{"id":177746,"date":"2026-02-06T05:01:00","date_gmt":"2026-02-06T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=177746"},"modified":"2026-02-06T05:01:00","modified_gmt":"2026-02-06T09:01:00","slug":"celebremos-um-ano-de-restricao-aos-celulares-nas-escolas-mas-e-preciso-avancar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=177746","title":{"rendered":"Celebremos um ano de restri\u00e7\u00e3o aos celulares nas escolas \u2013 mas \u00e9 preciso avan\u00e7ar"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>H\u00e1 palavras que sintetizam \u00e9pocas e, para o ano letivo de 2025, a escolha \u00e9 simples e poderosa: mais v\u00ednculos. \u00c9 dessa forma que pode ser resumido o impacto do banimento nacional e padronizado do uso de celulares no ambiente escolar, determinado pela Lei 15.100, de 13 de janeiro de 2025. A norma estabeleceu que, em todas as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas, o uso de aparelhos eletr\u00f4nicos pessoais s\u00f3 \u00e9 permitido mediante orienta\u00e7\u00e3o de professores(as) e com finalidade did\u00e1tica. Da Educa\u00e7\u00e3o Infantil ao Ensino M\u00e9dio, o recado foi claro: durante aulas, recreios e intervalos, o celular deve permanecer guardado na mochila ou em local definido pela escola.<\/p>\n<p>O balan\u00e7o desse primeiro ano \u00e9, sem exagero, auspicioso, pois diretores, professores e fam\u00edlias reconhecem que a medida devolveu \u00e0 escola algo que estava se perdendo: a conviv\u00eancia, o olhar direto, a conversa espont\u00e2nea. No in\u00edcio, houve relatos de \u201cabstin\u00eancia digital\u201d, mas, com o tempo, esse desconforto cedeu lugar a descobertas, como bem disse meu neto de 13 anos, com a sabedoria despretensiosa dos jovens: \u201cnos intervalos, agora temos tempo para bons papos, jogar bola, brincar, ir \u00e0 biblioteca\u201d. A lei trouxe o que faltava: um padr\u00e3o nacional, que encerrou o velho argumento dos estudantes de que \u201cna escola A pode, na escola B tamb\u00e9m\u201d, alinhando o Brasil a um movimento que se espalha pelo mundo.<\/p>\n<p>A medida tamb\u00e9m devolveu o protagonismo ao docente, ao lhe caber decidir quando o celular pode (e quando n\u00e3o pode) ser ferramenta pedag\u00f3gica. Assim, passam a ficar sob controle a distra\u00e7\u00e3o f\u00e1cil e abundante, as espiadelas furtivas durante a explica\u00e7\u00e3o, as mensagens trocadas com cr\u00edticas ao(\u00e0) professor(a), as brincadeiras, as paqueras e at\u00e9 mesmo as chamadas sonoras que interrompiam a aula o tempo todo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, acabou o pedido recorrente, na verdade um sinal pregui\u00e7oso de falta de aten\u00e7\u00e3o e de dedica\u00e7\u00e3o (\u201cProfessor, n\u00e3o apague a lousa, quero fazer um print.\u201d), apesar de a neuroci\u00eancia ser categ\u00f3rica ao demonstrar que escrever usando l\u00e1pis ou caneta fortalece a mem\u00f3ria. Mais grave ainda: qualquer pergunta que poderia gerar debate se esvaziava quando um aluno sacava o celular e consultava, em segundos, uma resposta pronta, muitas vezes produzida por IA.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Vivemos em um mundo em que o brilho das telas seduz cedo demais, e o uso de dispositivos por crian\u00e7as e adolescentes brasileiros est\u00e1 entre os mais elevados do mundo, um dado que n\u00e3o deve nos envaidecer<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Atualmente, a maioria dos professores afirma que o grande desafio j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a indisciplina, mas a apatia, o desinteresse e a dispers\u00e3o, fen\u00f4menos que alguns chamam de \u201caus\u00eancia presencial\u201d. A reinven\u00e7\u00e3o do papel do docente (antigamente um mero transmissor de conte\u00fado e agora mediador, mentor e curador) se torna ainda mais urgente nos dias de hoje, diante da avalanche de transforma\u00e7\u00f5es trazidas pela intelig\u00eancia artificial, que j\u00e1 remodela a educa\u00e7\u00e3o e todo o nosso modus vivendi et operandi, levando muitos educadores a se sentirem perplexos, como quem observa o despertar de um gigante insond\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ainda que tenha produzido avan\u00e7os tang\u00edveis, \u00e9 evidente que a proibi\u00e7\u00e3o do celular n\u00e3o elimina a necessidade de uma educa\u00e7\u00e3o digital robusta, dentro e fora da escola, com fam\u00edlias, institui\u00e7\u00f5es de ensino e legisladores caminhando juntos. Crian\u00e7as e jovens precisam desenvolver autocontrole, discernimento e senso cr\u00edtico, aprendendo a distinguir o joio do trigo em um ambiente online que, sem exagero, pode ser descrito como \u201cmeu bem, meu mal\u201d. Em tom de blague, diria que a internet parece fruto de um cons\u00f3rcio entre Deus e o diabo. Ademais, grande parte do conte\u00fado online atual j\u00e1 \u00e9 gerada por rob\u00f4s e, mais recentemente, por IA \u2013 sem modera\u00e7\u00e3o, sem verifica\u00e7\u00e3o, sem intera\u00e7\u00e3o humana \u2013, seja em forma de texto, seja em forma de postagens, imagens e v\u00eddeos.<\/p>\n<p>A neuroci\u00eancia faz um alerta importante: estudo da Universidade de Harvard confirma que o uso excessivo de dispositivos compromete \u00e1reas cerebrais ligadas \u00e0 aten\u00e7\u00e3o e \u00e0 tomada de decis\u00f5es. N\u00e3o por acaso, o termo brain rot \u2013 \u201cc\u00e9rebro podre\u201d \u2013 foi escolhido como palavra do ano de 2024, pelo Dicion\u00e1rio Oxford, para descrever o desgaste mental provocado pelo consumo compulsivo de conte\u00fados fr\u00edvolos, que roubam do usu\u00e1rio a capacidade de enfrentar tarefas complexas, essenciais \u00e0 sa\u00fade cognitiva.<\/p>\n<p>No mundo inteiro, cresce tamb\u00e9m o movimento por normas mais rigorosas para plataformas como YouTube, Instagram, TikTok, X e similares, com o objetivo de proteger, em especial, o p\u00fablico infantojuvenil e aliviar as fam\u00edlias de um monitoramento que se tornou quase imposs\u00edvel e que, quando implementado, transforma pais em \u201ccarrascos\u201d. Afinal, o argumento retorna sempre o mesmo: \u201cmas todos os meus amigos usam.\u201d<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A Austr\u00e1lia deu um exemplo contundente ao aprovar, em 10 de dezembro de 2025, uma lei que obriga as plataformas a desativar todas as contas de menores de 16 anos e a impedir novas cria\u00e7\u00f5es at\u00e9 que essa idade seja atingida. As penalidades s\u00e3o severas, com multas que podem chegar a 200 milh\u00f5es de reais. Fran\u00e7a, Dinamarca e outros pa\u00edses europeus j\u00e1 discutem medidas semelhantes.<\/p>\n<p>No Brasil, a ECA Digital (Lei 15.211\/2025), que entra em vigor em 17 de mar\u00e7o de 2026, segue caminho pr\u00f3prio. Em vez de proibir menores de 16 anos de manter perfis \u2013 medida que alguns consideram invi\u00e1vel na realidade brasileira \u2013, a lei exige que as contas estejam vinculadas a um adulto. A solu\u00e7\u00e3o tem o m\u00e9rito de incorporar uma vis\u00e3o mais hol\u00edstica: reconhece que nada substitui a fam\u00edlia e, ao mesmo tempo, n\u00e3o deixa as plataformas navegarem soltas no mar implac\u00e1vel da autorregula\u00e7\u00e3o, pois prev\u00ea multas de at\u00e9 50 milh\u00f5es de reais para empresas infratoras. Imp\u00f5e-se, assim, algum grau de civilidade ao mundo online: verifica\u00e7\u00e3o rigorosa de idade, mecanismos de den\u00fancia acess\u00edveis, remo\u00e7\u00e3o c\u00e9lere de conte\u00fados nocivos e combate firme ao cyberbullying, ao marketing disfar\u00e7ado e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o \u2013 sexual ou comercial \u2013 de crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p>Vivemos em um mundo em que o brilho das telas seduz cedo demais, e o uso de dispositivos por crian\u00e7as e adolescentes brasileiros est\u00e1 entre os mais elevados do mundo, um dado que n\u00e3o deve nos envaidecer. As consequ\u00eancias s\u00e3o vis\u00edveis: sociabilidade rarefeita, complei\u00e7\u00e3o f\u00edsica comprometida, leituras abandonadas, conte\u00fados escolares negligenciados, tarefas dom\u00e9sticas ignoradas. A pesquisa TIC Kids Online 2024 escancarou esse quadro ao constatar que 83% das crian\u00e7as e adolescentes brasileiros est\u00e3o nas redes sociais, cerca de 24 milh\u00f5es navegando, muitas vezes, sem b\u00fassola.<\/p>\n<p>A internet ampliou nossa produtividade, democratizou o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e sofisticou o entretenimento, mas, como toda ferramenta poderosa, exige forma\u00e7\u00e3o. Educa\u00e7\u00e3o digital \u00e9 requisito de cidadania \u2013 e, ouso dizer, de sobreviv\u00eancia. A l\u00f3gica \u00e9 a mesma para a IA, que pode vir a ser anjo ou vil\u00e3 do futuro da educa\u00e7\u00e3o e do mercado de trabalho. Nenhuma lei resolver\u00e1 tudo, mas estamos avan\u00e7ando, assim como parte do mundo, para que o Brasil deixe de tratar a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia, no que diz respeito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o digital, como um experimento improvisado, um novo Velho Oeste, e passe a encar\u00e1-las como o que realmente s\u00e3o: uma das grandes quest\u00f5es \u00e9ticas e sociais do nosso tempo.<\/p>\n<p><em><strong>Jacir J. Venturi <\/strong>\u00e9 membro do Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o do Paran\u00e1. Foi professor e gestor de escolas p\u00fablicas e privadas, da UFPR, PUCPR e Universidade Positivo. <\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 palavras que sintetizam \u00e9pocas e, para o ano letivo de 2025, a escolha \u00e9 simples e poderosa: mais v\u00ednculos.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":177747,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-177746","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/177746","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=177746"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/177746\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/177747"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=177746"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=177746"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=177746"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}