{"id":268321,"date":"2026-03-10T13:16:19","date_gmt":"2026-03-10T17:16:19","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=268321"},"modified":"2026-03-10T13:16:19","modified_gmt":"2026-03-10T17:16:19","slug":"so-teremos-justica-com-impasse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=268321","title":{"rendered":"S\u00f3 teremos Justi\u00e7a com impasse"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/03\/10141510\/ChatGPT-Image-10-de-mar.-de-2026-13_58_35.jpg.webp\" \/><span>Por complac\u00eancia, o Brasil segue sem resolver injusti\u00e7as. Sem impasse diante do erro, a justi\u00e7a dificilmente se tornar\u00e1 um valor central. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt\/Gazeta do Povo)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Recentemente, acompanhei as an\u00e1lises de um soci\u00f3logo americano que, em passagem pelo Brasil, ofereceu seus pareceres sobre a nossa sociedade em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 norte-americana. Ele destacou diversos pontos positivos: somos um povo unido por uma &#8220;emo\u00e7\u00e3o de massa&#8221;, com uma vida intrinsecamente comunal e grupal.<\/p>\n<p>No Brasil, as fam\u00edlias expandem-se com facilidade para incluir aqueles que n\u00e3o compartilham o mesmo sangue; a amizade \u00e9 um processo facilitado. H\u00e1, sem d\u00favida, virtudes not\u00e1veis em nossa hospitalidade.<\/p>\n<p>Contudo, o estudioso apontou um contraponto cr\u00edtico. Segundo ele, quando um norte-americano se confronta com uma injusti\u00e7a \u2014 seja ela coletiva, individual, no \u00e2mbito dos neg\u00f3cios ou na rela\u00e7\u00e3o com o Estado \u2014, cria-se um impasse impenetr\u00e1vel.<\/p>\n<p>Forma-se um bloqueio que gera um conflito, o qual precisa ser obrigatoriamente resolvido para que a rela\u00e7\u00e3o prossiga ou tome outro rumo. Nos Estados Unidos, do ponto de vista social, \u00e9 inadmiss\u00edvel manter um v\u00ednculo ap\u00f3s a ocorr\u00eancia de uma injusti\u00e7a, pois esta \u00e9 lida como uma quebra fundamental de contrato e de confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Em contraste, o soci\u00f3logo observou que o brasileiro destoa completamente desse rigor. Ele afirmou que n\u00f3s n\u00e3o resolvemos as nossas injusti\u00e7as. Diante de problemas contratuais, governamentais, coletivos ou mesmo relacionais, o brasileiro n\u00e3o se importa em dar continuidade \u00e0s rela\u00e7\u00f5es, ignorando o agravo cometido. Ele simplesmente segue adiante.<\/p>\n<h2>Complac\u00eancia e a mudan\u00e7a do comportamento<\/h2>\n<p>Pode-se construir a ideia de que essa caracter\u00edstica \u00e9 positiva, pois &#8220;pacificaria&#8221; a sociedade. Todavia, sob a \u00f3tica dele \u2014 e sob a minha tamb\u00e9m \u2014, este \u00e9 o fator que mais nos prejudica. \u00c9 esse comportamento que nos leva a aceitar o inaceit\u00e1vel e a tolerar aquilo que nos destr\u00f3i, incluindo v\u00edcios e uma s\u00e9rie de mazelas pessoais.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Ao n\u00e3o confrontarmos esses problemas de uma vez por todas, falhamos em estabelecer o imp\u00e9rio da justi\u00e7a<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 urgente questionar: como edificar tal imp\u00e9rio se o comportamento da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o condiz com a necessidade visceral de construir a justi\u00e7a, preferindo conviver com o erro?<\/p>\n<p>Para aprofundar essa reflex\u00e3o, abordarei dois pontos. O primeiro, de ordem comportamental; o segundo, focado nos valores de base. Sobre o comportamento, reitero o que j\u00e1 destaquei em outros artigos: ele n\u00e3o define a cultura em sua totalidade, mas \u00e9 parte dela.<\/p>\n<p>A cultura \u00e9 abrangente, englobando religi\u00e3o, mitos, tradi\u00e7\u00e3o, l\u00edngua e hist\u00f3ria compartilhada. Muitos desses aspectos s\u00e3o mut\u00e1veis, e o comportamento \u00e9, talvez, um dos mais f\u00e1ceis de transformar.<\/p>\n<p>Um exemplo pr\u00e1tico: se, em nossas cidades, a aplica\u00e7\u00e3o de multas fosse implac\u00e1vel toda vez que um cidad\u00e3o retirasse o carro da garagem indevidamente, criar-se-ia o h\u00e1bito \u2014 e, eventualmente, a cultura \u2014 de n\u00e3o cometer tal infra\u00e7\u00e3o. Observamos isso claramente quando um brasileiro emigra para os Estados Unidos ou para a Europa.<\/p>\n<p>\u00c9 not\u00e1vel como ele se adequa. Aquele que aqui desobedece \u00e0s leis subitamente conforma-se \u00e0 \u00e9tica e ao rigor do novo contexto. Isso prova que o comportamento \u00e9 mut\u00e1vel e responde a incentivos claros, tanto do governo quanto da pr\u00f3pria cobran\u00e7a social. Existe, portanto, esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Justi\u00e7a tem que ser valor de base: ra\u00edzes hist\u00f3ricas<\/h2>\n<p>O segundo ponto reside no &#8220;valor de base&#8221;: aquele princ\u00edpio sine qua non para o qual a sociedade se projeta. Historicamente, no Brasil, a justi\u00e7a nunca foi um valor preponderante. A justi\u00e7a faz parte da ordem natural, porque preserva a vida. O senso de justi\u00e7a em nossa terra nunca aflorou no passado como est\u00e1 aflorando agora.<\/p>\n<p>O que testemunhamos neste in\u00edcio de s\u00e9culo XXI \u00e9 o amadurecimento da sociedade brasileira. Pela primeira vez, o valor de base da justi\u00e7a se faz sentir como uma necessidade absoluta que cresce em nosso \u00e2mago.<\/p>\n<p>No passado, conviv\u00edamos com injusti\u00e7as sob o manto de uma baixa consci\u00eancia e da descren\u00e7a na possibilidade de mudan\u00e7a. Contudo, hoje estamos capacitados por tecnologia, difus\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es e educa\u00e7\u00e3o. Uma parcela consciente da sociedade j\u00e1 n\u00e3o abre m\u00e3o de buscar a justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Vejamos o protagonismo que o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o assumiu a partir de 2010. Os esc\u00e2ndalos deixaram de ser apenas not\u00edcias para se tornarem motores de mobiliza\u00e7\u00e3o, galvanizando a opini\u00e3o p\u00fablica e alterando escolhas eleitorais e regimes de governo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o tornou-se central porque a justi\u00e7a est\u00e1 se tornando o eixo da nossa sociedade<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Enquanto Europa e Estados Unidos confrontaram essa quest\u00e3o precocemente \u2014 na Idade M\u00e9dia europeia ou na expans\u00e3o para o Oeste americana, onde a figura do xerife era o her\u00f3i necess\u00e1rio para sustentar a civiliza\u00e7\u00e3o \u2014, o Brasil seguiu um caminho distinto.<\/p>\n<h2>Confronto necess\u00e1rio para escrever um novo cap\u00edtulo<\/h2>\n<p>Nossa experi\u00eancia hist\u00f3rica foi marcada por um poder centralizado e amadurecido que aportou aqui em 1808. Herdamos uma burocracia qualificada de Portugal, e o ordenamento jur\u00eddico nos foi imposto de cima para baixo.<\/p>\n<p>Nunca houve a necessidade social de se lutar pela justi\u00e7a nas bases, pois ela j\u00e1 nasceu burocratizada e estatal. Fomos moldados por uma estrutura semelhante \u00e0 do Imp\u00e9rio Romano, onde a ordem vinha do topo, e n\u00e3o do clamor popular.<\/p>\n<p>Entretanto, o cen\u00e1rio atual n\u00e3o permite mais essa passividade. Diante dos eventos recentes, dos esc\u00e2ndalos sucessivos e de gest\u00f5es que deterioraram o senso de equidade, fica claro que, se a sociedade n\u00e3o lutar pela justi\u00e7a, o Estado certamente n\u00e3o o far\u00e1 por iniciativa pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>\u00c9 imperativo compreender que a justi\u00e7a deve ser o nosso novo valor de base. Precisamos reavaliar nosso comportamento diante das pequenas e grandes injusti\u00e7as que permeiam nosso cotidiano.<\/p>\n<p>\u00c9 hora de cobrar e exigir rigor em todos os n\u00edveis: individual, coletivo, comercial e governamental. Precisamos, enfim, aprender a gerar o impasse e a travar o que est\u00e1 errado. Somente atrav\u00e9s do confronto com a injusti\u00e7a poderemos, verdadeiramente, inaugurar o pr\u00f3ximo cap\u00edtulo da nossa experi\u00eancia como na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por complac\u00eancia, o Brasil segue sem resolver injusti\u00e7as. 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