{"id":253033,"date":"2026-03-03T20:35:00","date_gmt":"2026-03-04T00:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=253033"},"modified":"2026-03-03T20:35:00","modified_gmt":"2026-03-04T00:35:00","slug":"inflacao-a-vista-como-o-conflito-no-oriente-medio-afeta-o-agronegocio-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=253033","title":{"rendered":"Infla\u00e7\u00e3o \u00e0 vista? Como o conflito no Oriente M\u00e9dio afeta o agroneg\u00f3cio brasileiro"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/mundo\/quais-foram-alvos-ira-ataques-eua-israel\/\">escalada dos conflitos no Oriente M\u00e9dio<\/a> desde s\u00e1bado (28) colocou o agro brasileiro em alerta. Fortemente internacionalizado, o setor deve ser um dos mais afetados pela instabilidade geopol\u00edtica, que j\u00e1 provoca reflexos em rotas do com\u00e9rcio internacional e em custos de insumos essenciais para log\u00edstica e produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma das maiores preocupa\u00e7\u00f5es \u00e9 com rela\u00e7\u00e3o ao mercado de ureia, principal fertilizante \u00e0 base de nitrog\u00eanio utilizado na agricultura e do qual o Ir\u00e3 \u00e9 um dos mais importantes fornecedores globais. O composto \u00e9 muito utilizado em importantes culturas como milho, caf\u00e9, cana-de-a\u00e7\u00facar, trigo e pastagens.<\/p>\n<p>No ano passado, o Ir\u00e3 foi o d\u00e9cimo principal exportador de ureia para o Brasil. \u201cMas uma grande parte dos fertilizantes nitrogenados que a gente compra vem do Catar, de Om\u00e3 e da Nig\u00e9ria, que usam o g\u00e1s natural do Ir\u00e3 para ser produzido\u201d, explica Daniel Vargas, professor de Direito e Economia da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV).<\/p>\n<p>No ano passado, o Brasil importou 7,7 milh\u00f5es de toneladas de ureia, de acordo com dados do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento, Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio (MDIC). Desse total, 51,7% vieram desses tr\u00eas pa\u00edses: 1,8 milh\u00e3o de toneladas da Nig\u00e9ria, 1,2 milh\u00e3o de toneladas de Om\u00e3 e 991 mil toneladas do Catar.<\/p>\n<p>\u201cO fertilizante nitrogenado \u00e9 basicamente g\u00e1s natural industrializado. Quase 90% do custo da produ\u00e7\u00e3o [do fertilizante] \u00e9 energia, ou seja, o g\u00e1s\u201d, explica Vargas.<\/p>\n<p>Nesta segunda-feira (2), os pre\u00e7os de fertilizantes nitrogenados j\u00e1 subiram no Brasil, acompanhando a alta registrada em outros mercados globais produtores e consumidores, segundo a consultoria Argus.<\/p>\n<p>\u201cProdutores de ureia do Oriente M\u00e9dio retiraram ofertas de venda do mercado, em meio \u00e0 escalada das tens\u00f5es na regi\u00e3o, avaliando a disponibilidade do nitrogenado nos estoques e mais clareza sobre a log\u00edstica\u201d, diz trecho de an\u00e1lise de Jo\u00e3o Petrini, respons\u00e1vel por precifica\u00e7\u00e3o de fertilizantes da Argus.<\/p>\n<p>A depender da dura\u00e7\u00e3o dos conflitos, as restri\u00e7\u00f5es ao com\u00e9rcio do insumo podem, al\u00e9m de elevar os pre\u00e7os, dificultar o abastecimento total de ureia para todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cNeste momento, estamos com a safrinha de milho em torno de tr\u00eas quartos j\u00e1 plantada. Em regra, j\u00e1 aconteceu ou est\u00e1 acontecendo a primeira aplica\u00e7\u00e3o de nitrogenados, o que significa que uma parte dos nossos produtores j\u00e1 antecipou a compra desses fertilizantes.\u201d<\/p>\n<p>Apesar disso, neste momento do ciclo da cultura, entre 30% e 50% dos produtores devem estar com custos do insumo ainda em aberto, expostos ao que pode ocorrer no mercado internacional, avalia o professor.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Alta no petr\u00f3leo eleva ainda mais os custos para o agro brasileiro<\/h2>\n<p>Com quase toda a produ\u00e7\u00e3o interna transportada por via rodovi\u00e1ria, o agro brasileiro est\u00e1 diretamente exposto ao pre\u00e7o do petr\u00f3leo, que nesta ter\u00e7a-feira (3) acumulava alta de 15% desde os <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/mundo\/estados-unidos-e-israel-atacam-ira-trump-anuncia-operacao-de-combate-em-larga-escala\/\">ataques coordenados entre Israel e Estados Unidos<\/a> que resultaram na morte do aiatol\u00e1 Ali Khamenei, l\u00edder supremo do Ir\u00e3.<\/p>\n<p>Cerca de 20% do petr\u00f3leo e do g\u00e1s natural liquefeito consumidos no mundo circulam pelo <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/mundo\/estreito-de-ormuz-o-que-e-e-por-que-o-bloqueio-da-rota-ameaca-a-economia-mundial\/\">Estreito de Ormuz<\/a>, que foi fechado pela Guarda Revolucion\u00e1ria do Ir\u00e3, segundo an\u00fancio feito nesta ter\u00e7a, aumentando a press\u00e3o sobre os pre\u00e7os de combust\u00edveis f\u00f3sseis.<\/p>\n<p>\u201cMesmo sem uma interrup\u00e7\u00e3o imediata da produ\u00e7\u00e3o, o aumento da incerteza adiciona um pr\u00eamio de risco ao barril. O mercado reage rapidamente a qualquer sinal de amea\u00e7a \u00e0s rotas estrat\u00e9gicas de exporta\u00e7\u00e3o\u201d, diz Cristian Bazaga, CEO da Excel, especializada em gerenciamento de combust\u00edvel e gest\u00e3o de frotas.<\/p>\n<p>Com isso, os efeitos sobre os pre\u00e7os de alimentos e consequentemente sobre a infla\u00e7\u00e3o de modo geral seriam inevit\u00e1veis, tamb\u00e9m em raz\u00e3o do transporte log\u00edstico marinho para a importa\u00e7\u00e3o de insumos.<\/p>\n<p>A XP Investimentos calcula que um aumento de 10% no pre\u00e7o do barril Brent, utilizado como refer\u00eancia no mercado global, resultaria em um impacto de 0,25 ponto percentual (p.p.) da infla\u00e7\u00e3o oficial.<\/p>\n<p>\u201cAssim, sob o cen\u00e1rio de c\u00e2mbio constante, pre\u00e7os do petr\u00f3leo Brent ao redor de US$ 70 por barril ao longo do ano implicariam um risco altista de at\u00e9 0,4 p.p. para o IPCA\u201d, diz relat\u00f3rio da corretora.<\/p>\n<h2>D\u00f3lar em alta eleva custo de insumos, mas tamb\u00e9m favorece exporta\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p>Outra fonte de preocupa\u00e7\u00e3o para o agro \u00e9 a cota\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar, que alcan\u00e7ava R$ 5,28 no preg\u00e3o desta ter\u00e7a, acumulando alta de 3% em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00faltima sexta-feira (27), quando estava cotado a R$ 5,13.<\/p>\n<p>Guerras e conflitos de repercuss\u00e3o global geralmente levam investidores a buscarem posi\u00e7\u00f5es em d\u00f3lar americano, considerado mais seguro. \u201cEm regra, o pre\u00e7o das moedas de pa\u00edses em desenvolvimento tende a se desvalorizar diante de uma crise\u201d, diz Vargas, da FGV.<\/p>\n<p>\u201cIsso significa que, por um lado, vamos importar as coisas de fora mais caro, mas, por outro lado, eventualmente podemos exportar e ganhar um pouco mais na venda aqui tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n<h2>Milho \u00e9 principal produto exportado pelo Brasil para o Ir\u00e3<\/h2>\n<p>Em termos de com\u00e9rcio exterior, o Ir\u00e3 \u00e9 um importante importador de produtos do agro brasileiro. Em 2025, segundo o MDIC, o pa\u00eds persa comprou do Brasil US$ 1,98 bilh\u00e3o em cereais, farinhas e prepara\u00e7\u00f5es; US$ 745,8 milh\u00f5es em soja; e US$ 189,1 milh\u00f5es do complexo sucroalcooleiro (a\u00e7\u00facar e etanol).<\/p>\n<p>Entre os gr\u00e3os, o milho \u00e9 o principal produto exportado pelo Brasil para a regi\u00e3o. Em 2025, o Ir\u00e3 foi o principal destino do cereal brasileiro, com cerca de 9 milh\u00f5es de toneladas importadas, o equivalente a 23% das vendas externas do Brasil.<\/p>\n<p>Vargas, da FGV, explica que, apesar da crise no pa\u00eds do Oriente M\u00e9dio, o volume de compra de milho n\u00e3o deve ser afetado de maneira significativa.  Ele avalia, no entanto, que o aumento nos custos de produ\u00e7\u00e3o do milho, devido ao encarecimento de fertilizantes e transportes, deva afetar outras cadeias, como a da carne.<\/p>\n<p>\u201cO milho \u00e9 o principal insumo da ra\u00e7\u00e3o para frangos e tamb\u00e9m \u00e9 essencial para os 20% a 30% do gado de corte brasileiro que passa por per\u00edodos de confinamento. Portanto, a alta dos custos no campo acaba sendo repassada para a produ\u00e7\u00e3o de prote\u00edna animal.\u201d<\/p>\n<h2>Exporta\u00e7\u00f5es de carne bovina ficam expostas a riscos <\/h2>\n<p>No setor de carne bovina, a grande preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 o fechamento do Estreito de Ormuz, diz Frederico Favacho, s\u00f3cio do Santos Neto Advogados e especialista em contratos internacionais do agro.<\/p>\n<p>O Brasil lidera a produ\u00e7\u00e3o global de carne halal \u2013 \u00a0abatida e preparada segundo os princ\u00edpios da lei isl\u00e2mica \u2013 e depende da rota para escoar mais de 28 mil toneladas mensais do produto.<\/p>\n<p>\u201cOs contratos n\u00e3o ficam imediatamente suspensos por conta de for\u00e7a maior ou outra condi\u00e7\u00e3o, na medida em que os exportadores brasileiros possam ter outras rotas, como, por exemplo, o Mediterr\u00e2neo. S\u00f3 que s\u00e3o rotas mais caras e mais complicadas\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Segundo ele, os portos da regi\u00e3o permanecem em alerta devido ao cen\u00e1rio de conflito entre os pa\u00edses. \u201cA expectativa \u00e9 que o Brasil tenha impacto n\u00e3o s\u00f3 nas carnes, mas tamb\u00e9m na soja e no a\u00e7\u00facar que exportamos para a regi\u00e3o. Precisaremos observar como os fatos v\u00e3o se desenvolver nos pr\u00f3ximos dias para desenhar decis\u00f5es estrat\u00e9gicas\u201d, diz Favacho.<\/p>\n<p>O alerta se justifica: as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras de carne bovina para os pa\u00edses \u00e1rabes fecharam 2025 com alta de 1,91% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior, somando US$ 1,79 bilh\u00e3o, segundo dados da C\u00e2mara de Com\u00e9rcio \u00c1rabe-Brasileira, que acompanha o com\u00e9rcio com as 22 na\u00e7\u00f5es da Liga dos Estados \u00c1rabes, abrangendo o Norte da \u00c1frica e o Oriente M\u00e9dio. Com o resultado, o Brasil registrou o segundo recorde consecutivo de receitas com o bloco.<\/p>\n<p>Ele lembra ainda que o Brasil sempre manteve posi\u00e7\u00e3o privilegiada no fornecimento de commodities agr\u00edcolas ao Ir\u00e3, mesmo com embargos sobre o pa\u00eds. \u201cComo exportamos alimentos, ficamos fora das restri\u00e7\u00f5es comerciais, o que nos colocou em vantagem no mercado internacional. Ent\u00e3o, de fato, poderemos sofrer algum impacto nos contratos de exporta\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 importante observar que este n\u00e3o \u00e9 o nosso maior mercado. O principal continua sendo a China, seguida pela Uni\u00e3o Europeia.\u201d<\/p>\n<h2>Setor de biocombust\u00edveis pode se beneficiar em meio \u00e0 crise<\/h2>\n<p>Apesar do aumento de custos e da dificuldade log\u00edstica no transporte de mercadorias, o setor de biocombust\u00edveis brasileiro pode sair beneficiado em meio \u00e0 crise provocada pelos conflitos no Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Com a disparada nos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, a competitividade dos biocombust\u00edveis tende a aumentar, elevando os pre\u00e7os do biodiesel, produzido a partir da soja, e do etanol, produzido no Brasil principalmente a partir da cana-de-a\u00e7\u00facar, mas cada vez mais tamb\u00e9m do milho.<\/p>\n<p>\u201cQuem sabe isso pode tamb\u00e9m ser um fator que alivie em parte a eleva\u00e7\u00e3o do custo do fertilizante?\u201d, pondera Vargas.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escalada dos conflitos no Oriente M\u00e9dio desde s\u00e1bado (28) colocou o agro brasileiro em alerta. 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