{"id":305920,"date":"2026-03-23T10:32:26","date_gmt":"2026-03-23T14:32:26","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=305920"},"modified":"2026-03-23T10:32:26","modified_gmt":"2026-03-23T14:32:26","slug":"rico-em-recursos-pobre-em-estrategia-o-paradoxo-do-comercio-exterior-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=305920","title":{"rendered":"Rico em recursos, pobre em estrat\u00e9gia: o paradoxo do com\u00e9rcio exterior brasileiro"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Os n\u00fameros recentes do com\u00e9rcio exterior brasileiro t\u00eam sido celebrados pelo governo <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/lula\/\">Lula<\/a> como evid\u00eancia de vigor econ\u00f4mico incontest\u00e1vel. Alardeia-se aos quatro cantos, com a costumeira baz\u00f3fia embusteira t\u00edpica do lulopetismo, que o Pa\u00eds ampliou suas exporta\u00e7\u00f5es e seu super\u00e1vit com a China, consolidando-se como um de seus principais fornecedores globais de insumos b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>Esses dados, entretanto, precisam ser colocados em sua devida perspectiva, para infelicidade dos oficiais de propaganda e marqueteiros do governo. Em 2025, as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras para o mercado chin\u00eas chegaram a cerca de USD 100 bilh\u00f5es, cerca de 30% de tudo que vendemos no exterior. Dessa pauta, 90% s\u00e3o <em>commodities<\/em>, com soja, petr\u00f3leo bruto e min\u00e9rio de ferro representando 80% do total e alavancando um super\u00e1vit de USD 29,1 bilh\u00f5es. Isso representa, na verdade, um decr\u00e9scimo significativo em rela\u00e7\u00e3o a 2023, quando as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras para a China ultrapassaram USD 104,3 bi, com super\u00e1vit de USD 51,1 bi.<\/p>\n<p>Embora esses n\u00fameros sejam superlativos, \u00e9 nessa aparente fortaleza que se esconde uma fragilidade estrutural. Enquanto o Brasil aprofunda sua inser\u00e7\u00e3o como fornecedor global de <em>commodities<\/em> e acentua sua depend\u00eancia de um mercado \u00fanico, alterando o perfil exportador do pa\u00eds, com graves repercuss\u00f5es dom\u00e9sticas, tanto em termos de gera\u00e7\u00e3o de emprego e renda quanto em termos de desenvolvimento tecnol\u00f3gico, sua rela\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos se deteriora de forma acelerada e revela um quadro mais complexo e, por isso mesmo, mais revelador.<\/p>\n<p>O d\u00e9ficit bilateral com os EUA, que j\u00e1 vinha em trajet\u00f3ria de alta, registrou uma expans\u00e3o significativa recente, impulsionado por queda nas exporta\u00e7\u00f5es brasileiras e aumento das importa\u00e7\u00f5es de bens industriais e tecnol\u00f3gicos. Os EUA eram um dos principais destinos para a exporta\u00e7\u00e3o de produtos manufaturados brasileiros, situa\u00e7\u00e3o que vem se alterando.<\/p>\n<p>Desde 2023, o Brasil vem demonstrando incapacidade de aumentar suas exporta\u00e7\u00f5es para o mercado americano, registrando USD 37 bi em 2023, USD 36 bi em 2024 e USD 35 bi em 2025, valores que representam, na m\u00e9dia anual, apenas cerca de 25% a 30% das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras para a China. O d\u00e9ficit, entretanto, subiu de USD 1 bi em 2023, situa\u00e7\u00e3o de quase equil\u00edbrio, para USD 8 bi em 2024 e em 2025. Essa oscila\u00e7\u00e3o em torno de um eixo negativo n\u00e3o indica instabilidade; indica regularidade. Trata-se de um d\u00e9ficit estrutural, que se ajusta em intensidade, mas n\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais do que a exist\u00eancia do d\u00e9ficit (ou do super\u00e1vit, no caso chin\u00eas), importa sua natureza. O Brasil n\u00e3o exporta apenas bens de baixa complexidade para os EUA. Ao contr\u00e1rio, h\u00e1 presen\u00e7a relevante de produtos de maior conte\u00fado tecnol\u00f3gico, como aeronaves, partes aeron\u00e1uticas e autope\u00e7as, al\u00e9m de bens industriais diversos. Essa \u00e9, inclusive, uma das dimens\u00f5es mais qualificadas da inser\u00e7\u00e3o externa brasileira.<\/p>\n<p>O problema aqui \u00e9 outro: o Brasil importa dos EUA, e do mundo, em geral, muito mais tecnologia do que exporta. M\u00e1quinas, equipamentos, insumos industriais sofisticados e sistemas de alta intensidade tecnol\u00f3gica dominam a pauta de importa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se trata, portanto, de uma simples aus\u00eancia de capacidade, mas, sobretudo, de assimetria de escala, densidade e complexidade.<\/p>\n<p>E \u00e9 essa assimetria que torna o d\u00e9ficit com os EUA recorrente. O Brasil participa das cadeias produtivas mais sofisticadas, mas o faz de maneira parcial, frequentemente em segmentos espec\u00edficos e com menor agrega\u00e7\u00e3o de valor sist\u00eamico. Exporta nichos de excel\u00eancia; importa a base estrutural da produ\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada.<\/p>\n<p>\u00c9 neste ponto que a compara\u00e7\u00e3o com a China se torna particularmente elucidativa. O Brasil ostenta super\u00e1vit robusto com os chineses, enquanto acumula d\u00e9ficits com os EUA. \u00c0 primeira vista, o saldo agregado parece confort\u00e1vel, mas essa leitura \u00e9 enganosa. O super\u00e1vit com a China \u00e9, em grande medida, um super\u00e1vit de <em>commodities<\/em>, dependente de pre\u00e7os internacionais, ciclos de demanda e vantagens naturais. J\u00e1 o d\u00e9ficit com os Estados Unidos \u00e9, essencialmente, um d\u00e9ficit de densidade tecnol\u00f3gica e integra\u00e7\u00e3o produtiva.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a qualitativa entre esses dois vetores comerciais \u00e9 incontorn\u00e1vel. Para a China, o Brasil exporta volume e gera caixa; para os EUA, exportava valor. Ao perder densidade nessa segunda rela\u00e7\u00e3o, o que revela limites estruturais, o pa\u00eds compromete n\u00e3o apenas seu saldo comercial, mas sua posi\u00e7\u00e3o nas cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A soma desses dois vetores n\u00e3o produz equil\u00edbrio, mas o retrato de uma economia que, embora possua ilhas de excel\u00eancia tecnol\u00f3gica, ainda opera com baixa difus\u00e3o de complexidade em sua estrutura produtiva. Que exporta valor em segmentos espec\u00edficos, mas importa sistemas inteiros de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os dados confirmam essa tend\u00eancia mais ampla. Hoje, menos de 30% das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras s\u00e3o compostas por bens manufaturados, enquanto <em>commodities<\/em> e produtos b\u00e1sicos dominam a pauta. Em economias que lograram escapar da armadilha da renda m\u00e9dia, como a Coreia do Sul, esse percentual supera amplamente os 70%. N\u00e3o se trata de uma diferen\u00e7a marginal, mas de um abismo estrutural.<\/p>\n<p>Como se esse quadro estrutural n\u00e3o bastasse, o modelo prim\u00e1rio-exportador brasileiro revela agora uma vulnerabilidade adicional e imediata, de natureza geopol\u00edtica. O conflito deflagrado em 28 de fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel lan\u00e7aram ataques coordenados contra o Ir\u00e3, transformou o Golfo P\u00e9rsico, por onde transita cerca de um quinto do petr\u00f3leo mundial e um ter\u00e7o da ureia comercializada globalmente, em zona de guerra ativa. Os bombardeios iranianos a instala\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo, g\u00e1s e produ\u00e7\u00e3o de fertilizantes na Ar\u00e1bia Saudita, no Catar e nos Emirados \u00c1rabes Unidos, em retalia\u00e7\u00e3o ao ataque israelense ao campo de g\u00e1s de South Pars (de propriedade compartilhada entre Catar e Ir\u00e3), comprometeram severamente o abastecimento global de insumos cr\u00edticos para a agricultura, em especial fertilizantes nitrogenados e derivados de petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Para o Brasil, que importa mais de 80% dos fertilizantes que consome e quase a totalidade da ureia, das quais cerca de metade transita pelo Estreito de Ormuz, o impacto \u00e9 significativo. A interrup\u00e7\u00e3o do fornecimento n\u00e3o apenas eleva os custos de produ\u00e7\u00e3o em toda a cadeia do agroneg\u00f3cio, desde o plantio at\u00e9 a log\u00edstica de exporta\u00e7\u00e3o, como amea\u00e7a a pr\u00f3pria produtividade das safras de soja e milho, base da pauta exportadora nacional. Trata-se de um fen\u00f4meno cujas consequ\u00eancias, caso o conflito se prolongue, poder\u00e3o se estender pelo m\u00e9dio prazo, reconfigurando a estrutura de custos do setor e comprimindo margens de rentabilidade que j\u00e1 operam sob press\u00e3o. A hist\u00f3ria oferece paralelos instrutivos: a crise do petr\u00f3leo de 1973 n\u00e3o apenas elevou pre\u00e7os, mas reorganizou cadeias energ\u00e9ticas por d\u00e9cadas, e a invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia em 2022 provocou um choque de fertilizantes cujos efeitos inflacion\u00e1rios se fizeram sentir nas g\u00f4ndolas dos supermercados de Bras\u00edlia a Bangkok.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da quest\u00e3o dos insumos, existe um segundo vetor de vulnerabilidade igualmente grave: o acesso log\u00edstico das <em>commodities<\/em> brasileiras aos mercados da regi\u00e3o do conflito, e possivelmente a outros mercados cuja conectividade depende das mesmas rotas mar\u00edtimas. Os pa\u00edses do Golfo s\u00e3o destinos relevantes das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras de <em>commodities<\/em> aliment\u00edcias, incluindo carnes, a\u00e7\u00facar e cereais, e o quase fechamento do Estreito de Ormuz, combinado com a eleva\u00e7\u00e3o abrupta dos pr\u00eamios de seguro mar\u00edtimo e dos custos de frete, dificulta ou inviabiliza o escoamento desses produtos. O Brasil se v\u00ea, assim, duplamente exposto: n\u00e3o consegue importar os insumos de que depende para produzir, e enfrenta barreiras crescentes para exportar aquilo que produz. Essa dupla compress\u00e3o evidencia, com brutalidade rar\u00edssima, que a especializa\u00e7\u00e3o em <em>commodities<\/em> n\u00e3o \u00e9 apenas estruturalmente fr\u00e1gil, como se demonstrou acima, mas tamb\u00e9m conjunturalmente vulner\u00e1vel a choques geopol\u00edticos sobre os quais o pa\u00eds n\u00e3o exerce qualquer influ\u00eancia.<\/p>\n<p>Sob o governo Lula, n\u00e3o se vislumbram quaisquer sinais de revers\u00e3o dessa trajet\u00f3ria. Ao contr\u00e1rio, observa-se uma reafirma\u00e7\u00e3o desse modelo de reduzida sustentabilidade. A pol\u00edtica econ\u00f4mica segue ancorada em ganhos de curto prazo, na valoriza\u00e7\u00e3o de saldos comerciais agregados e em uma ret\u00f3rica que confunde desempenho conjuntural com transforma\u00e7\u00e3o estrutural.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 exportar <em>commodities<\/em>, o que \u00e9, ali\u00e1s, fundamental para um pa\u00eds de dimens\u00f5es continentais como o Brasil. Pa\u00edses como a Austr\u00e1lia realizam essa atividade com enorme sucesso. A diferen\u00e7a \u00e9 que a economia australiana combina sua base prim\u00e1ria com alta produtividade, institui\u00e7\u00f5es robustas, seguran\u00e7a jur\u00eddica, sistema regulat\u00f3rio est\u00e1vel e forte integra\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e log\u00edstica. N\u00e3o \u00e9 exatamente uma pot\u00eancia industrial como a Coreia do Sul, mas possui ind\u00fastrias especializadas com elevado teor tecnol\u00f3gico, cadeias produtivas eficientes, servi\u00e7os financeiros de ponta e um dos melhores sistemas educacionais do mundo. O Brasil, por sua vez, parece aceitar a especializa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria como destino, n\u00e3o como ponto de partida.<\/p>\n<p>A crescente depend\u00eancia da China agrava esse quadro e n\u00e3o para de se aprofundar. Trata-se de uma concentra\u00e7\u00e3o elevada para qualquer economia de porte continental. Mais do que isso: \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica em todos os sentidos. Enquanto Pequim diversifica fornecedores e mant\u00e9m sua margem de autonomia estrat\u00e9gica, o Brasil concentra compradores e perde margem de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em um contexto de rivalidade sist\u00eamica entre China e Estados Unidos, o com\u00e9rcio exterior deixa de ser apenas uma quest\u00e3o de efici\u00eancia e passa a ser instrumento de poder. Cadeias produtivas s\u00e3o reorganizadas com base em crit\u00e9rios geopol\u00edticos, pol\u00edticas industriais retornam ao centro da a\u00e7\u00e3o estatal e tecnologia se converte em ativo estrat\u00e9gico. Nesse novo mundo, a passividade cobra um pre\u00e7o elevado. E o Brasil, at\u00e9 aqui, tem sido passivo, aceitando o avan\u00e7o chin\u00eas sem esbo\u00e7ar qualquer arremedo de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 uma estrat\u00e9gia clara de inser\u00e7\u00e3o internacional. N\u00e3o h\u00e1 pol\u00edtica industrial coerente com as transforma\u00e7\u00f5es em curso. N\u00e3o h\u00e1 diplomacia e promo\u00e7\u00e3o comercial com par\u00e2metros de desempenho e produtividades definidos. N\u00e3o h\u00e1 sequer uma leitura adequada da natureza da disputa global contempor\u00e2nea. Opera-se com categorias anal\u00edticas do passado para enfrentar desafios do presente.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 um paradoxo inquietante: o Brasil aumenta sua relev\u00e2ncia como fornecedor de insumos e reduz sua relev\u00e2ncia como produtor de valor. Essa \u00e9 a ess\u00eancia da chamada especializa\u00e7\u00e3o regressiva, que consiste num processo no qual a economia cresce em volume, mas perde em complexidade; amplia exporta\u00e7\u00f5es, mas reduz sofistica\u00e7\u00e3o; ganha mercado, mas perde autonomia.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria econ\u00f4mica \u00e9 pr\u00f3diga em exemplos de pa\u00edses que se acomodaram nessa posi\u00e7\u00e3o e pagaram o pre\u00e7o. Reverter esse tipo de trajet\u00f3ria exige tempo, planejamento, coordena\u00e7\u00e3o e, sobretudo, vis\u00e3o estrat\u00e9gica. Nada disso \u00e9 vis\u00edvel no horizonte imediato sob Lula.<\/p>\n<p>Celebrar os n\u00fameros atuais como sinal inequ\u00edvoco de sucesso \u00e9, portanto, mais do que um equ\u00edvoco interpretativo. \u00c9 uma escolha que privilegia o curto prazo em detrimento do futuro, a quantidade em detrimento da qualidade, a conveni\u00eancia em detrimento da ambi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Brasil ainda n\u00e3o est\u00e1 sentenciado a esse destino med\u00edocre que o lulopetismo insiste em impor. Mas, se persistir na bisonha tentativa de confundir super\u00e1vit com desenvolvimento e depend\u00eancia com autonomia, continuar\u00e1 desperdi\u00e7ando janelas hist\u00f3ricas e consolidar\u00e1 a imagem declinante de um Brasil cada vez mais distante do t\u00e3o almejado \u201cpa\u00eds do futuro\u201d, condenado a ser uma economia grande, rica em recursos e pobre em estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p><em>Marcos Degaut \u00e9 doutor em Seguran\u00e7a Internacional, pesquisador s\u00eanior na University of Central Florida (EUA), ex-secret\u00e1rio especial adjunto de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e ex-secret\u00e1rio de Produtos de Defesa do Minist\u00e9rio da Defesa.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os n\u00fameros recentes do com\u00e9rcio exterior brasileiro t\u00eam sido celebrados pelo governo Lula como evid\u00eancia de vigor econ\u00f4mico incontest\u00e1vel. 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