{"id":308330,"date":"2026-03-24T12:54:35","date_gmt":"2026-03-24T16:54:35","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=308330"},"modified":"2026-03-24T12:54:35","modified_gmt":"2026-03-24T16:54:35","slug":"a-proposta-de-solesmes-para-a-paz-liturgica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=308330","title":{"rendered":"A proposta de Solesmes para a paz lit\u00fargica"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O blog tradicionalista Rorate Caeli publicou, na semana passada, o <a href=\"https:\/\/rorate-caeli.blogspot.com\/2026\/03\/the-abbot-of-solesmes-sends-letter-to.html\">conte\u00fado de uma carta<\/a> enviada por dom Geoffroy Kemlin, abade de S\u00e3o Pedro de Solesmes, na Fran\u00e7a, ao <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/papa-leao-xiv\/\">papa Le\u00e3o XIV<\/a> em novembro do ano passado. No texto, dom Kemlin faz uma sugest\u00e3o que, segundo ele, \u201ccolocaria um fim na disputa lit\u00fargica que atormenta os fi\u00e9is na Fran\u00e7a, mas tamb\u00e9m nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Alemanha e em muitos outros lugares\u201d. O abade se refere, obviamente, \u00e0 controv\u00e9rsia envolvendo a celebra\u00e7\u00e3o do rito tridentino, segundo o missal de 1962, o \u00faltimo antes da reforma lit\u00fargica de 1969, que criou a missa como todos n\u00f3s a conhecemos hoje.<\/p>\n<p>Mas, antes de tratar da ideia de dom Kemlin, \u00e9 preciso falar um pouco de Solesmes \u2013 onde, ali\u00e1s, celebra-se o rito de S\u00e3o Paulo VI, n\u00e3o o tridentino. Qualquer <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/catolicos\/\">cat\u00f3lico <\/a>que aprecie o canto gregoriano, independentemente de ser tradicionalista ou de assistir \u00e0 missa nova, tem uma d\u00edvida enorme com Solesmes, porque foi gra\u00e7as a essa abadia, inicialmente sob a lideran\u00e7a do Servo de Deus dom Prosper Gu\u00e9ranger, que o gregoriano praticamente ressuscitou na virada do s\u00e9culo 19 para o 20. At\u00e9 hoje tenho meus exemplares do <em><a href=\"https:\/\/www.solesmes.com\/node\/9067?position=2&amp;list=pTv1UKlTrAWC4e149hNul9Fc5ynOk-EbQ6ZFiG3vYZM\">Graduale Romanum<\/a><\/em> e do <em><a href=\"https:\/\/www.solesmes.com\/node\/9074?position=12&amp;list=l3pxZFduNi03PiExzAyFYDdTn9XpvephiDOpLICckwo\">Cantus Selecti<\/a><\/em>, al\u00e9m de um missal gregoriano latim-ingl\u00eas (no rito novo; ficou desatualizado ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o dos novos textos em ingl\u00eas, em 2011). Ou seja, quando o abade de Solesmes diz algo sobre liturgia, merece ser ouvido.<\/p>\n<p>Dom Kemlin lembra, na carta, que algumas das abadias \u201cfilhas\u201d de Solesmes adotaram o rito tridentino, e que isso no in\u00edcio gerou alguma tens\u00e3o, j\u00e1 resolvida. Dessa experi\u00eancia, em parte, nasceu a proposta enviada ao Vaticano. \u201cComo defensor ardoroso do rito paulino, posso atestar que a maioria dos adeptos do rito antigo o \u00e9 por encontrarem nele uma experi\u00eancia espiritual forte e aut\u00eantica que s\u00e3o incapazes de encontrar no missal novo\u201d, diz o abade, acrescentando que \u00e9 hora de admitir esse fato, e tamb\u00e9m que \u201cos dois Ordos (o de Paulo VI e o de Pio V) apresentam diferen\u00e7as significativas \u200b\u200bna \u2018un\u00e7\u00e3o\u2019 lit\u00fargica e nas maneiras de entrar em ora\u00e7\u00e3o, e destacam antropologias diferentes\u201d, raz\u00e3o pela qual \u201cjamais conseguiremos que aqueles ligados ao <em>Vetus<\/em> abracem livremente o <em>Novus Ordo<\/em>\u201d. Por outro lado, n\u00e3o h\u00e1 como revisar o missal de Paulo VI para que ele incorpore elementos do missal tridentino, porque isso desagradaria a todos e levaria a uma situa\u00e7\u00e3o de \u201ctr\u00eas missais\u201d \u2013 imaginem s\u00f3 o que aconteceria se grupos de fi\u00e9is quisessem continuar a ter a missa segundo o missal de 2002 (a vers\u00e3o mais recente do <em>Novus Ordo<\/em>)&#8230;<\/p>\n<blockquote>\n<p>Se o consist\u00f3rio prometido para junho deste ano realmente tiver a liturgia na pauta, a sugest\u00e3o de dom Kemlin bem que poderia estar na mesa para discuss\u00e3o<\/p>\n<\/blockquote>\n<h3>Um missal, dois ritos<\/h3>\n<p>A sugest\u00e3o do abade, ent\u00e3o, \u00e9 \u201cinserir no Missal Romano o antigo <em>Ordo Missae<\/em> (minimamente revisado para conform\u00e1-lo ao Conc\u00edlio Vaticano II, especialmente com a possibilidade, para quem quiser, do uso do vern\u00e1culo, da concelebra\u00e7\u00e3o e do uso das quatro ora\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas), enquanto o novo <em>Ordo Missae<\/em> permanece inalterado. Ambos os <em>Ordos Missae<\/em>, ent\u00e3o, fariam parte de um \u00fanico Missal Romano\u201d. Consultei v\u00e1rios amigos que entendem de liturgia e, se entendemos bem, caso a sugest\u00e3o fosse atendida, os sacerdotes teriam uma variedade de op\u00e7\u00f5es. Se quisessem celebrar o <em>Novus Ordo<\/em> exatamente como fazem hoje, poderiam; se quisessem celebrar o rito tridentino, poderiam tamb\u00e9m \u2013 embora com um calend\u00e1rio lit\u00fargico e leituras unificadas nos dois ritos, pela sugest\u00e3o de dom Kemlin \u2013; se quisessem celebrar o rito tridentino em vern\u00e1culo, com uma ora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica diferente do C\u00e2non Romano, poderiam tamb\u00e9m. Mas, a julgar pela entrevista de dom Kemlin que o Rorate Caeli tamb\u00e9m publicou, as possibilidades seriam ainda maiores: \u201cO padre poderia simplesmente escolher incorporar elementos do missal antigo que n\u00e3o aparecem mais no missal de Paulo VI. Penso, por exemplo, nas ora\u00e7\u00f5es ao p\u00e9 do altar, ou o ofert\u00f3rio antigo, que foi reformado\u201d, diz o abade \u2013 e sim, o ofert\u00f3rio antigo \u00e9 <em>bem melhor<\/em> que o novo.<\/p>\n<p>Minha opini\u00e3o de n\u00e3o liturgista \u00e9 que h\u00e1 pontos positivos e negativos \u2013 com os positivos superando os negativos. \u00c0s vezes se reclama que, enquanto o rito tridentino \u00e9 mais fixo e previs\u00edvel, o <em>Novus Ordo<\/em> daria muita \u201cliberdade\u201d ao padre, porque existem n\u00e3o sei quantas ora\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas, n\u00e3o sei quantos atos penitenciais, algumas leituras t\u00eam vers\u00e3o curta e longa&#8230; com a possibilidade de acrescentar ora\u00e7\u00f5es da missa tridentina no rito novo, essa \u201cimprevisibilidade\u201d aumentaria ainda mais. Al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 garantido que haveria o enriquecimento m\u00fatuo entre os dois ritos, como Bento XVI sonhava na <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/benedict-xvi\/pt\/letters\/2007\/documents\/hf_ben-xvi_let_20070707_lettera-vescovi.html\">carta aos bispos<\/a> que acompanhou <em>Summorum pontificum<\/em>. Apesar disso, o mais importante \u00e9 que, como estaria tudo em um \u00fanico missal, devidamente promulgado pelo papa, bispo nenhum poderia impedir um padre de celebrar como achasse melhor, terminando com o ostracismo imposto aos tradicionalistas por <em>Traditionis custodes<\/em>. S\u00f3 isso j\u00e1 justificaria o acolhimento da sugest\u00e3o de dom Kemlin.<\/p>\n<p>O que mais me preocuparia \u00e9 um tipo de conformismo que est\u00e1 em alguns trechos da carta do abade de Solesmes, como no j\u00e1 citado \u201cjamais conseguiremos que os aqueles ligados ao <em>Vetus<\/em> abracem livremente o <em>Novus Ordo<\/em>\u201d. Entendo que um tradicionalista nunca v\u00e1 se entusiasmar com o rito de Paulo VI, ach\u00e1-lo a pen\u00faltima bolacha do pacote (a \u00faltima sendo a missa tridentina), mas \u00e9 preciso que <em>aceitem<\/em> (n\u00e3o apenas <em>tolerem<\/em>) a sua legitimidade, por exemplo parando com absurdos como o defendido pelos padres da SSPX, para os quais, na aus\u00eancia de missa tridentina nas proximidades, n\u00e3o seria necess\u00e1rio ir \u00e0 missa nova para cumprir o preceito dominical. A proposta de dom Kemlin pressup\u00f5e que ambos os lados estejam dispostos a dar um passo na dire\u00e7\u00e3o da unidade; para os tradicionalistas, esse passo seria a aceita\u00e7\u00e3o de um lecion\u00e1rio e calend\u00e1rio lit\u00fargico unificados, possivelmente com a inser\u00e7\u00e3o de uma segunda leitura aos domingos, o que para mim \u00e9 uma das melhorias do rito novo (na missa tridentina h\u00e1 uma leitura e o Evangelho, mesmo aos domingos). \u00c9 um pre\u00e7o pequeno a pagar pelo fim das \u201cguerras lit\u00fargicas\u201d.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h3>Qual a chance de isso acontecer?<\/h3>\n<p>Enquanto o cardeal <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/marcio-antonio-campos\/relatorio-arthur-roche-liturgia-missa-tridentina-consistorio\/\">Arthur Roche<\/a> estiver \u00e0 frente do Dicast\u00e9rio para o Culto Divino, a possibilidade de a sugest\u00e3o de dom Kemlin ser implantada \u00e9 zero. A n\u00e3o ser que o papa se entusiasme tanto com a ideia que ordene explicitamente que ela seja levada adiante; se Roche tiver algum amor ao cargo, acabar\u00e1 obedecendo. Mesmo assim, ainda poderia haver demoras na tradu\u00e7\u00e3o das ora\u00e7\u00f5es do rito tridentino para o vern\u00e1culo, que \u00e9 responsabilidade das confer\u00eancias episcopais. Uma confer\u00eancia comandada por bispos avessos ao rito tridentino poderia fazer corpo mole (a celebra\u00e7\u00e3o da missa em latim, no entanto, poderia come\u00e7ar imediatamente, pois o texto latino j\u00e1 estaria aprovado pela Santa S\u00e9).<\/p>\n<p>O leitor da coluna sabe que eu gosto de missa tridentina; n\u00e3o gosto \u00e9 de tradicionalista chato e rebelde. Dom Kemlin \u00e9 um \u201cnovusordista\u201d (se me permitem o neologismo) que, ao contr\u00e1rio dos <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/marcio-antonio-campos\/bispo-charlotte-missa-tridentina-liturgia\/\">Michaels Martins<\/a> da vida, compreende a riqueza do rito antigo e quer ver plenamente integrados \u00e0 Igreja, e n\u00e3o enfiados em guetos, os que preferem a liturgia tridentina. Est\u00e1, portanto, em sintonia perfeita com o esfor\u00e7o de unidade que Le\u00e3o XIV quer promover dentro da Igreja. E, mais uma vez, quando \u00e9 Solesmes quem fala sobre liturgia, \u00e9 bom ouvir com aten\u00e7\u00e3o. Se o consist\u00f3rio prometido para junho deste ano realmente tiver a liturgia na pauta, a sugest\u00e3o do abade bem que poderia estar na mesa para discuss\u00e3o. Rezemos para que o papa encontre uma boa solu\u00e7\u00e3o (ainda que n\u00e3o seja a de dom Kemlin), que n\u00e3o marginalize os tradicionalistas, cumpra plenamente o que os padres conciliares pediram na <em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/archive\/hist_councils\/ii_vatican_council\/documents\/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html\">Sacrosanctum Concilium<\/a><\/em> (que dom Marcel Lefebvre assinou, ali\u00e1s), e preserve a autoridade da Igreja contra os desobedientes.<\/p>\n<h2>Artigo: como um novo erro antropol\u00f3gico est\u00e1 minando a doutrina da guerra justa<\/h2>\n<p>Hoje, a coluna ainda traz um artigo de Gordon Thomson, capit\u00e3o reformado da Marinha Real Canadense e estudioso do Direito Internacional e da obra de S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino e Francisco de Vit\u00f3ria, em que ele analisa a doutrina tradicional cat\u00f3lica sobre a guerra justa, nesta \u00e9poca t\u00e3o conturbada que vivemos. O objetivo aqui \u00e9 estimular um debate civilizado, sem fomentar ataques desrespeitosos, especialmente \u00e0s autoridades da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/igreja-catolica\/\">Igreja<\/a>.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cO ensinamento sobre guerra justa existe para refrear a viol\u00eancia, n\u00e3o para legitim\u00e1\u2011la: indica quando a for\u00e7a pode ser usada, de que modo e contra quem \u2013 n\u00e3o para \u2018batizar\u2019 a guerra como tal.\u201d<\/p>\n<p><cite>Gordon Thomson, capit\u00e3o reformado da Marinha Real Canadense e estudioso do Direito Internacional e de S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<h3>Dignidade finita, confus\u00e3o infinita<\/h3>\n<p><em>Gordon W. Thomson<\/em><\/p>\n<p>Mesmo um observador atento pode perceber que o debate cat\u00f3lico sobre a guerra passou, em poucos anos, de uma aceita\u00e7\u00e3o cautelosa de uma necessidade tr\u00e1gica para algo que se aproxima do pacifismo <em>de fato<\/em>. Papas, a come\u00e7ar por <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/papa-francisco\/\">Francisco<\/a>, e v\u00e1rios prelados agora afirmam que \u201cas guerras s\u00e3o sempre injustas\u201d, que \u201cn\u00e3o existe guerra justa\u201d e at\u00e9 que \u201ca guerra hoje \u00e9, em si mesma, um crime contra a humanidade\u201d. Ao mesmo tempo, novos documentos vaticanos de antropologia crist\u00e3 proclamam que cada pessoa humana possui \u201cdignidade infinita\u201d. Essa converg\u00eancia de afirma\u00e7\u00f5es repousa sobre um erro doutrinal s\u00e9rio, que amea\u00e7a quase mil anos de desenvolvimento da doutrina e distorce a capacidade da Igreja de falar com credibilidade sobre pol\u00edtica, direito e defesa dos inocentes.<\/p>\n<p>O erro fundamental \u00e9 simples de enunciar: a Igreja nunca ensinou que os seres humanos possuem dignidade infinita. S\u00f3 Deus \u00e9 incriado, s\u00f3 Deus \u00e9 infinito, s\u00f3 a dignidade divina \u00e9 verdadeiramente ilimitada. O ser humano, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 criado e finito; sua dignidade, embora muito elevada, \u00e9 a dignidade de imagens racionais e subsistentes de Deus. Para S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, \u00e9 precisamente essa dignidade finita que fundamenta tanto a proibi\u00e7\u00e3o absoluta de matar o inocente quanto a possibilidade tr\u00e1gica, mas real, de recorrer \u00e0 for\u00e7a letal, sob condi\u00e7\u00f5es estritas, para defender o bem comum.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s ensina a partir da raz\u00e3o, da l\u00f3gica e da metaf\u00edsica, n\u00e3o do sentimentalismo. Em formula\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, ele chama a pessoa humana de \u201co que h\u00e1 de mais perfeito em toda a natureza\u201d: subst\u00e2ncia individual de natureza racional, que traz em si a imagem de Deus pela intelig\u00eancia e pela vontade. A partir dessa compreens\u00e3o da pessoa, insiste que \u201cmatar um homem que est\u00e1 ordenado a si mesmo \u00e9 absolutamente il\u00edcito\u201d. A vida inocente, ordenada ao seu pr\u00f3prio bem racional, \u00e9 inviol\u00e1vel; por isso, ataques intencionais contra n\u00e3o combatentes s\u00e3o absolutamente exclu\u00eddos, tanto em tempo de guerra quanto em paz.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/03\/24135332\/papa-leao-xiv-angelus-22-mar.jpg.webp\" \/><i>No Angelus deste domingo, Le\u00e3o XIV falou das guerras no Oriente M\u00e9dio e em outros locais, e disse que \u201ca morte e a dor provocadas por estas guerras s\u00e3o um esc\u00e2ndalo para toda a fam\u00edlia humana\u201d. (Foto: Riccardo Antimiani\/EFE\/EPA\/Ansa)<\/i><\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, Tom\u00e1s reconhece que o ser humano n\u00e3o foi criado para existir isolado; desde o princ\u00edpio faz parte de um todo mais amplo ordenado ao bem comum. Pelo pecado grave e persistente, o homem pode \u201cafastar\u2011se da ordem da raz\u00e3o\u201d e, de certo modo, \u201ccair no estado servil dos animais\u201d, de tal maneira que a autoridade p\u00fablica possa trat\u00e1\u2011lo \u201csegundo aquilo em que \u00e9 \u00fatil para os outros\u201d. Os tomistas sempre insistiram, com raz\u00e3o, que isso n\u00e3o nega a dignidade ontol\u00f3gica: o pecador continua sendo criatura racional e imagem de Deus. Trata\u2011se de uma queda relacional e pol\u00edtica: a culpa grave pode desordenar tanto a rela\u00e7\u00e3o do pecador com o bem comum que san\u00e7\u00f5es severas \u2013 inclusive, em \u00faltimo caso, a pena de morte \u2013 tornam\u2011se justific\u00e1veis para proteger terceiros e como esp\u00e9cie de <em>medicina peccatoris.<\/em><\/p>\n<p>O direito dos conflitos armados aplica esse entendimento em dois n\u00edveis \u00e0 realidade da guerra. Inocentes n\u00e3o combatentes permanecem entre aqueles \u201cordenados a si mesmos\u201d; nunca podem ser diretamente atacados. Combatentes, pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o s\u00e3o \u201ccivis flutuantes\u201d, cujo estatuto oscila conforme inten\u00e7\u00f5es imediatas; s\u00e3o \u201cobjetivos militares por estatuto\u201d: instrumentos organizados de dano grave, integrados no aparelho b\u00e9lico do Estado. Justamente por causa desse papel, constituem amea\u00e7a objetiva ao bem comum. Sob condi\u00e7\u00f5es estritas de justa causa, reta inten\u00e7\u00e3o, proporcionalidade e discrimina\u00e7\u00e3o, a autoridade p\u00fablica pode cont\u00ea\u2011los legalmente. Um torpedo cuidadosamente apontado contra um navio de guerra inimigo, em alto\u2011mar e sem risco para civis, \u00e9 o an\u00e1logo militar do uso raro e medicinal da pena de morte em Tom\u00e1s: ato terr\u00edvel, mas ordenado, de defesa, n\u00e3o nega\u00e7\u00e3o do valor criado do combatente.<\/p>\n<p>Nesse quadro de dignidade humana finita, a doutrina da guerra justa n\u00e3o \u00e9 concess\u00e3o ao princ\u00edpio de \u201cfazer o mal para que venha o bem\u201d. \u00c9 a forma estruturada pela qual os governantes cumprem o dever de defender inocentes pela for\u00e7a quando nenhum outro meio basta. O ensinamento sobre guerra justa existe para refrear a viol\u00eancia, n\u00e3o para legitim\u00e1\u2011la: indica quando a for\u00e7a pode ser usada, de que modo e contra quem \u2013 n\u00e3o para \u201cbatizar\u201d a guerra como tal.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que o novo idioma da \u201cdignidade infinita\u201d se torna problem\u00e1tico. A declara\u00e7\u00e3o <em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/roman_curia\/congregations\/cfaith\/documents\/rc_ddf_doc_20240402_dignitas-infinita_po.html\">Dignitas infinita<\/a><\/em> fala repetidamente da \u201cdignidade infinita\u201d de cada pessoa humana; o documento <em>Quo vadis, humanitas?<\/em> afirma que ser pessoa \u201ccom dignidade infinita\u201d \u00e9 o ponto de partida da antropologia crist\u00e3, e que toda exist\u00eancia humana tem \u201cvalor infinito em si mesma\u201d, de modo que nenhuma medida pol\u00edtica, econ\u00f4mica ou social pode \u201cdiminuir\u201d essa dignidade. \u00c0 primeira vista, isso pode parecer desenvolvimento de <em>Gaudium et spes<\/em>. Na realidade, atravessa um limite teol\u00f3gico fundamental. Tom\u00e1s salvaguarda a distin\u00e7\u00e3o Criador\u2011criatura insistindo que a dignidade humana, por mais elevada, \u00e9 criada e anal\u00f3gica. S\u00f3 Deus \u00e9 infinito no ser; s\u00f3 a dignidade divina \u00e9 estritamente ilimitada. Atribuir \u201cdignidade infinita\u201d ao homem, sem as devidas qualifica\u00e7\u00f5es, arrisca confundir Criador e criatura. E mina, na pr\u00e1tica, o ensinamento sobre pena e guerra justa: se cada pessoa possui dignidade literalmente infinita, qualquer ato deliberado de tirar a vida humana \u2013 mesmo em defesa de v\u00edtimas \u2013 passa a parecer intrinsecamente incompat\u00edvel com essa dignidade.<\/p>\n<p>\u00c9 essa premissa oculta que confere plausibilidade ao que alguns chamam hoje de \u201cpacifismo funcional\u201d: os crit\u00e9rios cl\u00e1ssicos de guerra justa permanecem no papel, mas o horizonte sugerido pela ret\u00f3rica atual \u00e9 tal que, na pr\u00e1tica, nenhuma guerra pode cumpri\u2011los. Diz\u2011se que a dignidade humana \u00e9 infinita, que a guerra \u00e9 sempre injusta, que s\u00f3 o di\u00e1logo \u00e9 aceit\u00e1vel; mas vivemos num mundo com Estados agressivos, regimes genoc\u00eddios e organiza\u00e7\u00f5es terroristas, em que a recusa de usar a for\u00e7a pode significar abandonar inocentes ao massacre \u2013 como a pr\u00f3pria Ucr\u00e2nia experimenta hoje.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o recebida da Igreja, seguindo Tom\u00e1s de Aquino e Agostinho, reconhece que governantes podem pecar tanto ao travar guerras injustas quanto ao recusar guerras que seriam realmente justas. A nova linguagem da \u201cdignidade infinita\u201d torna quase inomin\u00e1vel esse segundo tipo de falha. Se a Igreja quiser ser fiel \u00e0 sua pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o e manter credibilidade diante das na\u00e7\u00f5es, precisa recuperar e ensinar de novo uma concep\u00e7\u00e3o clara de dignidade humana finita e anal\u00f3gica. Chamar \u201cinfinita\u201d \u00e0 dignidade humana pode soar a eleva\u00e7\u00e3o; na pr\u00e1tica, arrisca apagar tanto a transcend\u00eancia de Deus quanto o espa\u00e7o moral em que sempre se situaram a pena justa, a guerra justa e a defesa dos inocentes.<\/p>\n<p><strong><em>Gordon W. Thomson<\/em><\/strong><em> \u00e9 capit\u00e3o<\/em><em>\u2011<\/em><em>tenente reformado da Marinha Real Canadense, pesquisador nas \u00e1reas de Direito Internacional e Direito dos Conflitos Armados, especializado na tradi\u00e7\u00e3o tomista, em particular na obra de Tom\u00e1s de Aquino e Francisco de Vit\u00f3ria. Reside em Portugal.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O blog tradicionalista Rorate Caeli publicou, na semana passada, o conte\u00fado de uma carta enviada por dom Geoffroy Kemlin, abade&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":308331,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-308330","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/308330","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=308330"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/308330\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/308331"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=308330"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=308330"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=308330"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}