{"id":216362,"date":"2026-02-20T13:21:07","date_gmt":"2026-02-20T17:21:07","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=216362"},"modified":"2026-02-20T13:21:07","modified_gmt":"2026-02-20T17:21:07","slug":"a-vida-vale-mais-que-conviccoes-subjetivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=216362","title":{"rendered":"A vida vale mais que convic\u00e7\u00f5es subjetivas"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/02\/20141703\/3840px-El_Tres_de_Mayo_by_Francisco_de_Goya_from_Prado_in_Google_Earth.jpg.webp\" \/><span>Quando o sacrif\u00edcio vira ideal pol\u00edtico, a virtude degenera em fanatismo e desprezo pela vida. Obra &#8220;Tr\u00eas de Maio de 1808 em Madrid&#8221; (1814), por Francisco de Goya. (Foto: Museu do Prado\/Wikimedia Commons)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>\u00c9 embara\u00e7oso escrever uma tr\u00e9plica quando o autor da r\u00e9plica \u00e9 um \u00eddolo meu, como o economista Adolfo Sachsida. O constrangimento aumenta porque, sem ter mudado meu pensamento sobre o tema (vale a pena morrer por uma causa?), concordo com boa parte do que <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/adolfo-sachsida\/sim-vale-a-pena-dar-a-vida-em-defesa-de-principios\/\">ele escreve em sua coluna<\/a>.<\/p>\n<p>Ainda assim, creio que sua leitura do que <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/polzonoff\/voce-daria-a-vida-por-uma-causa\/\">Polzonoff <\/a>e eu defendemos simplifica e, em certa medida, desloca o ponto central do nosso argumento. Por exemplo, em nenhum momento afirmei que a morte em nome de uma causa \u00e9 desprez\u00edvel. O que questionei foi a eleva\u00e7\u00e3o do sacrif\u00edcio \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de virtude intr\u00ednseca, sem levar em conta o contexto e a falibilidade humana.<\/p>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o \u00e9 crucial: defender genericamente a morte em nome de princ\u00edpios pode ser nobre na inten\u00e7\u00e3o, mas me parece equivocado na premissa e perigoso nas consequ\u00eancias. N\u00e3o se trata de covardia travestida de prud\u00eancia, apenas de uma vis\u00e3o mais s\u00f3bria sobre o valor da vida e a mutabilidade das cren\u00e7as.<\/p>\n<p>Sachsida evoca a tradi\u00e7\u00e3o dos m\u00e1rtires crist\u00e3os. Ora, a f\u00e9 religiosa opera em um horizonte metaf\u00edsico no qual a morte n\u00e3o \u00e9 o fim: nesse caso, a disposi\u00e7\u00e3o ao mart\u00edrio integra uma cosmovis\u00e3o que transcende a exist\u00eancia terrena. Transpor essa l\u00f3gica para a pol\u00edtica exige bastante cautela, porque a pol\u00edtica lida com institui\u00e7\u00f5es humanas, contingentes e imperfeitas. Sacralizar causas pol\u00edticas foi justamente o que j\u00e1 levou a tantas trag\u00e9dias na Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O argumento de que \u201ca hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 atravessada pelo sacrif\u00edcio volunt\u00e1rio\u201d \u00e9 verdadeiro, mas incompleto. A mesma Hist\u00f3ria est\u00e1 repleta de incont\u00e1veis mortes motivadas por certezas absolutas que, mais tarde, revelaram ser equ\u00edvocos morais.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Francesa oferece um exemplo eloquente. A disposi\u00e7\u00e3o de morrer pela revolu\u00e7\u00e3o rapidamente se transformou na disposi\u00e7\u00e3o de matar por ela. Inspirados por ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, revolucion\u00e1rios passaram a considerar leg\u00edtima a elimina\u00e7\u00e3o de todos aqueles percebidos como inimigos da nova ordem \u2014 e muitos terminaram, eles pr\u00f3prios, na guilhotina.<\/p>\n<p>Na Revolu\u00e7\u00e3o Russa, a disposi\u00e7\u00e3o de morrer pelo comunismo contribuiu, na pr\u00e1tica, para uma m\u00e1quina de produzir mortes em escala industrial. A l\u00f3gica era implac\u00e1vel: se a Hist\u00f3ria caminha inexoravelmente rumo ao comunismo, qualquer obst\u00e1culo deve ser removido, e a vida do indiv\u00edduo n\u00e3o tem nenhum valor.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Quando princ\u00edpios s\u00e3o concebidos como absolutos e infal\u00edveis, a disposi\u00e7\u00e3o de morrer por eles tende a eliminar qualquer freio moral<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>No caso dos radicais isl\u00e2micos contempor\u00e2neos, a certeza teol\u00f3gica de deter a verdade \u00faltima legitima tanto o autoaniquilamento quanto o assassinato indiscriminado de civis em atentados suicidas. A morte deixa de ser trag\u00e9dia e passa a ser celebrada como triunfo espiritual.<\/p>\n<p>Em todos esses casos, o princ\u00edpio abstrato em nome do qual vale a pena morrer se converteu em justificativa de viol\u00eancia sistem\u00e1tica. Ou seja, convic\u00e7\u00e3o subjetiva n\u00e3o garante acerto objetivo. Al\u00e9m disso, diferentes grupos, com agendas opostas, frequentemente se veem como protagonistas da mesma batalha \u00e9pica entre liberdade e escravid\u00e3o. N\u00e3o podem todos estar certos. Cansamos de ver jovens morrerem por revolu\u00e7\u00f5es que depois devoraram seus pr\u00f3prios filhos. Ou n\u00e3o?<\/p>\n<p>Quando princ\u00edpios s\u00e3o concebidos como absolutos e infal\u00edveis, a disposi\u00e7\u00e3o de morrer por eles tende a eliminar qualquer freio moral, e a nobreza do sacrif\u00edcio degenera em fanatismo, em desprezo pela vida humana concreta. Aqui cabe a advert\u00eancia de Bertrand Russell: cren\u00e7as mudam n\u00e3o por frivolidade, mas porque aprendemos. Recomendar prud\u00eancia diante do sacrif\u00edcio n\u00e3o relativiza princ\u00edpios: reconhece a humanidade que os sustenta.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Sachsida diferencia, \u00e9 verdade, dar a pr\u00f3pria vida de tirar a vida de outros. O sacrif\u00edcio volunt\u00e1rio ser\u00e1 sempre eticamente superior \u00e0 viol\u00eancia imposta, concordo totalmente. Ainda assim, transformar a disposi\u00e7\u00e3o de morrer em ideal normativo pode ter efeitos colaterais perigosos, como a romantiza\u00e7\u00e3o do mart\u00edrio.<\/p>\n<p>Democracias n\u00e3o devem se apoiar na expectativa de que cidad\u00e3os precisem morrer por elas. A tradi\u00e7\u00e3o liberal, ali\u00e1s, sempre desconfiou da exalta\u00e7\u00e3o da morte como prova suprema de virtude. Institui\u00e7\u00f5es livres prosperam n\u00e3o quando cidad\u00e3os morrem, mas quando defendem seus princ\u00edpios com firmeza e compromisso com meios pac\u00edficos. Quando o discurso pol\u00edtico gira em torno da morte, algo da normalidade democr\u00e1tica j\u00e1 se deteriorou profundamente.<\/p>\n<p>No caso da senhora L\u00facia Helena Canhada Lopes, n\u00e3o se trata de desmerecer sua coragem subjetiva, mas de refletir sobre o significado pol\u00edtico de exaltar sua postura. L\u00facia tem o direito de declarar que aceitaria morrer atingida por um raio em uma manifesta\u00e7\u00e3o pela liberdade. Respeito sua coragem pessoal.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Amar a vida n\u00e3o \u00e9 ego\u00edsmo; \u00e9 reconhecer que a exist\u00eancia \u00e9 o bem primordial sem o qual nenhum princ\u00edpio faz sentido<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Mas resisto a converter essa declara\u00e7\u00e3o em modelo c\u00edvico. Liberdade se conquista com persist\u00eancia, argumenta\u00e7\u00e3o \u2014 e pessoas vivas que a defendem de forma persistente, dia ap\u00f3s dia. Quem morre n\u00e3o debate, n\u00e3o vota, n\u00e3o educa, n\u00e3o constr\u00f3i. O m\u00e1rtir pode inspirar, mas s\u00f3 quem est\u00e1 vivo pode agir.<\/p>\n<p>Pergunto, pragmaticamente: em que a morte de L\u00facia por um raio contribuiria para a causa que ela e tantos brasileiros defendemos? \u00c9 mais f\u00e1cil imaginar que essa trag\u00e9dia serviria de pretexto para o sistema criminalizar protestos, n\u00e3o para fortalec\u00ea-los.<\/p>\n<p>Invocar quem protegeu judeus no regime nazista \u00e9 recorrer a situa\u00e7\u00f5es-limite. Concordo que, em contextos totalit\u00e1rios, a resist\u00eancia pode exigir hero\u00edsmo extremo. Mas, justamente por serem circunst\u00e2ncias excepcionais, n\u00e3o devem virar par\u00e2metro ordin\u00e1rio do debate pol\u00edtico. N\u00e3o se pode converter hero\u00edsmo extraordin\u00e1rio em r\u00e9gua moral cotidiana. Vale lembrar, ali\u00e1s, que Oskar Schindler viveu para contar sua hist\u00f3ria, depois de salvar mais de mil judeus.<\/p>\n<p>Sachsida tamb\u00e9m cita Ronald Reagan: \u201cA vida n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o boa, nem a paz t\u00e3o doce, a ponto de serem compradas ao pre\u00e7o de correntes e escravid\u00e3o.\u201d Bela frase. Mas Reagan n\u00e3o morreu por ela: viveu para ver o Muro de Berlim cair, negociar com Gorbatchev e construir um legado forjado com vida, n\u00e3o com morte. Grandes transformadores modernos escolheram viver para lutar.<\/p>\n<p>H\u00e1, reconhe\u00e7o, momentos em que o sacrif\u00edcio se imp\u00f5e: o soldado que cobre com o corpo uma granada para salvar o pelot\u00e3o; o pai que entra na casa em chamas para resgatar o filho em perigo. S\u00e3o atos imediatos de amor, n\u00e3o de ideologia abstrata. Algo muito diferente \u00e9 elevar \u201cmorrer por uma causa pol\u00edtica\u201d a uma virtude suprema. Isso \u00e9 flertar com o messianismo que tanto criticamos na esquerda.<\/p>\n<p>Sachsida afirma que h\u00e1 momentos raros e decisivos em que pessoas dispostas ao sacrif\u00edcio fazem a diferen\u00e7a entre civiliza\u00e7\u00e3o e barb\u00e1rie. Concordo, mas, na minha opini\u00e3o, colocar essa linha fina no \u201cEstou pronto para morrer\u201d \u00e9 coloc\u00e1-la no lugar errado. A linha deveria estar no \u201cEstou pronto para viver e resistir, mesmo em circunst\u00e2ncias extremas\u201d.<\/p>\n<p>Amar a vida n\u00e3o \u00e9 ego\u00edsmo; \u00e9 reconhecer que a exist\u00eancia \u00e9 o bem primordial sem o qual nenhum princ\u00edpio faz sentido. A civiliza\u00e7\u00e3o avan\u00e7a quando transforma o sangue derramado em li\u00e7\u00e3o, n\u00e3o em receita. O verdadeiro teste de um princ\u00edpio n\u00e3o deveria ser a disposi\u00e7\u00e3o de morrer por ele, mas a capacidade de viver por ele sem se destruir e sem destruir o outro.<\/p>\n<\/div>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o sacrif\u00edcio vira ideal pol\u00edtico, a virtude degenera em fanatismo e desprezo pela vida. 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