{"id":301299,"date":"2026-03-21T08:00:15","date_gmt":"2026-03-21T12:00:15","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=301299"},"modified":"2026-03-21T08:00:15","modified_gmt":"2026-03-21T12:00:15","slug":"a-ladeira-que-nao-se-sobe-de-carro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=301299","title":{"rendered":"A ladeira que n\u00e3o se sobe de carro"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Eu sou o \u00fanico dos tr\u00eas filhos da Alba e do Fernando que n\u00e3o morou em S\u00e3o Paulo, e quando l\u00e1 estive pela \u00faltima vez, em agosto de 2022, aproveitei a folga laboral para ir ao centro da cidade e subir a Ladeira da Mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>A Ladeira da Mem\u00f3ria fica no Largo hom\u00f4nimo, centr\u00e3o de S\u00e3o Paulo, que j\u00e1 n\u00e3o existe sen\u00e3o como top\u00f4nimo e como ferida, e que Jos\u00e9 Geraldo Vieira, num romance esquisito de 1950 que o Brasil fez quest\u00e3o de esquecer, transformou na mais exata met\u00e1fora do que significa estar vivo e ter perdido alguma coisa que n\u00e3o se pode nomear sem que a voz falhe. A Ladeira da Mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 um lugar: \u00e9 uma inclina\u00e7\u00e3o da alma, um plano por onde descem, em desordem, os fragmentos daquilo que fomos e que, por covardia ou por excesso de pudor, recusamos integrar ao que somos. Subir a ladeira \u00e9 o contr\u00e1rio de nostalgiar e um ato de coragem ontol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O romance conta a hist\u00f3ria de Jorge, m\u00e9dico e romancista, que rememora seu amor imposs\u00edvel por Renata, uma mulher casada que o amava atrav\u00e9s de seus livros, penetrando-lhe a alma pela literatura antes de lhe tocar o corpo, que ali\u00e1s jamais tocou. O tio de Jorge, num trem noturno, lhe diz com a autoridade serena, sem a avacalha\u00e7\u00e3o rodrigueana que define o Brasil, com o pejo dos que j\u00e1 sofreram o bastante para n\u00e3o terem mais pressa: &#8220;<em>O romancista salvar\u00e1 o homem<\/em>.&#8221; E lhe ordena, como quem prescreve um rem\u00e9dio amargo, que suba a ladeira da mem\u00f3ria, que veja a que ficou reduzido o desv\u00e3o do passado, e que resolva reinserir-se na exist\u00eancia aut\u00eantica. A frase \u00e9 de uma brutalidade compassiva que s\u00f3 um escritor da estirpe de Jos\u00e9 Geraldo Vieira poderia produzir sem cair no sentimentalismo ou na autoajuda.<\/p>\n<p>Ora, o que \u00e9 a exist\u00eancia aut\u00eantica sen\u00e3o aquilo que Husserl chamava de retorno \u00e0s coisas mesmas, a suspens\u00e3o de todos os v\u00e9us interpretativos que a vida social deposita sobre a experi\u00eancia bruta do real? A fenomenologia husserliana, antes de ser um m\u00e9todo filos\u00f3fico, \u00e9 uma disciplina do olhar: \u00e9 a decis\u00e3o de n\u00e3o aceitar que o h\u00e1bito nos roube a estranheza do mundo. Jorge, no romance, est\u00e1 anestesiado pela dor, e a anestesia \u00e9 justamente o contr\u00e1rio da epoch\u00e9 fenomenol\u00f3gica: \u00e9 a recusa de perceber. O tio lhe diz, em ess\u00eancia, que ele precisa voltar a perceber, ainda que perceber signifique sofrer, porque s\u00f3 quem percebe pode criar, e s\u00f3 quem cria se salva.<\/p>\n<p>M\u00e1rio Ferreira dos Santos, que, como Vieira, pertence \u00e0quela linhagem de pensadores brasileiros que o Brasil prefere ignorar a ter de enfrentar, escreveu que o homem \u00e9 o ser que se realiza na propor\u00e7\u00e3o em que atualiza suas pot\u00eancias. A formula\u00e7\u00e3o \u00e9 aristot\u00e9lica em sua raiz: o ato \u00e9 superior \u00e0 pot\u00eancia, e a vida plena consiste na passagem do que se pode ser ao que se \u00e9 de fato. Jorge, no romance, \u00e9 pura pot\u00eancia paralisada. Ele pode amar, pode escrever, pode viver, mas est\u00e1 estatelado, como o pr\u00f3prio romance diz com uma franqueza cruel. A ladeira da mem\u00f3ria \u00e9 o caminho da pot\u00eancia ao ato, e subi-la exige o que Arist\u00f3teles chamaria de coragem, que n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia do medo, mas a decis\u00e3o de agir apesar dele.<\/p>\n<p>Olavo de Carvalho, que foi um dos poucos a insistir na grandeza de Jos\u00e9 Geraldo Vieira quando ningu\u00e9m mais o lia, percebeu que o esquecimento desse autor n\u00e3o era acidental, mas sintom\u00e1tico. Vieira era cosmopolita quando o Brasil exigia regionalismo; era cat\u00f3lico quando a intelectualidade marchava para a esquerda; era estilista quando a moda era a prosa magra e sociol\u00f3gica. Seu crime foi ser inclassific\u00e1vel, e o Brasil, que adora classificar para depois arquivar, n\u00e3o soube o que fazer com um romancista que citava Novalis e Rilke mas escrevia sobre o Largo da Mem\u00f3ria com a intimidade de quem conhecia cada paralelep\u00edpedo. O resultado foi o sil\u00eancio, que \u00e9 a forma brasileira da excomunh\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 algo mais profundo nesse esquecimento, e que diz respeito ao pr\u00f3prio Brasil e ao amor que se tem por ele, esse amor arrombado, envergonhado, triste e quase clandestino que todo brasileiro carrega como quem carrega uma doen\u00e7a da qual n\u00e3o se fala em p\u00fablico.<\/p>\n<p>Amar o Brasil \u00e9 subir uma ladeira da mem\u00f3ria coletiva que inclui tanto a grandeza quanto a vergonha, tanto Aleijadinho quanto a escravid\u00e3o, tanto Machado de Assis quanto a mediocridade que insiste em n\u00e3o reconhec\u00ea-lo. Jos\u00e9 Geraldo Vieira amava o Brasil \u00e0 sua maneira, que era a maneira mais dif\u00edcil: amava-o sem condescend\u00eancia, sem ufanismo, sem a chantagem sentimental que transforma o patriotismo numa forma de cegueira volunt\u00e1ria, e a\u00ed, ele amava o Brasil como Jorge amava Renata: de longe, sem posse, sabendo que o objeto do amor \u00e9 sempre maior do que a capacidade de amar.<\/p>\n<p>O amor sacrificial de que fala o romance, esse amor que n\u00e3o se consuma no corpo mas que nem por isso \u00e9 menos real, \u00e9 talvez a forma mais adequada de amar um pa\u00eds como o Brasil, que nos d\u00e1 tudo e nos tira tudo, que nos enche de beleza e de horror em propor\u00e7\u00f5es que desafiam qualquer tentativa de s\u00edntese racional. Renata n\u00e3o deixa o marido, Jorge n\u00e3o insiste, e o amor entre ambos permanece no estado de pura tens\u00e3o que \u00e9, paradoxalmente, sua forma mais elevada, e assim \u00e9 com o Brasil: n\u00f3s o amamos n\u00e3o apesar de suas contradi\u00e7\u00f5es, mas atrav\u00e9s delas, e a ladeira da mem\u00f3ria nacional \u00e9 feita dessas contradi\u00e7\u00f5es colocadas umas ao lado das outras como os paralelep\u00edpedos de Copacabana.<\/p>\n<p>Subir a ladeira da mem\u00f3ria, seja ela pessoal ou nacional, n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de nostalgia: \u00e9 um ato de reinser\u00e7\u00e3o na exist\u00eancia aut\u00eantica, como escreveu Vieira com uma precis\u00e3o que faria inveja a qualquer fenomen\u00f3logo. \u00c9 olhar para o desv\u00e3o do passado e decidir que aquilo tudo, o amor perdido, o pa\u00eds imperfeito, a inf\u00e2ncia que n\u00e3o volta, a ladeira que j\u00e1 n\u00e3o existe sen\u00e3o como nome, tudo isso nos pertence e nos constitui, e que recusar essa heran\u00e7a \u00e9 recusar a pr\u00f3pria vida. O romancista salvar\u00e1 o homem, disse o tio de Jorge. Talvez a mem\u00f3ria salve o Brasil, se algum dia tivermos a coragem de subir a ladeira.<\/p>\n<p><em>*Lindolpho Cademartori \u00e9 diplomata de carreira desde 2006 e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco, do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. Suas opini\u00f5es s\u00e3o estritamente pessoais e n\u00e3o necessariamente refletem as do MRE.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu sou o \u00fanico dos tr\u00eas filhos da Alba e do Fernando que n\u00e3o morou em S\u00e3o Paulo, e quando&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":301300,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-301299","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/301299","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=301299"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/301299\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/301300"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=301299"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=301299"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=301299"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}