{"id":251406,"date":"2026-03-04T05:02:00","date_gmt":"2026-03-04T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=251406"},"modified":"2026-03-04T05:02:00","modified_gmt":"2026-03-04T09:02:00","slug":"os-objetivos-geopoliticos-americanos-na-guerra-do-ira-china-e-russia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=251406","title":{"rendered":"Os objetivos geopol\u00edticos americanos na Guerra do Ir\u00e3: China e R\u00fassia"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O atual conflito entre EUA e Israel contra o Ir\u00e3 pode ser analisado sob v\u00e1rios pontos de vista. Este ensaio visa abordar alguns deles e, prioritariamente, os geopol\u00edticos e as suas consequ\u00eancias geoecon\u00f4micas.<\/p>\n<p>A guerra atual n\u00e3o come\u00e7ou no s\u00e1bado, 28 de fevereiro, mas com os ataques do Hamas, proxy iraniano, a Israel, em 7 de outubro de 2023, nos quais mais de 1.200 pessoas foram mortas e mais de 250 tornadas ref\u00e9ns pelo grupo terrorista. Al\u00e9m da resposta israelense diretamente contra o Hamas, na qual o n\u00famero de fatalidades entre palestinos ultrapassa 70.000, segundo v\u00e1rias fontes, Israel, al\u00e9m de praticamente eliminar a capacidade operacional desse grupo armado, atacou e reduziu expressivamente o poder militar de v\u00e1rios outros proxies iranianos, como o Hezbollah, os Houthis e outros que agem na Cisjord\u00e2nia, Iraque e S\u00edria. Em determinado momento, as For\u00e7as de Defesa de Israel estavam lutando, simultaneamente, em sete frentes de combate, incluindo o pr\u00f3prio Ir\u00e3.<\/p>\n<p>Dando prosseguimento \u00e0 guerra entre Israel e Ir\u00e3, em 22 de junho de 2025, os EUA desencadearam, de forma combinada com Israel, a Opera\u00e7\u00e3o Midnight Hammer, que envolveu bombardeiros B-2 Spirit, m\u00edsseis Tomahawk e cerca de 125 aeronaves, atingindo Fordow, Natanz e Isfahan. Foi o primeiro ataque direto dos EUA ao territ\u00f3rio iraniano desde 1988, no que ficou conhecido como \u201cGuerra dos 12 Dias\u201d. Na ocasi\u00e3o, americanos e israelenses obtiveram superioridade a\u00e9rea significativa, voando com certa liberdade pelos c\u00e9us iranianos para destruir alvos de interesse operacional, inclusive os relacionados ao programa nuclear do pa\u00eds. Em consequ\u00eancia dessas opera\u00e7\u00f5es, dos danos sofridos ao longo de mais de dois anos de guerra, al\u00e9m das san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas impostas ao pa\u00eds persa devido a seu programa nuclear, o Ir\u00e3 nunca esteve t\u00e3o fragilizado e vulner\u00e1vel a a\u00e7\u00f5es militares como em fevereiro de 2026.<\/p>\n<p>Do ponto de vista jur\u00eddico, todos os pa\u00edses envolvidos no conflito atual violaram o Direito Internacional: EUA e Israel atacaram um pa\u00eds soberano sem justificativa para leg\u00edtima defesa e sem o consentimento do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. Tel Aviv descreveu a ofensiva como \u201copera\u00e7\u00e3o antecipat\u00f3ria e precisa\u201d para neutralizar instala\u00e7\u00f5es nucleares iranianas, invocando o Artigo 51 da Carta da ONU (leg\u00edtima defesa) ante o risco existencial, sem esperar ataque armado direto, o que \u00e9 contestado majoritariamente pelos operadores do Direito Internacional. Da mesma forma, o Ir\u00e3, contrariando a mesma norma, tamb\u00e9m recorreu \u00e0 autodefesa para justificar suas retalia\u00e7\u00f5es contra nove pa\u00edses da regi\u00e3o, al\u00e9m de bases inglesas e francesas, sendo que nenhum desses Estados participou direta ou indiretamente dos ataques israelo-americanos. Al\u00e9m disso, supostamente h\u00e1 viola\u00e7\u00f5es por parte do programa nuclear iraniano, que teria enriquecido ur\u00e2nio a 60%, muito acima do necess\u00e1rio para fins pac\u00edficos, e no apoio e patroc\u00ednio a a\u00e7\u00f5es terroristas pelo mundo, sobretudo no Oriente M\u00e9dio, al\u00e9m dos constantes ataques diretos e indiretos a Israel.<\/p>\n<h2>Objetivos pol\u00edticos da guerra<\/h2>\n<p>Dito isso, quais seriam os objetivos pol\u00edticos da guerra por parte de ambos os contendores? Da an\u00e1lise das a\u00e7\u00f5es, depreende-se que a coaliz\u00e3o EUA-Israel pretende assegurar o fim do programa nuclear iraniano, em primeiro lugar, j\u00e1 que alega que o pa\u00eds segue buscando o enriquecimento de ur\u00e2nio e a constru\u00e7\u00e3o de artefatos nucleares, o que elevaria o risco regional, e mesmo global, a n\u00edveis intoler\u00e1veis. Em segundo lugar, busca-se uma reforma pol\u00edtica no pa\u00eds, no qual impera uma ditadura teocr\u00e1tica cruel que, al\u00e9m de promover e patrocinar o terrorismo regional e global e desestabilizar toda a regi\u00e3o, reprime sua pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o de maneira absolutamente inaceit\u00e1vel, como na elimina\u00e7\u00e3o de 3.117 pessoas, segundo a m\u00eddia estatal iraniana, podendo esse n\u00famero passar de 20.000, segundo v\u00e1rias outras fontes, somente durante as manifesta\u00e7\u00f5es das \u00faltimas semanas. Com o expressivo enfraquecimento do governo, somado a a\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia e cognitivas junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel que haja inclusive uma queda do atual regime. Por \u00faltimo, o terceiro objetivo da guerra seria uma reconfigura\u00e7\u00e3o interna que reduza a autonomia estrat\u00e9gica do regime e produza alinhamentos mais compat\u00edveis com os interesses dos EUA na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, os objetivos da guerra para os iranianos seriam, inicialmente, a sobreviv\u00eancia do regime, o que j\u00e1 vem ocorrendo h\u00e1 d\u00e9cadas diante de a\u00e7\u00f5es diretas e indiretas de inimigos diversos. O segundo grande objetivo continua sendo a elimina\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, ainda que, dadas as atuais condi\u00e7\u00f5es materiais do Ir\u00e3, isso significaria apenas aumentar ainda mais o desgaste reputacional causado desde as rea\u00e7\u00f5es aos ataques terroristas de 7 OUT, extensivos aos EUA, que tamb\u00e9m sofrem com perda do apoio de parte da opini\u00e3o p\u00fablica interna e externa.<\/p>\n<h2>Objetivos militares<\/h2>\n<p>Para alcan\u00e7ar os seus objetivos pol\u00edticos, a coaliz\u00e3o EUA-Israel estabeleceu os seguintes objetivos militares: o primeiro deles seria a decapita\u00e7\u00e3o da lideran\u00e7a pol\u00edtica e militar do Ir\u00e3, eliminando l\u00edderes e comandantes e destruindo a infraestrutura de quart\u00e9is-generais e de comando em geral. Espera-se, com isso, que o pa\u00eds mergulhe em uma crise pol\u00edtica e institucional e que seja incapaz de conter eventuais revoltas populares. O segundo objetivo seria a redu\u00e7\u00e3o do poder militar do Ir\u00e3, principalmente suas esta\u00e7\u00f5es de lan\u00e7amento de m\u00edsseis bal\u00edsticos, defesa antia\u00e9rea, dep\u00f3sitos de muni\u00e7\u00e3o, ativos navais (destruir\u00e1 toda a Marinha de Guerra iraniana?), bem como instala\u00e7\u00f5es e meios da Guarda Revolucion\u00e1ria, principal for\u00e7a militar do pa\u00eds. Com isso, espera-se que o regime n\u00e3o disponha mais de meios para atacar pa\u00edses vizinhos ou mesmo para oprimir sua pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o. Por \u00faltimo, tamb\u00e9m seria um objetivo militar a destrui\u00e7\u00e3o completa dos meios utilizados para o programa nuclear, j\u00e1 bastante debilitados durante a Guerra dos 12 Dias.<\/p>\n<p>Cabe destacar que esta \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o multidom\u00ednio altamente complexa e sincronizada, com a\u00e7\u00f5es navais, a\u00e9reas, terrestres (ainda que, at\u00e9 o momento, muito limitadas), cibern\u00e9ticas, espaciais e cognitivas, e vai muito al\u00e9m de um simples ataque \u00e0 infraestrutura iraniana, como eram essas a\u00e7\u00f5es em muitas guerras passadas. Est\u00e1 coordenada com a decapita\u00e7\u00e3o do regime e com movimentos populares internos, org\u00e2nicos e\/ou patrocinados por \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia da coaliz\u00e3o.<\/p>\n<p>O Ir\u00e3, por seu lado, pode tentar restringir voos sobre seu territ\u00f3rio, o que j\u00e1 n\u00e3o alcan\u00e7ou na Guerra dos 12 Dias, causar baixas nas tropas atacantes e preservar sua cadeia de comando e a integridade de suas for\u00e7as militares, principalmente a Guarda Revolucion\u00e1ria. Tem atacado pa\u00edses \u00e1rabes na regi\u00e3o e aqueles que considera que, de alguma forma, tenham apoiado a coaliz\u00e3o, esperando algum tipo de rea\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica favor\u00e1vel, possivelmente a escalada do conflito. Nos dois primeiros dias de guerra, nove pa\u00edses regionais foram atingidos, al\u00e9m de bases americanas, francesas e inglesas. Por enquanto, esse objetivo n\u00e3o foi atingido, exceto por este \u00faltimo pa\u00eds, que, em patrulhas a\u00e9reas defensivas, j\u00e1 derrubou dois drones iranianos, no Qatar e no Iraque, al\u00e9m de autorizar o uso da Base de Diego Garcia pela coaliz\u00e3o. Al\u00e9m de ataques diretos, os proxies iranianos tamb\u00e9m est\u00e3o realizando a\u00e7\u00f5es hostis, como o Hezbollah, que disparou m\u00edsseis sobre Israel, e mil\u00edcias iraquianas, que atacaram com drones a base americana em Erbil, ao norte do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Outro objetivo esperado \u00e9 o fechamento do Estreito de Ormuz por meio de a\u00e7\u00f5es cin\u00e9ticas e\/ou n\u00e3o cin\u00e9ticas. Tr\u00eas navios-tanque foram atingidos, sistemas de navega\u00e7\u00e3o por GPS sofreram interfer\u00eancia e houve amea\u00e7as generalizadas pelo r\u00e1dio, fazendo com que, devido a riscos altos, n\u00e3o mais cobertos por seguro, esse objetivo tenha sido atingido. Isso pode ser agravado se o Ir\u00e3 lan\u00e7ar minas no mar, retardando a abertura do estreito por tempo indeterminado ap\u00f3s o final do conflito.<\/p>\n<p>Internamente, o Ir\u00e3 deve empregar suas for\u00e7as de seguran\u00e7a para manter a estabilidade por meio de repress\u00e3o armada contra a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o, como a usada nas manifesta\u00e7\u00f5es do in\u00edcio do ano. Pode, ainda, fomentar a\u00e7\u00f5es de terrorismo na regi\u00e3o ou globalmente.<\/p>\n<h2>Objetivos geopol\u00edticos<\/h2>\n<p>Chegamos, por fim, aos objetivos geopol\u00edticos dos EUA com esta guerra, capazes de, tendo a geografia como condicionante, alterar a distribui\u00e7\u00e3o de poder mundial. O primeiro objetivo seria obter o controle do territ\u00f3rio e das condi\u00e7\u00f5es de acesso ao petr\u00f3leo do Golfo \u2013 especialmente o Estreito de Ormuz e as linhas mar\u00edtimas \u2013 como alavanca de conten\u00e7\u00e3o\/estrangulamento estrat\u00e9gico da China, ampliando sua vulnerabilidade energ\u00e9tica e reduzindo sua liberdade de manobra sist\u00eamica. Com isso, exerceria o controle sobre cerca de 25% das exporta\u00e7\u00f5es mundiais de \u00f3leo que, somadas ao produzido no Hemisf\u00e9rio Ocidental, que chegam a cerca de 35%, trariam uma vantagem estrat\u00e9gica enorme aos EUA com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China, que produz apenas 5% e importa cerca de 10% de tudo o que \u00e9 produzido no mundo. Pequim, talvez se preparando para choques como esse, j\u00e1 vinha estocando \u00f3leo em grandes quantidades ultimamente. Soma-se a isso o controle atual exercido pelos americanos sobre o petr\u00f3leo venezuelano, que, at\u00e9 dois meses, tamb\u00e9m abastecia a China.<\/p>\n<p>O segundo objetivo, bastante conectado com esse primeiro, \u00e9 o isolamento da China e da R\u00fassia, tamb\u00e9m por via terrestre, do Oriente M\u00e9dio. Esses dois pa\u00edses vinham usando liga\u00e7\u00f5es ferrovi\u00e1rias com o Golfo P\u00e9rsico para reduzir tempo e, no caso da China, evitar os Estreitos de Ormuz e de M\u00e1laca, al\u00e9m de aumentar as chances de burlar as san\u00e7\u00f5es ao Ir\u00e3 e \u00e0 R\u00fassia. Com o bombardeio aos portos de Bandar Abbas e de Asaluyeh, somado ao fechamento de Ormuz, a China perdeu temporariamente o acesso ao petr\u00f3leo do Golfo, respons\u00e1vel por 40% de suas necessidades di\u00e1rias. J\u00e1 Moscou tamb\u00e9m perderia o controle sobre importante rota terrestre, o Corredor de Transporte Internacional Norte-Sul, ligando Moscou a Bandar Abbas por ferrovias, e um pa\u00eds aliado importante na regi\u00e3o. Essas ferrovias possivelmente foram usadas para a importa\u00e7\u00e3o de meios militares pelo Ir\u00e3 entre a Guerra dos 12 Dias e o in\u00edcio do atual conflito.<\/p>\n<p>O terceiro objetivo seria garantir a estabilidade no Oriente M\u00e9dio por meio de um Ir\u00e3 fraco e subordinado aos interesses dos EUA e de um reconhecimento formal iraniano \u00e0 exist\u00eancia do Estado de Israel. Com isso, os EUA poderiam deslocar grande parte do poder militar estacionado nessa regi\u00e3o para outras, como o Extremo Oriente, objetivo geopol\u00edtico mais importante para os americanos. Por \u00faltimo, os EUA tamb\u00e9m impediriam o Ir\u00e3 de promover e exportar o terrorismo para a regi\u00e3o e outras partes do mundo, incluindo o pr\u00f3prio territ\u00f3rio americano.<\/p>\n<p>\u00c0 luz de Mahan, o Estreito de Ormuz \u00e9 um cl\u00e1ssico chokepoint, cuja garantia, ou nega\u00e7\u00e3o ao oponente, condiciona a proje\u00e7\u00e3o de poder mar\u00edtimo global. J\u00e1, segundo Spykman, outro cl\u00e1ssico da Geopol\u00edtica, o Oriente M\u00e9dio integra o Rimland, ou as f\u00edmbrias euroasi\u00e1ticas, espa\u00e7o decisivo de conten\u00e7\u00e3o ou cerco de pot\u00eancias continentais, especialmente a China e a R\u00fassia. Isso refor\u00e7a a tese de que o conflito n\u00e3o \u00e9 apenas regional, mas, principalmente, parte da rivalidade sist\u00eamica entre EUA e China pela configura\u00e7\u00e3o do tabuleiro euroasi\u00e1tico e global.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m destacar que esses objetivos geopol\u00edticos, de guerra (pol\u00edticos) e militares podem ser alcan\u00e7ados no campo de batalha ou em uma negocia\u00e7\u00e3o, neste caso com o Ir\u00e3 muito mais enfraquecido e isolado. H\u00e1 ind\u00edcios de que os lados consideram voltar \u00e0 mesa para conversas.<\/p>\n<p>Em pouco mais de 72 horas desde o in\u00edcio do conflito, ainda \u00e9 cedo para predi\u00e7\u00f5es sobre a consecu\u00e7\u00e3o desses objetivos. Por enquanto, n\u00e3o h\u00e1 sinais de que R\u00fassia e China, dois aliados internacionais, prestar\u00e3o algum apoio material ao Ir\u00e3. A coaliz\u00e3o, com supremacia a\u00e9rea sobre o territ\u00f3rio inimigo, continua a reduzir o poder militar persa. A decapita\u00e7\u00e3o do regime iraniano, que criou um v\u00e1cuo inicial de poder, incluindo a morte do aiatol\u00e1 Khamenei, aparentemente n\u00e3o resultou em efeitos pr\u00e1ticos imediatos. O Ir\u00e3 e seus grupos proxies continuam a atacar alvos em toda a regi\u00e3o, mas, por enquanto, nenhum Estado entrou na guerra, mantendo apenas suas a\u00e7\u00f5es de autodefesa, protestos diplom\u00e1ticos e medidas econ\u00f4micas. A \u00fanica expans\u00e3o observada foi contra grupos armados, principalmente o Hezbollah, que passou a ser atacado duramente por Israel ap\u00f3s lan\u00e7ar m\u00edsseis contra aquele territ\u00f3rio. Mesmo sem desfecho temporal \u00e0 vista, j\u00e1 se podem antever algumas consequ\u00eancias geoecon\u00f4micas da guerra no curto e no m\u00e9dio prazo.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Consequ\u00eancias geoecon\u00f4micas<\/h2>\n<p>No curto prazo, a primeira consequ\u00eancia \u00e9 a alta do pre\u00e7o do petr\u00f3leo, fruto da diminui\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do Estreito de Ormuz. JP Morgan e Barclays estimam que o pre\u00e7o do barril possa chegar a 130 d\u00f3lares. Mesmo com o aumento da produ\u00e7\u00e3o anunciado pela Opep, o risco continua alto, principalmente se o Ir\u00e3 lan\u00e7ar minas nesse chokepoint, o que prolongaria a situa\u00e7\u00e3o por tempo muito mais longo. Outro risco \u00e9 o ataque iraniano a instala\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o do produto, o que j\u00e1 come\u00e7ou a acontecer no terceiro dia de guerra. Estimuladas pelo pre\u00e7o do petr\u00f3leo, podem subir tamb\u00e9m a infla\u00e7\u00e3o e os juros. Tamb\u00e9m pode haver atrasos em cadeias globais e aumento do custo do frete e da log\u00edstica como um todo. Outra consequ\u00eancia esperada \u00e9 o aumento do d\u00f3lar e do ouro, fruto da demanda, como forma de atenuar riscos econ\u00f4micos. Por \u00faltimo, a guerra tamb\u00e9m poder\u00e1 ocasionar turbul\u00eancia nas bolsas ao redor do mundo.<\/p>\n<p>No m\u00e9dio prazo, Israel pode se tornar uma pot\u00eancia ainda mais relevante no n\u00edvel regional e, ainda, expandir o Acordo de Abra\u00e3o para outros pa\u00edses, fortalecendo-se e isolando mais o Ir\u00e3. Os EUA, por sua vez, aumentar\u00e3o seu poder no n\u00edvel global, ampliando as vulnerabilidades chinesas na \u00e1rea estrat\u00e9gica da energia, al\u00e9m de permitir aos EUA maior foco militar face ao maior rival, China, deslocando tropas do Oriente M\u00e9dio para o Extremo Oriente. Uma derrota do Ir\u00e3, uma das chamadas \u201cpot\u00eancias revisionistas\u201d, tamb\u00e9m poder\u00e1 causar danos \u00e0 imagem de China e R\u00fassia como pretensos l\u00edderes em uma nova ordem multipolar, principalmente se esses dois pa\u00edses n\u00e3o prestarem nenhum tipo de apoio material adicional ao aliado durante o conflito.<\/p>\n<p>Esse aumento de poder poder\u00e1 ter reflexos tamb\u00e9m para o Hemisf\u00e9rio Ocidental, particularmente sobre o Brasil, com consequ\u00eancias para sua soberania. O risco de press\u00f5es diretas ou indiretas por alinhamento, sobretudo em \u00e1reas estrat\u00e9gicas, como minerais cr\u00edticos, energia e cadeias tecnol\u00f3gicas, aumentar\u00e1. Outro alvo prov\u00e1vel seria o regime de Cuba, j\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o bem cr\u00edtica no momento.<\/p>\n<p>Se fracassarem e o regime iraniano sobreviver, voltando a se fortalecer, com apoio da China e da R\u00fassia, \u00fanicas capazes de ainda fornecer suporte material a Teer\u00e3, a grande estrat\u00e9gia americana sofrer\u00e1 alto impacto negativo, levantando questionamentos sobre sua alegada superioridade global. Tamb\u00e9m provavelmente trar\u00e1 elevado impacto interno nos EUA, com reflexos nas elei\u00e7\u00f5es do final de 2026.<\/p>\n<p><em><strong>Andr\u00e9 Luis Novaes Miranda<\/strong>, general de Ex\u00e9rcito da reserva, foi comandante de Opera\u00e7\u00f5es Terrestres do Ex\u00e9rcito e, atualmente, \u00e9 assessor especial de Geopol\u00edtica na Diretoria Internacional da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O atual conflito entre EUA e Israel contra o Ir\u00e3 pode ser analisado sob v\u00e1rios pontos de vista. 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