{"id":262589,"date":"2026-03-08T07:00:00","date_gmt":"2026-03-08T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=262589"},"modified":"2026-03-08T07:00:00","modified_gmt":"2026-03-08T11:00:00","slug":"estive-morto-relato-de-um-sobrevivente-da-depressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=262589","title":{"rendered":"Estive morto: relato de um sobrevivente da depress\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/03\/06150923\/WhatsApp-Image-2026-03-06-at-10.57.41.jpeg.webp\" \/><span>Estive morto, mas sobrevivi. A depress\u00e3o me deixou com medo. Hoje, ap\u00f3s anos longe de Deus, sinto compaix\u00e3o pelos angustiados e sigo lutando. (Foto: Imagem criada utilizando OpenAI\/Gazeta do Povo)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo 20, Albert Schweitzer, que j\u00e1 era um renomado te\u00f3logo, fil\u00f3sofo e m\u00fasico, decidiu estudar medicina aos 30 anos para servir como mission\u00e1rio m\u00e9dico na \u00c1frica Equatorial Francesa. Em 1913, ele construiu um hospital \u00e0s margens do Rio Ogoou\u00e9, na floresta do Gab\u00e3o, um dos pa\u00edses mais pobres do mundo.<\/p>\n<p>Em pouco tempo, o \u201cDoutor Branco\u201d (como Schweitzer era chamado) se tornou amado e admirado pela popula\u00e7\u00e3o local por suas curas e prod\u00edgios. Certa vez, um habitante que passara por anestesia geral confidenciou a um amigo:<\/p>\n<p>\u2014 Estive morto, mas o Doutor me curou.<\/p>\n<p>H\u00e1 exatos 40 anos, eu tamb\u00e9m estive morto. E hoje vou contar essa hist\u00f3ria aos meus sete leitores.<\/p>\n<p>Em 1986, tinha 16 anos e cursava o 2\u00ba colegial em uma escola particular da cidade de Ara\u00e7atuba. Morava com meus pais (ele, banc\u00e1rio; ela, professora) e com minha irm\u00e3, cinco anos mais nova. \u00c9ramos uma fam\u00edlia de classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Um dia, estava eu conversando com dois amigos, \u00e0 sombra de uma figueira, quando um deles, que chamarei de C\u00e9sar, apanhou um figo do ch\u00e3o e me mostrou algumas marcas na superf\u00edcie do fruto:<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1 vendo isso? S\u00e3o os morcegos.<\/p>\n<p>Fiquei em sil\u00eancio, mas guardei aquilo no cora\u00e7\u00e3o. Naquela noite, tive sonhos ruins em que via uma caverna repleta de mam\u00edferos voadores \u2014 identific\u00e1veis apenas por seus min\u00fasculos olhos que brilhavam na escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>Dias depois, sa\u00ed para beber cerveja com colegas do grupo de teatro amador do qual fazia parte. Em determinado momento, depois que o \u00faltimo bar fechou, algu\u00e9m teve a ideia de pular os muros do cemit\u00e9rio local para beber sem a interfer\u00eancia de ningu\u00e9m (afinal, \u00e9ramos todos menores de idade e n\u00e3o pod\u00edamos consumir bebidas alco\u00f3licas). L\u00e1 dentro, no meio dos t\u00famulos, algu\u00e9m teve a ideia de fazer uma sess\u00e3o de gin\u00e1stica alternativa. Entre risos b\u00eabados, improvisamos uma s\u00e9rie de exerc\u00edcios.<\/p>\n<p>Numa noite de s\u00e1bado, com os mesmos colegas de teatro, atiramo-nos na piscina de um clube da cidade. Morcegos davam voos rasantes e chegavam a tocar a flora da \u00e1gua. Todos riram muito. Menos eu.<\/p>\n<p>Em uma festa na casa do amigo Tales, que ficava no fim de uma rua sem sa\u00edda, \u00e0 margem de uma ferrovia que n\u00e3o existe mais, enquanto todos bebiam cerveja na varanda, resolvi brincar com um cachorrinho preto que por l\u00e1 apareceu.<\/p>\n<p>O bicho se aproximou; quando acariciei seu pesco\u00e7o, ele tentou morder a minha m\u00e3o. N\u00e3o chegou a perfurar a minha pele; apenas um de seus dentes ro\u00e7ou as costas da minha m\u00e3o, deixando um min\u00fasculo arranh\u00e3o, quase impercept\u00edvel. Voltei para a varanda e continuei bebendo, como se nada houvesse acontecido.<\/p>\n<p>O dia seguinte, domingo, passou como um sonho.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Trancado em meu quarto, ou melhor, no quarto alternativo que eu tinha montado nos fundos de casa, passei o dia ouvindo um disco sombrio do Pink Floyd e olhando para a marquinha vermelha nas costas da minha m\u00e3o<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>S\u00f3 tive contato com meus pais e minha irm\u00e3 na hora do almo\u00e7o, durante o qual permaneci em sil\u00eancio, quase sem tocar na comida. Quando minha m\u00e3e, com a do\u00e7ura de sempre, perguntou se eu estava bem, limitei-me a dizer que estava com um pouco de dor de cabe\u00e7a. E voltei para o Pink Floyd. Nosso cachorro dormia atr\u00e1s da m\u00e1quina de lavar. N\u00e3o quis brincar com ele.<\/p>\n<p>Na segunda-feira, as duas primeiras aulas eram de matem\u00e1tica. Z\u00e9 Fernando, o professor gordo e bonach\u00e3o, gostava de fazer piadas durante as explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ao perceber que eu n\u00e3o havia rido de uma de suas tiradas, Z\u00e9 Fernando foi at\u00e9 o fundo da sala, enquanto o restante da classe resolvia um novo exerc\u00edcio, e me perguntou em voz baixa:<\/p>\n<p>\u2014 Tudo bem, Paulo? Aconteceu alguma coisa?<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, eu estava com a cabe\u00e7a baixa, fingindo ler alguma coisa no livro de matem\u00e1tica. Quando levantei o rosto, o professor notou que meus olhos estavam marejados e meus l\u00e1bios tremiam.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o t\u00f4 bem, n\u00e3o, Z\u00e9. Preciso de um m\u00e9dico. Me d\u00e1 licen\u00e7a, por favor.<\/p>\n<p>Joguei meu livro na mochila, levantei-me da carteira e, sob o olhar at\u00f4nito do professor, sa\u00ed da sala e deixei a escola.<\/p>\n<p>Quando me vi na rua, era como se o mundo estivesse desligado. As lojas do centro da cidade estavam abrindo as portas, mas eu n\u00e3o consegui atinar com nada. Caminhei como um zumbi pela Rua Duque de Caxias, claudicando como um b\u00eabado, indiferente \u00e0 passagem dos carros e ao som das portas met\u00e1licas sendo abertas pelos lojistas.<\/p>\n<p>Ao passar pelo bar da esquina, senti o cheiro do caf\u00e9 preparado pelo japon\u00eas, mas esse odor, que costumava evocar prazer sempre que eu passava pelo mesmo lugar, agora me fazia sentir n\u00e1useas e uma press\u00e3o nas t\u00eamporas, como se meu c\u00e9rebro estivesse sendo invadido por um agente inimigo.<\/p>\n<p>Eu suava e tremia, como uma chaleira esquecida no fog\u00e3o. Virei a esquina do hoje extinto Ara\u00e7atuba Clube e olhei para a igreja de Monsenhor Vitor Mattei. Mas segui em frente, apoiando-me nos muros da escola em que havia estudado anos antes, at\u00e9 que avistei uma placa defronte a uma pequena casa branca:<\/p>\n<p>Dr. Jos\u00e9 Manzoni \u2014 Pediatra e Cl\u00ednico Geral<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Entrei na sala de espera e avistei a secret\u00e1ria, uma senhora de meia-idade, que parecia haver acabado de chegar. Ela me olhou por tr\u00e1s de seus \u00f3culos de lentes retangulares, dos quais pendiam duas correntinhas douradas:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea tem consulta marcada, mo\u00e7o?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho, n\u00e3o. Mas \u00e9 um caso de emerg\u00eancia. Preciso falar com o doutor!<\/p>\n<p>Quando pronunciei essas palavras, notei que minha voz saiu tr\u00eamula e rouca, como se algu\u00e9m estivesse me dublando em um gravador defeituoso.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A secret\u00e1ria me olhou em sil\u00eancio. N\u00e3o havia ningu\u00e9m mais na sala.<\/p>\n<p>\u2014 Bom, como ainda n\u00e3o chegou nenhum paciente do dia, vou ver se o doutor pode atend\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Ela entrou no consult\u00f3rio. Depois de um r\u00e1pido di\u00e1logo murmurado entre a secret\u00e1ria e o m\u00e9dico, voltou com os \u00f3culos nas m\u00e3os e, com eles, apontou a porta do consult\u00f3rio:<\/p>\n<p>\u2014 O Dr. Manzoni vai atend\u00ea-lo. Pode entrar.<\/p>\n<p>Com cerca de 70 anos, Jos\u00e9 Manzoni era um veterano da medicina local, um homem que havia cuidado de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de ara\u00e7atubenses. Usava \u00f3culos, era calvo, tinha um bigode preto e n\u00e3o sorria. De uma maneira que eu n\u00e3o podia compreender no momento, aquele m\u00e9dico representava para mim uma esperan\u00e7a de salva\u00e7\u00e3o \u00fanica e irrepet\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 O que o traz aqui, garoto?<\/p>\n<p>Tr\u00eamulo, suado, mas estranhamente convicto, eu disse:<\/p>\n<p>\u2014 Doutor, acho que eu estou com uma doen\u00e7a grave. Uma doen\u00e7a sem cura.<\/p>\n<p>Rapidamente fiz um relato dos meus sintomas e mostrei-lhe a marca nas costas de minha m\u00e3o esquerda.<\/p>\n<p>Depois de me examinar, ele me olhou por alguns segundos e perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 Garoto, quais s\u00e3o os nomes dos seus pais?<\/p>\n<p>Respondi.<\/p>\n<p>\u2014 Pois saiba de uma coisa. Tenho 50 anos de profiss\u00e3o e posso lhe dizer com toda certeza: voc\u00ea n\u00e3o tem nada. Agora me d\u00ea licen\u00e7a, tenho pacientes para atender.<\/p>\n<p>Chegando em casa, fui para o meu quarto \u2014 o quarto dos fundos, da m\u00fasica e dos livros. Ace, o nosso cachorro, quis acompanhar-me, mas eu o repeli com aspereza.<\/p>\n<p>Nada me interessava: nem o cachorro, nem a m\u00fasica, nem os livros. Havia uma pequena televis\u00e3o em preto e branco que eu levara para meu ref\u00fagio. Deixei-a ligada, sem som, por v\u00e1rias horas, e adormeci profundamente.<\/p>\n<p>Quando acordei, o jornal das dez mostrava um funcion\u00e1rio do governo fechando um supermercado por \u201ccrime contra a economia popular\u201d, sob os aplausos da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era uma cena muda, mas n\u00e3o me animei a aumentar o volume da pequena TV. Desliguei-a e fiquei observando o pequeno olho branco no meio da tela. O calor da noite era grande, mas eu mantinha as janelas e a porta hermeticamente fechadas, para que nenhum morcego pudesse entrar. No entanto, precisava ir at\u00e9 o banheiro e me lavar.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Levei algumas horas para finalmente tomar coragem, sair do quarto e percorrer os dez metros que me separavam do banheiro. J\u00e1 era madrugada; todos estavam dormindo<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Tomei um longo banho, n\u00e3o sem antes fechar as janelas do banheiro. No entanto, depois de me enxugar, senti a necessidade de lavar as m\u00e3os. Tinha ouvido, durante uma aula de Higiene e Sa\u00fade, que o tempo ideal para a limpeza completa equivale a uma ora\u00e7\u00e3o do Pai-Nosso.<\/p>\n<p>Na frente do espelho emba\u00e7ado pelo vapor do banho, liguei a torneira e comecei a ensaboar meus dedos, pronunciando as palavras que conhecia t\u00e3o bem desde os tempos do catecismo:<\/p>\n<p>\u2014 Pai-Nosso, que estais nos c\u00e9us, santificado seja o vosso nome&#8230;<\/p>\n<p>Enrolado na toalha, sa\u00ed em meio \u00e0 escurid\u00e3o e ouvi um pequeno murm\u00fario vindo da sala. Era minha m\u00e3e que rezava a Ave-Maria.<\/p>\n<p>As semanas seguintes foram de absoluto desespero, resultante da convic\u00e7\u00e3o de que eu estava infectado por um v\u00edrus incur\u00e1vel, que me levaria \u00e0 morte da maneira mais dolorosa poss\u00edvel. Todos os dias eu acordava com a sensa\u00e7\u00e3o de que algo estava bloqueando a minha garganta e uma angustiante press\u00e3o nas t\u00eamporas.<\/p>\n<p>Minhas m\u00e3os tremiam e eu procurava evitar ambientes iluminados: o \u00fanico lugar em que eu realmente me sentia bem era o quarto escuro dos fundos. Acabei sendo expulso do grupo de teatro depois de brigar com o novo diretor.<\/p>\n<p>Ir \u00e0s aulas todos os dias era uma tortura, por v\u00e1rios motivos. No col\u00e9gio, eu tinha contato com outras pessoas, que poderiam estar infectadas de maneira assintom\u00e1tica e aumentar a carga viral que j\u00e1 consumia o meu organismo.<\/p>\n<p>Essas pessoas falavam, riam, tossiam, espirravam, tocavam em superf\u00edcies possivelmente infectadas. O v\u00edrus n\u00e3o estava s\u00f3 nas pessoas, mas tamb\u00e9m nos objetos que foram manipulados por elas. Havia tamb\u00e9m os animais: c\u00e3es, gatos, morcegos, p\u00e1ssaros, insetos, todos eles vetores do v\u00edrus que estava reservado para mim, somente para mim.<\/p>\n<p>Os livros e os jornais que eu lia continham mensagens subliminares: esp\u00edritos do mal diziam, por meio de n\u00fameros e combina\u00e7\u00f5es de letras, a hora e o dia em que o v\u00edrus finalmente passaria ao seu \u00faltimo ataque. Atingido esse momento fatal, uma combina\u00e7\u00e3o de sofrimentos indescrit\u00edveis me levaria a desejar a morte como um mal menor, pela cessa\u00e7\u00e3o da dor.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Um n\u00famero passou a me perseguir: 909. At\u00e9 hoje, quatro d\u00e9cadas depois, tenho uma sensa\u00e7\u00e3o ruim ao mencion\u00e1-lo. Eu o via por todos os lados: nas mat\u00e9rias de jornal; na lista telef\u00f4nica; nas letras das m\u00fasicas que j\u00e1 n\u00e3o escutava; nas apostilas do col\u00e9gio; nas embalagens dos produtos; nos endere\u00e7os de meus amigos; no calend\u00e1rio; nos programas sem som da minha pequena TV; e nos meus sonhos.<\/p>\n<p>Longa parte do dia eu passava fazendo c\u00e1lculos com n\u00fameros de telefones, n\u00fameros de casas, n\u00fameros de p\u00e1ginas, hor\u00e1rios, pre\u00e7os, volumes \u2014 qualquer coisa que pudesse ser mensurada. Essas opera\u00e7\u00f5es sempre acabavam me conduzindo ao n\u00famero fatal, ao veredicto aritm\u00e9tico que me vigiava com seus tr\u00eas olhos assassinos.<\/p>\n<p>Entre uma sess\u00e3o de c\u00e1lculo e outra, eu me levantava apenas para ir ao banheiro e lavar as m\u00e3os, repetindo mentalmente a antiga ora\u00e7\u00e3o. Cheguei a lavar as m\u00e3os mais de 100 vezes por dia.<\/p>\n<p>Um dos poucos lugares em que eu me sentia bem, al\u00e9m do quarto dos fundos, era a biblioteca p\u00fablica. Sim, os livros poderiam estar infectados, mas era um risco que eu precisava enfrentar para conhecer a verdade.<\/p>\n<p>Folheando obras de filosofia, encontrei, nas <em>Medita\u00e7\u00f5es Metaf\u00edsicas<\/em>, de Ren\u00e9 Descartes, a hip\u00f3tese do \u201cg\u00eanio maligno\u201d \u2014 uma intelig\u00eancia poderosa dedicada a nos enganar, fazendo-nos acreditar que o mundo existe quando tudo n\u00e3o passa de ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sabia, mas naquele momento estava tamb\u00e9m dando as costas a Deus. O veneno inoculado por Descartes em minha alma era muito mais letal do que o v\u00edrus das minhas tormentas.<\/p>\n<p>A partir daquele momento, eu estava entregue \u00e0 ilus\u00e3o gn\u00f3stica de que a realidade, tal como a conhecemos, \u00e9 produto de uma mente maligna, que se compraz com a nossa ilus\u00e3o e o nosso sofrimento. Nos anos seguintes, a minha ades\u00e3o \u00e0 ideologia marxista teria como base essa revolta metaf\u00edsica contra Deus.<\/p>\n<p>Na escola, as coisas s\u00f3 pioravam. Abandonei completamente os estudos e, durante as aulas, ca\u00e7oava dos professores. Quando chegou a semana de avalia\u00e7\u00f5es do segundo semestre, fiz quest\u00e3o de entregar todas as provas em branco.<\/p>\n<p>Na margem das folhas de prova, eu escrevia mensagens em c\u00f3digo, que na verdade eram pedidos de socorro. Afinal, eu iria morrer em breve; do que adiantava tirar boas notas ou pensar no futuro? O mundo era apenas uma ilus\u00e3o criada pelo G\u00eanio Maligno.<\/p>\n<p>E quais eram as coisas que me restavam diante da inexist\u00eancia de um Criador infinitamente bom e misericordioso? Apenas duas: o prazer e o poder. Mas, para chegar at\u00e9 eles, eu tinha de pedir permiss\u00e3o ao meu novo senhor: o medo.<\/p>\n<p>Era preciso, ent\u00e3o, buscar os prazeres f\u00e1ceis, aqueles que n\u00e3o me expunham ao perigo de ser recontaminado pelo v\u00edrus. Olhar para as necessidades do pr\u00f3ximo, retribuir o amor dos que me amavam, abandonar o ego\u00edsmo ou dedicar-me a atividades intelectuais n\u00e3o eram a\u00e7\u00f5es que me conduziam a esses prazeres e poderes baixos. Nasciam em mim uma pregui\u00e7a e uma ira das quais sofro as consequ\u00eancias at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Como voc\u00eas, meus sete leitores, podem notar, eu estive morto, mas sobrevivi. A depress\u00e3o, por\u00e9m, me deixou uma ferida que levaria duas d\u00e9cadas para cicatrizar: o medo. Durante a minha longa noite longe de Deus, percorri caminhos trevosos dentro do meu ego\u00edsmo e das mentiras que fazia quest\u00e3o de contar para mim mesmo.<\/p>\n<p>Por isso, hoje, quando vejo tantas pessoas dominadas pela ang\u00fastia e divididas pelo rancor, sinto uma profunda compaix\u00e3o. As l\u00e1grimas de minha m\u00e3e, a dor silenciosa de meu pai \u2014 agora que eles j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o mais aqui \u2014 me inspiram a continuar lutando e dizendo, contra toda a dor e todo medo:<\/p>\n<p><em>Perdoai as nossas ofensas,<\/em><em>Assim como n\u00f3s perdoamos a quem nos tenha ofendido<\/em><em>E n\u00e3o nos deixeis cair em tenta\u00e7\u00e3o<\/em><em>Mas livrai-nos do mal. Am\u00e9m.<\/em><\/p>\n<p><strong>Canal Briguet Sem Medo: Acesse a comunidade no Telegram e receba conte\u00fados exclusivos. 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