{"id":241222,"date":"2026-02-28T20:06:21","date_gmt":"2026-03-01T00:06:21","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=241222"},"modified":"2026-02-28T20:06:21","modified_gmt":"2026-03-01T00:06:21","slug":"e-tem-jeito-os-caminhos-para-reverter-o-narcoestado-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=241222","title":{"rendered":"E tem jeito? Os caminhos para reverter o narcoestado no Brasil"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Compartilhamento de informa\u00e7\u00f5es e intelig\u00eancia, maior integra\u00e7\u00e3o de sistemas e das pol\u00edcias, defini\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias, asfixia financeira, puni\u00e7\u00e3o dura e efetiva para o crime de lavagem de dinheiro e controle mais efetivo das fronteiras s\u00e3o algumas das principais medidas recomendadas por 10 especialistas e estudiosos do tema ouvidos pela reportagem da\u00a0<strong>Gazeta do Povo<\/strong>\u00a0ao longo da s\u00e9rie sobre o narcoestado brasileiro.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/narcoestado\/\">Confira aqui a s\u00e9rie completa de reportagens sobre o narcoestado<\/a><\/p>\n<p>Longe de \u201creinventar a roda\u201d no combate \u00e0s fac\u00e7\u00f5es criminosas nacionais, os especialistas prop\u00f5em medidas j\u00e1 conhecidas e de efic\u00e1cia comprovada, mas que esbarram na sua implementa\u00e7\u00e3o por aqui em decorr\u00eancia de problemas pol\u00edticos e estruturais.<\/p>\n<p>Abaixo, promotores de justi\u00e7a, delegados e agentes da Pol\u00edcia Civil, delegados da Pol\u00edcia Federal, advogados, juristas e estudiosos do tema em geral oferecem alguns caminhos de sa\u00edda do buraco para a seguran\u00e7a p\u00fablica no Brasil.<\/p>\n<h2>&#8220;\u00c9 necess\u00e1rio reformar profundamente o sistema penitenci\u00e1rio&#8221;<\/h2>\n<h3><strong>Celeste Leite dos Santos<\/strong>: promotora de Justi\u00e7a em \u00daltimo Grau do Col\u00e9gio Recursal do Minist\u00e9rio P\u00fablico de S\u00e3o Paulo <\/h3>\n<p><em>&#8220;H\u00e1 solu\u00e7\u00e3o para o descontrole da criminalidade no Brasil? Como promotora de Justi\u00e7a e presidente do Instituto Pr\u00f3-V\u00edtima, afirmo que sim, h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o \u2014 mas ela exige abordagem firme, integrada e, sobretudo, comprometida com a prote\u00e7\u00e3o da vida e da dignidade humana. O enfrentamento da criminalidade n\u00e3o pode se limitar \u00e0 repress\u00e3o policial. \u00c9 necess\u00e1rio fortalecer as institui\u00e7\u00f5es de Justi\u00e7a, investir em intelig\u00eancia e em tecnologia, e reformar, profundamente, o sistema penitenci\u00e1rio, que, n\u00e3o de hoje, funciona como um centro de comando para muitas das fac\u00e7\u00f5es existentes e, sobretudo o aprimoramento legislativo, como o Estatuto da V\u00edtima &#8211; j\u00e1 aprovado na C\u00e2mara dos Deputados e que segue no Senado Federal com pedido de urg\u00eancia do senador Fl\u00e1vio Bolsonaro (PL-RJ)&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8220;Al\u00e9m disso, \u00e9 imprescind\u00edvel que o Estado esteja presente nas comunidades vulner\u00e1veis, por meio de pol\u00edticas p\u00fablicas eficazes, que promovam educa\u00e7\u00e3o, cultura, gera\u00e7\u00e3o de renda e inclus\u00e3o social. A aus\u00eancia do Estado nesses territ\u00f3rios \u00e9 o que permite que o crime organizado se instale, dite regras e prospere. E n\u00e3o podemos esquecer das v\u00edtimas \u2014 elas devem estar no centro das pol\u00edticas p\u00fablicas&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8220;A solu\u00e7\u00e3o existe, mas ela passa por um pacto nacional que envolva todos os poderes, a sociedade civil e os \u00f3rg\u00e3os de Seguran\u00e7a e de Justi\u00e7a. \u00c9 preciso coragem pol\u00edtica, articula\u00e7\u00e3o institucional e, acima de tudo, um compromisso real com a constru\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o onde o crime n\u00e3o seja alternativa e onde a Justi\u00e7a seja uma realidade acess\u00edvel a todos.\u201d<\/em><\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>&#8220;Enquanto o comando continuar saindo de dentro das cadeias, todo o resto ser\u00e1 cosm\u00e9tico&#8221;<\/h2>\n<h3><strong>Fernando Capano<\/strong>: doutor em Direito Constitucional e especialista em Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/h3>\n<p><em>\u201cA pergunta n\u00e3o \u00e9 se h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o. A pergunta \u00e9 se estamos dispostos a adot\u00e1-la com seriedade institucional. Primeiro: sem controle prisional, nada funciona. \u00c9 preciso gest\u00e3o profissional, separa\u00e7\u00e3o rigorosa de perfis, intelig\u00eancia penitenci\u00e1ria integrada e amplia\u00e7\u00e3o de unidades federais para l\u00edderes de alta periculosidade. Enquanto o comando continuar saindo de dentro das cadeias, todo o resto ser\u00e1 cosm\u00e9tico&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>Segundo: o pa\u00eds precisa de uma Pol\u00edtica Nacional de Territ\u00f3rios Cr\u00edticos, com retomada coordenada de \u00e1reas dominadas por fac\u00e7\u00f5es. A l\u00f3gica \u00e9 simples: quando o Estado se ausenta, algu\u00e9m ocupa \u2014 e ocupa com viol\u00eancia. Pol\u00edcia Federal, Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal e for\u00e7as estaduais devem atuar sob protocolos unificados, sem disputas artificiais de compet\u00eancia&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>Terceiro: \u00e9 preciso que a intelig\u00eancia e a investiga\u00e7\u00e3o sejam integradas. O crime se nacionalizou; o Estado, n\u00e3o. Banco de dados \u00fanico, equipes mistas e compartilhamento compuls\u00f3rio de informa\u00e7\u00f5es deixam de ser alternativas para se tornarem premissas&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>Quarto: asfixia financeira. Fac\u00e7\u00e3o n\u00e3o vive de simbologia; vive de dinheiro. Combate real exige for\u00e7a-tarefa permanente de rastreamento financeiro, confisco ampliado e ju\u00edzos especializados em lavagem de capitais. Por fim: ajuste legislativo, n\u00e3o para multiplicar penas, mas sim para fechar brechas. Como exemplos cito infiltra\u00e7\u00e3o digital, opera\u00e7\u00f5es encobertas, revis\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o penal para casos envolvendo fac\u00e7\u00f5es e regramento moderno de atua\u00e7\u00e3o conjunta entre for\u00e7as estaduais e federais&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>Em suma: o diagn\u00f3stico \u00e9 antigo, tal qual a ina\u00e7\u00e3o. O Brasil tem solu\u00e7\u00e3o, mas ela exige coordena\u00e7\u00e3o, racionalidade e coragem pol\u00edtica. Sem isso, continuaremos produzindo relat\u00f3rios cada vez mais sofisticados sobre um problema cada vez mais fora de controle.\u201d<\/em><\/p>\n<h2>&#8220;Responsabiliza\u00e7\u00e3o criminal da pessoa jur\u00eddica foi avan\u00e7o no combate ao crime organizado&#8221;<\/h2>\n<h3><strong>Wagner Mesquita<\/strong>: delegado da PF e ex-Secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Paran\u00e1\u00a0<\/h3>\n<p><em>&#8220;A gente teve alguns avan\u00e7os nos \u00faltimos anos. O primeiro deles foi l\u00e1 atr\u00e1s, no caso do crime organizado em geral \u2014 n\u00e3o s\u00f3 as fac\u00e7\u00f5es criminosas ligadas ao tr\u00e1fico de drogas \u2014 que foi a responsabiliza\u00e7\u00e3o criminal da pessoa jur\u00eddica.\u00a0Isso ficou bem patente ali nas investiga\u00e7\u00f5es da opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, em que as empresas que participavam da corrup\u00e7\u00e3o foram responsabilizadas criminalmente e seus operadores tamb\u00e9m&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>A consequ\u00eancia disso \u00e9 que as empresas brasileiras come\u00e7aram a investir nos setores de controle interno e de compliance, passaram a estar mais atentas a essa quest\u00e3o. No setor p\u00fablico essa ainda \u00e9 uma quest\u00e3o que evolui devagar, a gente j\u00e1 fica muito amarrado na hora das contrata\u00e7\u00f5es porque a gente n\u00e3o pode exigir em edital de licita\u00e7\u00e3o o que n\u00e3o est\u00e1 previsto em lei&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>Acredito que j\u00e1 passou da hora de a gente ter uma grande revis\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 lei de licita\u00e7\u00f5es para permitir que outros outros crit\u00e9rios sejam inseridos, relacionados a controle interno das empresas e intelig\u00eancia financeira, para que se possa fazer uma verifica\u00e7\u00e3o pr\u00e9via ou posterior e eventualmente at\u00e9 desclassificar ou gerar uma investiga\u00e7\u00e3o, caso seja identificado qualquer tipo de rela\u00e7\u00e3o de empresas participantes de atividade ligadas ao servi\u00e7o p\u00fablico com o crime organizado. Infelizmente, esse \u00e9 um problema grave que tem aumentado Brasil afora. Al\u00e9m do tr\u00e1fico de drogas, um dos principais focos das fac\u00e7\u00f5es criminosas no Brasil \u00e9 a busca de contratos de servi\u00e7os com o poder p\u00fablico.\u201d<\/em><\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>&#8220;\u00c9 uma guerra de paci\u00eancia e intelig\u00eancia&#8221;<\/h2>\n<h3><strong>Edson Pinheiro dos Santos J\u00fanior<\/strong>: diretor do Sindicato dos Delegados de Pol\u00edcia do Estado de S\u00e3o Paulo (Sindpesp)<\/h3>\n<p><em>&#8220;Para combater o crime organizado de forma eficaz, \u00e9 preciso entender que ele se fortalece onde o Estado est\u00e1 ausente, onde o crime compensa financeiramente e onde jovens sem oportunidades se tornam v\u00edtimas do aliciamento por parte dos criminosos. A resposta, portanto, n\u00e3o pode ser simples ou isolada. Deve ser um ataque coordenado em tr\u00eas frentes: o dinheiro, o comando, e a coopta\u00e7\u00e3o de novos membros&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>O caminho, desta forma, passa por cinco a\u00e7\u00f5es principais: ataque ao cora\u00e7\u00e3o financeiro,\u00a0o objetivo \u00e9 confiscar o dinheiro do crime;\u00a0suprimir o comando de fac\u00e7\u00f5es a partir das pris\u00f5es; ofertar de um caminho fora do crime; fortalecimento institucional da Seguran\u00e7a P\u00fablica e do Sistema de Justi\u00e7a Criminal; coopera\u00e7\u00e3o al\u00e9m das fronteiras&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>N\u00e3o existe f\u00f3rmula m\u00e1gica. A vit\u00f3ria contra o crime organizado vir\u00e1 de um conjunto de a\u00e7\u00f5es persistentes, integradas e inteligentes, que priorizem tirar seu lucro e seu poder de recrutar, em vez de apenas prender seus soldados. O Estado precisa funcionar como uma rede unida de intelig\u00eancia e de a\u00e7\u00e3o, protegendo seus pontos mais fr\u00e1geis, ao passo em que ataca os alicerces que sustentam as organiza\u00e7\u00f5es criminosas&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>A guerra contra o tr\u00e1fico se vence menos nas ruas e mais nas planilhas, nas sequ\u00eancias de liga\u00e7\u00f5es interceptadas e no rastreamento de transa\u00e7\u00f5es financeiras il\u00edcitas. \u00c9 uma guerra de paci\u00eancia e intelig\u00eancia.&#8221;<\/em><\/p>\n<h2>&#8220;Imp\u00f5e-se o refor\u00e7o da coopera\u00e7\u00e3o jur\u00eddica internacional&#8221;<\/h2>\n<h3><strong>Jorge Talarico Junior<\/strong>: advogado criminalista e Presidente da Comiss\u00e3o de Seguran\u00e7a P\u00fablica da OAB na Subse\u00e7\u00e3o Pinheiros-SP<\/h3>\n<p><em>\u201cO surgimento de redes criminosas que operam de forma articulada entre grupos sul-americanos, facilitadores africanos e organiza\u00e7\u00f5es europeias revela um cen\u00e1rio de coopera\u00e7\u00e3o il\u00edcita que desafia a capacidade isolada de qualquer na\u00e7\u00e3o. A natureza transnacional de opera\u00e7\u00f5es destas naturezas demanda n\u00e3o apenas a\u00e7\u00f5es repressivas, mas sobretudo alinhamento pol\u00edtico-institucional, harmoniza\u00e7\u00e3o legislativa e mecanismos de responsabiliza\u00e7\u00e3o capazes de enfrentar estas estruturas &#8211; altamente adapt\u00e1veis.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>Desta forma, a atua\u00e7\u00e3o fragmentada tende a se mostrar ineficaz diante da sofistica\u00e7\u00e3o log\u00edstica e financeira das organiza\u00e7\u00f5es criminosas. Diante deste cen\u00e1rio, imp\u00f5e-se o refor\u00e7o da coopera\u00e7\u00e3o jur\u00eddica internacional, a amplia\u00e7\u00e3o do interc\u00e2mbio de intelig\u00eancia e a consolida\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias conjuntas de preven\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>Pol\u00edticas p\u00fablicas de seguran\u00e7a devem priorizar o controle de cargas, o rastreamento de fluxos financeiros e o fortalecimento de institui\u00e7\u00f5es de governan\u00e7a, em conson\u00e2ncia com compromissos assumidos em tratados globais. Penso que, somente por meio de uma resposta pol\u00edtica coesa e juridicamente embasada ser\u00e1 poss\u00edvel enfrentar, de forma sustent\u00e1vel, as rotas il\u00edcitas que atravessam o continente africano com destino ao mercado europeu.\u201d<\/em><\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>&#8220;Receita Federal e Coaf t\u00eam que ser muito mais ativos&#8221;<\/h2>\n<h3><strong>Paulo Storani<\/strong>: ex-capit\u00e3o do Bope da Pol\u00edcia Militar do RJ e consultor na \u00e1rea de seguran\u00e7a p\u00fablica\u00a0<\/h3>\n<p><em>\u201cFica bem claro ao meu ver que n\u00f3s estamos ainda muito longe de trabalhar contra as fac\u00e7\u00f5es criminosas de fato \u2014\u00a0\u00a0que n\u00e3o s\u00e3o mais regionais, interestaduais ou nacionais, s\u00e3o transnacionais. A meu ver, o governo federal deveria ser o principal protagonista nesta articula\u00e7\u00e3o com os estados, principalmente junto \u00e0queles que apresentam os piores \u00edndices de viol\u00eancia. Precisaria existir uma articula\u00e7\u00e3o para isso com outros setores da sociedade, principalmente a Justi\u00e7a, e n\u00e3o apenas entre as diversas pol\u00edcias estaduais e a Pol\u00edcia Federal&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>A Receita Federal e o Coaf, por exemplo, t\u00eam que ser muito mais ativos no combate ao crime organizado. Temos que literalmente seguir o dinheiro de uma maneira muito mais eficaz do que temos feito. Imagina a quantidade de empresas, fundos e esquemas que existem para lavar esse dinheiro. Tem ficado provado que essa \u00e9 a melhor forma de combate, quando voc\u00ea quebra a coluna financeira de uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>Menos dinheiro tamb\u00e9m significa menos corrup\u00e7\u00e3o, menos armas, menos drogas e menos poder. Sinto muita necessidade tamb\u00e9m de um controle maior das fronteiras secas e molhadas, com mais integra\u00e7\u00e3o e parceria com os pa\u00edses de onde vem as armas e drogas.\u201d\u00a0<\/em><\/p>\n<h2>&#8220;Isolamento de lideran\u00e7as e enfraquecimento financeiro  precisam ser aplicados de forma integrada&#8221;<\/h2>\n<h3><strong>Regina Campanelli<\/strong>: titular da Delegacia de Defesa da Mulher de Aruj\u00e1 e da Delegacia de \u00c1rea de Santa Isabel-SP<\/h3>\n<p><em>&#8220;Nos \u00faltimos anos, observa-se uma maior atua\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es criminosas em regi\u00f5es de fronteira, o que est\u00e1 relacionado \u00e0 din\u00e2mica do tr\u00e1fico internacional e \u00e0 necessidade de controle de rotas. Trata-se de um movimento que acompanha a l\u00f3gica do crime organizado em escala global, e n\u00e3o de um fen\u00f4meno isolado. Essas organiza\u00e7\u00f5es tendem a adotar estruturas mais sofisticadas e flex\u00edveis, com divis\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es e foco log\u00edstico, mas isso n\u00e3o altera sua natureza criminosa&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>A Pol\u00edcia Civil e os demais \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a precisam acompanhar essa evolu\u00e7\u00e3o com investiga\u00e7\u00f5es cada vez mais t\u00e9cnicas, integra\u00e7\u00e3o interestadual e coopera\u00e7\u00e3o internacional. O enfrentamento ao crime organizado n\u00e3o comporta solu\u00e7\u00f5es \u00fanicas. Medidas como o isolamento de lideran\u00e7as e o enfraquecimento financeiro cumprem pap\u00e9is complementares e precisam ser aplicadas de forma integrada. O isolamento de lideran\u00e7as reduz a capacidade de articula\u00e7\u00e3o e comando, enquanto a asfixia financeira atinge o n\u00facleo que sustenta a organiza\u00e7\u00e3o no longo prazo. A experi\u00eancia mostra que resultados mais consistentes s\u00e3o alcan\u00e7ados quando essas frentes caminham juntas, dentro de uma estrat\u00e9gia cont\u00ednua, t\u00e9cnica e alinhada ao sistema de Justi\u00e7a.&#8221;<\/em><\/p>\n<h2>&#8220;Pol\u00edticas sociais precisam oferecer alternativas ao crime&#8221;<\/h2>\n<h3><strong>Ricardo Martins<\/strong>: advogado especialista em Direito Penal e membro da Comiss\u00e3o de Acad\u00eamicos de Direito da OAB-SP<\/h3>\n<p><em>&#8220;Para fazer frente \u00e0 expans\u00e3o e \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o destas fac\u00e7\u00f5es, \u00e9 imperativa uma abordagem sist\u00eamica, o que inclui a descapitaliza\u00e7\u00e3o, por meio do combate \u00e0 lavagem de dinheiro; o fortalecimento da intelig\u00eancia e da investiga\u00e7\u00e3o qualificada; a reforma e o controle rigoroso do sistema prisional, a fim de se isolar lideran\u00e7as; a coopera\u00e7\u00e3o interag\u00eancias e internacional, para se desmantelar redes transnacionais; e a intensifica\u00e7\u00e3o da fiscaliza\u00e7\u00e3o em fronteiras, portos e aeroportos&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>Complementarmente, s\u00e3o essenciais, ao meu ju\u00edzo, pol\u00edticas sociais que ofere\u00e7am alternativas ao crime, al\u00e9m de uma legisla\u00e7\u00e3o robusta e um sistema judicial c\u00e9lere e especializado.\u201d<\/em><\/p>\n<h2>&#8220;Regras mais r\u00edgidas no setor financeiro podem ser eficientes&#8221;<\/h2>\n<h3><strong>Matheus Herren Falivene de Sousa<\/strong>: doutor em Direito Penal e especialista\u00a0em Direito Penal Econ\u00f4mico e Negocia\u00e7\u00e3o de Acordos de Colabora\u00e7\u00e3o Premiada<\/h3>\n<p><em>&#8220;Um dos principais pontos \u00e9 a asfixia financeira das quadrilhas, mas tamb\u00e9m acredito que seja imposs\u00edvel acabar completamente com a lavagem de dinheiro no pa\u00eds. Os grupos criminosos sempre encontrar\u00e3o formas de esconder a origem il\u00edcita de valores&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>Contudo, a ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de preven\u00e7\u00e3o e regras mais r\u00edgidas no setor financeiro como controles internos dos bancos mais fortes, conhecimento aprofundado do cliente, KYC (&#8220;know your customer&#8221; ou conhe\u00e7a seu cliente), monitoramento de transa\u00e7\u00f5es at\u00edpicas e puni\u00e7\u00e3o bem maior para o crime de lavagem de dinheiro podem ser relativamente eficientes no combate ao crime organizado.&#8221;<\/em><\/p>\n<h2>&#8220;Menos r\u00f3tulos jur\u00eddicos e mais intelig\u00eancia e controle financeiro&#8221;<\/h2>\n<h3><strong>Caian Zambotto<\/strong>: advogado especializado em Direito P\u00fablico\u00a0<\/h3>\n<p><em>\u201cA experi\u00eancia hist\u00f3rica demonstra que, em contextos de forte press\u00e3o social por respostas imediatas \u00e0 criminalidade, o Estado tende a recorrer a solu\u00e7\u00f5es penais emergenciais, mais severas e menos comprometidas com garantias tradicionais. Este tipo de resposta costuma nascer como exce\u00e7\u00e3o, sob o argumento de que a gravidade da situa\u00e7\u00e3o exige regras diferentes e mais duras, mas, frequentemente, acaba incorporado de forma permanente ao ordenamento jur\u00eddico&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>O resultado \u00e9 um Direito Penal orientado pela l\u00f3gica do \u2018inimigo\u2019, no qual o simbolismo punitivo gera sensa\u00e7\u00e3o imediata de seguran\u00e7a, sem necessariamente aprimorar os instrumentos reais de enfrentamento do crime organizado. \u00c9 preciso, ao inv\u00e9s disso, focar na capacidade do Estado de investigar, de desarticular financeiramente e de enfraquecer tais organiza\u00e7\u00f5es criminosas. Hoje existe um conflito grande e mal resolvido no \u00e2mbito governamental entre medidas estruturantes, que exigem tempo e capacidade estatal, e solu\u00e7\u00f5es de efeito imediato, voltadas mais \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do que \u00e0 efic\u00e1cia real&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;<em>A experi\u00eancia e a jurisprud\u00eancia demonstram que o combate \u00e0s fac\u00e7\u00f5es depende menos de novos r\u00f3tulos jur\u00eddicos e mais da consolida\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia, de controle financeiro, de gest\u00e3o penitenci\u00e1ria e de integridade institucional.\u201d<\/em><\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Compartilhamento de informa\u00e7\u00f5es e intelig\u00eancia, maior integra\u00e7\u00e3o de sistemas e das pol\u00edcias, defini\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias, asfixia financeira, puni\u00e7\u00e3o dura e&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":240978,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[189],"tags":[],"class_list":["post-241222","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/241222","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=241222"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/241222\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/240978"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=241222"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=241222"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=241222"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}