{"id":255420,"date":"2026-03-05T09:05:58","date_gmt":"2026-03-05T13:05:58","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=255420"},"modified":"2026-03-05T09:05:58","modified_gmt":"2026-03-05T13:05:58","slug":"todo-mundo-quer-ser-antissistema-mas-so-o-stf-conseguiu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=255420","title":{"rendered":"Todo mundo quer ser antissistema, mas s\u00f3 o STF conseguiu"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O paradoxo pol\u00edtico da nossa \u00e9poca cabe numa frase: o discurso antissistema d\u00e1 voto, mas governar \u00e9 tornar-se sistema. A campanha promete guerra, mas raramente o governo sustenta mais do que um armist\u00edcio, quando n\u00e3o termina em capitula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Brasil, o PT chegou ao poder com um discurso contra \u201cas elites\u201d, algo muito pr\u00f3ximo do que hoje se chama, de forma gen\u00e9rica, de \u201co sistema\u201d. Mas, antes mesmo de tomar posse, j\u00e1 sinalizava concilia\u00e7\u00e3o: a famigerada \u201cCarta ao Povo Brasileiro\u201d. Quando assumiu, tornou-se elite.<\/p>\n<p>Jair Bolsonaro, por sua vez, chegou com uma promessa antissist\u00eamica e, no meio do mandato, precisou pagar o pre\u00e7o da governabilidade, incluindo o sistema (leia-se Centr\u00e3o) para n\u00e3o travar ou ser derrubado. E continua dependendo dele para sobreviver politicamente.<\/p>\n<p>Independentemente da ideologia do governo, da frustra\u00e7\u00e3o de seus eleitores, ou muito por causa dela, o fato \u00e9 que boa parte do eleitorado continua querendo guerra contra o sistema. Basta olhar a vota\u00e7\u00e3o expressiva de Pablo Mar\u00e7al na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o municipal de S\u00e3o Paulo. A cada choque com o tal \u201csistema\u201d, ele crescia. N\u00e3o cometesse erros crassos no fim, perigava ter vencido.<\/p>\n<p>O antissistema, como produto pol\u00edtico, tem mercado garantido. O problema come\u00e7a quando ele chega ao poder.<\/p>\n<h2>A for\u00e7a sem tutela<\/h2>\n<p>Permita-me ilustrar isso com Dirty Harry. Os leitores mais jovens talvez n\u00e3o saibam quem \u00e9 o famoso personagem interpretado por Clint Eastwood em cinco filmes, entre 1971 e 1988, mas os mais experientes imediatamente escutaram a voz de Clint dizendo: \u201cMake my day, punk!\u201d.<\/p>\n<p>Harry Callahan \u00e9 um policial em tens\u00e3o permanente entre fazer o que considera certo e as limita\u00e7\u00f5es institucionais que o freiam, o que o torna \u00fatil para pensar a pol\u00edtica de hoje. Harry n\u00e3o \u00e9 um paladino da justi\u00e7a elegante. \u00c9 duro, teimoso, com instinto de ca\u00e7ador e pouca paci\u00eancia para formalidades. Lembra algu\u00e9m (ou alguns)?<\/p>\n<p>No primeiro filme (<em>Perseguidor Implac\u00e1vel<\/em>), ele encarna o detetive que corta o caminho burocr\u00e1tico quando sente que tudo conspira para dar vantagem ao criminoso, com a lei mais atrapalhando do que ajudando. Mas \u00e9 no segundo (<em>Magnum Force<\/em>, lan\u00e7ado aqui como <em>Magnum 44<\/em>) que o drama tem mais relev\u00e2ncia para n\u00f3s: Harry encontra policiais que v\u00e3o muito al\u00e9m do que ele j\u00e1 foi.<\/p>\n<p>Surge dentro da pr\u00f3pria pol\u00edcia um grupo de agentes jovens, tecnicamente eficientes, que perderam a f\u00e9 no devido processo e decidiram \u201cresolver\u201d o problema do crime pela via direta: execu\u00e7\u00e3o extrajudicial. Eles se veem como saneadores, como corretivos. Mais do que punir, querem instituir uma nova ordem em que a legitimidade vem de uma certeza moral autoconcedida. Criam uma \u201cgovernan\u00e7a\u201d da justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando Harry desvenda o grupo, ele reconhece a sua pr\u00f3pria tenta\u00e7\u00e3o. E recua, um recuo institucional. Se a pol\u00edcia decide ser juiz e carrasco, ela deixa de ser pol\u00edcia e o Estado muda de natureza. Harry sabe que o sistema \u00e9 falho \u2014 talvez ningu\u00e9m no filme saiba melhor \u2014, mas percebe que a alternativa n\u00e3o significa \u201cmais justi\u00e7a\u201d. \u00c9 for\u00e7a sem tutela.<\/p>\n<p>E for\u00e7a sem tutela, mais cedo ou mais tarde, deixa de combater criminosos para perseguir dissidentes; depois, inconvenientes; depois, qualquer um. O esquadr\u00e3o de <em>Magnum 44<\/em> \u00e9 a imagem perfeita do antissistema quando adquire, ou lhe concedem, mandato moral para \u201climpar\u201d, \u201cfazer justi\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Todo adepto do discurso antissistema se identificaria com o Harry Callahan do primeiro filme, mas costuma esquecer ou ignorar o que o pr\u00f3prio Harry reconheceu no segundo: ele n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o. \u00c9 um sintoma, o aviso de que o sistema falhou o suficiente para que algu\u00e9m como ele fosse necess\u00e1rio.<\/p>\n<h2>Quando o antissistema se torna dono do sistema<\/h2>\n<p>A l\u00f3gica se aplica tamb\u00e9m a quem se v\u00ea como guardi\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es, como o que imp\u00f5e o limite, o freio. \u00c9 o momento de voltar aos casos concretos e ampliar o rol: Alexandre de Moraes e, por extens\u00e3o, o STF em decis\u00f5es cruciais dos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>O STF, em nome da urg\u00eancia democr\u00e1tica, tensionou e rasgou mais o desenho constitucional das garantias individuais e do Estado Democr\u00e1tico de Direito do que Lula ou Bolsonaro jamais fizeram \u2014 o que \u00e9, por si s\u00f3, uma forma de ser antissistema, mas com toga.<\/p>\n<p>Se o leitor precisa de exemplos disso, basta lembrar do inqu\u00e9rito das fake news, aberto de of\u00edcio, com relator selecionado, considerando a sede do tribunal o universo alcan\u00e7ado pela internet, com emiss\u00e3o de centenas de ordens de censura a plataformas digitais sem o contradit\u00f3rio adequado, sem pleno direito \u00e0 defesa, sem contar as pris\u00f5es e restri\u00e7\u00f5es determinadas \u00e0 margem dos ritos processuais ordin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Isso permite compreendermos a maior tenta\u00e7\u00e3o para o antissistema e o maior perigo para todos n\u00f3s quando esse mesmo antissistema se torna dono do sistema: passa a ser o guardi\u00e3o de si mesmo, a \u00faltima, sen\u00e3o \u00fanica, barreira de conten\u00e7\u00e3o do seu poder. \u00c9 quando encontramos a resposta \u00e0 famosa pergunta: quem vigia o vigia? O pr\u00f3prio vigia.<\/p>\n<p>A\u00ed s\u00f3 resta implorar por autoconten\u00e7\u00e3o. Harry Callahan deu exemplo disso, reconhecendo a necessidade de limites para suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es que n\u00e3o venham apenas da sua vontade. A lei, antes um empecilho, recupera sua necessidade e legitimidade, ao menos como conten\u00e7\u00e3o da for\u00e7a. Ao menos, para fazer a for\u00e7a prestar contas de suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando quem det\u00e9m o poder se recusa a tanto, ele se torna imune. A\u00ed entramos no reinado do arb\u00edtrio, que \u00e9 ou se torna um sistema intrinsecamente injusto e antidemocr\u00e1tico. Na sua realidade mais concreta, o Estado de Direito s\u00f3 se sustenta na desconfian\u00e7a, institucionalizada, de que ningu\u00e9m \u2014 absolutamente ningu\u00e9m \u2014 deve ter poder sem freio.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil aceitar e entender isso quando pensamos na conten\u00e7\u00e3o de bandidos ou inimigos. Mas e quando s\u00e3o os \u201cmocinhos\u201d? E quando somos n\u00f3s os pretensos her\u00f3is salvadores da democracia?<\/p>\n<p>\u00c9 in\u00fatil a discuss\u00e3o sobre se \u201co sistema\u201d \u00e9 defeituoso. Ele \u00e9, sempre ser\u00e1, inclusive aqueles que os antissistema constru\u00edrem.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o aqui \u00e9 outra: quando a postura antissistema vira m\u00e9todo de a\u00e7\u00e3o, independentemente do sistema vigente, passa a tratar qualquer resist\u00eancia \u00e0 sua vontade como sabotagem, crime ou trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse caso, sempre precisar\u00e1 eleger inimigos para explicar por que o seu milagre prometido n\u00e3o veio. Tamb\u00e9m para justificar por que o freio \u00e0s suas a\u00e7\u00f5es deve ser removido, ainda que sob a conversa fiada de ser uma \u201csitua\u00e7\u00e3o excepcional\u00edssima\u201d.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a autoconcess\u00e3o de poder sem conten\u00e7\u00e3o raramente \u00e9 provis\u00f3ria. \u00c9 quase sempre um m\u00e9todo para conquistar uma soberania autorit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o n\u00f3 do nosso presente: uma sociedade exausta, com institui\u00e7\u00f5es corrompidas ou sem legitimidade, tende a aceitar solu\u00e7\u00f5es que parecem p\u00f4r ordem na casa, n\u00e3o se deixando constranger por nada. Muda-se o suposto salvador da p\u00e1tria, mas n\u00e3o o desejo por um salvador da p\u00e1tria. Mas n\u00e3o raro os her\u00f3is antissistema de hoje costumam se tornar os tiranos de amanh\u00e3.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de <em>Magnum Force, <\/em>h\u00e1 um di\u00e1logo entre Callahan e seu chefe, no qual este se colocou como bom homem que nunca precisou tirar o rev\u00f3lver do coldre. Callahan respondeu que \u201cum bom homem sempre conhece seus limites\u201d. No fim, o \u201cbonzinho\u201d era o vil\u00e3o e a \u00faltima fala de Callahan ecoa a do in\u00edcio, mas com significado maior: \u201cUm homem tem de conhecer seus limites\u201d.<\/p>\n<p>A certeza moral autoconcedida, a for\u00e7a que dispensa tutela porque se acredita justificada, eis o que Callahan reconheceu. Mas Dirty Harry ficou no cinema. Na nossa realidade, o mais assustador \u00e9 que cada fac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica brasileira consegue reconhecer esse padr\u00e3o com precis\u00e3o cir\u00fargica nos advers\u00e1rios. Nunca em si mesma.<\/p>\n<p>Mais do que isso. Somos um pa\u00eds em que todos concordam que um homem, especialmente detentor do poder, tem de conhecer seus limites. Mas ningu\u00e9m, absolutamente ningu\u00e9m, acha que essa frase foi escrita para si.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O paradoxo pol\u00edtico da nossa \u00e9poca cabe numa frase: o discurso antissistema d\u00e1 voto, mas governar \u00e9 tornar-se sistema. A&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":255421,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-255420","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/255420","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=255420"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/255420\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/255421"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=255420"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=255420"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=255420"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}