita gente no Brasil que vende m\u00f3vel enganando o consumidor, dizendo que \u00e9 de S\u00e3o Bento do Sul, porque \u00e9 uma regi\u00e3o famosa pela qualidade. Com a Indica\u00e7\u00e3o Geogr\u00e1fica, o mercado vai ter a garantia de que o produto \u00e9 realmente de origem e tem madeira maci\u00e7a empregada&#8221;, comenta.<\/p>\n<p>Para o gestor, a IG tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de traduzir essa notoriedade hist\u00f3rica em um ativo de mercado que seja facilmente identificado pelo comprador franc\u00eas, espanhol ou alem\u00e3o, que j\u00e1 possui o h\u00e1bito de consumir produtos certificados.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Indica\u00e7\u00e3o Geogr\u00e1fica tem for\u00e7a nas negocia\u00e7\u00f5es internacionais<\/h2>\n<p>A escala de produ\u00e7\u00e3o do polo industrial demonstra uma transi\u00e7\u00e3o bem-sucedida para as demandas contempor\u00e2neas de <strong>volume e competitividade<\/strong>. Diretor da M\u00f3veis Katzer, Anor Kratzer conta que sua empresa, nascida nos anos 1970 com a fabrica\u00e7\u00e3o de parqu\u00eas de madeira nativa, precisou se reinventar ao longo das d\u00e9cadas para se manter relevante.<\/p>\n<p>Hoje, a f\u00e1brica \u00e9 focada em camas e beliches de madeira de pinus e j\u00e1 figurou no topo do <em>ranking<\/em> das exportadoras de m\u00f3veis do pa\u00eds, em 2016. A produ\u00e7\u00e3o mensal, que chega a 32 mil unidades, abastece mercados exigentes como o europeu e o norte-americano, o que imp\u00f5e um padr\u00e3o de qualidade que envolve testes rigorosos e certifica\u00e7\u00f5es de sustentabilidade.<\/p>\n<p>A depend\u00eancia do mercado externo, entretanto, traz desafios de natureza geopol\u00edtica e econ\u00f4mica que testam a resili\u00eancia do setor. A partir da metade do ano passado, o polo sentiu o impacto de barreiras tarif\u00e1rias nos Estados Unidos, o que reduziu drasticamente o volume de vendas para o pa\u00eds, principal comprador individual da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Somente na M\u00f3veis Katzer, a participa\u00e7\u00e3o norte-americana nas vendas caiu de 24% para 5%. &#8220;N\u00f3s t\u00ednhamos um planejamento de aumentar o volume para os Estados Unidos em 2025, mas veio o tarifa\u00e7o e complicou bastante&#8221;, lembra Anor.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a dar sinais de melhora apenas em fevereiro deste ano, com decis\u00f5es judiciais nos EUA que aliviaram as taxas e permitiram a retomada de grandes contratos, como com a rede <em>Walmart<\/em>. \u00c9 nesse contexto de oscila\u00e7\u00f5es que Kratzer acredita que a certifica\u00e7\u00e3o de Indica\u00e7\u00e3o Geogr\u00e1fica ganha relev\u00e2ncia como uma ferramenta de diferencia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;A IG vai contribuir para o aumento da nossa reputa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o d\u00e1 para apostar que isso vai trazer um retorno gigante em valores imediatos, mas sim na propuls\u00e3o de demonstrar todo o valor que nossa regi\u00e3o tem&#8221;, comenta o empres\u00e1rio.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Sustentabilidade: do manejo \u00e0 economia circular<\/h2>\n<p>Um dos crit\u00e9rios para a Indica\u00e7\u00e3o Geogr\u00e1fica \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre a produtividade e a preserva\u00e7\u00e3o ambiental, um tema sens\u00edvel no com\u00e9rcio global. No caso da produ\u00e7\u00e3o no Planalto Norte de Santa Catarina, a madeira prov\u00e9m de \u00e1reas de manejo certificado, garantindo que o ciclo de plantio e colheita seja sustent\u00e1vel e rastre\u00e1vel desde a floresta at\u00e9 o m\u00f3vel acabado.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um neg\u00f3cio bastante tradicional, mas tamb\u00e9m \u00e9 moderno. \u00c9 voltado para uma produ\u00e7\u00e3o de alta qualidade, com o foco tamb\u00e9m na sustentabilidade&#8221;, explica o presidente do Sindusmobil, Luiz Carlos Pimentel.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/03\/06133241\/Sindusmobil.jpeg.webp\" \/><i>Setor moveleiro aposta na certifica\u00e7\u00e3o para despertar o senso de pertencimento nos jovens da regi\u00e3o para aumentar m\u00e3o de obra dispon\u00edvel. (Foto: Sindusmobil\/Divulga\u00e7\u00e3o)<\/i><\/p>\n<p>Al\u00e9m da origem da mat\u00e9ria-prima, o m\u00f3vel de madeira maci\u00e7a dialoga com os conceitos modernos de economia circular. Diferente dos pain\u00e9is de madeira processada, que dependem de resinas qu\u00edmicas para sua sustenta\u00e7\u00e3o, o m\u00f3vel de madeira maci\u00e7a \u00e9 composto por fibras naturais. Isso permite que a pe\u00e7a seja lixada, repintada e renovada ao longo do tempo.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Identidade e o novo turismo industrial com o &#8220;efeito Corup\u00e1&#8221;<\/h2>\n<p>O exemplo mais emblem\u00e1tico do potencial de uma IG para a regi\u00e3o vem de uma cidade vizinha. Silva, do Sebrae, utiliza com frequ\u00eancia o caso da <strong>banana de Corup\u00e1<\/strong> (SC) para ilustrar como uma certifica\u00e7\u00e3o de proced\u00eancia pode alterar a fisionomia de um territ\u00f3rio. Antes da conquista do selo de &#8220;banana mais doce do Brasil&#8221;, o produtor local muitas vezes carregava um certo estigma em rela\u00e7\u00e3o ao seu of\u00edcio.<\/p>\n<p>A IG mudou essa percep\u00e7\u00e3o interna e externa, segundo o gerente do Sebrae. Hoje, a fruta \u00e9 motivo de orgulho, a iconografia da bananeira est\u00e1 presente na ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica e a cidade viu surgir um novo fluxo tur\u00edstico baseado na gastronomia e na visita\u00e7\u00e3o \u00e0s propriedades.<\/p>\n<p>Para S\u00e3o Bento do Sul, Rio Negrinho e Campo Alegre, a expectativa \u00e9 que o selo do m\u00f3vel gere um impacto similar. Campo Alegre, por exemplo, j\u00e1 observa um crescimento no turismo de natureza e ch\u00e1caras.<\/p>\n<p>Para Silva, a integra\u00e7\u00e3o com o roteiro moveleiro poderia consolidar a regi\u00e3o como um polo de lazer e neg\u00f3cios. &#8220;A partir do momento em que o mercado sabe disso, quanto n\u00e3o vai gerar de turismo? As pessoas v\u00e3o incorporar o valor desse diferencial&#8221;, projeta.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>O desafio da sucess\u00e3o: atrair jovens para a nova marcenaria<\/h2>\n<p>Uma das maiores dores do setor reside na m\u00e3o de obra e na falta de perspectiva na renova\u00e7\u00e3o das equipes. Anor Kratzer \u00e9 enf\u00e1tico ao apontar que o capital humano tornou-se um dos pontos de maior impacto para o crescimento e futuro das empresas.<\/p>\n<p>&#8220;Os jovens est\u00e3o partindo para estudar em outras \u00e1reas, trabalhar com tecnologia, e estamos com dificuldade de repor&#8221;, afirma. Para reverter esse quadro, programas do Sindusmobil trabalham na base, atuando desde o ensino fundamental para demonstrar que a produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea pouco lembra os galp\u00f5es in\u00f3spitos de d\u00e9cadas atr\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje, o setor \u00e9 movido por automa\u00e7\u00e3o, rob\u00f3tica e <em>softwares<\/em> de<em> design<\/em> de alta complexidade. Queremos aproximar os jovens deste universo, com visitas \u00e0s f\u00e1bricas, exibi\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos e oficinas&#8221;, comenta Pimentel.<\/p>\n<p>Para o presidente do sindicato, a Indica\u00e7\u00e3o Geogr\u00e1fica vai refor\u00e7ar o resgate do senso de pertencimento, garantindo que as novas gera\u00e7\u00f5es tenham orgulho de carregar o legado de um dos polos moveleiros mais respeitados do mundo.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria de um polo industrial raramente se escreve apenas com n\u00fameros de exporta\u00e7\u00e3o ou metros quadrados de galp\u00e3o. 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