{"id":218580,"date":"2026-02-21T09:05:40","date_gmt":"2026-02-21T13:05:40","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=218580"},"modified":"2026-02-21T09:05:40","modified_gmt":"2026-02-21T13:05:40","slug":"a-direita-precisa-ser-menos-reativa-e-mais-propositiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=218580","title":{"rendered":"A direita precisa ser menos reativa e mais propositiva"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Meu editor me fez a seguinte pergunta: \u201cPor que os conservadores n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o eficazes no mundo das artes quanto os progressistas? Sabemos o diagn\u00f3stico: a esquerda domina a ind\u00fastria do entretenimento, aparelhou os incentivos fiscais, as universidades, etc. Mas talvez as pessoas mais conservadoras, mais religiosas, estejam falhando em algo tamb\u00e9m&#8230;\u201d E \u00e9 exatamente isso: a maioria delas n\u00e3o age a partir de uma \u201cfor\u00e7a criadora\u201d, mas est\u00e1 presa a uma apatia ou \u00e0 mera reatividade.<\/p>\n<p>Vamos ao come\u00e7o da hist\u00f3ria. Houve um tempo em que a esquerda n\u00e3o dominava coisa alguma. A sociedade estava impregnada de valores conservadores. Mas esse conservadorismo era, em grande medida, inconsciente. As pessoas viviam segundo certos princ\u00edpios sem saber quais eram, nem por que o eram. J\u00e1 a esquerda surgiu como um movimento consciente, que n\u00e3o apenas reagia aos valores tradicionais, mas os estudava, os diagnosticava e, sobretudo, se empenhava em criar novos valores. Ela compreendeu que, se voc\u00ea apenas reage ao que odeia, j\u00e1 est\u00e1 aceitando ser pautado pelo advers\u00e1rio. Por isso, \u00e9 preciso criar novos cen\u00e1rios para se tornar \u201cdona\u201d das pautas. Foi assim que a esquerda come\u00e7ou a ocupar espa\u00e7os, e, quando a direita se deu conta, a linguagem p\u00fablica j\u00e1 havia sido redefinida. A direita j\u00e1 n\u00e3o possu\u00eda pautas pr\u00f3prias; reagia \u00e0s da esquerda, e se habituou a s\u00f3 reagir&#8230; at\u00e9 cair numa esp\u00e9cie de niilismo.<\/p>\n<p>Pode soar estranho chamar a direita de niilista. Afinal, na linguagem ordin\u00e1ria, niilista \u00e9 o ateu militante que rejeita at\u00e9 a ideia de bem e de mal. Por\u00e9m, na cultura filos\u00f3fica, a quest\u00e3o \u00e9 mais ampla. Nietzsche, por exemplo, definiu uma das formas de niilismo como a sensa\u00e7\u00e3o de que \u201ctudo \u00e9 em v\u00e3o\u201d, a descren\u00e7a na possibilidade de recuperar-se, acompanhada da vergonha de si mesmo. Em uma s\u00f3 frase, esse niilismo tem a ver com a perda da confian\u00e7a na efic\u00e1cia da pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o. E a direita \u201cculta\u201d parece trilhar exatamente esse caminho: j\u00e1 parte do pressuposto de que o p\u00fablico s\u00f3 consome lixo, de que qualquer tentativa de produzir algo bom ser\u00e1 ignorada ou desprezada. Antes mesmo de criar, j\u00e1 decretou o pr\u00f3prio fracasso. Em muitos casos, nem sequer acredita que seria capaz de produzir essa coisa, uma vez que seu crit\u00e9rio \u00e9 muito, muito alto!<\/p>\n<p>O esquerdista escreve um verso livre, sem a menor no\u00e7\u00e3o de metrifica\u00e7\u00e3o, sem sequer ter se dado ao trabalho de ler a tradi\u00e7\u00e3o, e j\u00e1 se considera um g\u00eanio incompreendido. O direitista, coitado, passa a vida olhando para Cam\u00f5es e pensa que jamais chegar\u00e1 l\u00e1; e, se por milagre chegasse, ningu\u00e9m o leria. Ent\u00e3o ele se ressente e diz que a cultura est\u00e1 decadente, que o cinema \u00e9 podre, que a m\u00fasica degenerou e nunca cria nada.<\/p>\n<p>Quando finalmente alguma empresa percebe a demanda reprimida, tenta produzir alguma coisa, mas entra com uma mentalidade mercantil: quer lucro garantido, p\u00fablico certo e, por consequ\u00eancia, \u201cprega para convertido\u201d. As obras s\u00e3o caricatas, os personagens previs\u00edveis, a coisa t\u00e3o brega que \u00e9 dif\u00edcil cham\u00e1-la de arte. Enquanto isso, a esquerda aposta na for\u00e7a das influ\u00eancias indiretas. N\u00e3o quer convencer apenas por argumentos racionais, nem modelos prontos; trabalha com o sentimento, a ambiguidade, a fantasia. Observe como ela envolve a dor numa linguagem po\u00e9tica. \u00c9 como o lamento do poeta que n\u00e3o conquistou a mulher desejada&#8230; e n\u00e3o esquece isso imediatamente.<\/p>\n<p>A direita atual, sobretudo a do Instagram, tende a olhar esses fracassos de maneira seca e racional, sem meditar na singularidade da experi\u00eancia. A resposta nas caixinhas de pergunta, que medem o ambiente cultural, costuma ser pragm\u00e1tica: fique mais forte, ganhe mais dinheiro, conquiste outra mulher. S\u00f3 que a poesia \u00e9 o oposto desse pragmatismo. Basta lembrar de Dante, que viu Beatriz uma \u00fanica vez e passou a vida inteira escrevendo sobre ela&#8230; Daquela frustra\u00e7\u00e3o concreta nasceu um universo simb\u00f3lico inteiro. Homens como Dante quase n\u00e3o existem na direita atual.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s empresas, at\u00e9 surgiram algumas que financiam a \u201carte\u201d dita direitista, mas pensam mais no lucro imediato do que na constru\u00e7\u00e3o paciente de longo prazo; e a subjetividade, com sua ambiguidade, \u00e9 sempre um risco: pode agradar ao gosto popular ou n\u00e3o. \u00c9 diferente dos ideais j\u00e1 consagrados, como a biografia do santo ou um manual de virtudes, que de antem\u00e3o agradam a um p\u00fablico nichado. Algumas perceberam uma demanda reprimida e apostaram em obras bastante caricatas, capazes de dar retorno financeiro imediato, mas que acabam apenas \u201cpregando para convertidos\u201d.<\/p>\n<p>O trabalho cultural da esquerda, ao contr\u00e1rio, \u00e9 um trabalho de longo prazo, um verdadeiro trabalho de formiguinha. Ela n\u00e3o teme financiar um filme que pode n\u00e3o dar lucro. Por isso, eu diria que a esquerda \u00e9, nesse campo, extremamente paciente: seu m\u00e9todo n\u00e3o \u00e9 majoritariamente o do confronto direto, mas o da corros\u00e3o lenta da percep\u00e7\u00e3o. H\u00e1, inclusive, uma contradi\u00e7\u00e3o consciente nisso, porque, no debate de ideias, a esquerda costuma atacar seus advers\u00e1rios de forma bastante agressiva, enquanto a direita se apresenta como mais reativa e moderada. No plano cultural e art\u00edstico, por\u00e9m, o m\u00e9todo \u00e9 o inverso: a sedu\u00e7\u00e3o paulatina. Um recurso cl\u00e1ssico dessa estrat\u00e9gia consiste em levar o p\u00fablico a se afei\u00e7oar justamente a personagens moralmente problem\u00e1ticos ou amb\u00edguos como, por exemplo, fazer com que a pessoa se apaixone pelo vil\u00e3o. Esse cen\u00e1rio s\u00f3 pode ser modificado por um conjunto de fatores.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, o indiv\u00edduo precisaria abandonar esse ressentimento improdutivo, confiar mais na pr\u00f3pria for\u00e7a interior, reclamar menos e produzir mais e, sobretudo, resgatar a pr\u00f3pria sensibilidade. Parece que a direita atual gosta mais de falar de arte do que de \u201cconsumir\u201d arte (por exemplo, muito se fala da import\u00e2ncia da m\u00fasica cl\u00e1ssica, mas pouco se escuta m\u00fasica cl\u00e1ssica).<\/p>\n<p>Em segundo lugar, as empresas teriam de romper com a mentalidade estreitamente mercantil, que transforma toda obra numa aposta de retorno imediato. Arte n\u00e3o se faz apenas com c\u00e1lculo e roteiro <em>kitsch<\/em>. Enquanto insistirem em personagens \u00f3bvios e em narrativas previs\u00edveis, que apenas reafirmam certezas pr\u00e9vias, a continuar\u00e3o culturalmente irrelevante. E isso implica, inclusive, financiar quem cria: pagar melhor escritores, roteiristas, atores, musicistas, dar prazos mais longos e, sobretudo, assumir riscos.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu editor me fez a seguinte pergunta: \u201cPor que os conservadores n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o eficazes no mundo das artes quanto&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":218581,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-218580","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/218580","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=218580"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/218580\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/218581"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=218580"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=218580"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=218580"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}