{"id":287301,"date":"2026-03-12T18:06:04","date_gmt":"2026-03-12T22:06:04","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=287301"},"modified":"2026-03-12T18:06:04","modified_gmt":"2026-03-12T22:06:04","slug":"por-que-a-esquerda-nao-abandonou-o-x-apesar-das-promessas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=287301","title":{"rendered":"Por que a esquerda n\u00e3o abandonou o X \u2014 apesar das promessas"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>J\u00e1 h\u00e1 algumas elei\u00e7\u00f5es, a pol\u00edtica brasileira passou a ser disputada nas redes sociais e na internet. Foram-se os tempos em que cada voto era decidido no palanque, no r\u00e1dio e no hor\u00e1rio eleitoral gratuito da televis\u00e3o.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Para a esquerda brasileira, essa transi\u00e7\u00e3o tem sido marcada por uma tens\u00e3o que parece n\u00e3o ter fim. Um dilema entre criticar as estruturas dessas plataformas e, ao mesmo tempo, ocup\u00e1-las para n\u00e3o desaparecer do debate p\u00fablico.\u00a0<\/p>\n<p>Se a esquerda critica as redes por supostamente favorecer discursos de direita, por que seus principais atores pol\u00edticos utilizam as plataformas? E se outras redes s\u00e3o apresentadas como ambientes mais saud\u00e1veis,\u00a0por\u00a0que elas n\u00e3o se sustentam?\u00a0<\/p>\n<h2>Tchau X, oi Bluesky\u00a0<\/h2>\n<p>O fen\u00f4meno mais recente da tens\u00e3o da esquerda com as redes sociais ocorreu em torno do X. Desde a compra do antigo Twitter por Elon Musk, a plataforma passou a ser alvo de cr\u00edticas por uma suposta inclina\u00e7\u00e3o do algoritmo a favorecer discursos de direita.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o estimulou uma tentativa de migra\u00e7\u00e3o para redes como\u00a0Bluesky\u00a0e Threads, apresentadas por setores progressistas como ambientes mais saud\u00e1veis e democr\u00e1ticos. Durante a suspens\u00e3o do X no Brasil, em 2024, esse movimento ganhou for\u00e7a entre os governistas.\u00a0<\/p>\n<p>Naquele momento, o\u00a0Bluesky\u00a0chegou a ser tratado como uma esp\u00e9cie de \u201crede de resist\u00eancia\u201d, impulsionado pela sa\u00edda tempor\u00e1ria do X ap\u00f3s decis\u00e3o do ministro Alexandre de Moraes. O crescimento, por\u00e9m, n\u00e3o se sustentou com a retomada da plataforma de Musk no pa\u00eds.\u00a0<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a\u00a0volta do X, a maior parte dos atores pol\u00edticos da esquerda refez o caminho e retomou sua presen\u00e7a na rede. O retorno mostrou que, apesar das cr\u00edticas, o alcance e a centralidade do X no debate p\u00fablico continuam pesando mais do que a rejei\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e0 plataforma.\u00a0<\/p>\n<p>Al\u00e9m do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT),\u00a0quase todos os ministros do governo det\u00eam\u00a0perfis ativos na plataforma de Musk. Uma exce\u00e7\u00e3o no governo \u00e9 a primeira-dama Janja, que n\u00e3o voltou a postar no X desde agosto de 2024.<\/p>\n<h2>O atraso estrat\u00e9gico da esquerda\u00a0<\/h2>\n<p>Analistas de comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e pesquisadores de comportamento digital frequentemente apontam um diagn\u00f3stico comum. Historicamente, a esquerda brasileira, vinculada a movimentos de base, sindicatos e \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o f\u00edsica de espa\u00e7os, demorou a compreender a din\u00e2mica das redes.<\/p>\n<p>\u201cA esquerda sempre adotou uma comunica\u00e7\u00e3o mais argumentativa, mais institucional. E est\u00e1 tentando mudar isso desde 2010, 2013, a partir daqueles movimentos que tomaram as ruas do pa\u00eds\u201d, avalia Marcos Jos\u00e9\u00a0Zablonsky, professor da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Paran\u00e1\u00a0e\u00a0especialista em opini\u00e3o p\u00fablica.\u00a0<\/p>\n<p>Enquanto isso, grupos conservadores e a chamada nova direita passaram a investir com mais rapidez na constru\u00e7\u00e3o de ecossistemas digitais. Segundo\u00a0Zablonsky, a direita brasileira soube explorar melhor a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o nas plataformas.\u00a0<\/p>\n<p>Essa diferen\u00e7a de tempo de resposta criou um descompasso. Grupos mais mobilizados e com discursos de ruptura tendem a ocupar novas plataformas com mais assertividade. Para o professor, esse modelo segue funcionando porque combina comunica\u00e7\u00e3o direta e mensagens f\u00e1ceis de reconhecer.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>\u201cA direita trabalha quase de forma individual. Vai cada um falando e vai aumentando e amplificando\u201d, afirma\u00a0Zablonsky. J\u00e1 a esquerda, mais institucionalizada, acaba recorrendo a uma linguagem mais lenta, mais discursiva e menos adaptada \u00e0 l\u00f3gica acelerada das redes.\u00a0<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, isso ajuda a explicar por que tentativas de migra\u00e7\u00e3o para plataformas alternativas n\u00e3o se sustentaram politicamente. Mesmo criticando o ambiente do X, antigo Twitter,\u00a0e tamb\u00e9m\u00a0redes da Meta, a dona do Facebook, setores da esquerda voltaram a ocupar esses espa\u00e7os por uma raz\u00e3o objetiva: \u00e9 ali que o debate continua concentrado.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Para\u00a0Zablonsky, \u201cn\u00e3o h\u00e1 como fugir dessas plataformas hegem\u00f4nicas\u201d, porque foi a pr\u00f3pria sociedade que consolidou seu uso cotidiano. \u201cO povo j\u00e1 escolheu as plataformas\u201d, afirma, citando WhatsApp, X, Instagram e Facebook como espa\u00e7os centrais da circula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social.\u00a0<\/p>\n<h2>A estrat\u00e9gia digital do governo Lula\u00a0<\/h2>\n<p>Desde a posse em 2023, o governo Lula vem demonstrando que a comunica\u00e7\u00e3o digital passou ao centro da estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia pol\u00edtica.\u00a0A cria\u00e7\u00e3o de uma estrutura voltada \u00e0s redes sinaliza\u00a0essa mudan\u00e7a de postura.\u00a0<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de\u00a0Zablonsky, a chegada de Sid\u00f4nio Palmeira como ministro-chefe da Secretaria de Comunica\u00e7\u00e3o Social do Governo Federal teve justamente o objetivo de tornar a resposta do governo mais afinada com o ritmo da internet.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>\u201cEssa decis\u00e3o foi para tentar ter uma linguagem mais r\u00e1pida, uma percep\u00e7\u00e3o do movimento que acontecia dentro da internet\u201d, afirma. O problema, segundo ele, \u00e9 que em redes marcadas por velocidade e impulsos emocionais, reagir tarde demais pode significar perder a disputa antes mesmo de entrar nela.\u00a0<\/p>\n<h2>Influenciadores ajudam, mas n\u00e3o resolvem\u00a0<\/h2>\n<p>Em busca de mais tra\u00e7\u00e3o nas redes sociais, o governo Lula ampliou a contrata\u00e7\u00e3o de influenciadores digitais para melhorar sua imagem e divulgar programas oficiais, apostando em perfis com p\u00fablicos diversos e linguagem adaptada \u00e0s redes.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia buscou criadores que j\u00e1 tinham afinidade com pautas progressistas ou hist\u00f3rico de cr\u00edticas \u00e0 direita, al\u00e9m de nomes que n\u00e3o atuavam diretamente com pol\u00edtica, mas passaram a fazer\u00a0publieditoriais\u00a0sobre a\u00e7\u00f5es como o Luz para Todos e a proposta de isen\u00e7\u00e3o do Imposto de Renda para quem ganha at\u00e9 R$ 5 mil.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Entre os nomes contratados, est\u00e3o influenciadores como\u00a0Lauany\u00a0Schultz,\u00a0Carolline\u00a0Sard\u00e1, Laura Sabino, Thiago Foltran,\u00a0Beatris\u00a0Brantes\u00a0e Martina Giovanetti. As contrata\u00e7\u00f5es representaram um aumento expressivo no gasto com impulsionamento nas plataformas.\u00a0<\/p>\n<p>Para\u00a0Zablonsky, o peso dos influenciadores n\u00e3o deve ser superestimado. \u201cN\u00e3o \u00e9 porque o influencer tem 1 milh\u00e3o, 2 milh\u00f5es, 3 milh\u00f5es de seguidores que necessariamente as pessoas v\u00e3o aceitar a indica\u00e7\u00e3o dele\u201d, afirma.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o do professor, esses perfis podem ajudar a formar contexto, levantar d\u00favidas, apresentar fontes e servir como ponto de partida para determinadas conversas, mas n\u00e3o t\u00eam poder autom\u00e1tico de transferir apoio pol\u00edtico em massa.\u00a0<\/p>\n<p>Ele observa ainda que o papel dos influenciadores no debate pol\u00edtico parece hoje mais reduzido do que se imaginava h\u00e1 alguns anos. Em muitos casos, diz, sua for\u00e7a se concentra mais em temas do cotidiano, consumo e estilo de vida do que em grandes disputas sobre os rumos do pa\u00eds.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Por isso, mesmo quando essa estrat\u00e9gia produz algum efeito, ele tende a ser restrito. O professor avalia que a disputa est\u00e1 em uma faixa menor do eleitorado, fora dos n\u00facleos mais duros da polariza\u00e7\u00e3o.\u00a0\u00a0<\/p>\n<h2>O campo de batalha pela aten\u00e7\u00e3o dos jovens\u00a0<\/h2>\n<p>Um dos fatores que mais pressionam a urg\u00eancia dessa nova estrat\u00e9gia \u00e9 a mudan\u00e7a profunda no consumo de informa\u00e7\u00e3o entre os jovens. A pol\u00edtica, para parte dessa gera\u00e7\u00e3o, aparece em v\u00eddeos curtos, cortes, memes, trends e conte\u00fados distribu\u00eddos em plataformas de consumo r\u00e1pido.\u00a0<\/p>\n<p>Zablonsky\u00a0avalia que o TikTok se tornou hoje uma das principais frentes dessa disputa. \u201cO TikTok talvez seja a plataforma em que, quem souber usar melhor, \u00e9 onde eles est\u00e3o\u201d, afirma, referindo-se \u00e0 gera\u00e7\u00e3o Z.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Segundo o professor, trata-se de um p\u00fablico acostumado a uma linguagem visual r\u00e1pida, em que o conte\u00fado precisa capturar a aten\u00e7\u00e3o quase instantaneamente. Isso altera profundamente as estrat\u00e9gias de comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Zablonsky\u00a0destaca ainda que essa juventude\u00a0hiperconectada\u00a0se relaciona com o ambiente digital de modo mais fragmentado e mais protegido. Ele menciona, por exemplo, a exist\u00eancia de perfis paralelos e espa\u00e7os de circula\u00e7\u00e3o restrita entre jovens, que escapam ao olhar das institui\u00e7\u00f5es, da fam\u00edlia e at\u00e9 de observadores mais atentos ao debate p\u00fablico.<\/p>\n<h2>Proteger a liberdade de express\u00e3o\u00a0<\/h2>\n<p>Zablonsky chama aten\u00e7\u00e3o para um aspecto importante do atual contexto pol\u00edtico. A internet ampliou a participa\u00e7\u00e3o e democratizou a comunica\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m consolidou uma \u201cdisputa narrativa permanente\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTodo dia, a internet est\u00e1 em fervor. Nessa correria, nessa luta dos embates das narrativas. E o que a gente observa \u00e9 que o desafio das democracias contempor\u00e2neas, agora que a gente v\u00ea, \u00e9 fortalecer o debate p\u00fablico. Mas sem comprometer tamb\u00e9m a liberdade de express\u00e3o. Esse \u00e9 o grande dilema\u201d, comenta o professor.\u00a0\u00a0<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 h\u00e1 algumas elei\u00e7\u00f5es, a pol\u00edtica brasileira passou a ser disputada nas redes sociais e na internet. 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