{"id":221618,"date":"2026-02-22T05:01:00","date_gmt":"2026-02-22T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=221618"},"modified":"2026-02-22T05:01:00","modified_gmt":"2026-02-22T09:01:00","slug":"os-penduricalhos-brilham-no-pais-dos-privilegios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=221618","title":{"rendered":"Os penduricalhos brilham no pa\u00eds dos privil\u00e9gios"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O Dicion\u00e1rio Aur\u00e9lio define a palavra \u201cpenduricalho\u201d como \u201ccoisa pendente, para ornato\u201d. No Brasil, pa\u00eds onde as coisas nem sempre s\u00e3o o que parecem, \u201cpenduricalho\u201d virou sin\u00f4nimo de benef\u00edcio que servidores p\u00fablicos \u2013 de carreira, concursados, nomeados ou eleitos \u2013 conseguem agregar aos seus vencimentos. Disfar\u00e7ados de verbas indenizat\u00f3rias, abonos e outras rubricas, esses penduricalhos ficam imunes \u00e0 incid\u00eancia de Imposto de Renda e engordam substancialmente os sal\u00e1rios oficiais.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 uma pr\u00e1tica recente, mas, nos \u00faltimos tempos, transformou-se em recorrente manobra para que determinada elite do funcionalismo consiga furar o teto salarial definido na Constitui\u00e7\u00e3o, hoje de R$ 46.366,33, correspondente \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Quem \u00e9 a pessoa f\u00edsica que trabalha no setor privado e ganha acima de R$ 46.366,33 que tenha alguma parcela de sua remunera\u00e7\u00e3o sem levar a mordida do Imposto de Renda?<\/p>\n<p>Atualmente, cerca de 53 mil servidores p\u00fablicos ganham acima do teto. Eles est\u00e3o espalhados por todas as esferas da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e nos tr\u00eas Poderes \u2013 Executivo, Judici\u00e1rio e Legislativo. Isso custa aos cofres p\u00fablicos R$ 50 bilh\u00f5es por ano, segundo reportagem publicada pelo jornal <em>O Globo<\/em> em 7 de fevereiro de 2026.<\/p>\n<p>Levantamento da Transpar\u00eancia Brasil, citado pelo jornal, aponta a exist\u00eancia de 3 mil nomes diferentes para esses benef\u00edcios apenas nas carreiras do Judici\u00e1rio e do Minist\u00e9rio P\u00fablico. \u201cAux\u00edlio iPhone\u201d, \u201cAux\u00edlio Palet\u00f3\u201d, \u201cAux\u00edlio Moradia\u201d, \u201cGratifica\u00e7\u00e3o Acervo\u201d, \u201cAux\u00edlio Funeral\u201d, \u201cAux\u00edlio Creche\u201d, \u201cAux\u00edlio Alimenta\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cAux\u00edlio Mudan\u00e7a\u201d, \u201cAux\u00edlio Sa\u00fade\u201d, \u201cAux\u00edlio Natalidade\u201d, \u201cBolsa Estudo\u201d e \u201cAux\u00edlio Transporte\u201d s\u00e3o apenas alguns dentre as 60 modalidades de benef\u00edcios identificadas por um estudo citado na reportagem. Aprovaram at\u00e9 mesmo \u201cAux\u00edlio Panetone\u201d, em ato que beira o deboche, felizmente derrubado pelo ministro Dino. Os nomes, como se v\u00ea, s\u00e3o variados, por\u00e9m o objetivo \u00e9 \u00fanico: engordar o contracheque sem se submeter \u00e0 limita\u00e7\u00e3o imposta pela Constitui\u00e7\u00e3o, que todos juram respeitar e fazer respeitar.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Os defensores dos penduricalhos sequer podem ousar se justificar com uma m\u00e1xima bem brasileira \u2013 &#8216;farinha pouca, meu pir\u00e3o primeiro&#8217; \u2013 porque n\u00e3o h\u00e1 sal\u00e1rios miser\u00e1veis no funcionalismo p\u00fablico nacional. Ocorre que o apetite \u00e9 maior do que a vergonha<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Enquanto isso, entre os 12 pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, oito t\u00eam sal\u00e1rio m\u00ednimo maior que o Brasil (295 d\u00f3lares). O Uruguai (620 d\u00f3lares) \u00e9 o primeiro da regi\u00e3o, seguido por Chile (597 d\u00f3lares), Equador (482 d\u00f3lares), Col\u00f4mbia (446 d\u00f3lares), Bol\u00edvia (405 d\u00f3lares), Paraguai (350 d\u00f3lares), Guiana (335 d\u00f3lares) e Peru (275 d\u00f3lares). O Brasil supera apenas Argentina (238 d\u00f3lares), Suriname (200 d\u00f3lares) e Venezuela (3 d\u00f3lares, valor \u00ednfimo devido \u00e0 crise econ\u00f4mica e ao recente epis\u00f3dio da invas\u00e3o americana que destituiu o ditador Nicol\u00e1s Maduro). Essa oitava posi\u00e7\u00e3o em valor de sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 vergonhosa para um pa\u00eds que possui a maior economia sul-americana e est\u00e1 entre as 10 maiores economias do planeta.<\/p>\n<p>Os defensores dos penduricalhos sequer podem ousar se justificar com uma m\u00e1xima bem brasileira \u2013 \u201cfarinha pouca, meu pir\u00e3o primeiro\u201d \u2013 porque n\u00e3o h\u00e1 sal\u00e1rios miser\u00e1veis no funcionalismo p\u00fablico nacional. Ocorre que o apetite \u00e9 maior do que a vergonha, e nunca faltam iniciativas para engordar os vencimentos. Nas esferas j\u00e1 muito privilegiadas, mais do que a Constitui\u00e7\u00e3o vale a Lei de G\u00e9rson (o importante \u00e9 levar vantagem em tudo).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que o Estado sofre de gigantismo cr\u00f4nico. Transformou-se em um paquiderme monstruoso, lento, ineficiente, corporativista e caro, muito caro. Hoje, a m\u00e1quina p\u00fablica consome cerca de 12,8% a 13,4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, isto \u00e9, de tudo o que o pa\u00eds produz de bens e servi\u00e7os. \u00c9 muito mais do que a m\u00e9dia (9%) dos 37 pa\u00edses da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE). Essa diferen\u00e7a significa de R$ 310 bilh\u00f5es a R$ 370 bilh\u00f5es por ano, dinheiro que poderia ser aplicado para melhorar a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a seguran\u00e7a p\u00fablica, o saneamento b\u00e1sico e outras \u00e1reas fundamentais para elevar a qualidade de vida do cidad\u00e3o que, em sua maioria, ganha pouco e sofre muito.<\/p>\n<p>\u00c9 uma realidade espantosa, com efeitos nefastos na capacidade de investimento e no desenvolvimento do pa\u00eds. No entanto, h\u00e1 cada vez mais gente preocupada apenas com o pr\u00f3prio umbigo, como ficou claro com a recente aprova\u00e7\u00e3o, pelo Congresso, de medida que permite aos servidores da C\u00e2mara e do Senado aumentarem seus ganhos para at\u00e9 R$ 77 mil, ou seja, 67% acima do teto constitucional. Esse trem da alegria institu\u00eda inclusive uma folga a cada tr\u00eas dias trabalhados, com possibilidade de pagamento em pec\u00fania.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A decis\u00e3o do Congresso, aprovada por vota\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de senadores e deputados federais, ignorou por completo o arcabou\u00e7o fiscal que o pr\u00f3prio Parlamento aprovou. No embalo de exclus\u00f5es anteriores autorizadas pelo Judici\u00e1rio, p\u00f4s o p\u00e9 no acelerador e desligou os far\u00f3is para n\u00e3o enxergar as consequ\u00eancias. Menos mal que, diante da enorme repercuss\u00e3o na imprensa, o Supremo Tribunal Federal tenha brecado o abuso por decis\u00e3o do ministro Fl\u00e1vio Dino, evitando que a catarse do carnaval ofuscasse tamanha imoralidade.<\/p>\n<p>Contrariando o dicionarista Aur\u00e9lio Buarque de Holanda, o penduricalho de fevereiro em nada ornamentaria o Legislativo. Boa parte da classe pol\u00edtica e outros agentes p\u00fablicos bem que poderiam aproveitar esse epis\u00f3dio para percorrer de volta o caminho da hist\u00f3ria e encontrar o ponto em que perderam a vergonha. O Brasil precisa ser \u201creestatizado\u201d, tirando das garras dos novos \u201cdonat\u00e1rios do poder\u201d das capitanias heredit\u00e1rias do s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p><em><strong>Samuel Hanan <\/strong>\u00e9 engenheiro, com especializa\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas de macroeconomia, administra\u00e7\u00e3o de empresas e finan\u00e7as, empres\u00e1rio e foi vice-governador do Amazonas (1999\u20132002). Autor dos livros &#8220;Brasil, um pa\u00eds \u00e0 deriva&#8221;, &#8220;Caminhos para um pa\u00eds sem rumo&#8221; e &#8220;Amaz\u00f4nia Brasileira, preservar para viver, responsabilidade mundial&#8221;. Site: <a href=\"https:\/\/samuelhanan.com.br\/\">https:\/\/samuelhanan.com.br<\/a><\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Dicion\u00e1rio Aur\u00e9lio define a palavra \u201cpenduricalho\u201d como \u201ccoisa pendente, para ornato\u201d. 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