{"id":312575,"date":"2026-03-26T09:01:52","date_gmt":"2026-03-26T13:01:52","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=312575"},"modified":"2026-03-26T09:01:52","modified_gmt":"2026-03-26T13:01:52","slug":"a-economia-da-regressao-como-o-brasil-se-tornou-hostil-a-prosperidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=312575","title":{"rendered":"A economia da regress\u00e3o: como o Brasil se tornou hostil \u00e0 prosperidade"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O debate sobre a heran\u00e7a econ\u00f4mica recente do Brasil, precipitado pela sa\u00edda de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/fernando-haddad\/\">Fernando Haddad<\/a> do Minist\u00e9rio da Fazenda, exige abandonar tanto a ret\u00f3rica superficial quanto o tecnocratismo anestesiante que serviu de \u00e1libi intelectual a tr\u00eas anos de demoli\u00e7\u00e3o fiscal.<\/p>\n<p>O que se observa hoje n\u00e3o \u00e9 apenas um conjunto de indicadores deteriorados, mas a consolida\u00e7\u00e3o de um modelo coerente em sua l\u00f3gica interna indigente, por\u00e9m anacr\u00f4nico, asfixiante e pauperizante em seus efeitos externos, que combina expans\u00e3o fiscal, hipertrofia tribut\u00e1ria, hostilidade progressiva ao ambiente de gera\u00e7\u00e3o de riqueza e uma recusa ideol\u00f3gica de incorporar ao aparato produtivo do pa\u00eds as ferramentas tecnol\u00f3gicas que est\u00e3o redesenhando a economia global. Sob a condu\u00e7\u00e3o de Haddad, esse modelo atingiu sua forma mais expl\u00edcita e acabada.<\/p>\n<p>A marca distintiva da gest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas o aumento de gastos, mas a naturaliza\u00e7\u00e3o de sua expans\u00e3o como princ\u00edpio organizador da pol\u00edtica econ\u00f4mica, com trajet\u00f3ria claramente ascendente, cont\u00ednua e estrutural, tanto em termos nominais quanto em propor\u00e7\u00e3o do PIB.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 2023, a d\u00edvida p\u00fablica registrava 71,7% do PIB, patamar elevado, mas relativamente estabilizado ap\u00f3s o per\u00edodo pand\u00eamico e os efeitos iniciais do conflito R\u00fassia-Ucr\u00e2nia. Ao final de 2023, o indicador havia avan\u00e7ado para 74,3%. Em 2024, superou 76,1%. Em 2025, ultrapassou R$ 10 trilh\u00f5es, cerca de 79% do PIB, colocando o Brasil entre os pa\u00edses mais endividados do mundo emergente.<\/p>\n<p>Como mis\u00e9ria pouca \u00e9 bobagem, a proje\u00e7\u00e3o oficial do governo para 2026 \u00e9 de 81,7%, ao passo que o mercado, essa entidade mal\u00e9fica que opera diuturnamente para desfazer os planos lulopetistas de socializa\u00e7\u00e3o da pobreza, trabalha com proje\u00e7\u00f5es de 84% a 85% do PIB.<\/p>\n<p>Esse problema n\u00e3o \u00e9 apenas cont\u00e1bil: \u00e9 um mecanismo silencioso de transfer\u00eancia de riqueza entre gera\u00e7\u00f5es. Ao expandir gastos de forma irrespons\u00e1vel e financiar essa expans\u00e3o via endividamento, o governo consome hoje a renda que ainda nem foi gerada, empurrando a conta para o futuro. Nossos filhos e netos herdar\u00e3o um Estado mais pesado, mais caro e menos eficiente.<\/p>\n<p>Para estabilizar essa trajet\u00f3ria, n\u00e3o h\u00e1 milagre: ou se pagar\u00e1 com mais impostos, ou com juros estruturalmente mais elevados, ou com infla\u00e7\u00e3o corroendo sal\u00e1rios e poupan\u00e7a, quando n\u00e3o com a combina\u00e7\u00e3o perversa dos tr\u00eas. Em qualquer cen\u00e1rio, o resultado \u00e9 inequ\u00edvoco: menos renda dispon\u00edvel, menos oportunidades e menor qualidade de vida para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es. O que hoje se apresenta como pol\u00edtica econ\u00f4mica \u00e9, na realidade, a constru\u00e7\u00e3o deliberada de uma armadilha fiscal intergeracional, na qual um pa\u00eds que opta por viver sistematicamente acima de suas possibilidades n\u00e3o apenas compromete o presente, mas hipoteca o futuro, principalmente daqueles que hoje ainda n\u00e3o t\u00eam voz.<\/p>\n<p>Esse movimento n\u00e3o ocorre no v\u00e1cuo. Articula-se com uma din\u00e2mica perversa em que o pr\u00f3prio crescimento econ\u00f4mico, ainda que an\u00eamico, passa a depender do combalido impulso estatal: o consumo do governo cresceu 2,1% em 2025, evidenciando o papel central do gasto p\u00fablico na sustenta\u00e7\u00e3o artificial da atividade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia \u00e9 previs\u00edvel: o Estado deixa de ser instrumento de estabiliza\u00e7\u00e3o e passa a operar como vetor de distor\u00e7\u00e3o estrutural, comprimindo o espa\u00e7o de investimento, elevando o custo de capital e deslocando recursos da economia produtiva para a rolagem da pr\u00f3pria d\u00edvida. Quando se fala em enxugamento da m\u00e1quina p\u00fablica e racionaliza\u00e7\u00e3o de despesas, o sil\u00eancio \u00e9 ensurdecedor, porque a expans\u00e3o do Estado n\u00e3o \u00e9 efeito colateral, mas objetivo.<\/p>\n<p>Esse avan\u00e7o do gasto e da interven\u00e7\u00e3o estatal tamb\u00e9m se reflete na deteriora\u00e7\u00e3o acelerada das empresas estatais, historicamente utilizadas como instrumento de pol\u00edtica econ\u00f4mica. Ap\u00f3s registrarem resultados positivos no governo Jair Bolsonaro, voltaram a acumular preju\u00edzos expressivos. Em 2022, as estatais federais registraram super\u00e1vit de R$ 4,7 bilh\u00f5es. Desde ent\u00e3o, o quadro se inverteu de forma dram\u00e1tica: em 2024, o d\u00e9ficit atingiu R$ 6,7 bilh\u00f5es e, em 2025, foi registrado novo rombo de aproximadamente R$ 5,1 bilh\u00f5es, um dos piores resultados da s\u00e9rie hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>\u00a0O caso dos Correios, que enfrentam crise profunda, com proje\u00e7\u00f5es de rombo que chegam a R$ 9,1 bilh\u00f5es at\u00e9 2026, al\u00e9m de forte restri\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito e risco crescente de inadimpl\u00eancia, \u00e9 emblem\u00e1tico. Diante do cen\u00e1rio, o governo optou por adiar para 2027 o aporte bilion\u00e1rio estimado entre R$ 5 e R$ 8 bilh\u00f5es, empurrando deliberadamente a solu\u00e7\u00e3o do problema para a pr\u00f3xima gest\u00e3o.<\/p>\n<p>O que antes contribu\u00eda para aliviar as contas p\u00fablicas passa agora a pression\u00e1-las ainda mais, evidenciando o abandono de crit\u00e9rios de efici\u00eancia em favor de uma l\u00f3gica de uso pol\u00edtico, expans\u00e3o estatal e produ\u00e7\u00e3o de passivos ocultos que, mais cedo ou mais tarde, recair\u00e3o sobre o contribuinte. A ado\u00e7\u00e3o de ferramentas de intelig\u00eancia artificial para auditoria, gest\u00e3o de contratos, detec\u00e7\u00e3o de fraudes e automa\u00e7\u00e3o de processos repetitivos poderia economizar bilh\u00f5es anuais ao er\u00e1rio. Mas isso, naturalmente, exigiria governantes interessados em efici\u00eancia, n\u00e3o em patronagem.<\/p>\n<p>Diante da incapacidade de conter o gasto, a resposta tem sido previs\u00edvel, consistindo exclusivamente no aumento da arrecada\u00e7\u00e3o. Se o d\u00e9ficit cresce, tributa-se mais. O problema \u00e9 que essa estrat\u00e9gia ocorre simultaneamente \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o dos fundamentos de crescimento. A taxa de investimento permanece cronicamente baixa, em torno de 16,8% do PIB, patamar insuficiente para sustentar crescimento consistente e muito inferior ao observado em economias emergentes din\u00e2micas.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Os n\u00fameros do PIB, frequentemente celebrados de forma acr\u00edtica pelos \u00e1ulicos do Planalto, revelam mais fragilidade do que for\u00e7a.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nessas economias, n\u00edveis entre 20% e 22% do PIB permitem crescimento moderado, enquanto pa\u00edses din\u00e2micos operam na faixa de 25% a 30%. Casos como China (40% a 45%), \u00cdndia (30% a 33%), Vietn\u00e3 (30%) e Indon\u00e9sia (28% a 32%) ilustram esse patamar mais elevado, ao passo que mesmo vizinhos como Chile (25%) e M\u00e9xico (24%) mant\u00eam n\u00edveis superiores ao brasileiro.<\/p>\n<p>\u00a0O resultado dessa discrep\u00e2ncia \u00e9 estrutural: o Brasil investe menos do que o necess\u00e1rio para expandir sua capacidade produtiva de forma relevante, limitando o aumento de produtividade, restringindo o crescimento potencial e condenando a economia a um equil\u00edbrio de baixa expans\u00e3o incompat\u00edvel com qualquer estrat\u00e9gia s\u00e9ria de converg\u00eancia econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00f3xica: alta carga tribut\u00e1ria, baixo investimento e produtividade estagnada, patamar que n\u00e3o apenas n\u00e3o projeta o pa\u00eds para o futuro, condenando-o a um menor crescimento, mas o ancora persistentemente na mediocridade, ao cristalizar um modelo incapaz de gerar prosperidade.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros do PIB, frequentemente celebrados de forma acr\u00edtica pelos \u00e1ulicos do Planalto, revelam mais fragilidade do que for\u00e7a. Em 2025, a economia cresceu 2,3%, desacelerando em rela\u00e7\u00e3o aos 3,4% de 2024, com virtual estagna\u00e7\u00e3o no segundo semestre. Em termos <em>per capita<\/em>, o avan\u00e7o modesto de 1,9% ao ano est\u00e1 longe de representar progresso significativo, mascarando vergonhosa estagna\u00e7\u00e3o relativa quando comparado a economias emergentes que efetivamente convergem para o mundo desenvolvido, crescendo entre 4% e 6% ao ano. Mesmo dentro da Am\u00e9rica Latina, o contraste se torna constrangedor: Argentina e Paraguai apresentaram crescimento pr\u00f3ximo a 5% e 4%, respectivamente, em 2025.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a, \u00e0 primeira vista moderada, revela-se devastadora quando projetada no tempo e seus efeitos recaem direta e concretamente sobre a vida di\u00e1ria da popula\u00e7\u00e3o. Em uma d\u00e9cada, um pa\u00eds que cresce 5% ao ano eleva sua renda em mais de 60%, enquanto outro, limitado a 1,9%, mal supera os 20%, sendo essa uma das raz\u00f5es pelas quais governos respons\u00e1veis precisam, necessariamente, prever o impacto temporal de suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Essa diverg\u00eancia n\u00e3o \u00e9 abstrata e se traduz em sal\u00e1rios que avan\u00e7am lentamente, menor gera\u00e7\u00e3o de empregos qualificados e estagna\u00e7\u00e3o do poder de compra. N\u00e3o por acaso, o Brasil convive com uma renda <em>per capita<\/em> que gira em torno de US$ 10 a 11 mil, praticamente estagnada h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada em termos reais, enquanto pa\u00edses mais din\u00e2micos ampliam rapidamente essa dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u00a0A composi\u00e7\u00e3o desse crescimento refor\u00e7a a cr\u00edtica, pois o impulso veio majoritariamente da agropecu\u00e1ria, com expans\u00e3o de dois d\u00edgitos, enquanto ind\u00fastria (1,4%) e servi\u00e7os (1,8%) avan\u00e7aram de forma esqu\u00e1lida, padr\u00e3o t\u00edpico de economias reprimarizadas, n\u00e3o de pa\u00edses que lideram a inova\u00e7\u00e3o global.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a compress\u00e3o do crescimento limita a arrecada\u00e7\u00e3o \u201cvirtuosa\u201d e retroalimenta a depend\u00eancia de impostos mais altos, corroendo ainda mais a renda dispon\u00edvel das fam\u00edlias. O cr\u00e9dito permanece caro, o investimento \u00e9 baixo e a mobilidade econ\u00f4mica se estreita. Nesse contexto, a perda de posi\u00e7\u00e3o relativa no cen\u00e1rio internacional deixa de ser apenas dado estat\u00edstico e se manifesta no cotidiano como servi\u00e7os p\u00fablicos prec\u00e1rios, infraestrutura deficiente e oportunidades cada vez mais escassas.<\/p>\n<p>Foi assim que o Brasil, que j\u00e1 figurou entre as maiores economias globais, passou, ap\u00f3s quase vinte longos anos de governos lulopetistas, a ser ultrapassado por pa\u00edses mais din\u00e2micos, n\u00e3o porque tenha encolhido, mas porque ficou para tr\u00e1s. Em termos concretos, trata-se de um empobrecimento silencioso, por\u00e9m cumulativo. Nesse contexto, a renda at\u00e9 cresce marginalmente, mas de maneira insuficiente para acompanhar o resto do mundo, condenando o pa\u00eds a um equil\u00edbrio de estagna\u00e7\u00e3o estrutural que penaliza, sobretudo, as camadas m\u00e9dias e mais vulner\u00e1veis da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste ponto, a gest\u00e3o Haddad revela sua dimens\u00e3o mais destrutiva, porque silenciosamente regressiva. A produtividade do trabalho, vari\u00e1vel central para aumentos sustent\u00e1veis de renda, cresce menos de 1% ao ano no Brasil, contra m\u00faltiplos disso em economias asi\u00e1ticas. O resultado \u00e9 um mercado de trabalho marcado por alta informalidade (pr\u00f3xima de 40%), expans\u00e3o de ocupa\u00e7\u00f5es de baixa qualidade e dificuldade cr\u00f4nica de ascens\u00e3o social, sem mencionar os imensos contingentes populacionais mantidos intencionalmente sob depend\u00eancia de programas assistenciais e de transfer\u00eancia de renda, com evidentes objetivos eleitorais.<\/p>\n<p>Nesse arranjo mefistof\u00e9lico, a pobreza deixa de ser um problema a ser superado e passa a ser, na pr\u00e1tica, um ativo pol\u00edtico a ser administrado: em vez de se promover autonomia econ\u00f4mica por meio de produtividade, educa\u00e7\u00e3o e investimento, perpetua-se um ciclo em que a fragilidade social \u00e9 continuamente reciclada como instrumento de poder.\u00a0 O resultado n\u00e3o \u00e9 apenas estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, mas a institucionaliza\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia, na qual a mis\u00e9ria n\u00e3o \u00e9 erradicada, mas mantida e explorada.<\/p>\n<p>Adicionalmente, a persist\u00eancia de juros elevados, sintoma direto da fragilidade fiscal e da desancoragem de expectativas, desestimula investimento produtivo, encarece o cr\u00e9dito, comprime o consumo das fam\u00edlias (que cresceu apenas 1,3%) e amplia o custo da d\u00edvida p\u00fablica. Cria-se, assim, um ambiente de asfixia econ\u00f4mica generalizada, no qual o crescimento depende cada vez mais de est\u00edmulos artificiais.<\/p>\n<p>Essa din\u00e2mica interna encontra eco no front externo. O aumento da d\u00edvida externa, j\u00e1 pr\u00f3xima de USD 400 bilh\u00f5es, reduz a margem de seguran\u00e7a do pa\u00eds e amplia sua vulnerabilidade a choques internacionais. Mais uma vez, o padr\u00e3o se repete: o Brasil consome mais do que produz, investe menos do que deveria e financia essa diferen\u00e7a com endividamento.<\/p>\n<p>No plano microecon\u00f4mico, os sinais s\u00e3o inequ\u00edvocos. O avan\u00e7o recorde de inadimpl\u00eancia, o crescimento acelerado de recupera\u00e7\u00f5es extrajudiciais e a deteriora\u00e7\u00e3o financeira de empresas indicam que a economia real opera sob tens\u00e3o crescente, em quadro convergente com os dados macro de cr\u00e9dito caro, crescimento baixo, renda pressionada carga tribut\u00e1ria elevada. O resultado \u00e9 um ciclo vicioso de fragiliza\u00e7\u00e3o sist\u00eamica, com menos investimento, mais insolv\u00eancia, menor capacidade de expans\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez um dos dados mais simb\u00f3licos desse decl\u00ednio seja o colapso do Brasil no ranking de Liberdade Econ\u00f4mica 2025. O pa\u00eds caiu para a 134\u00aa posi\u00e7\u00e3o entre 184 pa\u00edses, com pontua\u00e7\u00e3o de 49 em 100, classificado como economia &#8220;majoritariamente n\u00e3o livre&#8221; e perigosamente pr\u00f3ximo da categoria de &#8220;reprimida&#8221;.<\/p>\n<p>Mais do que a posi\u00e7\u00e3o absoluta, o que realmente importa \u00e9 a trajet\u00f3ria. Em 2019, o Brasil ocupava a 105\u00aa posi\u00e7\u00e3o; agora, acumula quedas sucessivas, refletindo deteriora\u00e7\u00e3o em praticamente todos os pilares avaliados: carga tribut\u00e1ria elevada, gasto p\u00fablico crescente, piora da sa\u00fade fiscal, inseguran\u00e7a jur\u00eddica e ambiente regulat\u00f3rio hostil. O dado mais revelador \u00e9 que essa queda ocorre em termos relativos, ou seja, n\u00e3o se trata apenas de o Brasil piorar, mas de outros pa\u00edses estarem melhorando mais r\u00e1pido.<\/p>\n<p>\u00a0O contraste internacional \u00e9 eloquente. Enquanto o Brasil recua, a Argentina saltou de 144\u00ba para 106\u00ba em um \u00fanico ciclo, refletindo mudan\u00e7as pr\u00f3-mercado. Economias do Sudeste Asi\u00e1tico e do Leste Europeu continuam subindo constantemente. Mesmo na Am\u00e9rica Latina, o Brasil j\u00e1 aparece atr\u00e1s da maioria dos pares, superando apenas casos extremos como Bol\u00edvia e Venezuela.<\/p>\n<p>Rankings de liberdade econ\u00f4mica n\u00e3o s\u00e3o meramente simb\u00f3licos, pois capturam vari\u00e1veis centrais para o crescimento de longo prazo. Quando um pa\u00eds despenca nesse tipo de indicador, o efeito \u00e9 imediato e cumulativo, com menos investimento estrangeiro, menor forma\u00e7\u00e3o de capital, fuga de empresas e talentos, crescimento potencial mais baixo e, inevitavelmente, mais atraso relativo.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o a que se chega \u00e9 que o Brasil n\u00e3o est\u00e1 apenas mal posicionado, mas em trajet\u00f3ria de deteriora\u00e7\u00e3o institucional. E, em economia, dire\u00e7\u00e3o importa mais do que o ponto de partida. N\u00e3o se deve, todavia, tratar todo esse processo como uma sucess\u00e3o de equ\u00edvocos. O que se observa \u00e9 uma l\u00f3gica p\u00e9rfida de funcionamento que privilegia o Estado como agente central, ainda que ao custo da efici\u00eancia econ\u00f4mica. A economia cresce pouco, investe pouco e inova pouco, mas o Estado cresce muito.<\/p>\n<p>Trata-se, de fato, de uma engenharia coerente em sua falta de racionalidade: aumentar arrecada\u00e7\u00e3o, expandir gasto, sustentar demanda artificialmente e administrar os desequil\u00edbrios via endividamento, o que conduz, inexoravelmente, \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o relativa.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente sobre esse edif\u00edcio de fragilidades acumuladas que despenca, agora, o choque externo mais severo desde a crise de 2008: o conflito no Golfo P\u00e9rsico. Desde 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel lan\u00e7aram a Opera\u00e7\u00e3o F\u00faria \u00c9pica contra o Ir\u00e3, o Oriente M\u00e9dio entrou em espiral de escalada militar cujas repercuss\u00f5es econ\u00f4micas j\u00e1 s\u00e3o descritas como a maior perturba\u00e7\u00e3o no fornecimento mundial de energia desde a crise dos anos 1970.<\/p>\n<p>Para o Brasil, o impacto \u00e9 duplamente perverso. No curto prazo, a alta dos combust\u00edveis pressiona a infla\u00e7\u00e3o num momento em que o Banco Central j\u00e1 opera com juros proibitivos, estreitando ainda mais o espa\u00e7o de manobra monet\u00e1ria. No m\u00e9dio prazo, a volatilidade global e a avers\u00e3o ao risco ampliam os pr\u00eamios exigidos por investidores para financiar a d\u00edvida de economias emergentes fiscalmente fragilizadas, e poucas economias emergentes est\u00e3o t\u00e3o fragilizadas quanto a brasileira neste momento.<\/p>\n<p>A alta do petr\u00f3leo, que em tese poderia beneficiar a Petrobras e as receitas de royalties, ser\u00e1 insuficiente para compensar a deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es financeiras globais, a contra\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito internacional e a fuga de capitais para ativos de ref\u00fagio. Um pa\u00eds com d\u00edvida superelevada, taxa de investimento reduzida, produtividade est\u00e1tica e marco regulat\u00f3rio hostil n\u00e3o tem margem para absorver um choque dessa magnitude sem que as fraturas estruturais se agravem exponencialmente.<\/p>\n<p>O legado que se consolida n\u00e3o \u00e9 apenas o de Haddad ou de um governo, mas o de uma trajet\u00f3ria que remete \u00e0s chamadas &#8220;d\u00e9cadas perdidas&#8221;. A trag\u00e9dia n\u00e3o \u00e9 apenas o que foi feito: \u00e9 o que foi inviabilizado, pois, ao sufocar os motores da produtividade e transformar o Brasil em um ambiente antag\u00f4nico \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de riqueza e \u00e0 inova\u00e7\u00e3o, a pol\u00edtica econ\u00f4mica de Haddad n\u00e3o apenas compromete o presente, mas institucionaliza o atraso.<\/p>\n<p>Se nada mudar, o Brasil se tornar\u00e1 cada vez mais irrelevante no cen\u00e1rio global, mais desigual internamente e cada vez mais distante do potencial que insiste em desperdi\u00e7ar. Um pa\u00eds rico condenado a permanecer pobre. Um gigante que n\u00e3o apenas deixou de crescer, mas que aprendeu a conviver com o pr\u00f3prio atraso. E talvez essa seja a mais perversa das heran\u00e7as: n\u00e3o apenas o empobrecimento material, mas a normaliza\u00e7\u00e3o da decad\u00eancia.<\/p>\n<p><em>Marcos Degaut \u00e9 doutor em Seguran\u00e7a Internacional, pesquisador s\u00eanior na University of Central Florida (EUA), ex-secret\u00e1rio especial adjunto de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, ex-secret\u00e1rio de Produtos de Defesa do Minist\u00e9rio da Defesa e ex-secret\u00e1rio executivo da C\u00e2mara de Com\u00e9rcio Exterior do Brasil (CAMEX).<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O debate sobre a heran\u00e7a econ\u00f4mica recente do Brasil, precipitado pela sa\u00edda de Fernando Haddad do Minist\u00e9rio da Fazenda, exige&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":312576,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-312575","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/312575","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=312575"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/312575\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/312576"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=312575"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=312575"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=312575"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}