{"id":263095,"date":"2026-03-08T13:00:00","date_gmt":"2026-03-08T17:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=263095"},"modified":"2026-03-08T13:00:00","modified_gmt":"2026-03-08T17:00:00","slug":"as-tecnologias-e-os-jovens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=263095","title":{"rendered":"As tecnologias e os jovens"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>J\u00e1 falamos longamente sobre os problemas do uso das tecnologias contempor\u00e2neas, e n\u00e3o s\u00f3 aqui <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/samia-marsili\/o-ovo-da-serpente\/\">nesta coluna<\/a>, mas o tema vem se fazendo presente em cada vez mais discuss\u00f5es. N\u00e3o era para menos: \u00e9 preciso analisar o caso com seriedade, discutir o assunto e promover atitudes verdadeiramente efetivas, para preservar a nossa sa\u00fade, em todos os seus aspectos. J\u00e1 \u00e9 informa\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio p\u00fablico que os celulares, tablets, videogames e, especialmente, os aplicativos de rede social, tenham sobre nosso c\u00e9rebro um s\u00e9rio efeito delet\u00e9rio, semelhante aos de um v\u00edcio em drogas. E isso tem consequ\u00eancias emocionais, de relacionamento, de desenvolvimento pessoal e acad\u00eamico, e enfim, vital e espiritual. Literalmente, <em>perde-se a vida nas <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/redes-sociais\/\">redes sociais<\/a><\/em>.<\/p>\n<p>E quem j\u00e1 leu outros artigos meus neste ve\u00edculo, ou quem acompanha meu trabalho nos demais meios, sabe quanto eu me empenho em frisar a necessidade de se afastar especialmente as <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/criancas\/\">crian\u00e7as <\/a>dessas intera\u00e7\u00f5es. Se os adultos viciam-se e se perdem com a cara enfiada em seus smartphones, que diremos das crian\u00e7as, que ainda nem tiveram seu sistema nervoso inteiramente desenvolvimento, tampouco seu \u201csistema espiritual\u201d, quero dizer, que ainda n\u00e3o t\u00eam treinada sua for\u00e7a de vontade, a clareza de seus valores, a for\u00e7a aut\u00f4noma da consci\u00eancia? Remeto com aten\u00e7\u00e3o especial a texto de quatro anos atr\u00e1s, \u201c<a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/samia-marsili\/a-gula-da-imaginacao\/\">A gula da imagina\u00e7\u00e3o<\/a>\u201d.<\/p>\n<p>Simplesmente, <em>esses v\u00edcios s\u00e3o antag\u00f4nicos \u00e0 <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/educacao\/\">educa\u00e7\u00e3o<\/a><\/em>. N\u00e3o surpreende que os magnatas das empresas de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/tecnologia\/\">tecnologia <\/a>deem a seus filhos t\u00e3o somente os bons e velhos livros de papel (como foi flagrado j\u00e1 tantas vezes), e que alguns pa\u00edses j\u00e1 estejam notando o problem\u00e3o que criaram e voltando para a escola simples com papel e l\u00e1pis, como a Su\u00e9cia, por exemplo.<\/p>\n<p>Meu tema hoje, por\u00e9m, \u00e9 uma necess\u00e1ria nuance a essa discuss\u00e3o. Sem rodeios, os termos s\u00e3o os seguintes: viveremos, ent\u00e3o, como os amish, sem nenhum contato com as tecnologias e isolados? Al\u00e9m de praticamente imposs\u00edvel, seria igualmente tolo e empobrecedor. Escuso-me de listar as maravilhas e as facilidades das novas tecnologias, e as benesses que podemos empreender com elas \u2013 entre as quais est\u00e1 o meu pr\u00f3prio trabalho, evidentemente. Logo, nossos <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/filhos\/\">filhos<\/a>, <em>em algum momento<\/em>, ter\u00e3o contato com esses aparelhos e din\u00e2micas; n\u00f3s n\u00e3o os privaremos disso para sempre. \u00c9 algo semelhante, digamos, ao \u00e1lcool: at\u00e9 mesmo adultos se perdem na bebida, e ela pode configurar um v\u00edcio devastador. Entretanto, \u00e9 um prazer l\u00edcito aos adultos quando moderado pela raz\u00e3o. \u00c0s crian\u00e7as, seu uso \u00e9 inteiramente vetado. E quando o jovem se torna adulto, quando pode ser-lhe permitido provar uma coisa \u201cde adultos\u201d? Que preparo \u00e9 preciso ter sido feito, que educa\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso ter sido dada a ele para que aprecie os prazeres l\u00edcitos da maturidade com verdadeira maturidade, e sem se perder? Eis aqui nosso problema com rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e0s telas.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Nossos filhos, <em>em algum momento<\/em>, ter\u00e3o contato com esses aparelhos e din\u00e2micas; n\u00f3s n\u00e3o os privaremos disso para sempre<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Os filhos crescem. A <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/infancia\/\">inf\u00e2ncia <\/a>vai cedendo lugar \u00e0 \u201cpr\u00e9-adolesc\u00eancia\u201d e, pouco a pouco, \u00e0 adolesc\u00eancia de fato. Quando atingem 14 ou 15 anos, a rela\u00e7\u00e3o com essa problem\u00e1tica se altera. A tecnologia n\u00e3o \u00e9 mais somente um elemento externo do qual se pode manter dist\u00e2ncia: ela est\u00e1 profundamente integrada \u00e0 vida social, escolar e cultural. Ent\u00e3o, como introduzir essas tecnologias de modo respons\u00e1vel? A quest\u00e3o n\u00e3o se reduz a \u201cpermitir ou proibir\u201d. Trata-se de compreender que a adolesc\u00eancia traz consigo uma nova etapa da forma\u00e7\u00e3o: a passagem gradual da prote\u00e7\u00e3o direta para o exerc\u00edcio da responsabilidade.<\/p>\n<p>Quando os <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/adolescentes\/\">adolescentes <\/a>come\u00e7am a sair sozinhos, por exemplo, o celular passa a ter uma utilidade pr\u00e1tica evidente. N\u00e3o \u00e9 um entretenimento ou distra\u00e7\u00e3o, mas um meio de contato. Al\u00e9m disso, os pr\u00f3prios v\u00ednculos sociais passam a envolver certas ferramentas tecnol\u00f3gicas. Grupos de mensagens podem servir para organizar trabalhos escolares, combinar atividades ou mesmo manter contato com amigos. E h\u00e1 tamb\u00e9m um aspecto cultural que come\u00e7a a ganhar import\u00e2ncia: certos filmes, por exemplo, deixam de ser apenas entretenimento infantil e passam a fazer parte de um repert\u00f3rio comum de refer\u00eancias culturais. Muitas conversas entre jovens, e mesmo entre adultos, partem dessas refer\u00eancias compartilhadas. Nesse sentido, alguns filmes passam a ter valor formativo, desde que assistidos com crit\u00e9rio. E esta palavra \u00e9, a bem dizer, a chave de tudo: <em>crit\u00e9rio<\/em>.<\/p>\n<p>A maturidade que come\u00e7a a florescer na adolesc\u00eancia j\u00e1 permite iniciar um tipo de di\u00e1logo que n\u00e3o seria poss\u00edvel com crian\u00e7as menores. O jovem come\u00e7a a desenvolver capacidade de an\u00e1lise, discernimento e julgamento moral. Isso abre espa\u00e7o para uma nova forma de educa\u00e7\u00e3o: n\u00e3o apenas a prote\u00e7\u00e3o, mas a forma\u00e7\u00e3o do olhar cr\u00edtico. Recordo uma experi\u00eancia concreta que ilustra bem essa transi\u00e7\u00e3o. Em certa ocasi\u00e3o, durante uma viagem a Portugal com os meus filhos, ficamos hospedados em um hotel na Ilha da Madeira. Era uma situa\u00e7\u00e3o um pouco diferente da rotina habitual: cada um estava em um quarto, e naquele momento fiquei apenas com o meu filho mais velho, que tinha ent\u00e3o 12 anos, e com o beb\u00ea. Aproveitei aquela circunst\u00e2ncia para propor algo simples: assistir juntos ao filme <em>Shrek<\/em>. Mas fiz um pedido antes de come\u00e7armos. Disse a ele que gostaria que assistisse ao filme <em>com um olhar cr\u00edtico<\/em>. Era um pequeno gesto educativo, mas significativo. Naquele momento ele j\u00e1 n\u00e3o era mais uma crian\u00e7a pequena; estava entrando na pr\u00e9-adolesc\u00eancia. Era hora de come\u00e7ar a perceber que crescer significa tamb\u00e9m aprender a <em>julgar<\/em> aquilo que se v\u00ea.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Assistimos ao filme e, ao final, conversamos a respeito. A conclus\u00e3o do meu filho foi bastante clara: embora fosse um filme divertido, havia ali elementos que n\u00e3o seriam adequados para crian\u00e7as menores. Aquela simples conversa abriu espa\u00e7o para refletirmos juntos sobre por que ele podia assistir naquele momento, e por que seus irm\u00e3os menores n\u00e3o deveriam assistir ainda. Esse tipo de di\u00e1logo torna-se cada vez mais vi\u00e1vel quando os filhos crescem. J\u00e1 que, nessa nova fase, j\u00e1 n\u00e3o se trata apenas de dizer \u201cpode\u201d ou \u201cn\u00e3o pode\u201d, mas de <em>explicar<\/em> os motivos.<\/p>\n<p>E pode-se, ademais, acessar algum conte\u00fado ou pe\u00e7a de arte, como um filme, por exemplo, sabendo previamente que partes se deve pular. E isso n\u00e3o significa tratar os adolescentes como crian\u00e7as, pois at\u00e9 mesmo n\u00f3s, adultos, podemos e devemos ter esse cuidado: n\u00e3o devemos nos expor a algo que \u00e9 expl\u00edcito ou inapropriado. E os filhos mais velhos, nessa fase, j\u00e1 s\u00e3o capazes de compreender essa l\u00f3gica. Conseguem perceber que o problema n\u00e3o \u00e9 o filme em si, mas certos conte\u00fados espec\u00edficos. E conseguem tamb\u00e9m entender que a decis\u00e3o de pular determinadas partes n\u00e3o nasce de uma proibi\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria, mas de um crit\u00e9rio moral.<\/p>\n<p>Pois bem, a introdu\u00e7\u00e3o da tecnologia na adolesc\u00eancia precisa caminhar nessa dire\u00e7\u00e3o: n\u00e3o como abandono da orienta\u00e7\u00e3o, mas como aprofundamento dela. Continuamos sendo guias e educadores daqueles nossos filhos, mas acompanhando o seu pr\u00f3prio crescimento, portanto levando em conta, numa nova fase, as suas novas necessidades e capacidades. Assim como lhes ensinamos gestos novos em fases novas, como comer ou escovar os dentes sozinhos, agora n\u00f3s lhes ensinaremos a <em>selecionar<\/em>, <em>moderar<\/em> e <em>filtrar<\/em> as intera\u00e7\u00f5es com a tecnologia e com os conte\u00fados que ela veicula. E isso \u00e9 progressivo, como todo treinamento: nosso filho n\u00e3o deve, de um instante para o outro, ficar totalmente livre. Em minha casa, por exemplo, meus filhos passaram a ter contato com o computador por causa das aulas on-line. Mas foi sempre um acesso restrito e acompanhado: est\u00e1vamos presentes para orientar, explicar, observar. Se precisavam fazer alguma pesquisa, geralmente est\u00e1vamos por perto para ajud\u00e1-los. Isso permitia algo muito importante: ensinar <em>como pesquisar<\/em>. Afinal, o verdadeiro problema da internet em geral n\u00e3o \u00e9 apenas a quantidade de informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis, mas a dificuldade de discernir o que \u00e9 confi\u00e1vel do que n\u00e3o \u00e9 \u2013 de novo, <em>crit\u00e9rio<\/em>.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o se reduz a \u201cpermitir ou proibir\u201d. Trata-se de compreender que a adolesc\u00eancia traz consigo uma nova etapa da forma\u00e7\u00e3o: a passagem gradual da prote\u00e7\u00e3o direta para o exerc\u00edcio da responsabilidade<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O mesmo vale, mais recentemente, para a problem\u00e1tica atualizada da intelig\u00eancia artificial. \u00c9 preciso mostrar-lhes que as respostas fornecidas por essas ferramentas nem sempre s\u00e3o confi\u00e1veis, e que a intelig\u00eancia humana \u2013 a intelig\u00eancia natural \u2013 \u00e9 quem precisa estar no comando, operando a intelig\u00eancia artificial como uma ferramenta. Deve estar claro que essas tecnologias n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimo, e jamais substituir\u00e3o, a verdadeira aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimento, que \u00e9 pr\u00f3prio das pessoas \u2013 das pessoas que falam, e que escrevem seus pr\u00f3prios livros. Nenhuma ferramenta substitui o estudo real. Para utilizar qualquer tecnologia com intelig\u00eancia, \u00e9 preciso j\u00e1 possuir um certo conhecimento pr\u00e9vio. Quem entra nesses ambientes de forma ing\u00eanua corre o risco de aceitar qualquer informa\u00e7\u00e3o como verdadeira. Por isso insistimos sempre que, antes de recorrer \u00e0 internet, eles buscassem primeiro os livros.<\/p>\n<p>Enfim, a pergunta central, que cada pai e m\u00e3e se far\u00e1 no contexto de seu pr\u00f3prio lar, e conhecendo cada um de seus filhos: quando \u00e9 o momento adequado para introduzir certas tecnologias, especialmente o celular pessoal?<\/p>\n<p>A adolesc\u00eancia ser\u00e1 ent\u00e3o \u2013 como sempre foi \u2013 uma fase de conquista gradual de autonomia. Desde muito cedo, a vida da crian\u00e7a \u00e9 marcada por pequenos ritos de passagem que simbolizam esse crescimento. Quando deixam a fralda e passam a usar roupa de baixo, fazemos uma festa: \u201cAgora voc\u00ea cresceu!\u201d Quando come\u00e7am a comer sozinhos, compramos talheres novos. Quando trocam o prato de pl\u00e1stico pelo prato de lou\u00e7a, quando deixam a mamadeira e passam a beber no copo, quando saem da banheira para tomar banho no chuveiro&#8230; \u2013 cada uma dessas etapas \u00e9 celebrada como um sinal de maturidade. Mais tarde, v\u00eam outros marcos: sair do ber\u00e7o para dormir na cama, come\u00e7ar a usar uniforme escolar, carregar a pr\u00f3pria mochila, fazer o dever de casa. H\u00e1 uma satisfa\u00e7\u00e3o vis\u00edvel nesses momentos: a crian\u00e7a percebe que est\u00e1 crescendo, que novas responsabilidades lhe s\u00e3o confiadas. Na escola tamb\u00e9m existem esses sinais de progresso: deixar o l\u00e1pis e come\u00e7ar a usar a caneta; passar da educa\u00e7\u00e3o infantil para o ensino fundamental, depois para o ensino m\u00e9dio, com mudan\u00e7as de ambiente. Todos esses gestos, aparentemente simples, t\u00eam um valor simb\u00f3lico profundo: mostram \u00e0 crian\u00e7a que a sua liberdade est\u00e1 crescendo.<\/p>\n<p>Em algum momento surgem tamb\u00e9m as primeiras sa\u00eddas sem os pais. Dependendo da cidade, isso acontece mais cedo ou mais tarde. Em lugares como o Rio de Janeiro essa autonomia costuma ser limitada pela pr\u00f3pria vida urbana, que desencoraja longos deslocamentos a p\u00e9. Mas chega o momento em que os filhos come\u00e7am a fazer pequenas coisas sozinhos: chamar um carro por aplicativo, ir \u00e0 missa por conta pr\u00f3pria, deslocar-se para a escola sem acompanhamento direto. S\u00e3o passos graduais de autonomia. E, dentro da realidade contempor\u00e2nea, o celular acaba se tornando, n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda, um s\u00edmbolo material dessa nova etapa. Em outras \u00e9pocas, esse s\u00edmbolo poderia ser outro: receber a chave de casa, come\u00e7ar a andar de \u00f4nibus, ter uma pequena quantia de dinheiro pr\u00f3prio. Mas hoje, muitas vezes, \u00e9 o celular quem cumpre essas fun\u00e7\u00f5es. Ele permite chamar um transporte, pagar algo com cart\u00e3o digital, entrar em contato com os pais, resolver pequenas necessidades do dia a dia.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>No nosso caso, o primeiro celular chegou quando meu filho mais velho tinha 15 anos. A decis\u00e3o n\u00e3o surgiu de uma press\u00e3o insistente da parte dele, como muitas vezes se imagina, mas de uma situa\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. Ele havia come\u00e7ado a frequentar um treino de futebol em que ficava algum tempo sem a nossa presen\u00e7a direta. Meu marido o deixava l\u00e1 e depois voltava para busc\u00e1-lo. Conversando sobre isso, pensamos que talvez fosse prudente que ele tivesse um celular para emerg\u00eancias. Se algo acontecesse, ele poderia entrar em contato conosco ou pedir ajuda a algum adulto conhecido que estivesse por perto. Mas este \u00e9 o ponto principal: quando entregamos o celular a ele, fizemos quest\u00e3o de apresentar o gesto da maneira correta, <em>como um voto de confian\u00e7a acompanhado de responsabilidade<\/em>. Afinal, a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem como objetivo manter os filhos eternamente sob prote\u00e7\u00e3o absoluta. A finalidade \u00e9 prepar\u00e1-los para a vida real. E a adolesc\u00eancia \u00e9 justamente o momento em que come\u00e7a a surgir uma nova exig\u00eancia: a exig\u00eancia da liberdade acompanhada pela responsabilidade. Enquanto s\u00e3o pequenos, os filhos dependem quase inteiramente das decis\u00f5es dos pais; somos n\u00f3s que escolhemos por eles, que delimitamos seus passos, que protegemos seus caminhos. Mas chega um tempo em que isso precisa come\u00e7ar a mudar. Aos poucos, a liberdade se alarga, e, com ela, deve crescer proporcionalmente tamb\u00e9m o peso da responsabilidade pessoal.<\/p>\n<p>Somos a primeira gera\u00e7\u00e3o de pais que precisa educar os filhos em um mundo dominado pelas telas. Os nossos pr\u00f3prios pais n\u00e3o tiveram de enfrentar esse problema, e, por isso, n\u00e3o puderam nos preparar para ele. Muitos de n\u00f3s crescemos em casas onde a televis\u00e3o ficava ligada sem grande crit\u00e9rio, sem filtros muito claros sobre o que assistir ou n\u00e3o assistir. Aquela era a tecnologia dominante, e parecia relativamente inofensiva. Hoje vemos que n\u00e3o era, e sabemos tamb\u00e9m que a situa\u00e7\u00e3o atual \u00e9 diferente e mais grave. Mas a tecnologia faz parte do mundo em que vivemos, e n\u00e3o faria sentido tentar isolar os filhos dela completamente. Sejamos n\u00f3s a ensinar isso a eles, inclusive sendo antes bons exemplos de autocontrole e discernimento, modelando o tempo e a modo dessa primeira intera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando chega esse momento, \u00e9 importante explicar claramente ao filho: \u201cAt\u00e9 aqui, n\u00f3s fizemos o poss\u00edvel para educ\u00e1-lo e ajud\u00e1-lo a crescer com responsabilidade. Agora essa responsabilidade come\u00e7a a ser testada. Vamos confiar em voc\u00ea\u201d. Essa confian\u00e7a precisa ser expl\u00edcita. O filho precisa perceber que aquele novo grau de liberdade n\u00e3o \u00e9 um presente gratuito, mas uma aposta no seu amadurecimento. Ao mesmo tempo, tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio deixar claro que a autonomia cresce junto com a responsabilidade. Quanto mais ele demonstrar maturidade, mais liberdade receber\u00e1. Mas, se a confian\u00e7a for quebrada, talvez seja necess\u00e1rio recuar alguns passos. Quando essa conversa \u00e9 feita com serenidade e clareza, ela costuma provocar um efeito muito bonito: o desejo de corresponder \u00e0 confian\u00e7a recebida.<\/p>\n<p><em>Ars longa, vita brevis<\/em>, ainda haveria muito a dizer. Se poss\u00edvel, retomarei o assunto na pr\u00f3xima oportunidade, para aprofund\u00e1-lo, como uma abordagem positiva e educativa do problema das tecnologias.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 falamos longamente sobre os problemas do uso das tecnologias contempor\u00e2neas, e n\u00e3o s\u00f3 aqui nesta coluna, mas o tema&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":263096,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-263095","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/263095","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=263095"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/263095\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/263096"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=263095"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=263095"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=263095"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}