{"id":174020,"date":"2026-02-04T17:28:13","date_gmt":"2026-02-04T21:28:13","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=174020"},"modified":"2026-02-04T17:28:13","modified_gmt":"2026-02-04T21:28:13","slug":"o-que-explica-a-comocao-nacional-pelo-cao-orelha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=174020","title":{"rendered":"O que explica a como\u00e7\u00e3o nacional pelo c\u00e3o Orelha?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A morte do c\u00e3o Orelha, v\u00edtima de agress\u00f5es em Florian\u00f3polis, provocou forte como\u00e7\u00e3o nacional. O caso rapidamente ultrapassou os limites da capital catarinense, ganhou ampla repercuss\u00e3o em todo o Brasil e alcan\u00e7ou\u00a0proje\u00e7\u00e3o\u00a0at\u00e9 mesmo fora do pa\u00eds.\u00a0<\/p>\n<p>Nas redes sociais, milhares de mensagens cobraram puni\u00e7\u00e3o aos respons\u00e1veis. A indigna\u00e7\u00e3o deixou o ambiente virtual, e foram organizadas manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, com protestos nas ruas de diversas cidades do pa\u00eds e vig\u00edlias em mem\u00f3ria do animal.\u00a0Na Avenida Paulista, milhares\u00a0de\u00a0pessoas participaram de um ato pedindo puni\u00e7\u00e3o aos respons\u00e1veis pela morte do animal.<\/p>\n<p>Mas, num pa\u00eds em que mais de 100 pessoas s\u00e3o assassinadas por dia, o que explica a como\u00e7\u00e3o generalizada pelo cachorro Orelha? Por que esse caso ganha tanta aten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<h2>O caso\u00a0<\/h2>\n<p>Orelha era o que se convencionou chamar de \u201cc\u00e3o comunit\u00e1rio\u201d: vivia na rua, mas sob os cuidados de frequentadores da regi\u00e3o. O cachorro foi encontrado por uma moradora do local, ferido e agonizante. Transportado ao veterin\u00e1rio, n\u00e3o resistiu e morreu.\u00a0<\/p>\n<h2>Sinal de civilidade b\u00e1sica\u00a0<\/h2>\n<p>Para Francisco Razzo, mestre em Filosofia pela PUC-SP, professor, escritor e colunista da\u00a0<strong>Gazeta do Povo<\/strong>, a rea\u00e7\u00e3o coletiva e imediata revela duas dimens\u00f5es que podem ser encaradas de formas distintas: uma positiva e outra preocupante.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cDuas coisas me chamaram a aten\u00e7\u00e3o de imediato. Uma \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o como um sinal ainda de civilidade b\u00e1sica.\u00a0Temos a intui\u00e7\u00e3o moral\u00a0de que o que aconteceu foi algo errado e\u00a0sabemos o que\u00a0\u00e9, sem muita intelectualiza\u00e7\u00e3o sobre isso\u201d, avalia Razzo, autor dos livros Contra o Aborto (Record) e o rec\u00e9m-publicado O Sil\u00eancio das Cinzas (Edi\u00e7\u00f5es 70).\u00a0<\/p>\n<p>Para Razzo, a como\u00e7\u00e3o demonstra que ainda existe na sociedade uma sensibilidade espont\u00e2nea diante da crueldade. A indigna\u00e7\u00e3o, nesse sentido, funcionaria como um marcador moral m\u00ednimo, um consenso de que certos atos ultrapassam limites elementares.\u00a0<\/p>\n<p>O problema, segundo ele, come\u00e7a quando a indigna\u00e7\u00e3o se transforma em linchamento moral. \u201cA outra\u00a0quest\u00e3o\u00a0\u00e9 a\u00a0do linchamento com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 indigna\u00e7\u00e3o que se gera, \u00e0 como\u00e7\u00e3o que se gera, e a\u00ed se transfere a ideia de puni\u00e7\u00e3o para uma justi\u00e7a meio imediata\u201d, diz Razzo, que <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/francisco-razzo\/caso-orelha-crueldade-gratuita\/\">escreveu sobre o assunto para a Gazeta do Povo<\/a>.<\/p>\n<p>Para o fil\u00f3sofo, o fen\u00f4meno estaria ligado a um ceticismo crescente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es. \u201cExiste certo ceticismo e um certo cansa\u00e7o com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>Razzo observa que, em muitos casos, a exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica dos envolvidos passa a ocupar o centro da rea\u00e7\u00e3o social. \u201cO caso que era interessante de indigna\u00e7\u00e3o coletiva, de sensibiliza\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao fato, se inverte e passa a ser uma persegui\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de ca\u00e7a \u00e0s bruxas, bode expiat\u00f3rio.\u201d Para ele, a linha entre cobran\u00e7a leg\u00edtima por responsabiliza\u00e7\u00e3o e desejo de vingan\u00e7a pode se tornar t\u00eanue.<\/p>\n<h2>A nova rela\u00e7\u00e3o com os \u201cpets\u201d\u00a0<\/h2>\n<p>A psic\u00f3loga cl\u00ednica Cl\u00e1udia\u00a0Serathiuk\u00a0aponta, como fator da como\u00e7\u00e3o provocada pelo caso, as transforma\u00e7\u00f5es profundas na forma como a sociedade enxerga os animais dom\u00e9sticos hoje. Houve, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, uma eleva\u00e7\u00e3o do status social dos chamados \u201cpets\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cOs animais passaram de fora da casa, comendo resto de comida, para dentro da casa. Hoje, c\u00e3es e gatos ocupam lugar central na rotina familiar. Dormem na cama, participam de viagens, frequentam restaurantes e s\u00e3o tratados como filhos. O animal deixou de ter apenas uma fun\u00e7\u00e3o utilit\u00e1ria e passou a ocupar um lugar de afeto\u201d, resume.\u00a0<\/p>\n<p>Para\u00a0Serathiuk, essa mudan\u00e7a ajuda a compreender a intensidade da rea\u00e7\u00e3o no caso Orelha. \u201c\u00c9 um processo de humaniza\u00e7\u00e3o. O bicho passa a ter um valor muito grande e isso se torna uma quest\u00e3o moral, n\u00e3o apenas legal. E o animal n\u00e3o questiona, n\u00e3o briga, n\u00e3o trai. O c\u00e3o \u00e9 um amigo fiel\u201d, diz.\u00a0<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o para outro fator contempor\u00e2neo: a velocidade da internet. \u201cH\u00e1 40 anos, um caso desses talvez aparecesse em um jornal local. Hoje, em poucas horas, todo mundo sabe e todo mundo reage.\u201d A exposi\u00e7\u00e3o maci\u00e7a, conforme a psic\u00f3loga, potencializa a emo\u00e7\u00e3o coletiva.\u00a0<\/p>\n<h2>Maior compaix\u00e3o por cachorros\u00a0<\/h2>\n<p>Um estudo publicado em 2017 pelos pesquisadores Jack Levin, Arnold\u00a0Arluke\u00a0e Leslie Irvine, na revista cient\u00edfica Society &amp;\u00a0Animals, apontou que as pessoas sentem mais empatia por c\u00e3es do que por determinados grupos humanos em situa\u00e7\u00f5es experimentais.\u00a0<\/p>\n<p>Na pesquisa, 240 volunt\u00e1rios receberam relatos fict\u00edcios sobre uma v\u00edtima brutalmente agredida. A descri\u00e7\u00e3o do ataque era a mesma em todos os casos. O que variava era apenas a identidade da v\u00edtima: ora um beb\u00ea de um ano, ora um adulto, ora um c\u00e3o, ora um filhote de cachorro.\u00a0<\/p>\n<p>Os participantes demonstraram n\u00edveis de empatia significativamente mais altos quando a v\u00edtima era um beb\u00ea humano ou um filhote de cachorro. Em compara\u00e7\u00e3o, a rea\u00e7\u00e3o emocional foi menor quando a v\u00edtima descrita era um adulto.\u00a0<\/p>\n<p>Segundo os autores, o achado n\u00e3o significa necessariamente que as pessoas \u201cvalorizem mais\u201d a vida de um animal do que a de um ser humano. O estudo sugere,\u00a0em vez disso, que a empatia est\u00e1 fortemente associada \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade e inoc\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p>Embora realizado em ambiente controlado, o experimento ajuda a explicar por que casos de viol\u00eancia contra animais podem provocar ondas de indigna\u00e7\u00e3o p\u00fablica intensas, compar\u00e1veis \u00e0s rea\u00e7\u00f5es diante de v\u00edtimas humanas consideradas igualmente vulner\u00e1veis.<\/p>\n<h2>Impacto das redes sociais\u00a0<\/h2>\n<p>Outra dimens\u00e3o do Caso Orelha \u00e9 o papel das redes sociais na amplifica\u00e7\u00e3o da indigna\u00e7\u00e3o. Pesquisas acad\u00eamicas indicam que conte\u00fados carregados de emo\u00e7\u00e3o moral \u2014 como a agress\u00e3o a um animal indefeso \u2014 t\u00eam maior probabilidade de serem compartilhados e alcan\u00e7ar grande repercuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Um estudo <a href=\"https:\/\/www.pnas.org\/doi\/10.1073\/pnas.1618923114\">publicado em 2017<\/a>\u00a0analisou mais de 560 mil postagens no Twitter e concluiu que mensagens que combinam julgamento moral e forte carga emocional circulam com mais rapidez nas plataformas digitais.<\/p>\n<p>Termos como \u201ccrueldade\u201d, \u201ccovardia\u201d e \u201cjusti\u00e7a\u201d funcionaram como catalisadores de compartilhamentos. Foi exatamente esse tipo de narrativa que dominou as postagens sobre o c\u00e3o agredido e morto, com a publica\u00e7\u00e3o de imagens, laudos, relatos de sofrimento e pedidos de puni\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Outro fator relevante \u00e9 o chamado \u201ccont\u00e1gio emocional\u201d. Experimentos mostram que emo\u00e7\u00f5es negativas se propagam em cadeia nas plataformas digitais. Assim, cada nova postagem indignada tende a estimular rea\u00e7\u00f5es igualmente indignadas, criando uma espiral que amplia a sensa\u00e7\u00e3o de revolta coletiva.\u00a0<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 uma amplifica\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Mesmo que o n\u00famero inicial de pessoas mobilizadas seja restrito, a repeti\u00e7\u00e3o intensa de mensagens pode gerar a impress\u00e3o de unanimidade. No caso Orelha, a din\u00e2mica digital ajudou a transformar um epis\u00f3dio local em tema nacional em poucas horas.<\/p>\n<h2>Busca por culpados\u00a0<\/h2>\n<p>A Pol\u00edcia Civil de Santa Catarina concluiu, no in\u00edcio desta semana, o inqu\u00e9rito sobre a morte do c\u00e3o Orelha. A investiga\u00e7\u00e3o aponta quatro adolescentes como suspeitos de agredir o animal com um objeto contundente na Praia Brava, em Florian\u00f3polis, no dia 4 de janeiro.\u00a0<\/p>\n<p>Para identificar o grupo, os agentes realizaram uma opera\u00e7\u00e3o com mandados de busca e apreens\u00e3o, per\u00edcia em dispositivos eletr\u00f4nicos e an\u00e1lise de c\u00e2meras de monitoramento. Al\u00e9m dos menores, tr\u00eas adultos foram indiciados por coa\u00e7\u00e3o a testemunhas, sob a suspeita de tentativa de interfer\u00eancia no andamento das investiga\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>Como o caso envolve menores de idade, o processo corre sob sigilo e segue as diretrizes do Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente (ECA). Se a autoria for comprovada, os jovens poder\u00e3o cumprir medidas socioeducativas, incluindo a interna\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>A defesa de um dos adolescentes, no entanto, contesta o inqu\u00e9rito, classificando as provas como \u201ccircunstanciais\u201d. O material extra\u00eddo dos celulares apreendidos ainda passa por an\u00e1lise e deve integrar a fase judicial, que ser\u00e1 conduzida pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico e pela Vara da Inf\u00e2ncia e Juventude.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A morte do c\u00e3o Orelha, v\u00edtima de agress\u00f5es em Florian\u00f3polis, provocou forte como\u00e7\u00e3o nacional. 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