{"id":271272,"date":"2026-03-11T18:17:27","date_gmt":"2026-03-11T22:17:27","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=271272"},"modified":"2026-03-11T18:17:27","modified_gmt":"2026-03-11T22:17:27","slug":"racismo-estrutural-nao-e-um-fato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=271272","title":{"rendered":"Racismo estrutural n\u00e3o \u00e9 um fato"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/03\/11191640\/roger-machado.jpg.webp\" \/><span>O t\u00e9cnico Roger Machado, em partida do Internacional (RS) na Col\u00f4mbia, em maio de 2025. (Foto: Stringer\/EFE)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A contrata\u00e7\u00e3o do t\u00e9cnico do S\u00e3o Paulo, Roger Machado, provocou uma avalanche de coment\u00e1rios sobre <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/racismo\/\">racismo <\/a>estrutural. Como toda pol\u00eamica, isso \u00e9 passageiro; o arcabou\u00e7o intelectual que ela revelou, nem tanto. Refiro-me \u00e0 convoca\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de uma teoria como se fosse uma evid\u00eancia indiscut\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">H\u00e1 uma distin\u00e7\u00e3o elementar, ensinada em qualquer curso introdut\u00f3rio de epistemologia, que o debate p\u00fablico insiste em ignorar: a diferen\u00e7a entre <em>fato<\/em> e <em>teoria<\/em>. Sem entrar muito no detalhe t\u00e9cnico e bizantino debate filos\u00f3fico, um fato \u00e9 uma ocorr\u00eancia verific\u00e1vel, independente de quadro interpretativo. Uma teoria, por sua vez, n\u00e3o. Pois se trata, justamente, de um sistema de hip\u00f3teses articuladas para explicar fatos. Quem transforma uma teoria em fato est\u00e1 mais interessado na arte de mandar, j\u00e1 que fecha o debate antes do questionamento, e o faz com a apar\u00eancia de quem constata o \u00f3bvio.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O racismo estrutural \u00e9 uma teoria. Surgiu no \u00e2mbito da sociologia cr\u00edtica americana, com ra\u00edzes nos estudos p\u00f3s-coloniais e no pensamento de autores como Stokely Carmichael e Charles Hamilton; sistematizou-se nas d\u00e9cadas seguintes, e ganhou amplitude com o movimento dos <em>Critical Race Studies<\/em>. Em s\u00edntese, a teoria postula que institui\u00e7\u00f5es, normas e pr\u00e1ticas sociais podem produzir efeitos racialmente discriminat\u00f3rios independentemente das inten\u00e7\u00f5es conscientes dos agentes envolvidos. Convenhamos, \u00e9 uma hip\u00f3tese sofisticada. E, como toda hip\u00f3tese, traz variantes internas, disputas metodol\u00f3gicas e cr\u00edticos s\u00e9rios dentro da pr\u00f3pria sociologia \u2013 um programa de pesquisa, com todos os \u00f4nus que isso implica.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A contrata\u00e7\u00e3o de Roger Machado pelo S\u00e3o Paulo suscitou uma pergunta leg\u00edtima: por que h\u00e1 t\u00e3o poucos t\u00e9cnicos negros na S\u00e9rie A?<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Esses \u00f4nus s\u00e3o precisos: indicar vari\u00e1veis, controlar fatores alternativos, submeter a hip\u00f3tese \u00e0 possibilidade de refuta\u00e7\u00e3o. Infelizmente, criticar a teoria do racismo estrutural se tornou sin\u00f4nimo de racismo. Ora, uma teoria imune a qualquer evid\u00eancia contr\u00e1ria migrou do dom\u00ednio da ci\u00eancia para o da teologia. A teologia tem seu lugar \u2013 apenas n\u00e3o \u00e9 o lugar da an\u00e1lise sociol\u00f3gica, e a confus\u00e3o entre os dois dom\u00ednios cobra um pre\u00e7o intelectual que ningu\u00e9m est\u00e1 disposto a contabilizar.<\/p>\n<p>A contrata\u00e7\u00e3o de Roger Machado pelo S\u00e3o Paulo suscitou uma pergunta leg\u00edtima: por que h\u00e1 t\u00e3o poucos t\u00e9cnicos negros na S\u00e9rie A? A pergunta tem dado emp\u00edrico relevante como pano de fundo \u2013 tornar-se treinador profissional no Brasil exige licen\u00e7as que custam cerca de R$ 60 mil e per\u00edodos inteiros sem renda. \u00c9 uma barreira real. O debate p\u00fablico, por\u00e9m, n\u00e3o se deteve na barreira. Avan\u00e7ou direto para a explica\u00e7\u00e3o; e a explica\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava pronta antes de a pergunta terminar. Seguiu-se o que se poderia chamar de racioc\u00ednio por chegada: um comentarista hesitou, reconheceu n\u00e3o saber ao certo, ponderou em voz alta \u2013 e concluiu com a firmeza de quem encerrou o debate. Outro foi mais direto: \u201c\u00c9 cristalino\u201d. Como se o \u201cracismo estrutural\u201d fosse uma obviedade.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Que a barreira econ\u00f4mica confirme especificamente o racismo estrutural \u2013 e n\u00e3o a estratifica\u00e7\u00e3o de classe, o corporativismo das federa\u00e7\u00f5es, ou a combina\u00e7\u00e3o dos dois \u2013 \u00e9 algo que exigiria demonstra\u00e7\u00e3o. A demonstra\u00e7\u00e3o foi substitu\u00edda pela palavrinha m\u00e1gica.<\/p>\n<p>Da minha parte, a tradi\u00e7\u00e3o interacionista com a qual me sinto mais confort\u00e1vel situa o fen\u00f4meno social na trama concreta das rela\u00e7\u00f5es entre agentes conscientes. Exige, por isso, que se identifique quem fez o qu\u00ea, em qual contexto, com qual inten\u00e7\u00e3o verific\u00e1vel. A estrutura, nessa perspectiva, \u00e9 um resultado de pr\u00e1ticas \u2013 sedimenta\u00e7\u00e3o de decis\u00f5es tomadas por sujeitos reais em condi\u00e7\u00f5es reais. A estrutura social n\u00e3o est\u00e1 oculta ou preexiste. Invocar \u201ca estrutura\u201d sem especificar agente, decis\u00e3o ou rela\u00e7\u00e3o concreta \u00e9 produzir uma explica\u00e7\u00e3o que explica tudo e, por isso mesmo, nada explica.<\/p>\n<p>Subjacente a essa exig\u00eancia metodol\u00f3gica h\u00e1, ainda, uma quest\u00e3o antropol\u00f3gica. O personalismo compreende a pessoa como irredut\u00edvel a qualquer sistema, estrutura ou fun\u00e7\u00e3o. A dissolu\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo em categorias coletivas abstratas enfraquece, antes de fortalecer, o combate \u00e0 injusti\u00e7a: uma acusa\u00e7\u00e3o sem sujeito \u00e9 um clima; e climas, por defini\u00e7\u00e3o, n\u00e3o respondem perante nenhum tribunal.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Quem transforma uma teoria em fato est\u00e1 mais interessado na arte de mandar, j\u00e1 que fecha o debate antes do questionamento<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Da\u00ed o paradoxo que o uso acr\u00edtico do conceito produz. Ao inflar o racismo estrutural at\u00e9 que ele abranja cada epis\u00f3dio, cada decis\u00e3o, cada contrata\u00e7\u00e3o, esvazia-se sua capacidade discriminativa \u2013 no sentido anal\u00edtico do termo. Quando tudo \u00e9 racismo estrutural, quando todos os gatos s\u00e3o pardos, a teoria torna-se, pelo excesso de aplica\u00e7\u00e3o, uma n\u00e9voa. Um apelo ret\u00f3rico. Uma agenda puramente pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O comentarista esportivo que recorreu ao conceito para explicar a escolha de um t\u00e9cnico praticava ret\u00f3rica. Ret\u00f3rica \u00e9 at\u00e9 uma arte respeit\u00e1vel. Por\u00e9m, a imprecis\u00e3o come\u00e7a quando o vocabul\u00e1rio t\u00e9cnico serve de escudo contra qualquer possibilidade de r\u00e9plica. Nesse ponto, a neglig\u00eancia intelectual deixa de ser inocente e o racismo, de fato, um problema secund\u00e1rio.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O t\u00e9cnico Roger Machado, em partida do Internacional (RS) na Col\u00f4mbia, em maio de 2025. 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