{"id":240041,"date":"2026-02-28T11:52:27","date_gmt":"2026-02-28T15:52:27","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=240041"},"modified":"2026-02-28T11:52:27","modified_gmt":"2026-02-28T15:52:27","slug":"data-centers-no-espaco-o-primeiro-passo-rumo-a-uma-civilizacao-interplanetaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=240041","title":{"rendered":"Data centers no espa\u00e7o: o primeiro passo rumo a uma civiliza\u00e7\u00e3o interplanet\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Elon Musk declarou publicamente, em maio de 2025, a inten\u00e7\u00e3o de construir <em>data centers<\/em> de intelig\u00eancia artificial na \u00f3rbita terrestre e, em um horizonte mais amplo, na superf\u00edcie lunar, tendo a rea\u00e7\u00e3o imediata de boa parte dos analistas oscilado entre o ceticismo ir\u00f4nico e a perplexidade. O hist\u00f3rico do empres\u00e1rio, no entanto, sugere que seria imprudente descartar a ideia sem examin\u00e1-la com seriedade. Musk j\u00e1 demonstrou, com a SpaceX, que \u00e9 capaz de transformar projetos aparentemente quixotescos em infraestrutura operacional \u2014 e os foguetes reutiliz\u00e1veis que hoje abastecem a Esta\u00e7\u00e3o Espacial Internacional s\u00e3o a prova material dessa capacidade. O projeto dos <em>data centers<\/em> orbitais, por\u00e9m, transcende a mera inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica: ele representa o primeiro passo concreto para que a humanidade desenvolva as caracter\u00edsticas de uma civiliza\u00e7\u00e3o interplanet\u00e1ria.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A intelig\u00eancia artificial, tal como se desenvolve atualmente, \u00e9 o processo tecnol\u00f3gico mais voraz em energia j\u00e1 concebido pela humanidade. <\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Para compreender a magnitude do que est\u00e1 em jogo, \u00e9 oportuno recorrer a um instrumento conceitual formulado em 1964 pelo astrof\u00edsico sovi\u00e9tico Nikolai Kardashev. Insatisfeito com as categorias convencionais para classificar civiliza\u00e7\u00f5es, Kardashev prop\u00f4s uma escala baseada em um crit\u00e9rio objetivo e universalmente mensur\u00e1vel: a quantidade de energia que uma civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 capaz de capturar e utilizar. A escala possui tr\u00eas n\u00edveis fundamentais: o N\u00edvel I designa uma civiliza\u00e7\u00e3o capaz de aproveitar toda a energia dispon\u00edvel em seu planeta de origem \u2014 n\u00e3o apenas os combust\u00edveis f\u00f3sseis ou a radia\u00e7\u00e3o solar incidente, mas a totalidade dos recursos energ\u00e9ticos planet\u00e1rios, incluindo fen\u00f4menos geot\u00e9rmicos, e\u00f3licos, maremotrizes e a energia contida na pr\u00f3pria biosfera; o N\u00edvel II corresponde a uma civiliza\u00e7\u00e3o que domina a energia total de sua estrela hospedeira \u2014 no nosso caso, o Sol \u2014, o que implicaria estruturas hipot\u00e9ticas como a esfera de Dyson, um inv\u00f3lucro capaz de capturar toda a radia\u00e7\u00e3o solar emitida em todas as dire\u00e7\u00f5es; o N\u00edvel III, por fim, descreve uma civiliza\u00e7\u00e3o que controla a energia de uma gal\u00e1xia inteira, algo que, no est\u00e1gio atual do conhecimeto, permanece no dom\u00ednio da especula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica.<\/p>\n<p>A humanidade, neste momento, n\u00e3o atingiu sequer o N\u00edvel I. Estima-se que nos encontramos em torno de 0,73 na escala, o que significa estarmos relativamente distantes da utiliza\u00e7\u00e3o de toda a energia dispon\u00edvel na Terra (a escala de Kardashev \u00e9 logar\u00edtmica, e n\u00e3o linear). Nesse contexto, a transi\u00e7\u00e3o para o N\u00edvel I n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de gerar mais energia, e sim de reorganizar toda a base material da civiliza\u00e7\u00e3o. E \u00e9 precisamente nesse ponto que o projeto de Musk adquire relev\u00e2ncia estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>A intelig\u00eancia artificial, tal como se desenvolve atualmente, \u00e9 o processo tecnol\u00f3gico mais voraz em energia j\u00e1 concebido pela humanidade. O treinamento de um \u00fanico modelo de linguagem de grande escala consome a energia equivalente \u00e0 de uma cidade de porte m\u00e9dio durante semanas. A infer\u00eancia cont\u00ednua \u2014 isto \u00e9, o uso cotidiano desses modelos por bilh\u00f5es de pessoas \u2014 multiplica essa demanda por ordens de grandeza. Atualmente (fevereiro de 2026), cerca de 200 milh\u00f5es de seres humanos utilizam esses modelos diariamente, enquanto cerca de 1,5 bilh\u00e3o os usam esporadicamente. Se a IA for efetivamente \u201cplanetarizada\u201d, tornando-se t\u00e3o onipresente quanto a eletricidade, a press\u00e3o sobre a infraestrutura energ\u00e9tica terrestre ser\u00e1 insuport\u00e1vel dentro das restri\u00e7\u00f5es ambientais que j\u00e1 enfrentamos. O calor residual, as emiss\u00f5es, a degrada\u00e7\u00e3o ecossist\u00eamica \u2014 tudo isso constitui o que a termodin\u00e2mica denomina entropia, a desordem inevit\u00e1vel que acompanha qualquer processo de convers\u00e3o energ\u00e9tica. Manter toda essa entropia confinada \u00e0 superf\u00edcie de um \u00fanico planeta \u00e9, no longo e longu\u00edssimo prazos, insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>A proposta de Musk enfrenta esse dilema de maneira frontal. Instalar <em>data centers<\/em> em \u00f3rbita significa transferir para o espa\u00e7o uma parcela crescente da carga computacional e, com ela, a gera\u00e7\u00e3o de calor e o consumo energ\u00e9tico associados. No v\u00e1cuo orbital, a dissipa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica segue din\u00e2micas distintas das terrestres, e a energia solar pode ser captada sem a intermedia\u00e7\u00e3o da atmosfera, com efici\u00eancia significativamente maior. Na Lua, onde n\u00e3o h\u00e1 atmosfera nem biosfera, a gera\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e o processamento computacional podem ocorrer, em princ\u00edpio, sem qualquer impacto ambiental sobre o ecossistema terrestre. A l\u00f3gica \u00e9 an\u00e1loga \u00e0 que levou as cidades industriais do s\u00e9culo XIX a deslocar suas f\u00e1bricas mais poluidoras para as periferias: quando a atividade produtiva gera externalidades insustent\u00e1veis no n\u00facleo habitado, a solu\u00e7\u00e3o racional \u00e9 export\u00e1-la.<\/p>\n<p>Mas a ambi\u00e7\u00e3o declarada de Musk vai al\u00e9m da mera descentraliza\u00e7\u00e3o computacional. Em diversas ocasi\u00f5es, o empres\u00e1rio afirmou que sua vis\u00e3o de longu\u00edssimo prazo \u2014 medida em s\u00e9culos, talvez ao longo de todo o corrente mil\u00eanio \u2014 consiste em converter a humanidade em uma civiliza\u00e7\u00e3o de N\u00edvel II na escala de Kardashev. Trata-se de uma afirma\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria, que exige ser levada a s\u00e9rio justamente porque as premissas tecnol\u00f3gicas que a sustentam j\u00e1 est\u00e3o sendo constru\u00eddas.<\/p>\n<p>Muito antes que a humanidade se converta em uma civiliza\u00e7\u00e3o N\u00edvel II, contudo, as transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas possibilitadas pela IA desencadear\u00e3o uma \u201cera de abund\u00e2ncia\u201d, na qual a combina\u00e7\u00e3o de Superintelig\u00eancia Artificial, rob\u00f3tica aut\u00f4noma e energia virtualmente ilimitada concorrer\u00e1 para aproximar de zero os custos de produ\u00e7\u00e3o de bens em quantidades e variedade que hoje soam inconceb\u00edveis.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 inteiramente nova. O economista Jeremy Rifkin, em \u201cA Sociedade de Custo Marginal Zero\u201d, j\u00e1 havia antecipado que a converg\u00eancia entre automa\u00e7\u00e3o, energia renov\u00e1vel e internet das coisas tenderia a comprimir os custos de produ\u00e7\u00e3o de maneira estrutural. O que Musk acrescenta a essa equa\u00e7\u00e3o \u00e9 o componente espacial: a constata\u00e7\u00e3o de que a Terra, sozinha, n\u00e3o comporta a escala de atividade energ\u00e9tica e industrial necess\u00e1ria para sustentar uma civiliza\u00e7\u00e3o verdadeiramente p\u00f3s-escassez. A produ\u00e7\u00e3o virtualmente ilimitada de bens demanda extra\u00e7\u00e3o de recursos minerais em volumes que devastariam o planeta; a gera\u00e7\u00e3o de energia na escala necess\u00e1ria sobrecarregaria irreversivelmente o equil\u00edbrio t\u00e9rmico da biosfera. A solu\u00e7\u00e3o, portanto, seria estender a base produtiva para al\u00e9m da Terra.<\/p>\n<p>H\u00e1 um paralelo hist\u00f3rico instrutivo: quando os europeus do s\u00e9culo XV come\u00e7aram a explorar os oceanos, n\u00e3o o fizeram por um impulso abstrato de curiosidade, mas sobretudo porque os recursos e mercados da Europa j\u00e1 n\u00e3o bastavam para sustentar as ambi\u00e7\u00f5es das pot\u00eancias emergentes. As caravelas do Infante Dom Henrique n\u00e3o foram constru\u00eddas para contemplar o horizonte, e sim para <em>acess\u00e1-lo<\/em>. De maneira an\u00e1loga, os foguetes da SpaceX e os <em>data centers<\/em> orbitais n\u00e3o s\u00e3o exerc\u00edcios de futurismo, mas infraestrutura de expans\u00e3o.<\/p>\n<p>A minera\u00e7\u00e3o de asteroides, j\u00e1 objeto de estudos avan\u00e7ados pela NASA e por empresas privadas, promete acesso a quantidades colossais de metais raros e materiais que, na Terra, s\u00e3o extra\u00eddos a custos ecol\u00f3gicos e humanos cada vez mais elevados. A manufatura em \u00f3rbita, favorecida pela microgravidade e pelo v\u00e1cuo, permite processos imposs\u00edveis ou ineficientes na superf\u00edcie terrestre. A gera\u00e7\u00e3o de energia solar no espa\u00e7o, sem as perdas atmosf\u00e9ricas e sem a altern\u00e2ncia dia-noite, propicia potencial energ\u00e9tico que excede em v\u00e1rias ordens de grandeza qualquer fonte energ\u00e9tica dispon\u00edvel na Terra. Cada uma dessas atividades, isoladamente, j\u00e1 constitui um campo de pesquisa robusto; combinadas, elas delineiam o esqueleto de uma economia interplanet\u00e1ria.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2024\/09\/19164239\/falcon-9-spacex-starlink.jpg.webp\" \/><i>Lan\u00e7amento de foguete Falcon 9 levando sat\u00e9lites da Starlink para \u00f3rbita, em 8 de mar\u00e7o de 2022. (Foto: Joshua Conti \/ U. S. Space Force)<\/i><\/p>\n<p>A quest\u00e3o central, portanto, n\u00e3o \u00e9 se essa transi\u00e7\u00e3o ocorrer\u00e1, mas quando e sob que condi\u00e7\u00f5es. O projeto dos <em>data centers<\/em> orbitais de Musk funciona, nesse contexto, como uma esp\u00e9cie de ponta de lan\u00e7a: \u00e9 o primeiro caso de uso economicamente justific\u00e1vel para a instala\u00e7\u00e3o permanente de infraestrutura produtiva fora da Terra. A demanda por computa\u00e7\u00e3o de IA \u00e9 t\u00e3o intensa e crescente que os custos de lan\u00e7amento, outrora proibitivos, tornam-se racionais diante do custo alternativo de expandir indefinidamente os <em>data centers<\/em> terrestres, com todas as suas limita\u00e7\u00f5es energ\u00e9ticas, t\u00e9rmicas, regulat\u00f3rias e ambientais. A SpaceX, com o Starship, j\u00e1 reduziu o custo por quilograma em \u00f3rbita a uma fra\u00e7\u00e3o do que era h\u00e1 duas d\u00e9cadas, e ele continua em decl\u00ednio.<\/p>\n<p>Se esse primeiro passo for bem-sucedido, as consequ\u00eancias poder\u00e3o se desdobrar em cascata. <em>Data centers<\/em> orbitais exigir\u00e3o redes de energia solar espacial, que por sua vez demandar\u00e3o esta\u00e7\u00f5es de montagem orbital, que necessitar\u00e3o de materiais extra\u00eddos de asteroides ou da Lua, que pressupor\u00e3o bases permanentes fora da Terra. Cada elo dessa cadeia refor\u00e7a e viabiliza o seguinte, em uma din\u00e2mica que os engenheiros de sistemas chamam de <em>feedback positivo<\/em>. A ascens\u00e3o civilizacional estaria, assim, em linha com a proposi\u00e7\u00e3o da escala de Kardashev: ela n\u00e3o ocorreria por um salto s\u00fabito, mas pela acumula\u00e7\u00e3o gradual de capacidades que, em determinado momento, alcan\u00e7am um patamar qualitativamente distinto.<\/p>\n<p>O N\u00edvel I, que alguns f\u00edsicos estimam poder ser atingido ainda neste s\u00e9culo, pressup\u00f5e que a humanidade seja capaz de integrar plenamente a energia solar incidente, a geotermal, a nuclear avan\u00e7ada (incluindo a fus\u00e3o) e, crucialmente, a energia solar captada no espa\u00e7o e transmitida \u00e0 Terra. Esse \u00e9 um cen\u00e1rio ambicioso, mas n\u00e3o absurdo: todas as tecnologias envolvidas j\u00e1 existem em forma embrion\u00e1ria ou est\u00e3o em desenvolvimento ativo. O que falta n\u00e3o \u00e9 inven\u00e7\u00e3o, mas escala, e escala \u00e9 exatamente o que Musk tem demonstrado saber construir.<\/p>\n<p>A passagem do N\u00edvel I ao N\u00edvel II, por sua vez, compreende um horizonte de s\u00e9culos ou mil\u00eanios, e envolveria a constru\u00e7\u00e3o progressiva de megaestruturas capazes de capturar parcelas cada vez maiores da radia\u00e7\u00e3o solar. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio imaginar uma esfera de Dyson completa; vers\u00f5es parciais, como enxames de coletores solares orbitando o Sol, j\u00e1 seriam suficientes para elevar drasticamente a capacidade energ\u00e9tica da civiliza\u00e7\u00e3o. E, nesse percurso, a grande maioria da atividade industrial, extrativa e de gera\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica teria que ocorrer fora da Terra, n\u00e3o por escolha ideol\u00f3gica, mas por necessidade f\u00edsica. A Terra se tornaria, progressivamente, um santu\u00e1rio ecol\u00f3gico e cultural, enquanto a base produtiva da civiliza\u00e7\u00e3o se expandiria pelo sistema solar.<\/p>\n<p>Estamos, naturalmente, no dom\u00ednio especulativo. Os obst\u00e1culos t\u00e9cnicos, econ\u00f4micos e pol\u00edticos s\u00e3o formid\u00e1veis, e a Hist\u00f3ria est\u00e1 repleta de vis\u00f5es grandiosas que jamais se materializaram. Mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a fundamental entre a especula\u00e7\u00e3o ociosa e a extrapola\u00e7\u00e3o informada: a primeira ignora os dados; a segunda parte deles. E os dados, neste caso, apontam todos na mesma dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Se a humanidade efetivamente iniciar a coloniza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, n\u00e3o como exerc\u00edcio simb\u00f3lico, mas como expans\u00e3o produtiva real, estaremos diante da primeira altera\u00e7\u00e3o fundamental na condi\u00e7\u00e3o humana desde a Revolu\u00e7\u00e3o Neol\u00edtica<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Consideremos o que j\u00e1 se verificou apenas nos \u00faltimos vinte anos. Em 2004, a ideia de foguetes reutiliz\u00e1veis era vista com ceticismo por engenheiros aeron\u00e1uticos; em 2025, a SpaceX opera uma frota deles com regularidade rotineira. Em 2010, a intelig\u00eancia artificial era um campo acad\u00eamico de relev\u00e2ncia duvidosa para o grande p\u00fablico; em 2026, ela est\u00e1 remodelando a economia global com uma velocidade que surpreende at\u00e9 seus criadores. O custo de lan\u00e7amento por quilograma em \u00f3rbita baixa caiu de aproximadamente 54 mil d\u00f3lares no programa do <em>Space Shuttle<\/em> (conhecido em portugu\u00eas como \u201c\u00d4nibus Espacial\u201d, desenvolvido pela NASA entre 1972 e 2011) para menos de 300 d\u00f3lares com o Starship \u2014 uma redu\u00e7\u00e3o de mais de 99%. Cada uma dessas trajet\u00f3rias, tomada isoladamente, j\u00e1 seria impressionante. Tomadas em conjunto, elas comp\u00f5em algo mais: a infraestrutura material de uma mudan\u00e7a de paradigma civilizacional.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, ali\u00e1s, resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de tratar essa discuss\u00e3o como fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. H\u00e1 uma tend\u00eancia, particularmente acentuada no Brasil e na Europa, de relegar projetos dessa envergadura ao campo da fantasia, como se a ousadia fosse, por defini\u00e7\u00e3o, sin\u00f4nimo de irrealismo. Esse reflexo cultural \u00e9, ele pr\u00f3prio, um obst\u00e1culo \u00e0 compreens\u00e3o do momento em que vivemos. Enquanto pa\u00edses e institui\u00e7\u00f5es hesitam diante da escala do empreendimento, a realidade avan\u00e7a. A China j\u00e1 opera esta\u00e7\u00f5es espaciais pr\u00f3prias com ambiciosos programas lunares; a \u00cdndia lan\u00e7a miss\u00f5es interplanet\u00e1rias a custos que desconcertam as ag\u00eancias ocidentais; empresas privadas norte-americanas competem pelo direito de minerar a Lua. A corrida j\u00e1 come\u00e7ou, e a quest\u00e3o \u00e9 quem chegar\u00e1 atrasado.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda uma dimens\u00e3o filos\u00f3fica que merece aten\u00e7\u00e3o. Se a humanidade efetivamente iniciar a coloniza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, n\u00e3o como exerc\u00edcio simb\u00f3lico, mas como expans\u00e3o produtiva real, estaremos diante da primeira altera\u00e7\u00e3o fundamental na condi\u00e7\u00e3o humana desde a Revolu\u00e7\u00e3o Neol\u00edtica, h\u00e1 cerca de doze mil anos. A transi\u00e7\u00e3o de ca\u00e7adores-coletores para agricultores sedent\u00e1rios n\u00e3o mudou apenas a economia: transformou a religi\u00e3o, a pol\u00edtica, a guerra, a arte, a estrutura familiar e at\u00e9 a percep\u00e7\u00e3o do tempo. Uma transi\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cie planet\u00e1ria para esp\u00e9cie interplanet\u00e1ria provocaria muta\u00e7\u00f5es culturais e existenciais de magnitude compar\u00e1vel \u2014 ou superior. O que significa ser humano quando a \u201cTerra\u201d j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de \u201cmundo\u201d? Que formas de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica emergem quando col\u00f4nias humanas operam a minutos-luz de dist\u00e2ncia, tornando a comunica\u00e7\u00e3o em tempo real imposs\u00edvel? Que tipo de consci\u00eancia nasce em seres humanos para quem a Terra \u00e9 um ponto azul p\u00e1lido na escurid\u00e3o \u2014 n\u00e3o como met\u00e1fora po\u00e9tica, mas como experi\u00eancia sensorial cotidiana?<\/p>\n<p>Essas perguntas podem parecer prematuras, mas n\u00e3o s\u00e3o. S\u00e3o exatamente o tipo de pergunta que os contempor\u00e2neos de Gutenberg poderiam ter feito sobre a imprensa e n\u00e3o fizeram \u2014 e cujas respostas, por terem sido formuladas tarde demais, ca\u00edram nas m\u00e3os de quem tinha poder, e n\u00e3o de quem tinha vis\u00e3o. A Hist\u00f3ria ensina que as grandes transi\u00e7\u00f5es civilizacionais raramente s\u00e3o percebidas como tais por seus contempor\u00e2neos. Os habitantes de Sevilha, em 1492, n\u00e3o sabiam que estavam testemunhando o in\u00edcio de uma era global; os tecel\u00f5es de Manchester, em 1760, tampouco se viam como agentes de uma revolu\u00e7\u00e3o industrial. N\u00f3s, diferentemente deles, dispomos de instrumentos conceituais \u2014 a escala de Kardashev, a termodin\u00e2mica, a teoria de sistemas \u2014 que nos permitem identificar a transi\u00e7\u00e3o enquanto ela acontece. A quest\u00e3o \u00e9 se teremos a coragem intelectual de lev\u00e1-la a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Nesse contexto, os primeiros <em>data centers<\/em> orbitais poder\u00e3o ser lembrados, no futuro, n\u00e3o como uma proeza de engenharia, mas como o momento em que a humanidade cruzou um limiar irrevers\u00edvel \u2014 o ponto a partir do qual a expans\u00e3o pelo cosmos deixou de ser um sonho e passou a ser um processo. Assim como a primeira fundi\u00e7\u00e3o de bronze n\u00e3o foi, em si, um evento espetacular, mas inaugurou uma era inteira, o primeiro servidor a processar dados em \u00f3rbita terrestre poder\u00e1 ser lembrado como o evento que inaugurou a era interplanet\u00e1ria. E o mais vertiginoso, talvez, seja o fato de que n\u00f3s estamos vivos neste exato momento, n\u00e3o como espectadores de um passado remoto nem como leitores de um futuro imagin\u00e1rio, mas como contempor\u00e2neos do limiar \u2013 <em>presentes na cria\u00e7\u00e3o<\/em>. Pela primeira vez na Hist\u00f3ria, uma gera\u00e7\u00e3o pode olhar para o c\u00e9u e saber \u2014 n\u00e3o apenas sonhar, mas saber, com base em dados, trajet\u00f3rias tecnol\u00f3gicas e investimentos j\u00e1 realizados \u2014 que aquilo tudo ser\u00e1, um dia, territ\u00f3rio.<\/p>\n<p><em>Lindolpho Cademartori \u00e9 diplomata de carreira e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco, do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. Suas opini\u00f5es s\u00e3o estritamente pessoais e n\u00e3o necessariamente refletem aquelas do MRE.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elon Musk declarou publicamente, em maio de 2025, a inten\u00e7\u00e3o de construir data centers de intelig\u00eancia artificial na \u00f3rbita terrestre&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":240042,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-240041","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/240041","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=240041"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/240041\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/240042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=240041"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=240041"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=240041"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}