{"id":313085,"date":"2026-03-26T13:54:30","date_gmt":"2026-03-26T17:54:30","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=313085"},"modified":"2026-03-26T13:54:30","modified_gmt":"2026-03-26T17:54:30","slug":"entre-washington-e-pequim-a-america-latina-escolhe-mal-quando-acha-que-precisa-escolher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=313085","title":{"rendered":"Entre Washington e Pequim, a Am\u00e9rica Latina escolhe mal quando acha que precisa escolher"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/03\/26145212\/81635ff7-d71e-40a1-9fed-d6652ebca2f9_42f7586c.jpg.webp\" \/><span>O Brasil est\u00e1, aos poucos, se oferecendo como plataforma de proje\u00e7\u00e3o chinesa na Am\u00e9rica do Sul. (Foto: Tingshu Wang\/EFE\/EPA)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Acabo de voltar de Lima, a capital do Peru, onde participei de uma confer\u00eancia com empres\u00e1rios e acad\u00eamicos locais sobre um dos temas mais importantes para o futuro da Am\u00e9rica Latina: como nossos pa\u00edses devem se posicionar diante da disputa entre China e Estados Unidos. A pergunta apareceu de v\u00e1rias formas, com diferentes tons e preocupa\u00e7\u00f5es, mas sempre girando em torno do mesmo dilema: \u00e9 preciso escolher um lado? Minha resposta foi simples: a pergunta est\u00e1 errada.<\/p>\n<p>Existe um falso dilema que se espalhou pela regi\u00e3o. O primeiro \u00e9 o de que seria preciso escolher entre China e Estados Unidos, como se a regi\u00e3o fosse obrigada a fazer parte de uma torcida. O segundo, igualmente enganoso, \u00e9 o de que bastaria jogar com os dois lados ao mesmo tempo para extrair vantagens infinitas, sem custo estrat\u00e9gico algum.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o ponto que boa parte da regi\u00e3o ainda n\u00e3o compreendeu, ou finge n\u00e3o compreender. N\u00e3o se trata de defender o rompimento de rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas com a China. Isso seria infantil, irreal e contraproducente. A China \u00e9 um ator central no com\u00e9rcio global e continuar\u00e1 sendo. Diversos pa\u00edses mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es intensas com os chineses sem, por isso, abrir m\u00e3o de sua autonomia estrat\u00e9gica ou de seu v\u00ednculo pol\u00edtico com o Ocidente. Neg\u00f3cios s\u00e3o neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>O problema come\u00e7a quando neg\u00f3cios deixam de ser neg\u00f3cios e passam a ser instrumentos de alinhamento pol\u00edtico, depend\u00eancia tecnol\u00f3gica, vulnerabilidade institucional e captura estrat\u00e9gica. \u00c9 a\u00ed que a discuss\u00e3o muda de natureza. E \u00e9 exatamente a\u00ed que o Brasil est\u00e1 errando.<\/p>\n<p>Sob Lula, o pa\u00eds deixou de tratar sua rela\u00e7\u00e3o com a China como uma agenda comercial importante para trat\u00e1-la como uma esp\u00e9cie de projeto pol\u00edtico. O governo petista n\u00e3o esconde sua disposi\u00e7\u00e3o de aproximar o Brasil de Pequim em nome de uma vis\u00e3o ideol\u00f3gica de mundo, marcada por antiamericanismo, terceiromundismo reciclado e nostalgia de uma pol\u00edtica externa que confunde pretens\u00e3o ret\u00f3rica com grandeza real.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O resultado \u00e9 grave. O Brasil n\u00e3o est\u00e1 apenas fortalecendo la\u00e7os econ\u00f4micos com a China. Est\u00e1, aos poucos, se oferecendo como plataforma de proje\u00e7\u00e3o chinesa na Am\u00e9rica do Sul<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Est\u00e1 permitindo que a l\u00f3gica estrat\u00e9gica de Pequim encontre em Bras\u00edlia n\u00e3o um parceiro soberano e cauteloso, mas um governo simp\u00e1tico, dispon\u00edvel e politicamente alinhado. Isso n\u00e3o \u00e9 pragmatismo. Isso \u00e9 subordina\u00e7\u00e3o disfar\u00e7ada de autonomia.<\/p>\n<p>Em nome da soberania, Lula conduz o Brasil a uma posi\u00e7\u00e3o cada vez menos soberana. Ao transformar a China em eixo preferencial de sua pol\u00edtica externa, o governo renuncia \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica de equil\u00edbrio, abandona a prud\u00eancia estrat\u00e9gica e submete o interesse nacional \u00e0 ideologia de um grupo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Os valores do Brasil n\u00e3o se confundem com os valores do PT. Os interesses permanentes do Estado brasileiro n\u00e3o podem ser sequestrados por um projeto partid\u00e1rio de poder, muito menos por uma vis\u00e3o de mundo moldada pelo ressentimento antiamericano da esquerda latino-americana.<\/p>\n<p>Sob a \u00f3tica dos Estados Unidos, \u00e9 mais do que leg\u00edtimo interpretar esse movimento como hostil. Nenhuma grande pot\u00eancia assiste com indiferen\u00e7a \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o do maior pa\u00eds da Am\u00e9rica do Sul em ponto de apoio para a influ\u00eancia pol\u00edtica, econ\u00f4mica e tecnol\u00f3gica de seu principal rival estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de suscetibilidade diplom\u00e1tica. \u00c9 l\u00f3gica de poder. E o pr\u00f3prio lulopetismo sabe disso. Basta lembrar o papel de Celso Amorim, o superchanceler do Brasil, sempre pronto a relativizar agress\u00f5es alheias em nome dos chamados \u201cinteresses estrat\u00e9gicos\u201d do \u201csul global\u201d.<\/p>\n<p>Foi exatamente esse racioc\u00ednio que apareceu quando Amorim e outros porta-vozes do lulismo sugeriram que era preciso \u201centender\u201d a R\u00fassia diante da Ucr\u00e2nia e da OTAN. Segundo essa l\u00f3gica, os interesses existenciais de Moscou justificariam, ou ao menos explicariam, de forma compreens\u00edvel, a brutalidade de uma guerra de agress\u00e3o. O simples fato de a Ucr\u00e2nia desejar aproximar-se da Uni\u00e3o Europeia e pleitear ingresso na OTAN j\u00e1 teria sido suficiente, nessa vis\u00e3o, para tornar aceit\u00e1vel a paranoia imperial do Kremlin.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Pois bem: apliquemos ao caso latino-americano a mesma r\u00e9gua moral e estrat\u00e9gica usada por Amorim para relativizar Putin. Estaria o Brasil amea\u00e7ando os Estados Unidos ao se converter deliberadamente em plataforma para interesses estrat\u00e9gicos chineses no hemisf\u00e9rio? Estaria ampliando um quadro de hostilidade ao abrir espa\u00e7o, direta ou indiretamente, para a presen\u00e7a pol\u00edtica, tecnol\u00f3gica e at\u00e9 militar de China, R\u00fassia e Ir\u00e3 na regi\u00e3o?<\/p>\n<p>Se a rea\u00e7\u00e3o russa \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o ocidental da Ucr\u00e2nia foi tratada pelo lulopetismo como algo \u201ccompreens\u00edvel\u201d, por que a rea\u00e7\u00e3o americana \u00e0 infiltra\u00e7\u00e3o de pot\u00eancias advers\u00e1rias em sua \u00e1rea imediata de seguran\u00e7a seria apresentada como \u201cviola\u00e7\u00e3o de soberania\u201d? Por que, quando Moscou invade, fala-se em contexto; mas, quando Washington reage politicamente, fala-se em imperialismo?<\/p>\n<p>O problema do Brasil de Lula \u00e9 justamente esse: exigir para seus aliados ideol\u00f3gicos uma compreens\u00e3o estrat\u00e9gica que se recusa terminantemente a conceder aos Estados Unidos. N\u00e3o h\u00e1 a\u00ed coer\u00eancia diplom\u00e1tica, apenas milit\u00e2ncia travestida de pol\u00edtica externa. E \u00e9 essa milit\u00e2ncia que vai empurrando o Brasil, n\u00e3o para uma posi\u00e7\u00e3o de autonomia, mas para a condi\u00e7\u00e3o humilhante de instrumento de interesses extrarregionais.<\/p>\n<p>Outros pa\u00edses da regi\u00e3o parecem entender melhor essa diferen\u00e7a. Fazem neg\u00f3cios com a China, exportam, importam, negociam investimentos e mant\u00eam canais abertos, mas sem converter seus pa\u00edses em instrumentos de uma agenda antiamericana. Sabem que \u00e9 poss\u00edvel extrair vantagens econ\u00f4micas de rela\u00e7\u00f5es com Pequim sem transformar essa rela\u00e7\u00e3o em compromisso ideol\u00f3gico, depend\u00eancia estrutural ou parceria estrat\u00e9gica contra o Ocidente.<\/p>\n<p>Foi isso que procurei explicar em Lima. A verdadeira escolha n\u00e3o est\u00e1 entre Estados Unidos e China, como se os pa\u00edses latino-americanos tivessem de vestir uma camisa e entrar em campo.<\/p>\n<p>A escolha correta \u00e9 outra: como lidar com cada lado sem perder a pr\u00f3pria liberdade de decis\u00e3o. Como fazer com\u00e9rcio com a China sem se ajoelhar diante dela. E como manter rela\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas com os Estados Unidos sem cair em ret\u00f3ricas infantis de submiss\u00e3o ou revanche ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O erro da esquerda brasileira \u00e9 imaginar que a geopol\u00edtica se parece com futebol. Para esse imagin\u00e1rio, h\u00e1 sempre um advers\u00e1rio a ser enfrentado, uma torcida a ser mobilizada e um lado \u201ccerto\u201d a ser escolhido. O PT olha para o cen\u00e1rio internacional como quem entra em um est\u00e1dio. E, nesse jogo, resolveu vestir a camisa de Xi Jinping.<\/p>\n<p>S\u00f3 que pol\u00edtica externa n\u00e3o \u00e9 arquibancada. N\u00e3o se faz com paix\u00e3o partid\u00e1ria, slogans de campanha ou reflexos ideol\u00f3gicos da Guerra Fria.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Pol\u00edtica externa s\u00e9ria se faz com c\u00e1lculo, prud\u00eancia, interesse nacional e clareza sobre as amea\u00e7as que cercam o pa\u00eds<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O Brasil, infelizmente, vai na dire\u00e7\u00e3o oposta. Em vez de preservar margem de manobra, est\u00e1 rifando sua posi\u00e7\u00e3o. Em vez de defender seus pr\u00f3prios interesses, est\u00e1 servindo aos interesses de um projeto externo. Em vez de agir como pot\u00eancia regional com responsabilidade estrat\u00e9gica, comporta-se como linha auxiliar de uma pot\u00eancia extrarregional.<\/p>\n<p>Se continuar assim, o lulismo n\u00e3o levar\u00e1 o Brasil a nenhum protagonismo global. Levar\u00e1 o pa\u00eds \u00e0 irrelev\u00e2ncia estrat\u00e9gica, \u00e0 depend\u00eancia pol\u00edtica e ao rebaixamento internacional. Em vez de conduzir o Brasil \u00e0 primeira divis\u00e3o da geopol\u00edtica, o PT corre o risco de empurr\u00e1-lo para a S\u00e9rie C.<\/p>\n<\/div>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil est\u00e1, aos poucos, se oferecendo como plataforma de proje\u00e7\u00e3o chinesa na Am\u00e9rica do Sul. 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