{"id":306682,"date":"2026-03-23T16:43:42","date_gmt":"2026-03-23T20:43:42","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=306682"},"modified":"2026-03-23T16:43:42","modified_gmt":"2026-03-23T20:43:42","slug":"por-que-o-chocolate-ja-nao-e-o-mesmo-e-talvez-nem-seja-mais-chocolate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=306682","title":{"rendered":"Por que o chocolate j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo \u2014 e talvez nem seja mais chocolate\u00a0"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Voc\u00ea certamente j\u00e1 teve a impress\u00e3o de que n\u00e3o se produzem mais chocolates como antigamente. O consumidor procura aquele gosto da inf\u00e2ncia e encontra s\u00f3 decep\u00e7\u00e3o. A sensa\u00e7\u00e3o, para muita gente, \u00e9 a de um produto mais doce, mais oleoso e menos marcante. Os chocolates mudaram ou isso \u00e9 s\u00f3 nostalgia?\u00a0<\/p>\n<p>Essa percep\u00e7\u00e3o tem base concreta. O chocolate industrial vendido hoje no Brasil \u00e9 resultado de uma equa\u00e7\u00e3o que combina press\u00e3o de custos, regras permissivas de composi\u00e7\u00e3o e reformula\u00e7\u00f5es pensadas para preservar margem, textura e vida \u00fatil do produto nas prateleiras.\u00a0<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, a disparada do cacau no mercado internacional acelerou esse movimento, que j\u00e1 vinha de antes. Os chocolates encareceram, as embalagens encolheram, e a ind\u00fastria passou a recorrer mais a ingredientes alternativos e a f\u00f3rmulas em que o cacau perde espa\u00e7o.\u00a0<\/p>\n<h2>O que explica a mudan\u00e7a no chocolate?\u00a0<\/h2>\n<p>As mudan\u00e7as nos chocolates t\u00eam rela\u00e7\u00e3o direta com a explos\u00e3o do pre\u00e7o do cacau. A disparada foi puxada por uma quebra global de oferta. A Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Cacau (ICCO, na sigla em ingl\u00eas) estimou um d\u00e9ficit de 462 mil toneladas na safra 2023\/24, com estoques no menor n\u00edvel em 45 anos.\u00a0<\/p>\n<p>Depois de anos em um patamar bem mais baixo, a cota\u00e7\u00e3o internacional subiu fortemente. No auge da crise, em dezembro de 2024, o cacau bateu US$ 12.931 por tonelada em Nova York.\u00a0<\/p>\n<p>O Brasil tamb\u00e9m sentiu a escalada. Na Bahia, a arroba do cacau saiu de R$ 200 em janeiro de 2023 para R$ 300 no fim de outubro do mesmo ano. Com mat\u00e9ria-prima mais cara e escassa, a ind\u00fastria ganhou um incentivo extra para encontrar outras estrat\u00e9gias.\u00a0<\/p>\n<h2>Receitas reformuladas, outro sabor\u00a0<\/h2>\n<p>Diante desse choque, as empresas recorreram a tr\u00eas caminhos: aumentar pre\u00e7os, reduzir gramaturas e mexer na f\u00f3rmula. Parte do setor passou a usar menos cacau e mais ingredientes alternativos, n\u00e3o derivados de cacau.\u00a0<\/p>\n<p>As empresas costumam compensar a redu\u00e7\u00e3o de cacau com a\u00e7\u00facar, leite em p\u00f3, soro de leite, xaropes e gorduras vegetais. Entre as gorduras usadas como alternativas \u00e0 manteiga de cacau, est\u00e3o derivados de palma e outros substitutos vegetais.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que o sabor muda. Menos cacau significa menos massa e manteiga de cacau, que concentram boa parte do aroma, do amargor e da percep\u00e7\u00e3o sensorial do chocolate. Quando a receita ganha mais gordura, leite, a\u00e7\u00facar ou substitutos, esse perfil fica mais dilu\u00eddo e gen\u00e9rico.\u00a0<\/p>\n<h2>Marcas tradicionais em muta\u00e7\u00e3o\u00a0<\/h2>\n<p>H\u00e1 exemplos claros desse fen\u00f4meno no mercado brasileiro. Em 2014, a Nestl\u00e9 anunciou nova f\u00f3rmula para os tabletes Classic nas vers\u00f5es Ao Leite, Duo e Diplomata, al\u00e9m de\u00a0Crunch\u00a0e Alpino. A empresa informou que a composi\u00e7\u00e3o passou a ter mais leite e ficou mais cremosa, com textura mais fina.\u00a0<\/p>\n<p>Outro exemplo \u00e9 o Serenata de Amor, da Garoto. Em 2024, a marca anunciou uma nova receita, inspirada na original, com\u00a0wafer\u00a0mais crocante, mais cremosidade e mais castanha de caju.\u00a0<\/p>\n<p>Em v\u00e1rias linhas de\u00a0wafers\u00a0e biscoitos, tamb\u00e9m apareceram mudan\u00e7as de rotulagem. Em vez de \u201ccobertura de chocolate\u201d, surgiram express\u00f5es como \u201ccobertura sabor chocolate\u201d ou \u201ccobertura sabor chocolate ao leite\u201d. Isso indica que a cobertura n\u00e3o atende ao padr\u00e3o legal para ser chamada de chocolate e, em geral, leva menos cacau e mais gordura vegetal.\u00a0<\/p>\n<p>O Bis Original ao Leite, por exemplo, aparece em grandes redes como \u201cwafer\u00a0recheado e com cobertura sabor chocolate ao leite\u201d. Produtos da linha\u00a0Hershey\u2019s\u00a0Mais e vers\u00f5es\u00a0wafer\u00a0de Sonho de Valsa tamb\u00e9m aparecem no varejo com esse tipo de descri\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<h2>Quais s\u00e3o as regras no Brasil e no exterior\u00a0na produ\u00e7\u00e3o de chocolate?<\/h2>\n<p>No Brasil, a regra atual permite que muitos produtos continuem sendo vendidos como chocolate mesmo quando o consumidor percebe menos sabor de cacau. Hoje vale a\u00a0Resolu\u00e7\u00e3o Direta Colegiada (RDC)\u00a0723\/2022, da Anvisa, que define os padr\u00f5es m\u00ednimos para esse tipo de produto.\u00a0<\/p>\n<p>Pela norma, um produto pode ser chamado de chocolate se tiver pelo menos 25% de s\u00f3lidos totais de cacau. No caso do chocolate branco, o m\u00ednimo \u00e9 de 20% de s\u00f3lidos totais de manteiga de cacau. Isso ajuda a entender por que f\u00f3rmulas mais dilu\u00eddas ainda cabem dentro da lei.\u00a0<\/p>\n<p>Esse padr\u00e3o \u00e9 mais flex\u00edvel do que o adotado no passado. Uma norma brasileira de 1978 exigia ao menos 32% de cacau. A redu\u00e7\u00e3o do piso legal abriu mais espa\u00e7o para receitas com menor presen\u00e7a do ingrediente que d\u00e1 identidade ao chocolate.\u00a0<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma tentativa de endurecer essa regra. Em 17 de mar\u00e7o de 2026, a C\u00e2mara aprovou um projeto que eleva o m\u00ednimo do chocolate para 35% de s\u00f3lidos totais de cacau, limita a 5% o uso de outras gorduras vegetais autorizadas e obriga a informar com clareza o teor de cacau no r\u00f3tulo. Como o texto foi alterado pelos deputados, ele ainda precisa passar novamente pelo Senado.\u00a0<\/p>\n<p>No exterior, os padr\u00f5es costumam ser mais r\u00edgidos ou mais claros. Na Uni\u00e3o Europeia, por exemplo, o \u201cchocolate\u201d com alega\u00e7\u00e3o de qualidade deve ter ao menos 43% de s\u00f3lidos totais de cacau, incluindo 26% de manteiga de cacau.\u00a0<\/p>\n<p>J\u00e1 nos Estados Unidos, para ser chamado de chocolate, o produto precisa cumprir padr\u00f5es m\u00ednimos de composi\u00e7\u00e3o,10% de licor de cacau no caso do chocolate ao leite. E quando h\u00e1 substitui\u00e7\u00e3o por gordura vegetal, isso deve ser informado claramente no r\u00f3tulo.\u00a0<\/p>\n<h2>Os chocolates antigos eram melhores mesmo?\u00a0<\/h2>\n<p>Para a professora\u00a0de\u00a0Tecnologia em Gastronomia, na \u00e1rea de Ci\u00eancia e Tecnologia de Alimentos\u00a0da PUCPR M\u00e1rcia\u00a0Rapacci, a percep\u00e7\u00e3o de que os chocolates antigos eram mais gostosos n\u00e3o se resume \u00e0 nostalgia. Segundo ela, havia diferen\u00e7as sens\u00edveis na experi\u00eancia oferecida por esses produtos.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cOs chocolates de antigamente eram, em geral, percebidos como mais atraentes ao paladar por apresentarem um perfil sensorial mais equilibrado, com menor dul\u00e7or e maior destaque para as notas caracter\u00edsticas do cacau\u201d, afirma\u00a0Rapacci, que \u00e9 qu\u00edmica, mestre em Ci\u00eancia de Alimentos pela UEL e doutora em Tecnologia de Alimentos pela Unicamp.\u00a0<\/p>\n<p>M\u00e1rcia destaca ainda que a textura tinha papel central nessa percep\u00e7\u00e3o. \u201cProdutos com maior propor\u00e7\u00e3o de manteiga de cacau tendem a apresentar um derretimento mais homog\u00eaneo e agrad\u00e1vel, o que contribui para uma libera\u00e7\u00e3o mais gradual dos sabores e aromas\u201d, explica.\u00a0<\/p>\n<h2>Qual o impacto a longo prazo?\u00a0<\/h2>\n<p>O efeito dessas mudan\u00e7as vai al\u00e9m do paladar. Com menos cacau e mais a\u00e7\u00facar, o chocolate se aproxima do perfil de um ultraprocessado de pior qualidade nutricional.\u00a0<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade recomenda limitar o consumo de a\u00e7\u00facares livres a menos de 10% das calorias di\u00e1rias, idealmente abaixo de 5%, por associa\u00e7\u00e3o com c\u00e1rie, ganho de peso e outros agravos. Uma revis\u00e3o publicada em 2024 no\u00a0<em>British Medical\u00a0<\/em><em>Journal<\/em>\u00a0tamb\u00e9m relacionou maior consumo de ultraprocessados a desfechos adversos na sa\u00fade.\u00a0<\/p>\n<p>Para a engenheira de alimentos\u00a0Keliani\u00a0Bordin, a troca de ingredientes tem consequ\u00eancia direta. \u201cA substitui\u00e7\u00e3o progressiva de ingredientes pode levar a um maior consumo de a\u00e7\u00facares adicionados. E isso est\u00e1 associado a maior risco de ganho de peso e a altera\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas, como resist\u00eancia \u00e0 insulina e outras doen\u00e7as cr\u00f4nicas.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>O impacto, diz a professora da PUCPR, tamb\u00e9m atinge a educa\u00e7\u00e3o alimentar. \u201cA exposi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua a produtos mais doces tende a condicionar o paladar, aumentando a prefer\u00eancia por sabores intensamente doces.\u201d\u00a0<\/p>\n<h2>Como encontrar chocolate com o \u201csabor da inf\u00e2ncia\u201d?\u00a0<\/h2>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras da P\u00e1scoa, per\u00edodo em que o consumo de chocolates cresce e muita gente vai \u00e0s compras, a data pode ser tamb\u00e9m uma oportunidade para escolher melhor.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>\u201cPara encontrar produtos mais pr\u00f3ximos das formula\u00e7\u00f5es tradicionais, o consumidor deve observar alguns aspectos. Chocolates com maior percentual de cacau tendem a apresentar sabor mais intenso e menos doce. Al\u00e9m disso, uma lista de ingredientes mais curta e simples \u00e9 um bom indicativo de menor grau de reformula\u00e7\u00e3o\u201d, avalia a engenheira de alimentos\u00a0Keliani\u00a0Bordin.\u00a0<\/p>\n<p>A professora M\u00e1rcia\u00a0Rapacci\u00a0segue a mesma linha, mas faz um alerta: \u201cBusque maior porcentagem de cacau e f\u00f3rmulas simples. Mas \u00e9 importante considerar que o \u2018sabor de inf\u00e2ncia\u2019 tamb\u00e9m envolve mem\u00f3ria afetiva, o que pode influenciar a forma como o consumidor percebe e compara os produtos atuais\u201d.\u00a0<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea certamente j\u00e1 teve a impress\u00e3o de que n\u00e3o se produzem mais chocolates como antigamente. 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