{"id":314850,"date":"2026-03-27T09:11:40","date_gmt":"2026-03-27T13:11:40","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=314850"},"modified":"2026-03-27T09:11:40","modified_gmt":"2026-03-27T13:11:40","slug":"quando-inclusao-vira-sinonimo-de-exclusao-o-caso-da-industria-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=314850","title":{"rendered":"Quando inclus\u00e3o vira sin\u00f4nimo de exclus\u00e3o: o caso da ind\u00fastria cultural"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Dois mil e quatorze, eis o ano em que as engrenagens da produ\u00e7\u00e3o cultural come\u00e7aram a mudar. Nos est\u00fadios, nas reda\u00e7\u00f5es e nos departamentos de RH de grandes empresas criativas, a diversidade passou a se tornar um crit\u00e9rio concreto de contrata\u00e7\u00e3o, promo\u00e7\u00e3o e visibilidade.<\/p>\n<p>Surgiu o DEI, sigla em ingl\u00eas para Diversidade, Equidade e Inclus\u00e3o, que formalizou conceitos e pr\u00e1ticas e ajudou a consolidar uma nova l\u00f3gica institucional. Para os cr\u00edticos, por\u00e9m, n\u00e3o se tratava apenas de ampliar vozes ou corrigir desigualdades hist\u00f3ricas, mas de transformar identidade em filtro pr\u00e1tico de acesso ao mercado de trabalho, por vezes o \u00fanico, o que faria da pr\u00e1tica o contr\u00e1rio do que se prega em teoria.<\/p>\n<p>Mais de dez anos depois, n\u00e3o faltam exemplos de como a suposta equidade tamb\u00e9m pode operar como instrumento de injusti\u00e7a, tornando a diversidade seletiva e criando novas formas de exclus\u00e3o. E isso aparece com nitidez no texto de Jacob Savage, <a href=\"https:\/\/www.compactmag.com\/article\/the-lost-generation\/\">publicado<\/a> na revista Compact.<\/p>\n<h2>I &#8211; A Mudan\u00e7a em N\u00fameros<\/h2>\n<p>Roteirista em Los Angeles, Savage parte da pr\u00f3pria trajet\u00f3ria para sustentar que o mercado deixou de oferecer espa\u00e7o justamente quando a diversidade se tornou pol\u00edtica institucional. Segundo seu relato, o problema n\u00e3o estava em falta de experi\u00eancia ou em aus\u00eancia de projetos, mas em uma nova l\u00f3gica de sele\u00e7\u00e3o que passou a privilegiar perfis identit\u00e1rios espec\u00edficos. Em salas de roteiro, diz ele, ser homem branco jovem deixou de ser uma condi\u00e7\u00e3o neutra e passou a ser visto como obst\u00e1culo.<\/p>\n<p>O ponto mais forte de seu texto est\u00e1 justamente a\u00ed: Savage mostra que n\u00e3o se trata apenas de uma percep\u00e7\u00e3o isolada ou de ressentimento pessoal, mas de uma reordena\u00e7\u00e3o mensur\u00e1vel do sistema. Para isso, recorre a dados sobre composi\u00e7\u00e3o de equipes, vagas de entrada e programas de forma\u00e7\u00e3o. Na televis\u00e3o, afirma que homens brancos ocupavam 48% das vagas iniciais de roteiristas em 2011; em 2024, esse percentual teria ca\u00eddo para 11,9%.<\/p>\n<p>A estat\u00edstica indica uma mudan\u00e7a dr\u00e1stica dentro de um setor espec\u00edfico, porque a popula\u00e7\u00e3o branca n\u00e3o hisp\u00e2nica nos Estados Unidos, conforme estimativa de 2024, realizada pelo U.S. Census Bureau, \u00e9 cerca de 56,3%. Ou seja: o recorte do mercado de roteiristas est\u00e1 muito abaixo da composi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica geral do pa\u00eds. Em 2011, o n\u00famero estava pr\u00f3ximo da realidade total do pa\u00eds. Como chamar, ent\u00e3o, de inclus\u00e3o o que parece ser mais uma exclus\u00e3o?<\/p>\n<p>Segundo Savage, por\u00e9m, o efeito dessa exclus\u00e3o n\u00e3o foi homog\u00eaneo. Os mais velhos, j\u00e1 instalados em posi\u00e7\u00f5es de comando, continuaram em grande medida protegidos. Foram os mais jovens, em especial os <em>millennials<\/em> que ainda buscavam espa\u00e7o, que foram mais afetados, sequer sendo admitidos no meio. N\u00e3o se tratou, portanto, de ampliar o acesso a essas institui\u00e7\u00f5es, mas de redefinir quem consegue entrar, subir e permanecer. A tese, assim, \u00e9 menos sobre derrotas individuais ou grupais do que sobre uma mudan\u00e7a de regime sociocultural.<\/p>\n<h2><strong>II &#8211; E no Brasil?<\/strong><\/h2>\n<p>No Brasil, essa mesma l\u00f3gica aparece em um registro mais pessoal e menos estat\u00edstico, mas n\u00e3o menos revelador. O roteirista e escritor Fabio Danesi Rossi, motivado pelo texto de Savage, <a href=\"https:\/\/substack.com\/inbox\/post\/182208325\">relatou em seu Substack<\/a> uma experi\u00eancia semelhante no mercado brasileiro. Fabio n\u00e3o \u00e9 um nome menor no meio: concorreu duas vezes ao Emmy, ganhou o APCA, foi um dos principais nomes da HBO Latin America por muitos anos e criou a primeira s\u00e9rie a ganhar remake nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Ele descreve uma mudan\u00e7a de ambiente que se materializa na pr\u00e1tica: decis\u00f5es de contrata\u00e7\u00e3o, composi\u00e7\u00e3o de equipes, oportunidades que deixam de chegar e nomes que passam a ser considerados menos priorit\u00e1rios. A diferen\u00e7a \u00e9 de escala e de linguagem, n\u00e3o de estrutura.<\/p>\n<p>Um dos relatos \u00e9 particularmente eloquente. Segundo Fabio, a Netflix teria aceitado um projeto apresentado por sua equipe para cria\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie, mas esbarrou numa exig\u00eancia expl\u00edcita: a sala de roteiro n\u00e3o poderia ser composta apenas por homens brancos. Na pr\u00e1tica, isso significaria demitir algu\u00e9m de sua equipe para incluir um desconhecido para que o projeto pudesse avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Em outro caso, o tamb\u00e9m escritor Alexandre Soares Silva, que era da equipe de Fabio Danesi Rossi, confirmou que, para conseguirem aprova\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes j\u00e1 inclu\u00edam de sa\u00edda temas identit\u00e1rios que imaginavam ser bem recebidos. Ainda assim, n\u00e3o obtinham o espa\u00e7o esperado. Ambos s\u00e3o homens brancos.<\/p>\n<p>O quadro que se formou \u00e9 o de um mercado em que, em nome da diversidade, o espa\u00e7o para certos perfis encolheu de forma vis\u00edvel, especialmente para homens brancos. Nesse contexto, o perfil identit\u00e1rio passou a pesar mais do que a trajet\u00f3ria e at\u00e9 mais do que a pr\u00f3pria qualidade do trabalho.<\/p>\n<h2><strong>III &#8211; O p\u00fablico comprou a ideia?<\/strong><\/h2>\n<p>A pergunta que fica \u00e9 se esse novo regime cultural entregou o que prometia. Reparou supostas injusti\u00e7as hist\u00f3ricas? Ou apenas trocou um tipo de exclus\u00e3o por outro? Melhorou a qualidade das obras? Ampliou de fato o alcance do que se produz?<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico sugere que a resposta n\u00e3o \u00e9 a que os promotores da mudan\u00e7a esperavam. Os fracassos recentes da Disney, com a empresa recalibrando os roteiros de futuras obras para ser menos identit\u00e1rio j\u00e1 bastaria como resposta. Somadas \u00e0s retalia\u00e7\u00f5es sofridas por marcas relevantes como Bud Light e Jaguar, cujas campanhas publicit\u00e1rias apostaram forte em f\u00f3rmulas identit\u00e1rias, temos um quadro que parece mostrar que h\u00e1 n\u00e3o apenas um limite para a aceita\u00e7\u00e3o de pautas impostas de cima para baixo, mas tamb\u00e9m que a insist\u00eancia provocativa n\u00e3o gera identifica\u00e7\u00e3o, mas rejei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Seria sinal que este novo regime n\u00e3o se sustentou e entrou em decl\u00ednio? Perguntei a Fabio Danesi Rossi, que acha que at\u00e9 pode ter diminu\u00eddo a for\u00e7a, mas ainda persiste. J\u00e1 Alexandre Soares Silva considera que continua a mesma coisa e vai al\u00e9m, dizendo que mesmo que esse regime acabe no mundo, no Brasil ser\u00e1 o \u00faltimo lugar em que isso acontecer\u00e1. Creio que tem raz\u00e3o. At\u00e9 porque, como bem dizia Mill\u00f4r Fernandes: \u201cNo Brasil, quando uma ideia fica velha, ela vem morar aqui\u201d.<\/p>\n<p>Que aprendamos a li\u00e7\u00e3o o quanto antes: a inclus\u00e3o real n\u00e3o se imp\u00f5e de cima para baixo. Ela nasce quando se abre espa\u00e7o, n\u00e3o quando se fecha porta alguma.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois mil e quatorze, eis o ano em que as engrenagens da produ\u00e7\u00e3o cultural come\u00e7aram a mudar. 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