{"id":282206,"date":"2026-03-14T10:10:05","date_gmt":"2026-03-14T14:10:05","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=282206"},"modified":"2026-03-14T10:10:05","modified_gmt":"2026-03-14T14:10:05","slug":"tecnologia-redes-sociais-e-ia-o-risco-de-que-o-homem-se-torne-objeto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=282206","title":{"rendered":"Tecnologia, redes sociais e IA: o risco de que o homem se torne objeto"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">No \u00faltimo dia 4 de mar\u00e7o, a Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional publicou uma longu\u00edssima nota intitulada <em>Quo vadis, humanitas? Pensar a antropologia crist\u00e3 diante de alguns cen\u00e1rios sobre o futuro do humano.<\/em> O objeto dessa nota, articulada em 164 pontos, \u00e9 o desenvolvimento humano frente ao desenvolvimento tecnol\u00f3gico. Muitos s\u00e3o os n\u00f3s conceituais examinados pela Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica, mas frequentemente eles s\u00e3o tratados de modo verboso que muitas vezes n\u00e3o s\u00e3o pertinentes ao tema da nota. Isolamos aqui apenas dois, bastante sugestivos.<\/p>\n<p>Segundo esse documento, dois fen\u00f4menos filos\u00f3ficos, que t\u00eam repercuss\u00f5es imediatas no \u00e2mbito tecnol\u00f3gico, s\u00e3o particularmente perigosos para um saud\u00e1vel desenvolvimento da humanidade: o transumanismo e o p\u00f3s-humanismo. &#8220;O transumanismo \u2013 lemos na nota \u2013 \u00e9 um movimento filos\u00f3fico que opera com a convic\u00e7\u00e3o de que o ser humano pode e deve empregar os recursos da ci\u00eancia e da tecnologia para superar os limites f\u00edsicos e biol\u00f3gicos da condi\u00e7\u00e3o humana, [\u2026] moldando assim a pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o e maximizando o pr\u00f3prio potencial, at\u00e9 reprojetar o ser humano para torn\u00e1-lo apto a dirigir-se al\u00e9m&#8221;. O transumanismo, em suma, quer pregar um super-homem, um homem t\u00e3o maximamente potencializado que se tornaria outro diferente de si mesmo. Portanto, um homem que ultrapassa \u2013 e isso \u00e9 mera distopia \u2013 a pr\u00f3pria natureza e portanto se desnatura. J\u00e1 o p\u00f3s-humanismo torna &#8220;totalmente fluida a fronteira entre o humano e a m\u00e1quina&#8221;, pregando a aus\u00eancia de uma natureza espec\u00edfica para a pessoa humana: o homem seria indeterminado e, por isso, potencialmente teria a capacidade de fundir-se com outros entes em um todo c\u00f3smico.<\/p>\n<p>Em ambos os casos assistimos \u00e0 tentativa de desnaturar o homem, uma vez que se expressa um &#8220;ju\u00edzo negativo sobre a condi\u00e7\u00e3o humana tal como \u00e9, e em \u00faltima an\u00e1lise sobre a sua identidade&#8221;. Disso deriva o sonho de reinvent\u00e1-la, um sonho motivado pela insatisfa\u00e7\u00e3o com aquilo que nela se apresenta tal como \u00e9&#8221;. Surge assim um tra\u00e7o peculiar de toda ideologia: a rejei\u00e7\u00e3o do real para inventar uma nova realidade. A tenta\u00e7\u00e3o \u00e9, desta forma, substituir-se ao Criador para tornar-se criador de si mesmo. As atuais potencialidades tecnol\u00f3gicas, percebidas agora como onipotentes, tornam ainda mais atraentes as jamais desaparecidas pretens\u00f5es de autopoiese do homem.<\/p>\n<p>Em resposta a essas duas teses filos\u00f3ficas poderia recordar-se de que a pessoa deve aperfei\u00e7oar-se n\u00e3o porque a natureza necessite de aperfei\u00e7oamento, sendo carente de algo, mas porque \u00e9 isso que a natureza pede. Esta funciona como pedra de compara\u00e7\u00e3o para o pr\u00f3prio aperfei\u00e7oamento, mas tamb\u00e9m como limite: o homem ontologicamente jamais poder\u00e1 ser diferente daquilo que \u00e9, ou melhor: de quem \u00e9. Tal aperfei\u00e7oamento, explica a nota, \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o apenas apoiando-se nas potencialidades naturais, mas sobretudo por causa da gra\u00e7a divina: &#8220;A correta acep\u00e7\u00e3o desse &#8216;ir al\u00e9m&#8217; pr\u00f3prio do humano encontra-se no \u201ctransumanar\u201d expresso por Dante no primeiro Canto do Para\u00edso, assim como em outras modalidades da experi\u00eancia da \u201cdiviniza\u00e7\u00e3o\u201d, efeito da uni\u00e3o \u00edntima com Deus pela gra\u00e7a mais do que produto de t\u00e9cnicas humanas mais ou menos elaboradas. [\u2026] Nesse n\u00edvel do discurso ser\u00e1 poss\u00edvel medir a profunda dist\u00e2ncia que existe entre o sonho de \u201ctornar-se como deuses\u201d (cf. Gn 3,4) de certo transumanismo ou p\u00f3s-humanismo e o dom da \u201cdiviniza\u00e7\u00e3o\u201d entendido como participa\u00e7\u00e3o na vida divina na humanidade transfigurada dos filhos de Deus em Cristo&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 na participa\u00e7\u00e3o no ser de Deus \u2013 isto \u00e9, o que est\u00e1 indicado no termo n\u00e3o totalmente correto de \u201cdiviniza\u00e7\u00e3o\u201d usado pela nota \u2013 que o homem se aperfei\u00e7oa, isto \u00e9, torna-se cada vez mais homem, cada vez mais ele mesmo. Uma participa\u00e7\u00e3o imperfeita aqui na terra e perfeita no Para\u00edso: &#8220;N\u00f3s seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele \u00e9&#8221; (1 Jo 3,2). <\/p>\n<p>No transumanismo e no p\u00f3s-humanismo, o impulso de transcend\u00eancia \u00e9 frustrado tanto porque o homem \u00e9 reduzido apenas \u00e0 sua dimens\u00e3o f\u00edsica quanto porque se funda unicamente em capacidades humanas, e sobretudo porque a natureza, entendida metafisicamente, \u00e9 um limite intranspon\u00edvel. Ao contr\u00e1rio, no cristianismo a vontade de transcender, isto \u00e9, n\u00e3o de superar a condi\u00e7\u00e3o natural, mas de superar a condi\u00e7\u00e3o de natureza deca\u00edda, \u00e9 realiz\u00e1vel gra\u00e7as \u00e0s pot\u00eancias da alma e por causa da gra\u00e7a de Deus. Um movimento de transcend\u00eancia t\u00e3o elevado, muito mais elevado do que aquele imaginado pelos transumanistas, que nos torna semelhantes a Deus.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O perigo est\u00e1 no fato de que nossa identidade seja moldada pelas redes sociais, pela IA, pelos in\u00fameros dispositivos que utilizamos.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><\/p>\n<p>Um segundo tema sugestivo abordado pela nota \u00e9 o da rela\u00e7\u00e3o entre tecnologia e identidade. A esse respeito a Comiss\u00e3o escreve que, uma vez que &#8220;tecnologia digital, redes sociais, intelig\u00eancia artificial [s\u00e3o] instrumentos cada vez mais conectados \u00e0 nossa autocompreens\u00e3o, que s\u00e3o utilizados para expressar a si mesmos nas diversas formas da comunica\u00e7\u00e3o social, para moldar as identidades pessoais ou coletivas, para cultivar as rela\u00e7\u00f5es com os outros, disso deriva uma transforma\u00e7\u00e3o mais \u00edntima. A tecnologia digital n\u00e3o \u00e9 mais apenas um instrumento, mas constitui um verdadeiro ambiente de vida, com um modo pr\u00f3prio de estruturar as atividades humanas e as rela\u00e7\u00f5es&#8221;. A intui\u00e7\u00e3o \u00e9 relevante: a tecnologia digital n\u00e3o \u00e9 mais apenas meio, mas ambiente, estrutura tecnol\u00f3gica que j\u00e1 \u00e9 social porque vivemos dentro dela, estamos imersos nela e por osmose assimilamos seus conte\u00fados. \u00c9 condi\u00e7\u00e3o existencial. <\/p>\n<p>Esse ambiente tecno-social, sendo t\u00e3o pervasivo, flex\u00edvel, personaliz\u00e1vel, abrangendo quase todas as nossas atividades e, no que se refere \u00e0 IA, imitativo da intelig\u00eancia humana, est\u00e1 transformando nossas identidades. O risco \u00e9 que o homem de sujeito se torne objeto e o instrumento de objeto se torne sujeito; que o homem de agente se torne algu\u00e9m sobre quem se age e o instrumento de algo sobre o qual se age se torne agente. Em suma, o perigo est\u00e1 no fato de que nossa identidade seja moldada pelas redes sociais, pela IA, pelos in\u00fameros dispositivos que utilizamos. O homem torna-se assim um ciborgue e a m\u00e1quina um humanoide. Uma migra\u00e7\u00e3o cruzada de identidades na qual o real se virtualiza e o virtual se realiza.<\/p>\n<p>Depois, a nota concentra o foco em uma modalidade particular de constru\u00e7\u00e3o da identidade por meio da tecnologia digital: &#8220;Em muitos ambientes da infosfera percebe-se uma insist\u00eancia em fazer-se reconhecer, compartilhando permanentemente pensamentos e emo\u00e7\u00f5es na rede, que devem ser \u201creconhecidos pelos outros\u201d. Embora exista uma justa necessidade humana de reconhecimento, esse fen\u00f4meno excessivo \u00e9 um sintoma de incerteza da identidade. Justamente porque esta deve \u201cinventar-se\u201d sem inst\u00e2ncias objetivas exteriores (natureza, valores culturais, pap\u00e9is sociais, costumes compartilhados), a identidade \u00e9 mais fraca: invoca o reconhecimento, mas precisa negoci\u00e1-lo, atra\u00ed-lo, conquist\u00e1-lo, at\u00e9 mesmo gritando ou falsificando a realidade. O eu hoje debate-se na esperan\u00e7a de ser reconhecido por algu\u00e9m&#8221;. <\/p>\n<p>O Eu constr\u00f3i-se com milhares, milh\u00f5es de curtidas e seguidores, isto \u00e9, por meio da aprecia\u00e7\u00e3o, da considera\u00e7\u00e3o, do consenso. Voc\u00ea existe se existe para os outros, independentemente de par\u00e2metros objetivos como natureza, valores culturais, pap\u00e9is sociais, costumes compartilhados. O Eu ent\u00e3o se desencarna da natureza, da pr\u00f3pria hist\u00f3ria, das rela\u00e7\u00f5es sociais f\u00edsicas, da pr\u00f3pria fam\u00edlia, dos pr\u00f3prios talentos. A identidade nasce e morre no virtual. Voc\u00ea \u00e9 a imagem que os outros t\u00eam de voc\u00ea. Narciso \u00e9 apenas a imagem que v\u00ea refletida no espelho da \u00e1gua. E esse espelho de \u00e1gua hoje se chama redes sociais.<\/p>\n<p><strong>\u00a9 2026 La Nuova Bussola Quotidiana. Publicado com permiss\u00e3o. Original em italiano:\u00a0<a href=\"https:\/\/lanuovabq.it\/it\/tecnologia-social-ia-il-rischio-che-luomo-diventi-oggetto\">Tecnologia, social, IA: il rischio che l\u2019uomo diventi oggetto<\/a><\/strong>.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00faltimo dia 4 de mar\u00e7o, a Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional publicou uma longu\u00edssima nota intitulada Quo vadis, humanitas? 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