{"id":242149,"date":"2026-03-01T05:02:00","date_gmt":"2026-03-01T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=242149"},"modified":"2026-03-01T05:02:00","modified_gmt":"2026-03-01T09:02:00","slug":"por-que-o-mundo-precisa-da-fe-crista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=242149","title":{"rendered":"Por que o mundo precisa da f\u00e9 crist\u00e3?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>No filme <em>Superman: O Retorno<\/em>, a jornalista do <em>Planeta Di\u00e1rio<\/em>, Lois Lane, provocou os leitores c\u00e9ticos do seu tempo com uma pergunta ressentida: por que o mundo n\u00e3o precisa do Superman? Por tr\u00e1s dessa indaga\u00e7\u00e3o, existia um contexto existencial em que tal quest\u00e3o se tornava justific\u00e1vel. A fragiliza\u00e7\u00e3o da vida humana, que se traduzia na forma de um senso de desamparo ontol\u00f3gico, era, por assim dizer, uma <em>commodity<\/em> (social) em alta. Como efeito colateral relacionado, avan\u00e7ava tamb\u00e9m a dessensibiliza\u00e7\u00e3o coletiva ao problema do sofrimento alheio (\u201ccada um por si\u201d). A causa de tudo isso parecia estar associada \u00e0 aus\u00eancia do Superman do planeta Terra, por ocasi\u00e3o de sua viagem a Krypton. Entendia-se, naquela conjuntura, que o salvador havia abandonado o ser humano.<\/p>\n<p>O momento era de um pessimismo cosmol\u00f3gico. A incerteza ontol\u00f3gica (Zygmunt Bauman) tornara-se parte da estrutura ps\u00edquico-funcional da vida cotidiana dos cidad\u00e3os daquele contexto, e a vulnerabilidade (existencial) transformara-se em uma esp\u00e9cie de componente fundacional de defini\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria da consci\u00eancia coletiva. A pergunta de Lois Lane, portanto, sugere a preconiza\u00e7\u00e3o de um dilema ontossocial em seu substrato conjuntural: a liberdade (s\u00edmbolo cultural mais emblem\u00e1tico da Am\u00e9rica), sem seguran\u00e7a, coloca em xeque o vicejar da esperan\u00e7a de um novo horizonte (psicol\u00f3gico) para os indiv\u00edduos. A ansiedade do n\u00e3o destino (incerteza existencial) aumenta o capital do medo, o que pode redundar na depress\u00e3o coletiva de uma gera\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de efeito cascata.<\/p>\n<p>A destranscendentaliza\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a parece ser uma vari\u00e1vel ps\u00edquica que indica a supress\u00e3o ontol\u00f3gica do seu fundamento hist\u00f3rico-existencial: o Superman n\u00e3o estava mais \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de todos; ele n\u00e3o compartilhava mais do sofrimento humano (cren\u00e7as matriciais). Agora, s\u00f3 restou a sua aus\u00eancia. O mundo sem ele, contudo, se tornaria mais insalubre, haja vista que o \u201cmedo derivado\u201d alteraria a percep\u00e7\u00e3o da vida em sociedade, tornando os indiv\u00edduos mais propensos a viver desconfiados de tudo e de todos. Uma organiza\u00e7\u00e3o social que assume essas caracter\u00edsticas acaba sendo compreendida como uma sociedade com forte tra\u00e7o esquizofr\u00eanico. A incapacidade de reconhecer e discernir o mundo que se vislumbra revela, pois, uma configura\u00e7\u00e3o social de exist\u00eancia na qual se manifesta uma modalidade ps\u00edquica de dementiza\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias individuais. O medo socialmente compartilhado, em dimens\u00f5es descomunais, obstrui a lucidez cognitiva da percep\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica da realidade-mundo.<\/p>\n<p>Sem o m\u00ednimo necess\u00e1rio de capital esperante, estruturado na psicologia da coletividade, as confian\u00e7as interindividuais se precarizam, e o outro passa a ser entendido como um dem\u00f4nio (Jean-Paul Sartre), uma proje\u00e7\u00e3o alucin\u00f3gena do significado que ao tu se atribui no processo de intera\u00e7\u00e3o nessas condi\u00e7\u00f5es. Com a aus\u00eancia daquilo que sustenta a ontologia da confian\u00e7a, pessoas de bem podem ser facilmente confundidas com dem\u00f4nios.<\/p>\n<p>Ora, o Superman era mais do que um salvador presente no cotidiano dos indiv\u00edduos em situa\u00e7\u00e3o de risco (real): ele era compreendido como o \u00fanico recurso existente que dava amparo ontol\u00f3gico a uma esperan\u00e7a sucateada pela alta mobilidade do medo socialmente compartilhado, algo que permeava o mundo de ent\u00e3o e no qual se descortinava a precariza\u00e7\u00e3o das garantias individuais para uma sobreviv\u00eancia digna dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Entretanto, o que se constatava na conjuntura de fundo da est\u00f3ria heroica era a vig\u00eancia de uma racionalidade pon\u00e9rica que ofuscava todo sentimento de confian\u00e7a (na acep\u00e7\u00e3o conceitual luhmanniana). O poder letal, presente nos riscos reais de aniquila\u00e7\u00e3o da vida humana e manifesto em cada fresta da vida cotidiana, aumenta significativamente os indicadores objetivos de uma ansiedade coletiva de natureza apocal\u00edptica e da decorrente possibilidade leg\u00edtima de um p\u00e2nico global. Afinal, a presen\u00e7a ub\u00edqua de uma racionalidade ponerop\u00e1tica criava a suspeita de que a vida humana estava sob condi\u00e7\u00e3o de xeque-quase-mate. Onde est\u00e1 o Superman? E por que ele nos abandonou? Essa d\u00favida validava as cren\u00e7as matriciais anteriores. Vale lembrar que ele representava a vers\u00e3o contempor\u00e2nea do deus mortal (numa tonalidade neohobbesiana), com a miss\u00e3o de servir de escudo \u00e0 vida humana. Desse modo, ele era entendido como um ente totalmente pr\u00f3ximo (Edward Schillebeeckx) daqueles que viviam \u00e0 sombra do <em>pathos<\/em> humano.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Como se pode depreender a aus\u00eancia da f\u00e9 crist\u00e3 no mundo? Pela aus\u00eancia da bondade humana nele. Endossa-se essa interpreta\u00e7\u00e3o com as palavras do hagi\u00f3grafo Paulo, o ap\u00f3stolo, para o qual a f\u00e9 crist\u00e3 deve ser, invariavelmente, depreendida do comportamento moral do crist\u00e3o<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Por isso, conceber a vida humana sem esse s\u00edmbolo cultural de seguran\u00e7a ontol\u00f3gica (Anthony Giddens) seria, tanto para Lois Lane quanto para seus contempor\u00e2neos, uma experi\u00eancia existencial inaceit\u00e1vel. Ademais, a aus\u00eancia do Superman causaria um v\u00e1cuo moral que poderia ensejar a relativiza\u00e7\u00e3o \u00e9tica do Bem (\u00e0 moda kantiana). Sem ele, o mundo perderia, de seu horizonte axiol\u00f3gico, a possibilidade de reproduzir gestos morais de grandeza humanit\u00e1ria e de compromisso com as biografias fragilizadas. Sem o modelo epop\u00e9ico daquele que vive para socorrer o outro, a sociedade, como um todo, empobreceria o sentido moral das l\u00f3gicas de intera\u00e7\u00e3o compartilhadas entre os indiv\u00edduos em sua condi\u00e7\u00e3o de desamparabilidade ontol\u00f3gica. No final do filme, como era de se esperar, a jornalista investigativa do <em>Planeta Di\u00e1rio<\/em> admite: \u201cO mundo precisa do Superman\u201d.<\/p>\n<p>Essa est\u00f3ria serve de an\u00e1lise comparativa para a transposi\u00e7\u00e3o de outra leitura da realidade de vida-mundo na neomodernidade. A prop\u00f3sito, num mundo em que o fim da religi\u00e3o tem se tornado, cada vez mais, tema relevante de debates, reflex\u00f5es acad\u00eamicas, programas televisivos, temas de seriados e filmes etc., resta saber o que sobrou de transcendente nele, com potencial terap\u00eautico, para reorientar a perspectiva de interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da sociedade (ocidental) a fim de suprimir o medo ontol\u00f3gico que lhe \u00e9 constitutivo. Tra\u00e7os de converg\u00eancia e dessemelhan\u00e7as podem ser deduzidos desse comparativo. Afinal, quem faz uma leitura do esp\u00edrito desse tempo (<em>Zeitgeist<\/em>) neomoderno chega \u00e0 conclus\u00e3o de que o problema comum aos dois cen\u00e1rios analisados aqui \u00e9 de natureza messiol\u00f3gica: em ambos, o ser humano parece estar \u00e0 procura de um modo (ou Messias) de reverter uma paisagem de aparente irreversibilidade contingencial.<\/p>\n<p>Ainda hoje se constata que parte do esfor\u00e7o cognitivo empreendido para melhorar a vida humana, inserida na sociedade biotecnologicamente organizada, carrega em si essa disposi\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica de querer real\u00e7ar perspectivas hermen\u00eauticas de supress\u00e3o de uma panfobia que representa amea\u00e7a potencial \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia humana no mundo. Mesmo sendo necess\u00e1rio esse esfor\u00e7o, tal engenharia do conhecimento parece fazer vista grossa, muitas vezes, ao fato de que a pr\u00f3pria natureza do <em>Dasein<\/em> (para Martin Heidegger, o ser-a\u00ed-para-a-morte) descortina uma estrutura ontol\u00f3gica na qual um processo de contingenciamento da vida humana revela um fato ontologicamente ineg\u00e1vel: a amea\u00e7a do n\u00e3o-ser \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o insuper\u00e1vel do existir-a\u00ed, e essa \u00e9 uma conclus\u00e3o que n\u00e3o se pode alterar. Isso significa dizer que a ang\u00fastia ser\u00e1 sempre uma parte constitutiva da psicologia da exist\u00eancia humana, que se processa na hist\u00f3ria com senso de dire\u00e7\u00e3o tanatodefinidor, o que implica assumir essa dimens\u00e3o fundante da consci\u00eancia finitizante (S\u00f8ren Kierkegaard).<\/p>\n<p>O Superman \u00e9 uma figura m\u00edtica da proje\u00e7\u00e3o hipostasiada de um desejo humano de autotranscend\u00eancia (Ludwig Feuerbach) e de sua fome de imortaliza\u00e7\u00e3o. A consci\u00eancia finitizante \u00e9, paradoxalmente, o que torna o ser humano, mesmo os mais desconfiados ou c\u00e9ticos em rela\u00e7\u00e3o aos sistemas religiosos, aberto \u00e0 transcend\u00eancia. Essa fome de imortalidade, como bem pontuou Miguel de Unamuno, revela, por tr\u00e1s de si, o sentimento tr\u00e1gico da vida \u2013 a certeza do car\u00e1ter inescap\u00e1vel da morte \u2013, realidade que define uma concep\u00e7\u00e3o linear de tempo com in\u00edcio, meio e fim. A constitui\u00e7\u00e3o biops\u00edquica do ser humano \u00e9 fr\u00e1gil, o que justifica sua incapacidade de lidar plenamente com essa realidade mensurada pela consci\u00eancia que sabe (cognitivo) e, ao mesmo tempo, desconhece (psicol\u00f3gico) os efeitos dessa apreens\u00e3o intuitivo-hermen\u00eautica acerca do fen\u00f4meno da insufici\u00eancia antropol\u00f3gica (Leszek Ko\u0142akowski). Sigmund Freud, talvez influenciado pelo pensamento de Dostoi\u00e9vski, compreendia a morte como destino da vida. Logo, no ser humano \u00e9 natural desenvolver um instinto de morte para a morte (Paul Tillich).<\/p>\n<p>A consci\u00eancia finitizante \u00e9 parte da estrutura cognitiva do ser humano, que tende a interpretar sua hist\u00f3ria com perguntas inquietantes que nem sempre podem ter uma resposta definitiva. O car\u00e1ter indefinitivo das coisas constru\u00eddas no processo existencial, com limites cronol\u00f3gicos apequenantes, talvez tenha legado esse desapego dos indiv\u00edduos \u2013 sobretudo na contemporaneidade \u2013 em rela\u00e7\u00e3o ao futuro. Segundo Bauman, deixar de pensar a morte (futuro) tornou-se um marco cultural na hist\u00f3ria recente da sociedade biotecnologicamente organizada. A fixa\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo (na neomodernidade) com o agora pode ter se tornado o tema obsessional mais relevante em um contexto existencial que se esvaziou da esperan\u00e7a. Nele, o futuro foi definitivamente sepultado com o eclipse do sagrado (Martin Buber). Nietzsche valorizou o presente vivido para tentar, qui\u00e7\u00e1, legitimar a cren\u00e7a nos limites compreensivos que essa condi\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica finitizante imp\u00f5e a cada indiv\u00edduo. Olhar para frente, sem saber o que se pode encontrar l\u00e1, \u00e9 um dilema existencial que pode levar o ser humano a querer formular uma nova epistemologia da bio-hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o d\u00e1 para alterar essa condi\u00e7\u00e3o definitiva de insuperabilidade do <em>Dasein<\/em>\u201d, ent\u00e3o se pode tentar modificar a sensa\u00e7\u00e3o que se tem dela (consci\u00eancia da mortalidade). Bauman sugere que o ser humano da atual sociedade antiescatol\u00f3gica tem sua aten\u00e7\u00e3o voltada para a agenda do cotidiano (presente), fazendo uso dos benef\u00edcios oriundos da revolu\u00e7\u00e3o tecnocient\u00edfica para alterar sua \u201cautopercep\u00e7\u00e3o de vida\u201d na hist\u00f3ria. Contudo, uma vez que ele perde as \u201craz\u00f5es transcendentes\u201d para significar a hist\u00f3ria, a \u00e9tica do Bem pode facilmente transformar-se em hedoniza\u00e7\u00e3o da moral do sentido da vida (Baruch Spinoza). O princ\u00edpio hed\u00f4nico de exist\u00eancia biops\u00edquica, no entanto, figura como um modo operante autocentrado do indiv\u00edduo, o que justifica a inser\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica de uma disposi\u00e7\u00e3o egoc\u00eantrica pandestrutiva por tr\u00e1s daquilo que Paulo, o ap\u00f3stolo, chamou de <em>epithymia<\/em> (cobi\u00e7a).<\/p>\n<p>A neomodernidade social deve ser compreendida como uma condi\u00e7\u00e3o social na qual se legitima toda e qualquer manifesta\u00e7\u00e3o do \u00e9lan (\u00edmpeto) transgressivo como modo de resgatar o ego primitivo que foi destitu\u00eddo da vontade civilizada. Isso seria um modo conceitual de adapta\u00e7\u00e3o da racionalidade transgressora usado para descrever o que, em termos religiosos, \u00e9 chamado de cobi\u00e7a. Cobi\u00e7ar \u00e9 transgredir os limites civilizados da ordem social criados pela raz\u00e3o submissa. N\u00e3o seria dif\u00edcil inferir que, por tr\u00e1s dessa racionalidade transgressora, exista um flagrante problema a ser descoberto: ela leva o ser humano a um inevit\u00e1vel quadro existencial de compulsividade alienante. Quanto mais cativo de si mesmo, pelo uso desregrado da vontade transgressora, menos no\u00e7\u00e3o de limites \u00e9ticos para a seguran\u00e7a coletiva o ser humano vai desenvolver. A <em>epithymia<\/em> \u00e9 uma l\u00f3gica de intera\u00e7\u00e3o que subverte qualquer ordem moral para instituir o dom\u00ednio operacional do capital libidinoso. Essa \u00e9 a cultura que predomina no horizonte axiol\u00f3gico da neomodernidade.<\/p>\n<p>A cultura moral da raz\u00e3o transgressora desenvolve sua pr\u00f3pria economia libidinal. O comportamento narc\u00edsico, segundo Christopher Lasch, condiciona o olhar dos indiv\u00edduos a n\u00e3o enxergar outra necessidade al\u00e9m das suas pr\u00f3prias. Assim, o narc\u00edsico \u00e9 aquele que se tornou afetivamente impotente para cultivar e manter rela\u00e7\u00f5es sociais sadias do ponto de vista afetivo (um tra\u00e7o esquizot\u00edpico). Esse autorreferencialismo psicol\u00f3gico do ego torna-se, pois, uma das principais cria\u00e7\u00f5es culturais da racionalidade transgressora. O comportamento compulsivo se despatologiza quando, na vontade geral, se constata essa mesma disposi\u00e7\u00e3o preponderando (patologia da normalidade), o que transforma a natureza moral do ego transgressivo em valor cultural por excel\u00eancia, e o capital libidinoso em modo engenhoso de convert\u00ea-la em sentido moral para a exist\u00eancia dos indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Quando isso acontece, tem-se o prot\u00f3tipo de conglomerado de egos sobrevivendo egoisticamente em uma sociedade sem oposi\u00e7\u00e3o (Herbert Marcuse), em uma sociedade individualizada (Zygmunt Bauman). Ao viver sem limites para alimentar o apetite descontrolado do ego primitivo, a preocupa\u00e7\u00e3o com o outro perde sua legitimidade cultural. Nesse caso, o capital libidinoso desloca-se da margem para o centro da aten\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos. Esse modo operante de funcionamento do ego narc\u00edsico sobrevive do desejo an\u00f4mico (<em>epithymia<\/em>), e n\u00e3o do afeto (<em>agathos\u00fdne<\/em>). A consequ\u00eancia inevit\u00e1vel dessa engenharia cultural, forjada pela racionalidade transgressora, \u00e9 somente uma: a epifania do decl\u00ednio autoritativo da bondade no espa\u00e7o social, quando n\u00e3o sua extin\u00e7\u00e3o da moralidade convencional. Dessa forma, a bondade humana torna-se um contravalor, sem nenhum atrativo social. Os gritos que s\u00e3o dados do recinto do <em>pathos<\/em> nunca s\u00e3o ouvidos pelos que se escondem nas cavernas do <em>Eros<\/em>. Por que o mundo precisa da f\u00e9 crist\u00e3?, pergunto agora, para finalizar o argumento central desta reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>A resposta que se pode dar a essa pergunta dif\u00edcil \u00e9: porque o mundo precisa da bondade humana para manter a salubridade operacional das l\u00f3gicas de intera\u00e7\u00e3o significantes que coexistem nas intersubjetividades. Como se pode depreender a aus\u00eancia da f\u00e9 crist\u00e3 no mundo? Pela aus\u00eancia da bondade humana nele. Endossa-se essa interpreta\u00e7\u00e3o com as palavras do hagi\u00f3grafo Paulo, o ap\u00f3stolo, para o qual a f\u00e9 crist\u00e3 deve ser, invariavelmente, depreendida do comportamento moral do crist\u00e3o: \u201cSeja conhecida de todos os homens a vossa bondade\u201d (Filipenses 4,5). O \u201cseja conhecida\u201d aqui sugere experi\u00eancia participativa (<em>gnosth\u0113to<\/em>) dos implicados no processo sociointerativo. O excesso de desconfian\u00e7a dos indiv\u00edduos entre si \u00e9 uma vari\u00e1vel social da qual se pode inferir a aus\u00eancia de bondade humana em uma ordem social. Essa conclus\u00e3o est\u00e1 nas entrelinhas do discurso paren\u00e9tico do Novo Testamento. Quando se tem a bondade operando como l\u00f3gica de intera\u00e7\u00e3o preponderante, os encontros interindividuais apresentam maior encaixe afetivo e menor potencial amea\u00e7ador. J\u00e1 o capital libidinoso deve ser identificado como base axiol\u00f3gica das intera\u00e7\u00f5es que predominam no espa\u00e7o social das rela\u00e7\u00f5es patocompetitivas, inclusive no \u00e2mbito da sexualidade humana.<\/p>\n<p>Se houver maior expans\u00e3o das disposi\u00e7\u00f5es afetivas, baseada no pressuposto moral da entrega generosa e resignada a outrem, haver\u00e1, certamente, menor desigualdade entre os seres humanos. Esta, afinal, \u00e9 um efeito colateral da aus\u00eancia de bondade no mundo. O capital libidinoso deflagra o retrato \u00e9tico de uma tend\u00eancia monocultural: a vontade coletivo-individual \u00e9 dominada pela compuls\u00e3o autom\u00e1tica do eu-quero-posso, agora e sempre mais. Essa \u00e9 a lei e os profetas que vigoram em uma sociedade adoecida pela cultura moral da racionalidade transgressora, racionalidade baseada no princ\u00edpio de uma economia libidinal. Os encaixes afetivos, deflagrados de uma \u00e9tica da bondade, s\u00e3o de natureza heteropoi\u00e9tica, o que implica a invers\u00e3o de uma l\u00f3gica de funcionamento autopoi\u00e9tica dos indiv\u00edduos. Isso produz solidariedade org\u00e2nica na ordem social, aumentando o \u00edndice do capital de confian\u00e7a entre os interagentes. A f\u00e9 crist\u00e3, quando bem entendida e corretamente praticada, produz a cura de uma consci\u00eancia coletiva degenerada.<\/p>\n<p>Ademais, nesse espa\u00e7o social contingenciado pela operacionalidade da raz\u00e3o transgressora, o capital libidinoso tende a provocar o isolamento do indiv\u00edduo \u00e0 medida que sua refer\u00eancia de psicologia hed\u00f4nica se torna autorreferente. A compulsividade passa a ser uma disposi\u00e7\u00e3o moral de recompensa imediata. Para manter a legitimidade do ato compulsivo (mec\u00e2nico), o indiv\u00edduo tende a transformar-se em narc\u00edsico, assumindo um modo de vida determinado pela cren\u00e7a de autorreferencialidade ontol\u00f3gica. O v\u00edcio \u00e9 uma l\u00f3gica de intera\u00e7\u00e3o autogratificante que produz experi\u00eancias de aliena\u00e7\u00e3o interafetiva. A f\u00e9 crist\u00e3, contudo, preconiza um <em>ethos<\/em> baseado n\u00e3o na busca, mas na entrega do eu para o tu. Desse modo, o senso de desamparo ontol\u00f3gico n\u00e3o \u00e9 sentido, pois nela n\u00e3o \u00e9 o outro que se aproxima do ego, mas o inverso (o bom samaritano). A moral crist\u00e3 desfuncionaliza a motricidade do capital libidinoso, que tende a deslocar-se para a margem, enquanto a bondade operacional se desloca para o centro da vida cultural de uma sociedade unida pelo ideal de vida na <em>dikaios\u00fdn\u0113<\/em> (a justi\u00e7a entendida em sua dimens\u00e3o microcompartilhada), vida com esperan\u00e7a de encontros desconflitivos.<\/p>\n<p>Como decorr\u00eancia, o medo ontol\u00f3gico se despotencializa e a tens\u00e3o social das l\u00f3gicas de intera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, passando a reconfigurar-se por meio de uma gram\u00e1tica moral de sentido interterap\u00eautico. A esperan\u00e7a se revitaliza, pois a vida do outro passa a ser percebida n\u00e3o mais como amea\u00e7a, mas como parte constitutiva de uma mega solidariedade org\u00e2nica. A bondade, enquanto l\u00f3gica de intera\u00e7\u00e3o, torna-se referencial do ego para pensar a realidade de vida do outro, e n\u00e3o apenas a sua pr\u00f3pria. Esse modelo de exist\u00eancia na bondade foi apresentado pela f\u00e9 crist\u00e3 e simbolizado no m\u00edtico personagem Superman. Na f\u00e9 crist\u00e3 encontram-se exemplos hist\u00f3ricos de epifanias da bondade; nas est\u00f3rias do Superman, encontra-se apenas a proje\u00e7\u00e3o hipost\u00e1tica de um ideal cultural que, na pr\u00e1tica, desumanizou o indiv\u00edduo na civiliza\u00e7\u00e3o moderna, em raz\u00e3o da vig\u00eancia de uma racionaliza\u00e7\u00e3o capital\u00edstica (Max Weber) nela operacionalizada. Esta, por sinal, deu suporte a uma cren\u00e7a matricial coletiva no capitalismo ocidental: \u201ctempo \u00e9 dinheiro\u201d. Pelas raz\u00f5es destranscendentes aqui argumentadas, pode-se confirmar a senten\u00e7a: \u201cSim, o mundo precisa da f\u00e9 crist\u00e3\u201d. Um mundo sem bondade torna-se um mundo adoecido, em dimens\u00f5es micro e macrossociais.<\/p>\n<p><em><strong>Anderson Clayton Pires<\/strong> \u00e9 doutor em Sociologia e em Teologia\/Hermen\u00eautica, cientista pol\u00edtico, integrante do podcast Crer Pra Viver, pastor luterano e professor acad\u00eamico.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No filme Superman: O Retorno, a jornalista do Planeta Di\u00e1rio, Lois Lane, provocou os leitores c\u00e9ticos do seu tempo com&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":242150,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-242149","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/242149","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=242149"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/242149\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/242150"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=242149"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=242149"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=242149"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}