{"id":175603,"date":"2026-02-05T09:12:03","date_gmt":"2026-02-05T13:12:03","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=175603"},"modified":"2026-02-05T09:12:03","modified_gmt":"2026-02-05T13:12:03","slug":"o-fim-da-velha-ordem-internacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=175603","title":{"rendered":"O fim da velha ordem internacional"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Diversos fatos recentes levam muitos a pensar que chegou o fim da \u201cordem internacional baseada em regras\u201d: a\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos \u2014 a interven\u00e7\u00e3o na Venezuela, a imposi\u00e7\u00e3o de tarifas, a amea\u00e7a de se apoderar da Groenl\u00e2ndia \u2014 ou, por parte da R\u00fassia, a guerra contra a Ucr\u00e2nia, representam o abandono do multilateralismo e a aplica\u00e7\u00e3o da lei do mais forte. Neste contexto, a interven\u00e7\u00e3o do primeiro-ministro canadense Mark Carney no F\u00f3rum de Davos despertou grande interesse.<\/p>\n<p>Tem sido dito que o discurso passar\u00e1 para os livros de hist\u00f3ria e as cita\u00e7\u00f5es de V\u00e1clav Havel e de sua obra <em>O Poder dos Sem Poder<\/em> foram avaliadas muito positivamente. Poder\u00edamos qualificar este discurso como \u201cideorrealista\u201d. Por um lado, Carney fala da defesa dos valores da democracia e do Estado de direito, embora, ao mesmo tempo, sublinhe que n\u00e3o estamos em um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, mas de plena ruptura da ordem internacional e, portanto, \u00e9 preciso adotar novas solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O pol\u00edtico canadense reconhece que entramos em uma \u00e9poca de rivalidade entre grandes pot\u00eancias, embora n\u00e3o fa\u00e7a alus\u00f5es expl\u00edcitas a Trump e aos Estados Unidos. Suas palavras s\u00e3o um convite a aceitar os fatos como eles s\u00e3o, embora caiba acrescentar que, durante algum tempo, os aliados dos Estados Unidos alimentaram a ilus\u00e3o, n\u00e3o de todo desaparecida, de que os resultados eleitorais poderiam reverter a din\u00e2mica do <em>America First<\/em>. No entanto, o governo Biden foi apenas um par\u00eantese entre os dois mandatos presidenciais de Trump, e na \u00e9poca desse presidente democrata, como na de Obama, havia ind\u00edcios suficientes para pensar que a rela\u00e7\u00e3o de Washington com a Europa n\u00e3o seria a de outros tempos. Em qualquer caso, a perspectiva de um presidente republicano como J. D. Vance ou Marco Rubio n\u00e3o \u00e9 tranquilizadora, e um presidente democrata \u00e9 uma completa inc\u00f3gnita.<\/p>\n<h2>Tuc\u00eddides e V\u00e1clav Havel: uma li\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria<\/h2>\n<p>Carney faz implicitamente uma refer\u00eancia \u00e0 <em>Hist\u00f3ria da Guerra do Peloponeso<\/em>, de Tuc\u00eddides, ao afirmar que \u201cos fortes agem conforme sua vontade e os fracos sofrem as consequ\u00eancias\u201d. Evoca-se aqui o epis\u00f3dio da ilha de Melos, um territ\u00f3rio que Atenas acabou anexando pela for\u00e7a depois que os seus habitantes se recusaram a aceitar a alternativa de se unirem \u00e0 Liga de Delos, liderada por Atenas.<\/p>\n<p>Diante de situa\u00e7\u00f5es atuais deste tipo, Carney afirma que os pa\u00edses se adaptam e evitam os conflitos com um conformismo que lhes garante a seguran\u00e7a. Contudo, ele n\u00e3o acredita que esta seja a solu\u00e7\u00e3o, e recorda o exemplo empregado por V\u00e1clav Havel em <em>O Poder dos Sem Poder<\/em> (1978). Trata-se de um quitandeiro que tem pendurado em sua vitrine um cartaz comunista: \u201cTrabalhadores de todos os pa\u00edses, uni-vos!\u201d. Ele n\u00e3o acredita nesse slogan, mas o coloca de qualquer modo para evitar problemas e passar despercebido. Al\u00e9m disso, como todos os comerciantes fazem o mesmo, o sistema continua funcionando. Havel chamava esta atitude de \u201cviver na mentira\u201d, embora estivesse convencido de que a fragilidade do sistema residia no fato de que, quando uma pessoa deixava de agir assim \u2014 assim que o quitandeiro retirava seu cartaz \u2014, a ilus\u00e3o come\u00e7ava a desmoronar. Segundo Carney, \u201cchegou o momento de as empresas e os pa\u00edses retirarem seus cartazes\u201d.<\/p>\n<h2>O pragmatismo como resposta ao fim da ordem internacional<\/h2>\n<p>Na opini\u00e3o do primeiro-ministro, o Canad\u00e1 prosperou gra\u00e7as a uma ordem internacional baseada em normas. Mas, ao mesmo tempo, reconhece que \u201csab\u00edamos que a hist\u00f3ria da ordem internacional baseada em normas era em parte falsa. Que os mais poderosos as ignorariam quando lhes conviesse. Que as normas que regulam o com\u00e9rcio eram aplicadas de forma assim\u00e9trica. E que o direito internacional era aplicado com maior ou menor rigor conforme a identidade do acusado e da v\u00edtima\u201d. Conv\u00e9m acrescentar que esse comportamento hip\u00f3crita ou o abandono na aplica\u00e7\u00e3o das normas serviram de \u00e1libi para regimes tir\u00e2nicos e ideologias extremistas fazerem &#8220;t\u00e1bula rasa&#8221;, de modo simplista, do direito internacional.<\/p>\n<p>Carney aposta em um \u201crealismo baseado em valores\u201d: aceitar a nova pol\u00edtica internacional, mas sem renunciar \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De resto, Mark Carney \u00e9 realista quanto a alguns projetos de integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que s\u00e3o apenas medidas de press\u00e3o e que utilizam como instrumentos de subordina\u00e7\u00e3o as tarifas, as infraestruturas financeiras e as cadeias de suprimentos. A rea\u00e7\u00e3o l\u00f3gica de muitos pa\u00edses \u00e9 refor\u00e7ar sua autonomia estrat\u00e9gica, mas o primeiro-ministro adverte sobre suas consequ\u00eancias, pois \u201cum mundo compartimentado ser\u00e1 pobre, mais fr\u00e1gil e menos sustent\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>No caso das pot\u00eancias m\u00e9dias, como o Canad\u00e1, \u00e9 imprescind\u00edvel adaptar-se \u00e0 nova realidade, embora seja necess\u00e1rio decidir \u201cse nos adaptamos construindo muros mais altos ou se podemos demonstrar mais ambi\u00e7\u00e3o\u201d. Os canadenses adotar\u00e3o a segunda op\u00e7\u00e3o, \u201cum realismo baseado em valores\u201d, no qual existe o reconhecimento de que nem todos os parceiros comerciais e de seguran\u00e7a compartilham os valores defendidos pelo Canad\u00e1, pois \u201cj\u00e1 n\u00e3o dependemos unicamente da for\u00e7a dos nossos valores, mas tamb\u00e9m do valor da nossa for\u00e7a\u201d. Isso explica a crescente atividade diplom\u00e1tica do Canad\u00e1 nos \u00faltimos meses, com o estabelecimento de parcerias estrat\u00e9gicas com a China e o Catar, e a negocia\u00e7\u00e3o de acordos de livre com\u00e9rcio com a \u00cdndia e outros pa\u00edses asi\u00e1ticos, e com o Mercosul.<\/p>\n<p>O pragmatismo de Mark Carney passa por \u201cestabelecer coaliz\u00f5es eficazes, em fun\u00e7\u00e3o dos desafios, entre parceiros que t\u00eam um n\u00famero suficiente de pontos em comum para agirem juntos\u201d. Carney n\u00e3o \u00e9 partid\u00e1rio, portanto, de esperar que se restabele\u00e7a a antiga ordem internacional, pois sabemos que \u201ca antiga ordem n\u00e3o voltar\u00e1\u201d. As afirma\u00e7\u00f5es dele, apesar de tudo, despertaram algumas cr\u00edticas derivadas de sua recente visita \u00e0 China, por ter citado um dissidente anticomunista como Havel e, ao mesmo tempo, defender algum tipo de associa\u00e7\u00e3o com a China. Na realidade, Carney n\u00e3o descobriu nada novo. Ao longo dos \u00faltimos s\u00e9culos, foram frequentes as coaliz\u00f5es dirigidas contra um advers\u00e1rio comum, quase sempre em nome do equil\u00edbrio europeu ou internacional, e sem que isso supusesse necessariamente uma afinidade ideol\u00f3gica. No s\u00e9culo XX, vale recordar o entendimento entre as pot\u00eancias anglo-sax\u00e3s e a URSS, ou a abertura dos EUA \u00e0 China nos anos setenta.<\/p>\n<h2>O Conselho da Paz, um sucessor da ONU?<\/h2>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o do Conselho da Paz (CP), apresentado oficialmente em Davos e para o qual foram convidados 60 pa\u00edses, tem sido interpretada como uma tentativa de Donald Trump de substituir a ONU. Um tra\u00e7o comum do presidente americano e de l\u00edderes autorit\u00e1rios como Putin \u00e9 a prefer\u00eancia pelas rela\u00e7\u00f5es bilaterais, embora o presidente russo e outros dirigentes continuem mencionando em seus discursos a ONU e outras organiza\u00e7\u00f5es multilaterais. Em contrapartida, no pre\u00e2mbulo da Carta do CP prega-se \u201co valor de afastar-se dos esfor\u00e7os e situa\u00e7\u00f5es que com demasiada frequ\u00eancia falharam\u201d. Estamos diante de uma cr\u00edtica impl\u00edcita \u00e0 inoper\u00e2ncia das Na\u00e7\u00f5es Unidas, que esquece, como \u00e9 habitual, que a capacidade de agir das organiza\u00e7\u00f5es internacionais depende sobretudo da vontade pol\u00edtica dos estados que as integram. Por contraste, afirma-se que o CP \u00e9 \u201cuma organiza\u00e7\u00e3o internacional de consolida\u00e7\u00e3o da paz\u201d.<\/p>\n<p>Neste caso, poderia dizer-se que a paz n\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ada por meio da for\u00e7a \u2014 uma abordagem aplicada por Trump em Gaza e na Venezuela \u2014, mas que do CP poder-se-ia deduzir um novo slogan: \u201cA paz por meio do investimento\u201d. Com efeito, o CP assemelha-se a uma gigantesca empresa controlada pelo presidente dos Estados Unidos ou por quem este designar a qualquer momento como seu sucessor (art. 3.3). O poder do chefe supremo vai ainda mais longe, j\u00e1 que tamb\u00e9m pode revogar a condi\u00e7\u00e3o de membro de um Estado (art. 2.3). Al\u00e9m disso, as decis\u00f5es est\u00e3o sujeitas \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o do presidente, que disp\u00f5e de voto de qualidade para inclinar a decis\u00e3o de um lado ou de outro em caso de empate (art. 3.1).<\/p>\n<p>Por outro lado, a limita\u00e7\u00e3o de perman\u00eancia dos pa\u00edses convidados, que \u00e9 de 3 anos (art. 2.3), encontra seu tra\u00e7o mais mercantilista na exig\u00eancia de aportar ao fundo de gest\u00e3o do CP a quantia de 1 bilh\u00e3o de d\u00f3lares em dinheiro vivo (art. 2.2). O certo \u00e9 que o CP dificilmente poderia assemelhar-se a uma organiza\u00e7\u00e3o internacional cl\u00e1ssica \u2014 e menos ainda \u00e0 ONU \u2014, pois \u00e0 frente n\u00e3o h\u00e1 nenhum secret\u00e1rio-geral. O poder executivo \u00e9 exercido de modo exclusivo pelo presidente americano, a \u00fanica inst\u00e2ncia de arbitragem. Al\u00e9m disso, os redatores do texto permitem-se certa pressa na entrada em funcionamento da organiza\u00e7\u00e3o, pois basta que tr\u00eas Estados expressem seu consentimento (art. 11.1).<\/p>\n<h2>A nega\u00e7\u00e3o do direito internacional<\/h2>\n<p>Poder-se-ia perguntar se o CP, em cuja carta h\u00e1 uma refer\u00eancia m\u00ednima ao direito internacional (art. 1), sup\u00f5e uma tentativa de voltar ao direito internacional anterior a 1945, o que esteve vigente a partir da Paz de Westf\u00e1lia (1648), fundamentado na soberania dos Estados. Stacie Goddard e Abraham Newman, dois cientistas pol\u00edticos americanos, n\u00e3o acreditam nisso. Eles\u00a0 consideram que estamos entrando em um per\u00edodo de um mundo governado por l\u00edderes autorit\u00e1rios que extraem recursos de seus s\u00faditos e de seus vizinhos mediante a viol\u00eancia ou a amea\u00e7a para enriquecer sua fam\u00edlia e seus cortes\u00e3os.<\/p>\n<p>No entanto, Michael Ignatieff n\u00e3o concorda com o termo \u201cneomon\u00e1rquicos\u201d que os autores aplicam a esses l\u00edderes. Na verdade, eles se assemelham mais a l\u00edderes mafiosos. N\u00e3o negociam nem buscam um equil\u00edbrio vantajoso. N\u00e3o acreditam na lei, porque \u00e9 algo que pode ser contornado por meio de suborno ou amea\u00e7as. O resultado \u00e9, sem d\u00favida, um enriquecimento do Estado que representam, embora, tal como aconteceu em outras \u00e9pocas, n\u00e3o seja simples distinguir o patrim\u00f4nio estatal do patrim\u00f4nio do governante.<\/p>\n<p>Apesar do que alguns querem acreditar, este sistema de domina\u00e7\u00e3o e esferas de influ\u00eancia n\u00e3o garante a paz e a estabilidade, tal como foi demonstrado historicamente. Al\u00e9m disso, em alguns casos, como o da Faixa de Gaza, alimenta-se um mito: o de que a prosperidade material pode contribuir por si s\u00f3 para a paz. Parte-se da ideia de que essa prosperidade afetar\u00e1 o conjunto de uma popula\u00e7\u00e3o, quando a percep\u00e7\u00e3o mais difundida \u00e9 que ela favorece apenas alguns poucos.<\/p>\n<p><strong>\u00a92026 Aceprensa. Publicado com permiss\u00e3o. Original em espanhol:<a href=\"https:\/\/www.aceprensa.com\/politica\/el-fin-del-viejo-orden-internacional\/\"> El fin del viejo orden internacional<\/a><\/strong>.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diversos fatos recentes levam muitos a pensar que chegou o fim da \u201cordem internacional baseada em regras\u201d: a\u00e7\u00f5es dos Estados&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":175604,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-175603","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/175603","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=175603"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/175603\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/175604"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=175603"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=175603"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=175603"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}