{"id":242348,"date":"2026-03-01T07:00:00","date_gmt":"2026-03-01T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=242348"},"modified":"2026-03-01T07:00:00","modified_gmt":"2026-03-01T11:00:00","slug":"a-noite-em-que-a-segunda-guerra-mundial-parou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=242348","title":{"rendered":"A noite em que a Segunda Guerra Mundial parou"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/02\/26185613\/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-16.41.17.jpeg.webp\" \/><span>Entre morte, guerra e preconceito, um m\u00e9dico japon\u00eas cruza a cidade para salvar Maria. Naquela noite, nasce Aracy \u2014 esperan\u00e7a que atravessa gera\u00e7\u00f5es. (Foto: Imagem criada utilizando OpenAI\/Gazeta do Povo)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Tio Vicente morreu na noite de Natal. No cemit\u00e9rio de Ara\u00e7atuba, enquanto nos desped\u00edamos dele, vi o t\u00famulo de uma fam\u00edlia japonesa, diante do qual minha m\u00e3e sempre parava alguns minutos para rezar. Um dia, ainda crian\u00e7a, perguntei-lhe a raz\u00e3o desse costume; ent\u00e3o, ela me contou uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Embora fosse apenas um menino de dez anos, Vicente n\u00e3o p\u00f4de ignorar que alguma coisa muito grave estava acontecendo na casa da fam\u00edlia Costa. Maria, sua irm\u00e3 mais velha, estava para dar \u00e0 luz. Seria seu primeiro sobrinho e o primeiro neto de Pai Costa e M\u00e3e Mulata.<\/p>\n<p>Era domingo. Durante o dia inteiro, a fam\u00edlia parou para acompanhar o drama de Maria. Ela gritava desesperadamente, sofrendo dores atrozes. M\u00e3e Mulata mandou chamar Isabel, a melhor parteira da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Isabel, famosa pela calma ao exercer o seu of\u00edcio, estava diferente naquele domingo: entrou na casa da Rua Castro Alves com uma express\u00e3o tensa. Da esquina, j\u00e1 era poss\u00edvel ouvir os gritos de Maria. Isabel sabia que a mo\u00e7a tinha a sa\u00fade muito fr\u00e1gil; com apenas 22 anos, a filha de D. Mulata j\u00e1 estivera algumas vezes entre a vida e a morte.<\/p>\n<p>Em sil\u00eancio, todos na casa n\u00e3o podiam deixar de pensar que Maria estava prestes a sofrer o mesmo destino dos dois filhos mais velhos da fam\u00edlia Costa: Jo\u00e3o, o Fiuco, morto aos 11 anos de febre tifoide; e Iracema, a linda Iracema, que p\u00f4s fim \u00e0 pr\u00f3pria vida com apenas 19 anos, tomando veneno.<\/p>\n<p>Pai Costa fingia ler o jornal na cadeira de balan\u00e7o; pensava nos dois filhos perdidos e no dia em que fora abandonado pelos pais portugueses e ficara sozinho no Brasil, com a mesma idade em que Fiuco sucumbira ao tifo.<\/p>\n<p>Vicente sentiu uma esp\u00e9cie de al\u00edvio com a chegada de Isabel, mas n\u00e3o conteve a \u00e2nsia de roer as unhas quando a porta do quarto se fechou atr\u00e1s da parteira. Os gritos continuavam. Ele escutou a voz da irm\u00e3 pronunciar o nome \u201cDona Isabel\u201d com imensa dificuldade. Notou que Pai Costa n\u00e3o virava a p\u00e1gina do jornal e parecia reler sempre a mesma not\u00edcia. Sentiu um gosto salgado na boca: era o sangue que sa\u00eda do sabugo de seus dedos, pois n\u00e3o havia mais unhas para roer.<\/p>\n<p>Certa vez, numa pescaria, Oreste, o marido de Maria, dissera a Vicente que era poss\u00edvel saber que uma tempestade estava se afastando quando o intervalo entre os trov\u00f5es se tornava maior. J\u00e1 eram quase seis horas da tarde e, desde cedo, os gritos de Maria s\u00f3 estavam ficando mais intensos e pr\u00f3ximos uns dos outros.<\/p>\n<p>Quando Isabel abriu a porta do quarto, todos se levantaram. Pai Costa deixou cair o jornal no ch\u00e3o: Roosevelt vence Willkie por ampla maioria nos EUA. Isabel estava com o rosto e o avental ensopados de suor. Atr\u00e1s dela, veio Oreste, cabisbaixo, torcendo as m\u00e3os. M\u00e3e Mulata empurrou o genro e a parteira e saiu pela porta da frente, sem dizer nada a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>O Dr. Quincas morava numa \u00e1gua-furtada na Rua Bandeirantes. \u00c0 noite, gostava de ouvir as not\u00edcias em ingl\u00eas no r\u00e1dio de ondas curtas. Naquela noite \u2014 que j\u00e1 havia ca\u00eddo com incr\u00edvel rapidez sobre a cidade de Ara\u00e7atuba \u2014, a transmiss\u00e3o estava especialmente n\u00edtida. Churchill havia ordenado o ataque a\u00e9reo a Munique, e a RAF se preparava para atacar portos italianos. Se pudesse, Quincas gostaria de ser um l\u00edder pol\u00edtico ou militar. Comandar o destino de povos inteiros era muito mais importante do que cuidar de casos individuais, em geral tediosos.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Rosa, a criada, desobedeceu \u00e0s ordens do Dr. Quincas para n\u00e3o ser incomodado em sua audi\u00e7\u00e3o noturna:<\/p>\n<p>\u2014 Dona Mulata est\u00e1 a\u00ed e quer falar com o senhor.<\/p>\n<p>\u2014 O que ela quer? Eu n\u00e3o disse para n\u00e3o me interromper, Rosa?<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 que a mulher insistiu e est\u00e1 muito brava.<\/p>\n<p>\u2014 Diga a ela que estou com crise de labirintite e n\u00e3o posso ir.<\/p>\n<p>Quincas achava aquele povo que morava para baixo da linha muito dram\u00e1tico e escandaloso. Faziam tempestade por qualquer bagatela. Ainda mais essa tal Dona Mulata, bugre selvagem, analfabeta de pai e m\u00e3e.<\/p>\n<p>Rosa persignou-se antes de dar a resposta a Dona Mulata. Tinha medo de apanhar. De repente, teve uma ideia.<\/p>\n<p>\u2014 O Dr. Quincas est\u00e1 com tontura, Dona Mulata. Ele n\u00e3o consegue pegar nen\u00e9m agora. Mas por que a sra. n\u00e3o tenta chamar o Dr. Japon\u00eas? Ouvi falar que ele \u00e9 bom. Mora vizinho \u00e0 igreja.<\/p>\n<p>Inacreditavelmente, o plano de Rosa funcionou. Dona Mulata saiu xingando Quincas at\u00e9 a quinta gera\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o tinha tempo para discuss\u00f5es. Partiu rumo \u00e0s cercanias da matriz.<\/p>\n<p>Uns meninos que brincavam na esquina da Rua Olavo Bilac lhe confirmaram que o Dr. Japon\u00eas morava ali. Era mais um jardim com casa do que uma casa com jardim. Diante de uma moita de cris\u00e2ntemos, havia um pequeno tanque azul, onde cintilavam duas carpas. Uma janela de madeira se abriu e apareceu um homem de cabe\u00e7a amarela e oval, quase um cuco de rel\u00f3gio, com \u00f3culos e bigode. Ele n\u00e3o sorriu. Disse apenas:<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 vou.<\/p>\n<p>Dona Mulata caminhou ao lado do m\u00e9dico pelas ruas que conduziam \u00e0 estrada de ferro. Ele trajava um terno preto que o fazia parecer mais um corretor de im\u00f3veis comum, com sua maleta de couro marrom desbotado. Na lapela, em vez de flor ou len\u00e7o, havia a cabe\u00e7a de um estetosc\u00f3pio. As ruas estavam escuras, mas ele caminhava com seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Vicente viu quando Dona Mulata e o Dr. Japon\u00eas atravessaram a linha e apontaram na Rua Castro Alves, passando pela frente da olaria. Enquanto a m\u00e3e estivera fora, Maria, espantosamente, cessara os gritos, passando a arfar de modo lancinante. Era o estertor, pensou Pai Costa; j\u00e1 tinha ouvido aquele som antes.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico entrou na casa em sil\u00eancio, mas n\u00e3o deixou de fazer uma rever\u00eancia a Pai Costa, maquinista de trem que o havia conduzido diversas vezes em viagens at\u00e9 a casa dos parentes em Pereira Barreto.<\/p>\n<p>Ficou um tempo intermin\u00e1vel no quarto. Quando Maria come\u00e7ou a gritar com for\u00e7a, Vicente e os irm\u00e3os \u2014 Celina, Osvaldo, \u00c1lvaro, Armindo \u2014 formaram um semic\u00edrculo diante da porta fechada. De repente, ouviram um t\u00eanue chiado, como a corda de um violino tocada suavemente pelo arco de um solista. Era o choro de Aracy, minha m\u00e3e, que acabara de nascer junto com a segunda-feira. O m\u00e9dico abriu a porta e sorriu, com a menina no colo.<\/p>\n<p><strong>Canal Briguet Sem Medo: Acesse a comunidade no Telegram e receba conte\u00fados exclusivos. 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