{"id":259922,"date":"2026-03-07T05:01:00","date_gmt":"2026-03-07T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=259922"},"modified":"2026-03-07T05:01:00","modified_gmt":"2026-03-07T09:01:00","slug":"o-que-ha-de-errado-com-os-diagnosticos-sobre-feminicidios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=259922","title":{"rendered":"O que h\u00e1 de errado com os diagn\u00f3sticos sobre feminic\u00eddios?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Nas \u00faltimas semanas, tem circulado uma torrente de opini\u00f5es sobre o tema do feminic\u00eddio. Quase todas apontam o mesmo culpado: o machismo ou, mais sofisticadamente, o \u201cmachismo estrutural\u201d. Certamente esse \u00e9 um dos elementos que explicam esse tipo de viol\u00eancia; por\u00e9m, \u00e9 bem prov\u00e1vel que existam mais elementos, isto \u00e9, que as causas sejam mais complexas.<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o, essa unanimidade, que encontramos sobretudo na pol\u00edtica, na m\u00eddia e nas universidades, reflete, no m\u00ednimo, duas coisas: (1) a preval\u00eancia de certa moda aparentemente irrefut\u00e1vel, acostumada a explicar o problema sempre a partir de um olhar abstrato e estrutural; (2) a rela\u00e7\u00e3o de simbiose entre a moda e a publicidade, estampada principalmente quando algu\u00e9m, falando em nome de uma organiza\u00e7\u00e3o, parece zelar, antes, pela reputa\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o. A verdade, contudo, \u00e9 que assuntos de tamanha seriedade exigem que os abordemos em car\u00e1ter pessoal, ou seja, sob nossa responsabilidade, ainda que nos arrisquemos a cometer algum equ\u00edvoco.<\/p>\n<p>Come\u00e7arei, ent\u00e3o, com uma premissa um pouco arriscada. Se a viol\u00eancia dom\u00e9stica e feminic\u00eddio vem crescendo no Brasil, parece-me contraintuitivo reputar isso t\u00e3o somente ao machismo decorrente de uma cultura patriarcal. O patriarcado, ainda que possa subsistir em alguns rinc\u00f5es, certamente enfraqueceu. A depend\u00eancia financeira da mulher segue a tend\u00eancia de se tornar quase residual. Mesmo que se insista em dizer que seria justamente o ressentimento de um patriarcado em decad\u00eancia o causador da viol\u00eancia e feminic\u00eddio, acredito que essa explica\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 pouco convincente ou, pelo menos, claramente insuficiente.<\/p>\n<p>\u00c9 que, analisando o notici\u00e1rio, lendo sobre os casos de feminic\u00eddio e conversando com profissionais da \u00e1rea, tenho a impress\u00e3o de que testemunhamos uma esp\u00e9cie de viol\u00eancia muito mais \u201cdemocr\u00e1tica\u201d, com autores e v\u00edtimas de rostos variados. A viol\u00eancia entre casais jovens, bastante recorrente, talvez seja uma pista para qualificarmos nosso diagn\u00f3stico sobre o tema, levando-nos a uma primeira indaga\u00e7\u00e3o: o que acontece para que homens e mulheres jovens, crescidos em uma gera\u00e7\u00e3o de mulheres normalmente \u201cemancipadas\u201d, encontrem-se imersos em um ambiente agressivo, em um ambiente potencialmente fatal para essas mesmas mulheres, n\u00e3o raro adolescentes?<\/p>\n<p>A debilidade dos la\u00e7os \u00e9 uma primeira resposta. Trata-se da fragilidade decorrente do conv\u00edvio em lares sem solidez moral, em que n\u00e3o se sabe bem o que \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de amor, qual \u00e9 a sua finalidade e se h\u00e1 uma dimens\u00e3o moral no sexo. Recordo-me de Vargas Llosa, em <em>A Civiliza\u00e7\u00e3o do Espet\u00e1culo<\/em>, destacando a necessidade do pudor e do mist\u00e9rio na compreens\u00e3o do sexo. Claro: porque o sexo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma funcionalidade animal. A educa\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o consiste apenas em ensinar certas t\u00e9cnicas para evitar uma gravidez precoce ou doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis. O sexo pode resultar em dor e prazer; \u00e2nimo ou frustra\u00e7\u00e3o; crescimento da autoestima ou vergonha; cuidadosa afei\u00e7\u00e3o ou viol\u00eancia. Por tudo isso, a relev\u00e2ncia do sexo para o desenvolvimento da moralidade, sobretudo em adolescentes, \u00e9 indiscut\u00edvel.<\/p>\n<p>A minha percep\u00e7\u00e3o, todavia, \u00e9 que estamos absolutamente distantes de uma reflex\u00e3o comunit\u00e1ria sobre o assunto e, o que \u00e9 pior, nossas fam\u00edlias, que antes sabiam algo pela experi\u00eancia, parecem ter trocado essa sabedoria pela imita\u00e7\u00e3o de uma liberdade sexual sem julgamento, o que significa, para recorrer a Arist\u00f3teles, uma liberdade sexual sem verdadeira liberdade, j\u00e1 que ser livre implica, necessariamente, agir com ju\u00edzo, isto \u00e9, utilizar a raz\u00e3o para conduzir a vontade.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Se n\u00e3o discutirmos a necessidade de, em fam\u00edlia, conduzirmos os jovens \u00e0 calibragem de seus sentimentos, para que n\u00e3o caiam em um sentimentalismo excessivo e brutal, as coisas n\u00e3o se resolver\u00e3o. Se n\u00e3o regressarmos ao debate moral sobre a seriedade do sexo, a gravidade dos v\u00ednculos, a emerg\u00eancia da n\u00e3o objetifica\u00e7\u00e3o, as coisas n\u00e3o melhorar\u00e3o<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Recordo-me de que, ainda bem jovem, escutei, por acaso, de uma m\u00e3e, referindo-se \u00e0 filha adolescente, algo como: \u201c\u00e9 ela quem vai decidir de que forma vai namorar\u201d. N\u00e3o a conhecia bem para dar qualquer opini\u00e3o, mas a frase em si me pareceu uma temeridade. A m\u00e3e julga que seu dever \u00e9 abdicar da orienta\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o do conselho de \u201camiga\u201d, mas da orienta\u00e7\u00e3o reta. A m\u00e3e sup\u00f5e, equivocada, que a filha tem condi\u00e7\u00f5es para, meio espontaneamente, saber se deve ficar at\u00e9 tarde na casa do namorado, se deve dormir l\u00e1, a que horas deve regressar, se deve cobrar alguma coisa dele, entre tantas quest\u00f5es que determinam como a menina concebe \u2013 e conceber\u00e1 \u2013 uma rela\u00e7\u00e3o. E o pai, onde ser\u00e1 que estava?<\/p>\n<p>Essa \u00e9 outra quest\u00e3o fundamental. Havia \u2013 aqui, arrisco-me outra vez \u2013 pelo menos uma virtude no patriarcado: o destino daquelas pessoas, daquelas mulheres, era responsabilidade do chefe de fam\u00edlia. Se ele fosse virtuoso, provavelmente a vida delas n\u00e3o seria, moral e financeiramente, miser\u00e1vel. Hoje, o que deve fazer um pai diante do namorado da filha? Deve receb\u00ea-lo em casa para que fa\u00e7am, imediatamente ou com algum vagar, \u201csexo com seguran\u00e7a\u201d? Deve sucumbir \u00e0 ideia de que tudo o que importa quanto \u00e0 sexualidade \u00e9 a \u201cseguran\u00e7a\u201d e a preven\u00e7\u00e3o ao \u201cimprevisto\u201d? Deve deixar essas coisas somente para a m\u00e3e?<\/p>\n<p>H\u00e1, penso, uma verdade importante no feminismo: os pais, e evidentemente tamb\u00e9m o pai, t\u00eam um papel fundamental na educa\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica para que meninos n\u00e3o tratem meninas como objeto, ou seja, devem agir para evitar o machismo. E, em um sentido mais profundo, o pai \u00e9 para o filho homem uma esp\u00e9cie de espelho. Da\u00ed a import\u00e2ncia do exemplo. Quando o pai consegue tratar a m\u00e3e com respeito e considera\u00e7\u00e3o, mostrar-se moderado e, mesmo na rigidez com os filhos, comunicar que busca agir com justi\u00e7a, o ambiente criado \u00e9 tendencialmente seguro, com valores que circulam com naturalidade. A autoridade existe pela presen\u00e7a atenta. O pai deve evitar aquilo que, para Gustavo Cor\u00e7\u00e3o, costuma ser o ego\u00edsmo masculino: o isolamento e, no limite, o abandono \u2013 que pode se dar, inclusive, sob o mesmo teto.<\/p>\n<p>Isso revela uma verdade mais geral, \u00e0s vezes obscurecida pela neurose da valida\u00e7\u00e3o de cada particularidade \u2013 isto \u00e9, de cada fam\u00edlia singular \u2013, como se fosse poss\u00edvel fazer an\u00e1lise social sem recorrer a generaliza\u00e7\u00f5es. Essa verdade corresponde \u00e0 indispensabilidade da fun\u00e7\u00e3o paterna. Se, no campo da criminalidade em sentido amplo, h\u00e1 boas evid\u00eancias de que a aus\u00eancia dessa fun\u00e7\u00e3o torna mais prov\u00e1vel a rela\u00e7\u00e3o do jovem \u2013 principalmente do sexo masculino \u2013 com o crime, creio que tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel atribuir \u00e0 aus\u00eancia do pai parte da causa da dissemina\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia dom\u00e9stica e feminic\u00eddio.<\/p>\n<p>O pai tem uma fun\u00e7\u00e3o de vigil\u00e2ncia constante, quem sabe at\u00e9 de cuidado perp\u00e9tuo. Essa vigil\u00e2ncia implica, na fase adequada, uma aten\u00e7\u00e3o especial com as meninas, porque todo pai certamente sabe que elas est\u00e3o mais sujeitas ao abuso, do verbal \u00e0 viol\u00eancia f\u00edsica. Por isso, um homem n\u00e3o tem o direito de se desfazer daquilo que <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/theodore-dalrymple\/\">Theodore Dalrymple<\/a> costuma chamar de \u201cpreconceito justificado\u201d, um certo olhar sobre o mundo \u2013 e sobre as pessoas \u2013 que identifica, de imediato, um sinal de risco. Nesse sentido, o pai n\u00e3o \u00e9 a m\u00e3e, n\u00e3o \u00e9 a av\u00f3, n\u00e3o \u00e9 a irm\u00e3, n\u00e3o \u00e9 a amiga. O pai \u00e9 algu\u00e9m que deve conservar um olhar diferente quando, por exemplo, a filha aparece com um namorado. \u00c9 sua obriga\u00e7\u00e3o \u2013 diria, como pai, nossa obriga\u00e7\u00e3o \u2013 ficar atento aos sinais e, sendo o caso, agir.<\/p>\n<p>Um bom amigo sempre me conta que, quando tinha uns 17 anos, foi conhecer pela primeira vez a casa e o pai da namorada. Tratava-se de um pai \u00e0 moda antiga, que dizia coisas que n\u00e3o agradariam os c\u00edrculos de letramento universit\u00e1rio contra o machismo. Possivelmente, n\u00e3o iria a uma roda de conversa sobre \u201cdesconstru\u00e7\u00e3o da masculinidade\u201d. Ao receber esse meu amigo de modo cordial e afetuoso, esse pai teve com ele uma conversa firme e sincera. Aquele senhor desejava demonstrar que, ali, naquela casa, havia comando, autoridade e refer\u00eancia. Havia la\u00e7os. E esses la\u00e7os eram a prote\u00e7\u00e3o da menina, eram a teia de seguran\u00e7a da namorada. Aquele senhor lhe contou, com leveza, que existiam ali algumas regras, pediu-lhe que as compreendesse e, ainda, quis escutar desse meu amigo algumas palavras sobre como ele via os estudos, o lazer, as expectativas do vestibular e, ao fim, terminada a conversa, arrematou com algo como: \u201cbem, se as coisas terminarem, se um dos dois quiser outro caminho, deixem-se respeitosamente\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o vejo motivos para que essa masculinidade seja desconstru\u00edda. Trata-se justamente do envolvimento virtuoso que, segundo Cor\u00e7\u00e3o, o pai tem de ter dentro do lar. A menina aguarda uma conversa como essa \u2013 a conversa na varanda \u2013 com ansiedade, recebendo do pai, ao final, um beijo na testa; e, mais ao final ainda, uma primeira impress\u00e3o do rapaz que, mesmo boa, sempre ser\u00e1 um pouco c\u00e9tica. \u00c9 essa vigil\u00e2ncia afetuosa que d\u00e1 \u00e0 menina ainda mais ferramentas para namorar com tranquilidade e, quando julgar ser o caso, para se impor e ditar, ela mesma, o ritmo das coisas valiosas que entender que deva ditar.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Em um cen\u00e1rio como esse, os mais velhos introjetam nos mais jovens o h\u00e1bito da responsabilidade, da prud\u00eancia e do respeito. Dificilmente um pai como esse observar\u00e1 uma discuss\u00e3o excessiva por ci\u00fame e a considerar\u00e1 normal. De alguma forma, ele intervir\u00e1. \u00c9 prov\u00e1vel que a menina, bem orientada ao longo do tempo, consiga perceber o v\u00edcio em seu pr\u00f3prio \u00edmpeto possessivo e, por conseguinte, no \u00edmpeto possessivo daquele que a acompanha. Ela desconfiar\u00e1 de obsess\u00f5es. Ela se incomodar\u00e1 se ele for muito mimado, incapaz de se frustrar e acostumado, por exemplo, a uma m\u00e3e subserviente. Porque \u00e9 prov\u00e1vel que ele demande a mesma subservi\u00eancia da namorada, da noiva, da esposa. E a jovem, j\u00e1 munida das ferramentas que a fam\u00edlia lhe entregou, vai aprendendo, em concreto, a se defender.<\/p>\n<p>\u00c9 com os antigos, com a sabedoria da filosofia pol\u00edtica cl\u00e1ssica, que aprendemos que, se o homem n\u00e3o souber controlar o seu instinto, se for escravo dos seus desejos e caprichos, comporta-se como uma \u201cbesta\u201d, como uma \u201cfera\u201d, como algu\u00e9m que est\u00e1 fora da comunidade. \u00c9 normalmente esse homem que se torna um agressor de mulheres, algu\u00e9m que, pela covardia, imp\u00f5e a sua miser\u00e1vel vontade; algu\u00e9m que, tendo aprendido a ver o outro como um objeto, como um objeto destinado a satisfazer os seus desejos, reagir\u00e1 com o \u00fanico recurso que lhe resta: o grito, a agress\u00e3o verbal, a viol\u00eancia f\u00edsica e, no limite, a aniquila\u00e7\u00e3o de quem lhe imp\u00f5e alguma resist\u00eancia, o feminic\u00eddio. Trata-se, evidentemente, de um perigo.<\/p>\n<p>A esta altura, podemos fazer outra pergunta: tem a nossa cultura contribu\u00eddo para a forma\u00e7\u00e3o da \u201cbesta\u201d ou tem ela, de alguma forma, fortalecido a fun\u00e7\u00e3o familiar \u2013 e, claro, a fun\u00e7\u00e3o paterna? Devo responder com a sinceridade do que vejo: n\u00e3o tenho d\u00favida alguma de que a nossa cultura, aquilo que popularmente escutamos e assistimos \u2013 e at\u00e9 mesmo o que intelectualmente aprendemos \u2013, estabelece uma oposi\u00e7\u00e3o ao pai atento e uma alian\u00e7a com a constru\u00e7\u00e3o da \u201cfera\u201d. Tudo isso para depois, publicitariamente, lamentar o n\u00famero de feminic\u00eddios.<\/p>\n<p>Os est\u00edmulos s\u00e3o demasiadamente contradit\u00f3rios. Quer-se libera\u00e7\u00e3o sexual sem julgamentos. Quer-se a dilui\u00e7\u00e3o da autoridade. Depois da dissemina\u00e7\u00e3o completa da pornografia, ainda se normaliza a prostitui\u00e7\u00e3o \u201csoft\u201d, os aplicativos em que, sempre com \u201cseguran\u00e7a\u201d, mulheres podem, abandonando a adolesc\u00eancia, exercer o que os engenheiros da sujei\u00e7\u00e3o chamam de \u201cliberdade\u201d. H\u00e1 ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o que, depois de meia hora de discurso horrorizado sobre a viol\u00eancia dom\u00e9stica e casos de feminic\u00eddio, passam \u00e0 propaganda das \u201cbets\u201d e, depois, da prostitui\u00e7\u00e3o pura e simples, de servi\u00e7os higienizados de \u201cacompanhantes\u201d. Em outras palavras: promove-se tudo isso e, ao mesmo tempo, esperam-se respeito, a n\u00e3o objetifica\u00e7\u00e3o da mulher e a obedi\u00eancia aos limites do \u201cn\u00e3o\u201d. Ora, mas com esse pacote diuturno de objetifica\u00e7\u00e3o, qual ser\u00e1 o resultado?<\/p>\n<p>Se n\u00e3o discutirmos a necessidade de, em fam\u00edlia, conduzirmos os jovens \u00e0 calibragem de seus sentimentos, para que n\u00e3o caiam em um sentimentalismo excessivo e brutal, as coisas n\u00e3o se resolver\u00e3o. Se n\u00e3o regressarmos ao debate moral sobre a seriedade do sexo, a gravidade dos v\u00ednculos, a emerg\u00eancia da n\u00e3o objetifica\u00e7\u00e3o, as coisas n\u00e3o melhorar\u00e3o. Se n\u00e3o come\u00e7armos a pensar na figura do \u201ccompanheiro\u201d \u2013 dissolvida, menos seletiva e mais ef\u00eamera \u2013, que parece substituir a figura do \u201cesposo\u201d, ilustrando a dilui\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o do matrim\u00f4nio, tampouco alcan\u00e7aremos grande coisa. Se n\u00e3o enfrentarmos o problema de uma sociedade de homens que, j\u00e1 em elevado n\u00famero, contam com subven\u00e7\u00e3o estatal ou vivem de trabalhos prec\u00e1rios, ignoraremos uma parte importante da trag\u00e9dia. Estamos, portanto, diante de um debate essencialmente pol\u00edtico-moral. E devemos ousar faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o o temos feito, tratamos o \u201cmachismo\u201d como uma esp\u00e9cie de \u201ccausa-slogan\u201d, n\u00e3o com a seriedade que merece. E, ainda, recorremos quase que exclusivamente ao Direito: cobramos medidas protetivas, tempo de puni\u00e7\u00e3o e rapidez nos procedimentos estatais. \u00c9 tudo essencial, por \u00f3bvio. \u00c9 o que o Estado pode e deve fazer. Mas n\u00e3o devemos enganar as mulheres, fazendo-as acreditar que \u00e9 tudo uma quest\u00e3o policial, que \u00e9 tudo uma quest\u00e3o de \u201cprote\u00e7\u00e3o de seus direitos\u201d. A integridade f\u00edsica e mental dentro de uma rela\u00e7\u00e3o \u00e9 algo muito mais complexo. E, na maioria das vezes, a sua prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o consegue esperar o tempo, conceitualmente mais lento, do Direito. Em geral, o Direito chega depois do fato. E queremos impedir o fato. Por isso, o tempo da fam\u00edlia \u00e9 anterior. O tempo do pai \u00e9 mais r\u00e1pido. \u00c9 este o tempo que precisamos resgatar \u2013 o tempo dos la\u00e7os.<\/p>\n<p>Finalizo com Simone Weil. Ela chamou de \u201cdesenraizamento\u201d a doen\u00e7a da nossa \u00e9poca. Quem n\u00e3o tem ra\u00edzes na fam\u00edlia, na religi\u00e3o e no trabalho, para citar tr\u00eas exemplos basilares, tende a andar pelo mundo atomizado, como um indiv\u00edduo isolado que, na pr\u00e1tica, costuma embrutecer a si mesmo e embrutecer a sua rela\u00e7\u00e3o com o outro. Tudo \u00e9 sentimental, material e autorreferente. Trata-se de um diagn\u00f3stico adequado para uma sociedade de rela\u00e7\u00f5es fr\u00e1geis e do consumo de pequenos prazeres.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho a rom\u00e2ntica esperan\u00e7a de que passemos, de uma hora para outra, a uma sociedade do enraizamento. Mas creio que posso esperar, pela urg\u00eancia, que nossas fam\u00edlias despertem. Parece-me que, muito al\u00e9m de cobrar do Estado, \u00e9 nisso que devemos, em comunidade, apostar. N\u00e3o vejo outra sa\u00edda.<\/p>\n<p><em><strong>Pedro da Silva Moreira,<\/strong> professor de Direito Constitucional, \u00e9 doutor em Filosofia do Direito pela Universidade Aut\u00f4noma de Madri (UAM).<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas \u00faltimas semanas, tem circulado uma torrente de opini\u00f5es sobre o tema do feminic\u00eddio. 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