{"id":212600,"date":"2026-02-19T07:00:00","date_gmt":"2026-02-19T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=212600"},"modified":"2026-02-19T07:00:00","modified_gmt":"2026-02-19T11:00:00","slug":"conferencia-de-munique-2026-o-discurso-estrategico-de-rubio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=212600","title":{"rendered":"Confer\u00eancia de Munique 2026: o discurso estrat\u00e9gico de Rubio"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O discurso do Secret\u00e1rio de Estado dos EUA, Marco Rubio, na Confer\u00eancia de Seguran\u00e7a de Munique (14 de fevereiro), contrastou fortemente com o proferido um ano antes, no mesmo palco, pelo vice-presidente JD Vance, que abruptamente disse aos l\u00edderes europeus que &#8220;h\u00e1 um novo xerife na cidade&#8221;. Em contraste, Rubio usou um tom mais ponderado para enfatizar os la\u00e7os hist\u00f3ricos e culturais que unem os Estados Unidos e a Europa.<\/p>\n<p>Rubio j\u00e1 havia estado em Munique em diversas ocasi\u00f5es, e seu conhecimento pr\u00e9vio deste f\u00f3rum anual contribuiu para um discurso altamente elaborado e meticulosamente constru\u00eddo, repleto de toques narrativos que conquistaram a plateia, que o aplaudiu de p\u00e9. Contudo, n\u00e3o se pode afirmar com certeza que a interven\u00e7\u00e3o de Rubio tenha tranquilizado os l\u00edderes europeus.<\/p>\n<p>Seu discurso, caracterizado por frequentes refer\u00eancias \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 cultura ocidentais, contrastou fortemente com o proferido no dia anterior pelo chanceler Friedrich Merz, que se concentrou nas quest\u00f5es de seguran\u00e7a e defesa normalmente abordadas em Munique.<\/p>\n<p>\u00c9 surpreendente que Rubio tenha mencionado Trump apenas quatro vezes. Isso levou alguns analistas a perceberem, nesse e em outros detalhes, as aspira\u00e7\u00f5es do secret\u00e1rio de Estado de ser candidato presidencial em 2028, quando termina o segundo mandato de Trump.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 imposs\u00edvel prever qual candidato o atual presidente escolher\u00e1. Em teoria, JD Vance seria o mais pr\u00f3-Trump, embora n\u00e3o se deva esquecer que a proposta de Trump de t\u00ea-lo como vice-presidente foi uma surpresa de \u00faltima hora.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Marco Rubio enfatizou as virtudes da civiliza\u00e7\u00e3o e da cultura ocidentais e elogiou o legado da Europa<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>Em louvor ao Ocidente<\/h2>\n<p>Em Munique, Rubio ministrou uma aula de hist\u00f3ria, relembrando a era da Guerra Fria e como, ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim, a Europa Ocidental e Oriental foram reunificadas. Em seguida, exaltou as virtudes da civiliza\u00e7\u00e3o e da cultura ocidentais, da qual os Estados Unidos fazem parte. Sua defesa do legado europeu chegou ao ponto de elogiar o Estado de Direito, as universidades e a revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Essas declara\u00e7\u00f5es podem parecer um tanto incomuns vindas de um membro do governo Trump, dadas as tens\u00f5es internas na sociedade e na pol\u00edtica americanas. Ainda assim, Rubio continuou a elogiar o legado cultural europeu, com refer\u00eancias expl\u00edcitas a Mozart e Beethoven; Dante e Shakespeare; Michelangelo e Leonardo; os Beatles e os Rolling Stones.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m se entregou a uma explora\u00e7\u00e3o est\u00e9tica da grandeza do passado, relembrando os afrescos da Capela Sistina e as torres da Catedral de Col\u00f4nia.<\/p>\n<p>Rubio demonstrou a mesma emo\u00e7\u00e3o ao se referir, na hist\u00f3ria americana, a figuras escocesas e irlandesas, bem como aos colonizadores alem\u00e3es, franceses e espanh\u00f3is que contribu\u00edram para o nascimento e a expans\u00e3o de seu pa\u00eds. Por fim, reconheceu com orgulho sua heran\u00e7a como descendente de italianos e espanh\u00f3is que emigraram para o Novo Mundo no s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Cr\u00edticas \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Contudo, essas refer\u00eancias elogiosas ao passado contrastam fortemente com as cr\u00edticas dirigidas aos pa\u00edses ocidentais pelos erros cometidos no processo de globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Rubio denunciou como perigosa a ilus\u00e3o de que est\u00e1vamos testemunhando o fim da hist\u00f3ria com o triunfo da democracia liberal e a expans\u00e3o dos la\u00e7os forjados pelo com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>Foi um erro ter esquecido os interesses nacionais e fomentado o livre com\u00e9rcio irrestrito, o que, entre outras consequ\u00eancias, levou \u00e0 desindustrializa\u00e7\u00e3o e ao controle das cadeias de suprimentos por outras pot\u00eancias. Na vis\u00e3o de Rubio, a globaliza\u00e7\u00e3o enfraqueceu a Europa. No entanto, os Estados Unidos, gra\u00e7as ao governo Trump, est\u00e3o reagindo e abrindo caminho para que o Ocidente, e a Europa em particular, recupere sua for\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 muito prov\u00e1vel que, neste ponto do discurso, os l\u00edderes europeus presentes n\u00e3o tenham percebido refer\u00eancias concretas \u00e0 seguran\u00e7a e \u00e0 defesa, e alguns podem at\u00e9 ter se perguntado o que os Estados Unidos realmente pretendem defender.<\/p>\n<p>A esse respeito, Marco Rubio enfatizou que \u201cos ex\u00e9rcitos n\u00e3o lutam por abstra\u00e7\u00f5es, mas por um povo, uma na\u00e7\u00e3o e um modo de vida\u201d. Parece que o secret\u00e1rio de Estado pretendia estabelecer uma liga\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as armadas e a defesa da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, pode-se questionar o que o pol\u00edtico quis dizer com abstra\u00e7\u00f5es, embora provavelmente tenha se referido ao oposto, ou seja, ao interesse nacional, sempre figurando em primeiro lugar entre os objetivos do governo Trump. Mas n\u00e3o \u00e9 menos verdade que conciliar interesses nacionais opostos sempre foi complexo, algo que, mais cedo ou mais tarde, contribui para minar alian\u00e7as.<\/p>\n<p>Apesar de tudo, Rubio insistiu que n\u00e3o \u00e9 objetivo nem desejo dos Estados Unidos romper o v\u00ednculo transatl\u00e2ntico, embora haja in\u00fameras manchetes sugerindo que seu fim est\u00e1 pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, afirmou que os americanos querem uma Europa mais forte, e n\u00e3o enfraquecida, porque dessa forma \u201cresponderemos e deteremos as for\u00e7as que hoje amea\u00e7am aniquilar a civiliza\u00e7\u00e3o, tanto na Europa quanto na Am\u00e9rica\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 men\u00e7\u00e3o expl\u00edcita dessas for\u00e7as no discurso; portanto, n\u00e3o se pode afirmar que sejam outras pot\u00eancias. \u00c9 muito prov\u00e1vel que essas for\u00e7as sejam ideologias ou correntes de opini\u00e3o, e n\u00e3o tanto uma amea\u00e7a militar. Deve-se acrescentar que seriam for\u00e7as que contribuem para o decl\u00ednio do mundo ocidental, visto que Marco Rubio afirmou que \u201cn\u00f3s, americanos, n\u00e3o temos interesse em ser os guardi\u00f5es polidos e ordeiros do decl\u00ednio controlado do Ocidente\u201d.<\/p>\n<p>Essa percep\u00e7\u00e3o cultural contrasta com a da grande maioria dos pa\u00edses europeus, que enxergam uma amea\u00e7a militar concreta por parte da R\u00fassia de Putin ap\u00f3s a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia. De fato, durante a sess\u00e3o de perguntas e respostas ap\u00f3s seu discurso, o secret\u00e1rio de Estado afirmou simplesmente que n\u00e3o sabia se os russos estavam falando s\u00e9rio quando disseram que queriam acabar com a guerra na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>A reivindica\u00e7\u00e3o da Europa<\/h2>\n<p>O discurso de Marco Rubio contrastou fortemente com o do chanceler Friedrich Merz, que foi muito mais expl\u00edcito em quest\u00f5es de seguran\u00e7a e defesa e representou uma reafirma\u00e7\u00e3o do papel da Europa, e da Alemanha em particular, na nova era das grandes pot\u00eancias.<\/p>\n<p>Merz falou com franqueza incisiva, especialmente para enfatizar que a velha ordem mundial desapareceu: &#8220;Essa ordem, por mais imperfeita que tenha sido em seu auge, n\u00e3o existe mais em sua forma original&#8221;.<\/p>\n<p>Merz demonstrou um pragmatismo semelhante ao do primeiro-ministro canadense Mark Carney em Davos, no sentido de que a Europa deve confiar em suas pr\u00f3prias for\u00e7as e diversificar suas parcerias com outros pa\u00edses. N\u00e3o se trata de resignar-se \u00e0 inevitabilidade dos acontecimentos, mas de contribuir para moldar a realidade.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Merz defendia a exist\u00eancia de um pilar europeu forte e aut\u00f4nomo dentro da OTAN, e que o ex\u00e9rcito alem\u00e3o se tornasse o mais poderoso da Europa<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>No entanto, Merz rejeitou rea\u00e7\u00f5es dr\u00e1sticas: &#8220;N\u00e3o me convence o apelo, por vezes excessivamente instintivo, para que a Europa simplesmente abandone sua rela\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos&#8221;.<\/p>\n<p>Merz defendeu a exist\u00eancia de um pilar europeu forte e aut\u00f4nomo no seio da OTAN, bem como o objetivo de tornar o ex\u00e9rcito alem\u00e3o o mais poderoso da Europa, posi\u00e7\u00e3o que j\u00e1 ocupa h\u00e1 muito tempo. O destacamento de uma brigada alem\u00e3 com cerca de 5.000 soldados para a Litu\u00e2nia, no \u00e2mbito do compromisso da OTAN com os pa\u00edses b\u00e1lticos, \u00e9 digno de nota.<\/p>\n<p>Em seu discurso, Merz enfatizou que as pol\u00edticas de seguran\u00e7a e competitividade caminham juntas no mundo atual. Marco, por outro lado, referiu-se \u00e0 OTAN como uma alian\u00e7a historicamente bem-sucedida, mas fez apenas men\u00e7\u00f5es gen\u00e9ricas \u00e0 liga\u00e7\u00e3o transatl\u00e2ntica.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o chanceler alem\u00e3o lembrou os limites do poder dos EUA quando age unilateralmente. Isso pode evocar a fracassada interven\u00e7\u00e3o americana no Iraque, apesar da coaliz\u00e3o de pa\u00edses volunt\u00e1rios. \u00c9 poss\u00edvel que Merz e outros l\u00edderes pol\u00edticos suspeitem que o governo Trump possa um dia usar essa t\u00e1tica com alguns aliados europeus, mesmo que isso contribua para minar a OTAN e esvazi\u00e1-la de seu prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Por outro lado, Merz salientou que a Europa deve procurar parceiros em outros pa\u00edses, mesmo que os valores e interesses nem sempre sejam os mesmos, mencionando especificamente o Canad\u00e1, o Jap\u00e3o, a \u00cdndia, o Brasil, a \u00c1frica do Sul e os Estados do Golfo.<\/p>\n<h2>Preocupa\u00e7\u00e3o americana em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Alemanha<\/h2>\n<p>\u00c9 importante notar que o discurso de Friedrich Merz provavelmente suscitar\u00e1 algumas preocupa\u00e7\u00f5es sobre a Alemanha nos Estados Unidos. Um exemplo disso \u00e9 o artigo &#8220;A Pr\u00f3xima Hegemonia da Europa&#8221;, publicado na revista Foreign Affairs (mar\u00e7o-abril de 2026), da cientista pol\u00edtica Liana Fix.<\/p>\n<p>O artigo evoca mem\u00f3rias da Alemanha expansionista do s\u00e9culo XX e expressa o temor de que o partido AfD possa chegar ao poder, levando \u00e0 sa\u00edda da Alemanha da OTAN e da UE, e simultaneamente desencadeando um revanchismo contra seus vizinhos.<\/p>\n<p>Contudo, a autora parece ignorar o fato de que o sistema eleitoral alem\u00e3o n\u00e3o permite que nenhum partido obtenha maioria absoluta. Uma coaliz\u00e3o desse tipo seria necess\u00e1ria, mas atualmente \u00e9 impens\u00e1vel. Mesmo assim, Fix destaca que os destinos da Alemanha e da Europa est\u00e3o interligados.<\/p>\n<p>Em \u00faltima an\u00e1lise, o discurso de Merz \u00e9 mais realista do que o discurso civilizacional de Rubio. Ambos concordam em n\u00e3o querer romper o v\u00ednculo transatl\u00e2ntico, embora n\u00e3o concordem totalmente sobre a melhor maneira de preserv\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong>\u00a92026 Aceprensa. Publicado com permiss\u00e3o. Original em espanhol: <a href=\"https:\/\/www.aceprensa.com\/politica\/geopolitica\/rubio-y-merz-en-munich-lecciones-de-civilizacion-y-realismo\/\">Rubio y Merz en M\u00fanich: lecciones de civilizaci\u00f3n y realismo<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O discurso do Secret\u00e1rio de Estado dos EUA, Marco Rubio, na Confer\u00eancia de Seguran\u00e7a de Munique (14 de fevereiro), contrastou&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":212601,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-212600","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/212600","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=212600"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/212600\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/212601"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=212600"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=212600"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=212600"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}