{"id":312218,"date":"2026-03-26T05:02:00","date_gmt":"2026-03-26T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=312218"},"modified":"2026-03-26T05:02:00","modified_gmt":"2026-03-26T09:02:00","slug":"o-enigmatico-silencio-da-oab","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=312218","title":{"rendered":"O enigm\u00e1tico sil\u00eancio da OAB"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>H\u00e1 institui\u00e7\u00f5es que falam. H\u00e1 institui\u00e7\u00f5es que calam. E h\u00e1 aquelas cujo sil\u00eancio pesa mais do que muitas palavras mal pronunciadas. A Ordem dos Advogados do Brasil, que durante d\u00e9cadas ocupou um lugar de relevo na imagina\u00e7\u00e3o c\u00edvica nacional, parece hoje habitar esse terceiro espa\u00e7o: o da omiss\u00e3o solene, do mutismo revestido de liturgia, da aus\u00eancia travestida de prud\u00eancia. A imagem que melhor traduz essa condi\u00e7\u00e3o talvez n\u00e3o seja a de uma sentinela, nem a de uma guardi\u00e3, mas a de uma esfinge.<\/p>\n<p>No sentido grego, a esfinge n\u00e3o \u00e9 apenas um monstro. \u00c9 uma criatura que se coloca \u00e0 beira do caminho, imp\u00f5e enigmas e paralisa a passagem. Ela n\u00e3o dialoga com os homens; desafia-os. N\u00e3o esclarece; obscurece. N\u00e3o abre veredas; vigia ru\u00ednas. Sua presen\u00e7a n\u00e3o orienta: intimida. Sua fala n\u00e3o ilumina: confunde. E, em certos momentos da vida brasileira, \u00e9 exatamente essa a sensa\u00e7\u00e3o que a OAB transmite: a de uma institui\u00e7\u00e3o im\u00f3vel diante dos fatos, enigm\u00e1tica diante dos abusos, silenciosa quando dela se esperava voz.<\/p>\n<p>O que se v\u00ea j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 simples prud\u00eancia institucional, mas uma forma de abdica\u00e7\u00e3o. A OAB parece ter deixado de ouvir o que a sociedade reclama e, mais grave ainda, renunciado a falar quando sua palavra poderia fazer diferen\u00e7a. Num pa\u00eds atravessado por anos de radicaliza\u00e7\u00e3o, choques entre poderes, abusos ret\u00f3ricos e deforma\u00e7\u00f5es crescentes da vida p\u00fablica, a entidade que outrora simbolizou resist\u00eancia e lucidez passou a cultivar um sil\u00eancio constrangedor. E \u00e9 isso que torna a cr\u00edtica t\u00e3o dura: n\u00e3o se cobra grandeza de quem nunca a teve, mas de uma institui\u00e7\u00e3o que o Brasil aprendeu a enxergar como reserva moral da esfera p\u00fablica, sobretudo nos momentos em que a sociedade se via acuada, confusa ou sem voz.<\/p>\n<p>\u00c9 esse contraste que torna o problema ainda maior. N\u00e3o se exige coragem institucional de quem jamais teve voca\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Mas a OAB construiu historicamente para si uma imagem distinta. Em momentos decisivos da vida nacional, n\u00e3o foi apenas uma corpora\u00e7\u00e3o profissional. Foi inst\u00e2ncia de media\u00e7\u00e3o, de resist\u00eancia e de formula\u00e7\u00e3o c\u00edvica. Falava em nome da advocacia, sim, mas tamb\u00e9m em nome de uma certa ideia de legalidade que ultrapassava os limites estreitos do interesse de classe. Sua palavra tinha peso porque n\u00e3o era apenas t\u00e9cnica; era tamb\u00e9m moral. Por isso, seu sil\u00eancio atual n\u00e3o soa neutro. Soa regressivo.<\/p>\n<blockquote>\n<p> A fun\u00e7\u00e3o de uma entidade como a OAB deveria ser menos a de escolher trincheiras partid\u00e1rias e mais a de afirmar, com nitidez, os marcos da civilidade jur\u00eddica. N\u00e3o para incendiar o conflito, mas para lembrar que a ordem democr\u00e1tica n\u00e3o subsiste sem limites<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 claro que nenhuma institui\u00e7\u00e3o s\u00e9ria deve se transformar em caixa de resson\u00e2ncia de paix\u00f5es instant\u00e2neas. Tamb\u00e9m n\u00e3o se espera que a OAB se manifeste sobre cada fato do notici\u00e1rio, cada pol\u00eamica de rede social ou cada explos\u00e3o di\u00e1ria do debate p\u00fablico. Sobriedade n\u00e3o \u00e9 defeito. Prud\u00eancia n\u00e3o \u00e9 covardia. O problema come\u00e7a quando a modera\u00e7\u00e3o vira \u00e1libi permanente para a absten\u00e7\u00e3o, e o recato institucional se converte em deser\u00e7\u00e3o c\u00edvica. H\u00e1 momentos em que o sil\u00eancio j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 sinal de equil\u00edbrio. \u00c9 sinal de desist\u00eancia.<\/p>\n<p>E talvez seja isso que mais desconcerta. O pa\u00eds viveu, nos \u00faltimos anos, uma sucess\u00e3o de epis\u00f3dios graves: hipertrofias verbais, eros\u00e3o do debate p\u00fablico, radicaliza\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas, tensionamentos entre liberdade e controle, decis\u00f5es judiciais submetidas ao tribunal da opini\u00e3o, paix\u00f5es pol\u00edticas convertidas em absolutos morais, agress\u00f5es simb\u00f3licas \u00e0 pr\u00f3pria ideia de pluralismo. Num ambiente assim, a fun\u00e7\u00e3o de uma entidade como a OAB deveria ser menos a de escolher trincheiras partid\u00e1rias e mais a de afirmar, com nitidez, os marcos da civilidade jur\u00eddica. N\u00e3o para incendiar o conflito, mas para lembrar que a ordem democr\u00e1tica n\u00e3o subsiste sem limites, sem linguagem institucional e sem coragem de nomear o que est\u00e1 errado. Quando essa voz falta, n\u00e3o fica um vazio neutro. Fica um vazio ocupado.<\/p>\n<p>Outros falam no lugar. Os extremistas falam. Os oportunistas falam. Os facciosos falam. Os que desejam submeter o direito ao c\u00e1lculo pol\u00edtico falam. Os que enxergam nas institui\u00e7\u00f5es apenas instrumentos de guerra falam. E a entidade que deveria oferecer um vocabul\u00e1rio de equil\u00edbrio, firmeza e responsabilidade assiste, muitas vezes, como se o tumulto n\u00e3o lhe dissesse respeito. Da\u00ed a for\u00e7a da met\u00e1fora da esfinge: a OAB n\u00e3o desaparece; permanece ali, monumental, reconhec\u00edvel, cercada de rever\u00eancia formal. Mas sua presen\u00e7a deixou de orientar a travessia.<\/p>\n<p>H\u00e1, nisso tudo, uma ironia amarga. A esfinge, no mito, mata aqueles que n\u00e3o decifram seu enigma. J\u00e1 a esfinge institucional do nosso tempo faz algo diverso, mas igualmente danoso: ela n\u00e3o mata corpos, mas enfraquece refer\u00eancias. N\u00e3o destr\u00f3i pela viol\u00eancia, mas pela aus\u00eancia. N\u00e3o produz medo pelo rugido, mas perplexidade pelo mutismo. E uma <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/democracia\/\">democracia<\/a> n\u00e3o se deteriora apenas quando suas institui\u00e7\u00f5es falam demais; ela tamb\u00e9m se apequena quando aquelas que deveriam ser far\u00f3is escolhem o conforto da penumbra.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Talvez algu\u00e9m diga que essa cr\u00edtica \u00e9 excessiva. Talvez se alegue que a OAB continua cumprindo fun\u00e7\u00f5es relevantes na defesa das prerrogativas profissionais, no exame da advocacia, na fiscaliza\u00e7\u00e3o \u00e9tica e na representa\u00e7\u00e3o corporativa. Tudo isso pode ser verdadeiro e, ainda assim, insuficiente. Porque a quest\u00e3o aqui n\u00e3o \u00e9 administrativa. \u00c9 simb\u00f3lica e hist\u00f3rica. A OAB n\u00e3o \u00e9 cobrada apenas pelo que faz em cart\u00f3rios, conselhos e comiss\u00f5es. \u00c9 cobrada pelo lugar que decidiu ocupar na consci\u00eancia p\u00fablica brasileira. E esse lugar n\u00e3o foi o de mera entidade de registro profissional. Foi o de voz institucional da advocacia e, em momentos decisivos, o de voz da pr\u00f3pria sociedade civil.<\/p>\n<p>Quando uma institui\u00e7\u00e3o com esse passado se retrai de modo sistem\u00e1tico, o que se perde n\u00e3o \u00e9 apenas protagonismo. Perde-se densidade hist\u00f3rica. Perde-se autoridade moral. Perde-se o direito de invocar a pr\u00f3pria mem\u00f3ria como capital c\u00edvico. O sil\u00eancio repetido corr\u00f3i por dentro at\u00e9 mesmo as biografias institucionais mais respeit\u00e1veis.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica, portanto, n\u00e3o \u00e9 contra a prud\u00eancia, mas contra a mudez. N\u00e3o \u00e9 contra o equil\u00edbrio, mas contra a omiss\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um apelo para que a OAB se torne fac\u00e7\u00e3o; \u00e9 um chamado para que volte a ser institui\u00e7\u00e3o. Institui\u00e7\u00e3o no sentido forte do termo: aquela que sustenta formas, protege limites, nomeia abusos e recorda \u00e0 sociedade que nem toda for\u00e7a \u00e9 direito, nem todo clamor \u00e9 justi\u00e7a, nem toda conveni\u00eancia merece a b\u00ean\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Se a met\u00e1fora da esfinge parece dura, \u00e9 porque o tempo tamb\u00e9m \u00e9 duro. Em \u00e9pocas normais, o sil\u00eancio pode ser apenas um estilo. Em tempos de deforma\u00e7\u00e3o institucional, ele se transforma em escolha. E certas escolhas custam caro.<\/p>\n<p>A OAB ainda pode voltar a falar. Mas, para isso, ter\u00e1 de romper o fasc\u00ednio est\u00e9ril da pr\u00f3pria mudez e lembrar que institui\u00e7\u00f5es s\u00f3 permanecem grandes enquanto se mostram \u00e0 altura do tempo que lhes cabe enfrentar. O sil\u00eancio, quando se prolonga al\u00e9m da prud\u00eancia, deixa de ser reserva e se torna cumplicidade; deixa de ser cautela e se converte em deser\u00e7\u00e3o. Se insistir nessa imobilidade solene, nessa linguagem de pedra e nessa omiss\u00e3o revestida de gravidade, a Ordem acabar\u00e1 reduzida \u00e0 figura que hoje j\u00e1 insinua ser: n\u00e3o mais a consci\u00eancia jur\u00eddica da na\u00e7\u00e3o, mas uma esfinge cansada, im\u00f3vel sobre as ru\u00ednas, cercada de mem\u00f3ria, rever\u00eancia e passado \u2013 e j\u00e1 incapaz de indicar o caminho a quem segue adiante.<\/p>\n<p><em><strong>Jose Mauricio de Lima<\/strong> \u00e9 administrador, advogado, psic\u00f3logo, mestre em Filosofia, mediador, \u00e1rbitro e professor.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 institui\u00e7\u00f5es que falam. H\u00e1 institui\u00e7\u00f5es que calam. 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