{"id":178292,"date":"2026-02-06T09:35:48","date_gmt":"2026-02-06T13:35:48","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=178292"},"modified":"2026-02-06T09:35:48","modified_gmt":"2026-02-06T13:35:48","slug":"nao-para-agradar-nao-para-inflamar-os-107-anos-da-gazeta-do-povo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=178292","title":{"rendered":"N\u00e3o para agradar, n\u00e3o para inflamar: os 107 anos da Gazeta do Povo"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Nesta semana, a <strong>Gazeta do Povo<\/strong> completou 107 anos de exist\u00eancia. N\u00e3o continue a leitura como se o significado disso fosse pequeno ou \u00f3bvio. Voc\u00ea sabe quantos <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/jornalismo\/\">jornais<\/a> brasileiros ativos s\u00e3o mais perenes do que a Gazeta? Poucos.<\/p>\n<p>Para se ter uma ideia, dos considerados tr\u00eas maiores do Pa\u00eds, apenas o <em>Estado de S. Paulo<\/em> tem mais idade; <em>Folha de S.Paulo<\/em> e <em>O Globo<\/em> s\u00e3o mais jovens. Embora existam outros ve\u00edculos regionais mais antigos, poucos t\u00eam base de assinantes e alcance nacional como esta <strong>Gazeta do Povo<\/strong>.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 somente um jornal tradicional, tamb\u00e9m \u00e9 pioneiro. De todos os grandes ve\u00edculos em circula\u00e7\u00e3o, foi o primeiro a migrar integralmente para o formato digital, algo que ser\u00e1 inevit\u00e1vel para todos em um futuro pr\u00f3ximo. E se tornou ainda maior depois disso, deixando de ser regional para ser nacional.<\/p>\n<p>Talvez por isso muitos leitores e assinantes n\u00e3o tenham no\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00eddias novas, nascidas digitais, sejam sites de not\u00edcias, revistas digitais, perfis de rede social, blogs, newsletters e coisas assim. N\u00e3o: a <strong>Gazeta do Povo<\/strong> n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O pa\u00eds conhece muitos homens influentes, mas poucos dispostos a pagar o pre\u00e7o de dizer o que pensam quando o assunto \u00e9 o topo do sistema.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Se o leitor n\u00e3o \u00e9 daqui de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/curitiba\/\">Curitiba<\/a> e, caso esteja por aqui algum dia, convido a passear pela regi\u00e3o da pra\u00e7a Carlos Gomes, mais especificamente na rua Monsenhor Celso. Passar\u00e1 por um pr\u00e9dio centen\u00e1rio que, por d\u00e9cadas, foi a sede do jornal. Repare na cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>Sim, na cal\u00e7ada de <em>petit-pav\u00e9<\/em>. Depois do Rio e de Manaus, Curitiba foi uma das primeiras cidades do pa\u00eds a receber esse tipo de cal\u00e7amento em meados da d\u00e9cada de 1930, remontando o estilo dos portugueses, que foram respons\u00e1veis por trazer as pedras ao pa\u00eds no in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Entre figuras de ros\u00e1ceas, pinh\u00f5es, arauc\u00e1rias e outros s\u00edmbolos paranistas que est\u00e3o por v\u00e1rios pontos da cidade, em especial no centro, ali na Monsenhor Celso, defronte do antigo pr\u00e9dio da <strong>Gazeta<\/strong>, o <em>petit-pav\u00e9<\/em> traz inscrito o nome do jornal repetidas vezes.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode enxergar nisso apenas um ornamento urbano e, em mim, um nost\u00e1lgico puxa-saco. Mas creio que isso simboliza muito mais nesta nova era digital, que democratizou o jornalismo, mas tamb\u00e9m barateou a responsabilidade.<\/p>\n<p>Estamos acostumados a confundir fofoca com informa\u00e7\u00e3o, engajamento com relev\u00e2ncia e opini\u00e3o com prova. Nunca foi t\u00e3o caro sustentar uma linha editorial embasada em convic\u00e7\u00f5es claras, com coragem de contrariar o corporativismo da imprensa e das elites, o consenso instant\u00e2neo, o linchamento do momento. A <em><strong>Gazeta do Povo<\/strong><\/em> fez e faz isso.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>E neste anivers\u00e1rio aconteceu algo ainda mais impressionante. O presidente da <strong>Gazeta do Povo<\/strong> apareceu: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Ex_EMCFcaOA\">gravou um v\u00eddeo que merece ser visto e compartilhado<\/a>. N\u00e3o foi para \u201cmarcar presen\u00e7a\u201d, como quem sorri para o bolo e agradece aos assinantes com a linguagem neutra das comemora\u00e7\u00f5es corporativas. Foi para falar do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ele descreveu uma situa\u00e7\u00e3o de \u201cpermanente suspens\u00e3o do Estado de Direito e da vida democr\u00e1tica\u201d, atribu\u00edda \u00e0 hipertrofia do Poder Judici\u00e1rio. E, sem meias palavras, cravou o diagn\u00f3stico: uma \u201cditadura do Judici\u00e1rio\u201d. N\u00e3o parou a\u00ed: em vez de encerrar no alarme, foi adiante, apontou caminhos, sugeriu a\u00e7\u00f5es, ofereceu ideias concretas do que fazer.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil explicar a gravidade desse gesto sem cair em exagero. Donos de jornal sempre existiram, mas um dono, de rosto aberto, voz pr\u00f3pria e CPF simb\u00f3lico diante do poder, quase nunca.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o brasileira sempre preferiu o conforto da penumbra: o editorial sem assinatura, a nota \u201cda dire\u00e7\u00e3o\u201d, a indigna\u00e7\u00e3o em terceira pessoa. O pa\u00eds conhece muitos homens influentes, mas poucos dispostos a pagar o pre\u00e7o de dizer o que pensam quando o assunto \u00e9 o topo do sistema.<\/p>\n<p>Num ambiente em que diverg\u00eancia virou m\u00e1-f\u00e9, em que cr\u00edtica virou crime, em que o vocabul\u00e1rio democr\u00e1tico \u00e9 usado para justificar pr\u00e1ticas cada vez menos democr\u00e1ticas, expor-se contra isso \u00e9 um ato de risco. N\u00e3o apenas o de virar alvo, de se tornar pretexto para novas arbitrariedades. Mas tamb\u00e9m o risco de ser reduzido a caricatura para que o conte\u00fado do que foi dito n\u00e3o precise ser enfrentado.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma passagem b\u00edblica que assombra \u00e9pocas de mudez diante da verdade: se a gente se cala, as pedras clamam. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que, na Monsenhor Celso, o nome do jornal est\u00e1 inscrito em pedra. \u00a0<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta semana, a Gazeta do Povo completou 107 anos de exist\u00eancia. 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