{"id":220830,"date":"2026-02-21T10:30:01","date_gmt":"2026-02-21T14:30:01","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=220830"},"modified":"2026-02-21T10:30:01","modified_gmt":"2026-02-21T14:30:01","slug":"industrias-brasileiras-cruzam-a-fronteira-e-ampliam-producao-no-paraguai-para-fugir-de-impostos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=220830","title":{"rendered":"Ind\u00fastrias brasileiras cruzam a fronteira e ampliam produ\u00e7\u00e3o no Paraguai para fugir de impostos"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Durante d\u00e9cadas, atravessar a Ponte Internacional da Amizade foi sin\u00f4nimo de com\u00e9rcio informal e varejo de fronteira entre Brasil e Paraguai. Hoje, a travessia simboliza algo mais profundo: uma reorganiza\u00e7\u00e3o silenciosa do mapa industrial do Mercosul.<\/p>\n<p>A migra\u00e7\u00e3o de ind\u00fastrias brasileiras para o Paraguai deixou de ser pontual e tornou-se tend\u00eancia. Pressionadas pela elevada carga tribut\u00e1ria, pela complexidade regulat\u00f3ria e pelos altos custos operacionais no Brasil, empresas de setores como t\u00eaxtil e confec\u00e7\u00f5es, cal\u00e7ados, autope\u00e7as, metalurgia, pl\u00e1sticos, produtos qu\u00edmicos e manufaturas voltadas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o v\u00eam instalando unidades no pa\u00eds vizinho.<\/p>\n<p>Foi o que ocorreu com o empres\u00e1rio Fabrizio Gudin, de Mat\u00e3o, no interior de S\u00e3o Paulo, que decidiu abrir uma empresa no Paraguai em busca de, principalmente, menor tributa\u00e7\u00e3o. &#8220;No Paraguai se trabalha um m\u00eas e meio por ano para pagar impostos. No Brasil s\u00e3o seis meses e h\u00e1, ainda, uma concorr\u00eancia muito grande e mercados saturados&#8221;, afirmou. &#8220;Queremos come\u00e7ar um novo ciclo no Paraguai&#8221;, complementou.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o tamb\u00e9m foi tomada por Jonathan Linzmeyer, empres\u00e1rio e consultor empresarial que deixou S\u00e3o Bento do Sul, em Santa Catarina, para viver no Paraguai e administrar uma ind\u00fastria de esquadrias de alum\u00ednio e vidros. &#8220;O Paraguai tem crescimento projetado para os pr\u00f3ximos anos, seguran\u00e7a jur\u00eddica, estabilidade econ\u00f4mica e infla\u00e7\u00e3o controlada&#8221;, afirmou.<\/p>\n<h2>A estrat\u00e9gia paraguaia de atra\u00e7\u00e3o de empresas<\/h2>\n<p>Criada em 1997, a <strong>Lei de Maquila<\/strong> \u00e9 o principal motor dessa atra\u00e7\u00e3o. O regime permite importar m\u00e1quinas, mat\u00e9ria-prima e insumos com imposto zero, desde que a produ\u00e7\u00e3o seja destinada \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o. Nesses casos, a empresa paga apenas 1% sobre o valor agregado.<\/p>\n<p>Em 2025, o <strong>governo paraguaio ampliou o alcance do programa<\/strong> para incluir incentivos espec\u00edficos \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e montagem de equipamentos eletr\u00f4nicos e digitais, al\u00e9m de estabelecer prazo inicial de 20 anos para os benef\u00edcios, com possibilidade de renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Linzmeyer destaca que o ambiente favor\u00e1vel n\u00e3o se restringe \u00e0 ind\u00fastria e alcan\u00e7a o mercado imobili\u00e1rio. &#8220;No Brasil, com a reforma tribut\u00e1ria, o imposto sobre o lucro do propriet\u00e1rio pode chegar a 30%, enquanto aqui \u00e9 8%. E a loca\u00e7\u00e3o tem retorno mensal de 1% sobre o valor do im\u00f3vel&#8221;, explicou. O valor \u00e9 superior \u00e0 m\u00e9dia do rendimento l\u00edquido imobili\u00e1rio brasileiro.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do regime especial de exporta\u00e7\u00e3o, o Paraguai adota o chamado modelo &#8220;triplo 10&#8221;: 10% de IVA, 10% de imposto de renda empresarial e 10% de imposto de renda da pessoa f\u00edsica. &#8220;Mesmo fora da maquila, a al\u00edquota m\u00e1xima n\u00e3o ultrapassa 30% na soma desses tributos. No Brasil, apenas o imposto de renda da pessoa jur\u00eddica pode chegar a 34%, sem considerar tributos sobre consumo&#8221;, disse Jo\u00e3o Eloi Olenike, presidente executivo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributa\u00e7\u00e3o (IBPT).<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o entre menor carga nominal, simplifica\u00e7\u00e3o e estabilidade regulat\u00f3ria ajuda a explicar o movimento de empresas brasileiras para o pa\u00eds vizinho. &#8220;O Brasil tem um sistema tribut\u00e1rio extremamente complexo e oneroso. O Paraguai estruturou um modelo de atra\u00e7\u00e3o de investimentos&#8221;, complementou Olenike.<\/p>\n<h2>70% das empresas no Paraguai com benef\u00edcio fiscal s\u00e3o brasileiras<\/h2>\n<p>Os n\u00fameros ajudam a dimensionar o movimento. Dados do Minist\u00e9rio da Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio do Paraguai indicam que o pa\u00eds vizinho soma mais de 300 empresas maquiladoras em opera\u00e7\u00e3o e aproximadamente 70% das ind\u00fastrias instaladas nesse modelo s\u00e3o de origem brasileira.<\/p>\n<p>Para a presidente da C\u00e2mara de Empres\u00e1rios Brasileiros no Paraguai (Cebras), Karina Ferreira, o movimento reflete a busca por previsibilidade. &#8220;O empres\u00e1rio brasileiro n\u00e3o est\u00e1 apenas buscando pagar menos imposto, ele quer seguran\u00e7a jur\u00eddica, estabilidade nas regras, custo operacional previs\u00edvel e capacidade de planejar o crescimento da empresa&#8221;, afirmou. &#8220;O Paraguai oferece um ambiente muito mais simples para quem quer produzir e exportar&#8221;, adicionou.<\/p>\n<p>A maior concentra\u00e7\u00e3o das empresas brasileiras no Paraguai est\u00e1 na regi\u00e3o Leste do pa\u00eds, pr\u00f3xima \u00e0 fronteira, o que facilita a integra\u00e7\u00e3o log\u00edstica com estados como Paran\u00e1, Santa Catarina, S\u00e3o Paulo e Mato Grosso do Sul. O n\u00famero de pessoas que trabalham em empresas no regime maquila chega a aproximadamente 35 mil e 64% de tudo o que \u00e9 produzido tem como destino o mercado brasileiro.<\/p>\n<p>Ainda assim, o Paraguai enfrenta desafios. Com popula\u00e7\u00e3o estimada em 6,4 milh\u00f5es de habitantes, o pa\u00eds carece de m\u00e3o de obra t\u00e9cnica especializada em algumas \u00e1reas. &#8220;Existe boa oferta de trabalhadores, mas a qualifica\u00e7\u00e3o precisa avan\u00e7ar&#8221;, diz Karina Ferreira, da Cebras, que vem investindo em programas de capacita\u00e7\u00e3o profissional.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Gigantes da ind\u00fastria t\u00eaxtil brasileira j\u00e1 operam no Paraguai<\/h2>\n<p>O setor t\u00eaxtil \u00e9 um dos mais representativos nesse processo. De acordo com Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira da Ind\u00fastria T\u00eaxtil e de Confec\u00e7\u00e3o (Abit), cerca de 35% das aproximadamente 200 empresas brasileiras que levaram parte da produ\u00e7\u00e3o ao Paraguai pertencem ao setor. Entre elas est\u00e3o gigantes como <strong>Altenburg<\/strong>, <strong>Karsten<\/strong> e <strong>Lupo<\/strong>.<\/p>\n<p>Pimentel afirmou que o deslocamento n\u00e3o deve ser interpretado como abandono do pa\u00eds. &#8220;\u00c9 um movimento mais defensivo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es internas, e menos um movimento de esgotamento do espa\u00e7o para produzir no Brasil. <strong>Isso deve servir de alerta, porque o setor t\u00eaxtil \u00e9 muito competitivo<\/strong>&#8220;, diz Pimentel.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da carga tribut\u00e1ria reduzida, pesam fatores como energia el\u00e9trica significativamente mais barata, decisiva para ind\u00fastrias intensivas em consumo energ\u00e9tico, e encargos trabalhistas menores.<\/p>\n<h3>Brasil x Paraguai em n\u00fameros<\/h3>\n<ul>\n<li><span><strong>Impostos corporativos<\/strong><br \/><strong>Brasil:<\/strong> ~34% sobre o lucro + tributos sobre consumo (ICMS, PIS, Cofins, IPI)<br \/><strong>Paraguai:<\/strong> 10% IR empresarial (ou 1% no regime de Maquila) + IVA de 10%<br \/><\/span><\/li>\n<li><span><strong>Energia el\u00e9trica<\/strong> energia industrial cara e sujeita a bandeiras<strong>Brasil:<\/strong><br \/><strong>Paraguai:<\/strong> 40% a 60% mais barata<br \/><\/span><\/li>\n<li><span><strong>Encargos trabalhistas<\/strong><br \/><strong>Brasil:<\/strong> cerca de 80% sobre sal\u00e1rio<br \/><strong>Paraguai:<\/strong> de 35% a 40%, com legisla\u00e7\u00e3o mais flex\u00edvel<br \/><\/span><\/li>\n<li><em>Fonte: Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributa\u00e7\u00e3o (IBPT)<\/em><\/li>\n<\/ul>\n<h2>Custo Brasil pode ampliar fuga da ind\u00fastria para Paraguai ap\u00f3s acordo entre Mercosul e Uni\u00e3o Europeia<\/h2>\n<p>Assinado em janeiro, o acordo comercial entre Mercosul e Uni\u00e3o Europeia ainda precisa ser ratificado pelos pa\u00edses-membros. Se <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/economia\/acordo-mercosul-uniao-europeia-votado-camara-apos-carnaval\/\">aprovado pelo Congresso Nacional<\/a>, poder\u00e1 influenciar decis\u00f5es industriais nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>Com a entrada em vigor do tratado, a Uni\u00e3o Europeia passar\u00e1 a representar um destino estrat\u00e9gico para exporta\u00e7\u00f5es do bloco. A capacidade de o Brasil aproveitar essa abertura depender\u00e1 de sua competitividade interna. &#8220;O acordo pode ser uma grande oportunidade para o pa\u00eds se posicionar como fornecedor sustent\u00e1vel e com energia limpa&#8221;, afirmou Fernando Pimentel.<\/p>\n<p>O entrave, segundo ele, est\u00e1 no ambiente dom\u00e9stico. &#8220;Fatores como taxa de juros, custos de infraestrutura e a pr\u00f3pria estrutura trabalhista v\u00e3o empilhando despesas e dificultando a concorr\u00eancia em um mercado t\u00e3o disputado&#8221;, disse. Se o custo Brasil permanecer elevado, no futuro empresas podem intensificar a reorganiza\u00e7\u00e3o das cadeias produtivas dentro do Mercosul, utilizando o Paraguai como base exportadora.<\/p>\n<p>O tema j\u00e1 aparece na pr\u00e9-campanha presidencial de 2026. Em encontro com investidores em S\u00e3o Paulo, o senador Fl\u00e1vio Bolsonaro afirmou que o Brasil tem hoje &#8220;o melhor ministro da Fazenda do Paraguai&#8221;, em refer\u00eancia a Fernando Haddad (PT), numa cr\u00edtica \u00e0 pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo petista. A quest\u00e3o central \u00e9 se o Brasil conseguir\u00e1 reduzir seus pr\u00f3prios entraves estruturais antes que a migra\u00e7\u00e3o produtiva deixe de ser defensiva e se consolide como tend\u00eancia permanente.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante d\u00e9cadas, atravessar a Ponte Internacional da Amizade foi sin\u00f4nimo de com\u00e9rcio informal e varejo de fronteira entre Brasil e&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":218765,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[190],"tags":[],"class_list":["post-220830","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/220830","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=220830"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/220830\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/218765"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=220830"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=220830"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=220830"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}