{"id":210161,"date":"2026-02-18T10:47:49","date_gmt":"2026-02-18T14:47:49","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=210161"},"modified":"2026-02-18T10:47:49","modified_gmt":"2026-02-18T14:47:49","slug":"como-pesquisadores-brasileiros-criaram-cerveja-a-partir-de-dejetos-de-suinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=210161","title":{"rendered":"Como pesquisadores brasileiros criaram cerveja a partir de dejetos de su\u00ednos"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Uma cerveja artesanal produzida com \u00e1gua que, em algum momento do processo, teve origem nos dejetos de su\u00ednos. A proposta pode soar estranha, mas foi precisamente esse impacto inicial que ajudou pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (<a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/embrapa\/\">Embrapa<\/a>) a levar um debate t\u00e9cnico para fora dos laborat\u00f3rios e alcan\u00e7ar o p\u00fablico em geral.<\/p>\n<p>O experimento foi desenvolvido por pesquisadores da Embrapa Su\u00ednos e Aves, em Conc\u00f3rdia, regi\u00e3o oeste de Santa Catarina, ap\u00f3s mais de 10 anos de estudos sobre tratamento de efluentes da suinocultura. A iniciativa demonstrou que res\u00edduos da produ\u00e7\u00e3o de su\u00ednos podem ser transformados em \u00e1gua pot\u00e1vel, <strong>atendendo aos padr\u00f5es exigidos para consumo humano<\/strong>.<\/p>\n<p>Os pesquisadores utilizaram a \u00e1gua potabilizada, de forma experimental, na produ\u00e7\u00e3o de 40 litros de cerveja artesanal. Eles <strong>n\u00e3o colocaram a bebida \u00e0 venda<\/strong>: o produto ficou dispon\u00edvel para degusta\u00e7\u00e3o em eventos cient\u00edficos ao longo de 2024 e 2025, acompanhada de explica\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e an\u00e1lises laboratoriais.<\/p>\n<p>Segundo os pesquisadores, <strong>a cerveja n\u00e3o \u00e9 o objetivo final do projeto<\/strong>, e sim uma ferramenta de comunica\u00e7\u00e3o. A proposta foi mostrar, de maneira pr\u00e1tica e acess\u00edvel, que o re\u00faso da \u00e1gua \u00e9 tecnicamente vi\u00e1vel e pode fazer parte das solu\u00e7\u00f5es para a crescente press\u00e3o sobre os recursos h\u00eddricos.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Sistema de tratamento permite recuperar energia, nutrientes e \u00e1gua de alta qualidade<\/h2>\n<p>O ponto de partida do experimento n\u00e3o foi a cerveja, e sim um sistema de tratamento de dejetos de su\u00ednos desenvolvido por pesquisadores da Embrapa em parceria com universidades. A tecnologia, conhecida como Sistrates, teve a patente concedida em 2015 e \u00e9 licenciada para comercializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O sistema re\u00fane v\u00e1rias etapas integradas de tratamento. Inicialmente, o efluente bruto da granja passa por biodigestores, onde ocorre a produ\u00e7\u00e3o de biog\u00e1s e a recupera\u00e7\u00e3o de energia a partir da mat\u00e9ria org\u00e2nica presente nos dejetos. Em seguida, processos f\u00edsico-qu\u00edmicos e biol\u00f3gicos permitem a remo\u00e7\u00e3o de nitrog\u00eanio e a recupera\u00e7\u00e3o de f\u00f3sforo.<\/p>\n<p>Ao longo dessas etapas, a \u00e1gua vai sendo progressivamente limpa at\u00e9 atingir um padr\u00e3o conhecido como de re\u00faso, padr\u00e3o que segundo os pesquisadores atende \u00e0s exig\u00eancias ambientais para lan\u00e7amento em corpos h\u00eddricos, conforme a resolu\u00e7\u00e3o do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), e permite diferentes formas de reaproveitamento.<\/p>\n<p>\u201cEssa \u00e1gua pode ser usada para irriga\u00e7\u00e3o, piscicultura ou para retornar \u00e0 pr\u00f3pria granja, em atividades como a lavagem das instala\u00e7\u00f5es\u201d, explica o analista da Embrapa Ricardo Steinmetz.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/02\/18093644\/cerveja-a-partir-de-dejetos-de-suinos.jpg.webp\" \/><i>A garrafa da esquerda cont\u00e9m \u00e1gua sa\u00edda do sistema de tratamento na granja, enquanto o recipiente da direita, com \u00e1gua pot\u00e1vel, mostra a que passou por tratamento adicional, produzida a partir da primeira garrafa. (Foto: Ricardo Steinmetz\/Acervo pessoal)<\/i><\/p>\n<h2>Tecnologia opera em granja comercial <\/h2>\n<p>Desde 2014, o sistema Sistrates est\u00e1 em opera\u00e7\u00e3o em uma granja comercial de grande porte no munic\u00edpio de Videira (SC). Steinmetz explica que a propriedade abriga cerca de 10 mil matrizes su\u00ednas e n\u00e3o disp\u00f5e de \u00e1rea agr\u00edcola suficiente para a aplica\u00e7\u00e3o dos dejetos como fertilizante, o que torna o tratamento essencial para a continuidade da atividade.<\/p>\n<p>A ado\u00e7\u00e3o da tecnologia permite que a granja mantenha a produ\u00e7\u00e3o em funcionamento. A propriedade reutiliza o efluente tratado em diferentes processos internos, o que reduz a necessidade de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua nova.<\/p>\n<p>De acordo com o professor Marcelo Bortoli, da Universidade Tecnol\u00f3gica Federal do Paran\u00e1 (UTFPR), a qualidade da \u00e1gua gerada pelo sistema chama aten\u00e7\u00e3o. \u201cEm muitos momentos, essa \u00e1gua apresenta padr\u00e3o superior \u00e0 \u00e1gua captada diretamente do rio\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Apesar disso, os pesquisadores destacam que<strong> \u00e1gua de re\u00faso n\u00e3o \u00e9 automaticamente \u00e1gua pot\u00e1vel<\/strong>. Mesmo com boa qualidade, ela ainda precisa passar por tratamentos adicionais para atender \u00e0s normas estabelecidas pela Portaria de Potabilidade do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Etapas adicionais propiciam que \u00e1gua alcance padr\u00e3o de potabilidade<\/h2>\n<p>Para transformar a \u00e1gua de re\u00faso em \u00e1gua pot\u00e1vel, os pesquisadores aplicaram um tratamento complementar em laborat\u00f3rio, semelhante ao realizado em esta\u00e7\u00f5es de tratamento de \u00e1gua de munic\u00edpios. O processo envolveu coagula\u00e7\u00e3o, filtra\u00e7\u00e3o, clora\u00e7\u00e3o e monitoramento rigoroso de par\u00e2metros f\u00edsico-qu\u00edmicos e microbiol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das an\u00e1lises exigidas pela legisla\u00e7\u00e3o, o grupo fez testes adicionais, incluindo a busca por v\u00edrus e microrganismos espec\u00edficos da suinocultura, utilizados como marcadores biol\u00f3gicos. Esses controles superam o que as normas brasileiras exigem, dizem os pesquisadores.<\/p>\n<p>\u201cO objetivo era eliminar qualquer d\u00favida sobre seguran\u00e7a. Quer\u00edamos garantir que a \u00e1gua fosse segura para consumo humano antes de utiliz\u00e1-la na produ\u00e7\u00e3o da cerveja&#8221;, explica Steinmetz. Ap\u00f3s cumprir todas essas etapas e atender aos padr\u00f5es de potabilidade estabelecidos pela Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa), os pesquisadores destinaram a \u00e1gua \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da bebida artesanal.<\/p>\n<h2>Produ\u00e7\u00e3o de cerveja com dejetos de su\u00ednos como estrat\u00e9gia para quebrar resist\u00eancia cultural<\/h2>\n<p>A ideia de produzir cerveja surgiu em meio \u00e0 dificuldade de convencer gestores de granjas sobre a seguran\u00e7a da \u00e1gua tratada, mesmo para usos menos nobres, como a lavagem das instala\u00e7\u00f5es. A resist\u00eancia persistia apesar de an\u00e1lises t\u00e9cnicas e resultados laboratoriais positivos.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que Steinmetz, que \u00e9 cervejeiro caseiro, sugeriu potabilizar a \u00e1gua e utiliz\u00e1-la para produzir cerveja. O que come\u00e7ou como uma provoca\u00e7\u00e3o acabou sendo incorporado como uma estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cForam produzidos 40 litros, um volume t\u00edpico de produ\u00e7\u00e3o caseira\u201d, relata o analista. \u201cEm nenhum momento a inten\u00e7\u00e3o foi comercializar. <strong>A ideia era provocar reflex\u00e3o<\/strong>.\u201d A cerveja passou por an\u00e1lises adicionais, inclusive em laborat\u00f3rio do Servi\u00e7o Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-SC), antes de ser apresentada ao p\u00fablico.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/02\/18093652\/cerveja-a-partir-de-dejetos-de-suinos-2.jpg.webp\" \/><i>Processo de mistura que ocorre depois de adicionar a cevada. (Foto: Ricardo Steinmetz\/Acervo pessoal)<\/i><\/p>\n<h2>Degusta\u00e7\u00f5es da cerveja feita com dejetos de su\u00ednos mostraram curiosidade<\/h2>\n<p>A bebida foi apresentada em eventos cient\u00edficos e em a\u00e7\u00f5es de divulga\u00e7\u00e3o, como o <em>Pint of Science<\/em>, festival internacional que leva pesquisadores a bares para conversar com o p\u00fablico. Em Francisco Beltr\u00e3o (PR), cerca de 200 pessoas participaram da atividade.<\/p>\n<p>Durante o evento, os pesquisadores convidaram os participantes a degustar pequenas amostras da cerveja e a responder a um question\u00e1rio sobre percep\u00e7\u00e3o, curiosidade e aceita\u00e7\u00e3o. Eles tamb\u00e9m ofereceram a possibilidade de responder mesmo sem provar a bebida.<\/p>\n<p>Segundo Bortoli, a rea\u00e7\u00e3o inicial foi de surpresa, mas a curiosidade prevaleceu. \u201cMuita gente esperava um gosto diferente, algo estranho. Quando provavam, percebiam que era uma cerveja normal\u201d, afirma. Os pesquisadores observaram que houve tanto aceita\u00e7\u00e3o quanto rejei\u00e7\u00e3o \u2014 e ambos os grupos trouxeram informa\u00e7\u00f5es para compreender as barreiras culturais relacionadas ao re\u00faso da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Para os pesquisadores, o experimento evidenciou que o principal obst\u00e1culo ao re\u00faso pot\u00e1vel da \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 t\u00e9cnico, mas cultural. \u201c\u00c9 uma quest\u00e3o muito mais social do que cient\u00edfica\u201d, avalia Steinmetz.<\/p>\n<p>Em outros pa\u00edses, como Alemanha e Singapura, o re\u00faso pot\u00e1vel \u00e9 realidade, inclusive com \u00e1gua proveniente de esta\u00e7\u00f5es de tratamento de esgoto urbano como fonte para produzir bebidas comerciais. \u201cA cerveja foi uma forma de romper o muro: ajuda a mostrar que o re\u00faso pode ser seguro e que o debate precisa avan\u00e7ar\u201d, resume Steinmetz.<\/p>\n<p>A pr\u00f3xima etapa do trabalho \u00e9 captar recursos para desenvolver um novo projeto, com foco na amplia\u00e7\u00e3o dos estudos sobre percep\u00e7\u00e3o social e poss\u00edveis aplica\u00e7\u00f5es em maior escala. O grupo tamb\u00e9m atua em outras frentes relacionadas ao reaproveitamento de res\u00edduos.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da recupera\u00e7\u00e3o de nutrientes para produ\u00e7\u00e3o de fertilizantes e parcerias com institui\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais, incluindo grupos da Uni\u00e3o Europeia. \u201cNosso foco n\u00e3o \u00e9 criar um produto para prateleira. O custo seria elevado, e buscamos promover sustentabilidade e mudan\u00e7a de mentalidade\u201d, refor\u00e7a Steinmetz.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma cerveja artesanal produzida com \u00e1gua que, em algum momento do processo, teve origem nos dejetos de su\u00ednos. 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