{"id":305279,"date":"2026-03-23T05:00:00","date_gmt":"2026-03-23T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=305279"},"modified":"2026-03-23T05:00:00","modified_gmt":"2026-03-23T09:00:00","slug":"ponte-de-guaratuba-simbolo-de-um-brasil-que-planeja-executa-e-entrega","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=305279","title":{"rendered":"Ponte de Guaratuba, s\u00edmbolo de um Brasil que planeja, executa e entrega"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Foi minha segunda visita feita \u00e0 ponte sobre a Ba\u00eda de Guaratuba, no Paran\u00e1. Na companhia de meus dois filhos engenheiros, percorremos a obra de barco e tamb\u00e9m a p\u00e9. Na primeira visita, em junho de 2025, 60% da constru\u00e7\u00e3o estava conclu\u00edda; hoje, 13 de mar\u00e7o de 2026, o avan\u00e7o chega a 91%, com inaugura\u00e7\u00e3o prevista para o in\u00edcio de abril. H\u00e1 uma semana, ocorreu o t\u00e3o aguardado momento apote\u00f3tico: o \u201cbeijo da ponte\u201d, jarg\u00e3o dos engenheiros que marca o encontro das duas frentes de constru\u00e7\u00e3o \u2013 uma vinda de Guaratuba e outra de Matinhos.<\/p>\n<p>O cronograma segue firme e, at\u00e9 mesmo durante o carnaval, as equipes mantiveram trabalho ininterrupto, garantindo o cumprimento das metas de uma das maiores interven\u00e7\u00f5es de infraestrutura em andamento no estado. Com 1.244 metros de extens\u00e3o, quatro faixas de tr\u00e1fego, ciclovia e cal\u00e7adas, a ponte representa um investimento de cerca de meio bilh\u00e3o de reais e conta com uma m\u00e9dia de 690 trabalhadores que se revezam em dois turnos.<\/p>\n<p>Em termos de comunica\u00e7\u00e3o, uma jogada inteligente: logo ap\u00f3s a inaugura\u00e7\u00e3o, est\u00e1 prevista a realiza\u00e7\u00e3o da Maratona Internacional do Paran\u00e1 (MIP), que certamente ter\u00e1 grande visibilidade na m\u00eddia. As provas de 5 e 21 km ocorrer\u00e3o no s\u00e1bado (2 de maio) e as de 10 e 42 km no domingo (3 de maio), todas passando pela nova ponte.<\/p>\n<p>A obra substitui o sistema de ferry boat entre Matinhos e Guaratuba, com impacto direto na mobilidade da popula\u00e7\u00e3o litor\u00e2nea e dos turistas. E um mimo aos usu\u00e1rios: travessia sem ped\u00e1gio. A Ponte de Guaratuba ser\u00e1 um marco da gest\u00e3o estadual e um orgulho para a engenharia brasileira. Sua constru\u00e7\u00e3o estava prevista h\u00e1 quatro d\u00e9cadas, determinada pelo artigo 36 do Ato das Disposi\u00e7\u00f5es Constitucionais Transit\u00f3rias da Constitui\u00e7\u00e3o do Estado do Paran\u00e1.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O Brasil convive com contrastes profundos, pois, em meio a obras que impulsionam o desenvolvimento, persistem mazelas que exp\u00f5em um pa\u00eds ferido por distor\u00e7\u00f5es e privil\u00e9gios<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o envolve m\u00e9todos modernos de engenharia e volumes expressivos de materiais. Foram empregadas cerca de 10.000 toneladas de a\u00e7o e 40.000 metros c\u00fabicos de concreto, al\u00e9m de aproximadamente 500 quilos de gelo, fornecidos por empresas de Guaratuba, utilizados no controle t\u00e9rmico durante a concretagem.<\/p>\n<p>A ponte ter\u00e1 um v\u00e3o naveg\u00e1vel de 160 metros de largura e 20 metros de altura sob a parte estaiada. Nesse tipo de estrutura, o tabuleiro \u00e9 sustentado por 12 pares de cabos diagonais de a\u00e7o de alta resist\u00eancia de cada lado \u2013 os estais \u2013, tensionados e ancorados em mastros verticais que transferem o peso para as funda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na parte estaiada, o tabuleiro \u00e9 montado pe\u00e7a por pe\u00e7a \u2013 cada uma recebe o nome de aduela \u2013 e sustentado pelos estais, dispensando os tradicionais pilares. Esse \u00e9 o trecho mais complexo e visualmente marcante da obra: s\u00e3o 320 metros de extens\u00e3o, com mastros que alcan\u00e7am 40 metros de altura. O resultado j\u00e1 come\u00e7a a se consolidar como um novo cart\u00e3o-postal do litoral paranaense.<\/p>\n<p>O tabuleiro \u00e9 formado por 160 vigas longarinas, apoiadas sobre 64 pilares cil\u00edndricos cravados no fundo da ba\u00eda. Na concretagem desses pilares, formas met\u00e1licas cil\u00edndricas recebem arma\u00e7\u00f5es circulares de ferro produzidas no pr\u00f3prio canteiro \u2013 um trabalho artesanal de dobraduras e soldagens. Caminh\u00f5es-betoneira navegam sobre balsas para despejar o concreto que forma as estruturas de sustenta\u00e7\u00e3o, enquanto uma treli\u00e7a met\u00e1lica amarela, motorizada, desliza sobre o trecho j\u00e1 conclu\u00eddo e posiciona as novas longarinas, cada uma com 48 metros de comprimento e 75 toneladas.<\/p>\n<p>Ao perguntarmos sobre o tr\u00e1fego de caminh\u00f5es, os engenheiros explicaram que a estrutura \u201csuporta carretas carregadas, mas, por ora, n\u00e3o ser\u00e1 permitido o tr\u00e2nsito de caminh\u00f5es pesados, pois as estradas de acesso n\u00e3o suportariam. Tampouco seria vi\u00e1vel o tr\u00e1fego de carga dentro da cidade de Guaratuba. Projetamos uma ponte para 100 anos, capaz de suportar grandes cargas\u201d.<\/p>\n<p>No lado de Guaratuba, houve necessidade de refor\u00e7o do subleito, pois o solo turfoso exigiu conten\u00e7\u00f5es adicionais com tirantes e protens\u00e3o, ampliando significativamente os servi\u00e7os de terraplanagem.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Nessa segunda visita \u00e0 obra, fomos gentilmente recebidos pelo diretor do cons\u00f3rcio e respons\u00e1vel t\u00e9cnico, engenheiro Luciano Pizzatto. Dedicamos uma manh\u00e3 inteira a percorrer o tabuleiro da ponte, especialmente a parte estaiada e suas galerias subterr\u00e2neas. Para culminar o dia de muito aprendizado, almo\u00e7amos frutos do mar na denominada Prainha, com vista para a majestosa ponte.<\/p>\n<p>A inaugura\u00e7\u00e3o est\u00e1 prevista para o in\u00edcio de abril de 2026. Voltamos para Curitiba euf\u00f3ricos: o bom senso prevaleceu sobre os entraves burocr\u00e1ticos e ambientais. Trata-se de uma obra com cronograma bastante apertado, mas que avan\u00e7a sem atrasos, sem suspeitas de superfaturamento e com forte impacto social positivo, empregando majoritariamente trabalhadores da pr\u00f3pria regi\u00e3o litor\u00e2nea.<\/p>\n<p>O Brasil convive com contrastes profundos, pois, em meio a obras que impulsionam o desenvolvimento, persistem mazelas que exp\u00f5em um pa\u00eds ferido por distor\u00e7\u00f5es e privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>Enquanto a ponte de Guaratuba simboliza o Brasil que planeja, executa e entrega, h\u00e1 outro Brasil que sangra silenciosamente, drenado por privil\u00e9gios que desafiam a l\u00f3gica, a \u00e9tica e a paci\u00eancia do contribuinte.<\/p>\n<p>A indigna\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas minha. Ecoou hoje no almo\u00e7o com amigos, todos perplexos. O pr\u00f3prio ministro do STF, Fl\u00e1vio Dino, classificou como \u201cmultiplica\u00e7\u00e3o an\u00f4mala\u201d os penduricalhos remunerat\u00f3rios. N\u00e3o se trata de um cr\u00edtico externo, mas de algu\u00e9m de dentro do sistema reconhecendo o \u00f3bvio.<\/p>\n<p>H\u00e1 estimativas de que aproximadamente R$ 15 bilh\u00f5es por ano sejam gastos com penduricalhos destinados a uma parte do funcionalismo p\u00fablico. Isso equivale a cerca de 30 pontes de Guaratuba. H\u00e1 um detalhe que torna o quadro ainda mais grave: boa parte dessas verbas \u00e9 isenta de imposto de renda e de contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria, ou seja, o privil\u00e9gio \u00e9 duplo \u2013 ganha-se muito e contribui-se pouco.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se trata de generalizar. O fato \u00e9 que uma parcela do funcionalismo recebe benef\u00edcios que extrapolam o razo\u00e1vel, enquanto outros servidores, que exercem fun\u00e7\u00f5es de responsabilidade semelhante, n\u00e3o t\u00eam acesso a nada disso. \u00c9 justamente nessa disparidade que reside a anomalia.<\/p>\n<p>Segundo dados publicados na imprensa, apenas em 2025 foram pagos R$ 10,3 bilh\u00f5es em supersal\u00e1rios no Judici\u00e1rio, um salto de 43% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 infraestrutura que se perde: s\u00e3o salas de aula, postos de sa\u00fade, ambul\u00e2ncias, viaturas e policiais que deixam de chegar \u00e0s ruas.<\/p>\n<p>A Justi\u00e7a do Trabalho pagou R$ 1 bilh\u00e3o acima do teto constitucional em 2025. E, em ao menos um estado, desembargadores receberam, em m\u00e9dia, cerca de R$ 148 mil brutos por m\u00eas, isto \u00e9, mais de R$ 100 mil acima do teto e um aumento de 140% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. At\u00e9 o CNJ admite que esses gastos acima do limite constitucional cresceram expressivamente.<\/p>\n<p>Esses penduricalhos se espalham como ervas daninhas por v\u00e1rias esferas do poder, corroendo ainda mais a confian\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o e desafiando nossa capacidade de indigna\u00e7\u00e3o. O mais grave \u00e9 que s\u00e3o pr\u00e1ticas que se perpetuam porque beneficiam justamente quem deveria coibi-las.<\/p>\n<p>Temos, sim, o Brasil bonito, que trabalha duro, constr\u00f3i e abre caminhos, mas temos tamb\u00e9m o Brasil das distor\u00e7\u00f5es, dos privil\u00e9gios blindados, das brechas que se eternizam. Os penduricalhos n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos sintomas de um Brasil ferido: presenciamos uma preocupante promiscuidade de gestores p\u00fablicos envolvidos em pr\u00e1ticas pouco republicanas, como no ainda pouco desvendado caso Banco Master \u2013 e muito mais parece estar por vir.<\/p>\n<p>Se \u201ch\u00e1 algo de podre no reino da Dinamarca\u201d, o que diria Hamlet do Brasil? Aqui, a trag\u00e9dia real \u00e9 assistirmos ao mesmo ato se repetir, enquanto o pano insiste em n\u00e3o cair. Como sociedade, precisamos decidir qual Brasil queremos fortalecer \u2013 e qual precisamos combater.<\/p>\n<p><em><strong>Jacir J. Venturi <\/strong>\u00e9 formado em Engenharia e Matem\u00e1tica pela UFPR. Foi professor e diretor de escolas p\u00fablicas e privadas, al\u00e9m de docente da UFPR, PUCPR e Universidade Positivo.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi minha segunda visita feita \u00e0 ponte sobre a Ba\u00eda de Guaratuba, no Paran\u00e1. 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