{"id":172976,"date":"2026-02-04T07:00:00","date_gmt":"2026-02-04T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=172976"},"modified":"2026-02-04T07:00:00","modified_gmt":"2026-02-04T11:00:00","slug":"por-que-liberalismo-e-conservadorismo-modernos-vivem-em-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=172976","title":{"rendered":"Por que liberalismo e conservadorismo modernos vivem em guerra"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>As democracias ocidentais modernas vivem um estado de guerra civil moral entre o liberalismo e o conservadorismo modernos. Nenhum dos lados consegue vencer, pois cada um se tornou um reflexo distorcido do outro. Liberalismo e conservadorismo, outrora polos complementares em um universo moral compartilhado, agora espelham e amplificam os v\u00edcios um do outro.<\/p>\n<p>Os liberais acusam os conservadores de intoler\u00e2ncia e repress\u00e3o; os conservadores acusam os liberais de relativismo e tirania. Cada um est\u00e1 certo quanto \u00e0 patologia do outro e cego para a forma como sua pr\u00f3pria l\u00f3gica moral gera o mesmo v\u00edcio em sentido inverso.<\/p>\n<p>A crise n\u00e3o \u00e9 meramente pol\u00edtica, mas metaf\u00edsica. Ambos separaram bens parciais \u2014 liberdade e ordem \u2014 da participa\u00e7\u00e3o no bem transcendente que os fundamenta. Separados desse todo, cada um se torna uma priva\u00e7\u00e3o daquilo que originalmente buscava servir: a vontade de liberdade do liberalismo torna-se coercitiva, enquanto a vontade de ordem do conservadorismo torna-se rebelde.<\/p>\n<h2>O paternalismo oculto do liberalismo<\/h2>\n<p>Como Locke argumentou no in\u00edcio de seu Primeiro Tratado sobre o Governo Civil, o liberalismo surgiu como uma revolta contra o paternalismo \u2014 a Igreja ditando cren\u00e7as, o patriarca dirigindo a consci\u00eancia, o Estado impondo virtudes.<\/p>\n<p>A nova vis\u00e3o liberal de governo prometia liberdade por meio da neutralidade: o Estado protegeria a escolha, n\u00e3o prescreveria fins. Contudo, como Tocqueville previu no segundo volume de A Democracia na Am\u00e9rica (Parte IV, cap\u00edtulo 6), os liberais desejam ser livres e, ao mesmo tempo, buscam ser guiados. O que come\u00e7ou como liberta\u00e7\u00e3o transforma-se em tutela.<\/p>\n<p>A ordem liberal atual exige obedi\u00eancia em nome da seguran\u00e7a e da compaix\u00e3o: \u201cVoc\u00ea deve afirmar\u201d, poder\u00edamos dizer, \u201cou algu\u00e9m pode ser prejudicado\u201d. Burocracias de inclus\u00e3o, como o Departamento de Educa\u00e7\u00e3o dos EUA, formam um aparato moral que policia a consci\u00eancia por meio de virtudes artificiais, como a conformidade confundida com justi\u00e7a, a compaix\u00e3o sentimental sem prud\u00eancia, a toler\u00e2ncia sem busca pela verdade e a autenticidade entendida como autoexpress\u00e3o divorciada da realidade metaf\u00edsica. A autonomia torna-se uma performance controlada; o antigo confession\u00e1rio ressurge como um semin\u00e1rio sobre diversidade.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s desse paternalismo moral reside uma substitui\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica: sem um t\u00e9los natural, o Estado assume o papel da provid\u00eancia. A administra\u00e7\u00e3o substitui o prop\u00f3sito. Explicamos a dor e a injusti\u00e7a dizendo \u201co sistema vai resolver\u201d, em vez de questionarmos problemas morais ou espirituais mais profundos \u2014 confiando que a hist\u00f3ria se encaminhar\u00e1 para a justi\u00e7a por meio da raz\u00e3o administrativa. Mas a compaix\u00e3o, dissociada da transcend\u00eancia, torna-se sentimentalismo coercitivo, exigindo obedi\u00eancia \u00e0 autonomia como um bem supremo em si mesma.<\/p>\n<h2>A rebeli\u00e3o do conservadorismo contra seus pr\u00f3prios princ\u00edpios<\/h2>\n<p>O conservadorismo, por sua vez, trai a si mesmo ao se rebelar contra a pr\u00f3pria ordem que alega defender. O her\u00f3i conservador cl\u00e1ssico era o estadista disciplinado (C\u00edcero, Burke, Montesquieu); o moderno \u00e9 o populista desafiador (Donald Trump, Nigel Farage, Viktor Orb\u00e1n), o transgressor que \u201cdiz as coisas como elas s\u00e3o\u201d.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A autenticidade substitui a prud\u00eancia; a paix\u00e3o suplanta a raz\u00e3o. A paci\u00eancia e a firmeza do conservadorismo transformam-se em indigna\u00e7\u00e3o; seu realismo moral, em relativismo seletivo<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Quando a lei reprime os inimigos, \u00e9 justi\u00e7a; quando reprime os aliados, \u00e9 \u201cguerra jur\u00eddica\u201d. E o movimento passa a se sustentar por meio de um complexo de m\u00e1rtir \u2014 uma identidade de queixa que espelha a pr\u00f3pria pol\u00edtica de vitimiza\u00e7\u00e3o da esquerda. Assim, o partido da ordem define-se pela rebeli\u00e3o, e o partido da autoridade, pelo ressentimento.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Diagn\u00f3stico de Girard: rivalidade mim\u00e9tica e o bode expiat\u00f3rio<\/h2>\n<p>A teoria da rivalidade mim\u00e9tica de Ren\u00e9 Girard esclarece essa din\u00e2mica. Nela, os rivais imitam os desejos e os m\u00e9todos uns dos outros at\u00e9 se tornarem indistingu\u00edveis, cada qual definindo-se pela nega\u00e7\u00e3o do outro.<\/p>\n<p>O liberalismo imp\u00f5e a conformidade em nome da diversidade; o conservadorismo celebra a transgress\u00e3o em nome da ordem (ver, por exemplo, a obra de Girard <em>Battling to the End<\/em>). A rea\u00e7\u00e3o de cada lado justifica o medo do outro, produzindo uma espiral de imita\u00e7\u00e3o rec\u00edproca.<\/p>\n<p>O mecanismo do bode expiat\u00f3rio funciona da seguinte forma: toda comunidade expulsa os hereges para preservar sua identidade \u2014 o liberal cancela o \u201cintolerante\u201d; o conservador, o \u201cRINO\u201d (Republican In Name Only). Tais expuls\u00f5es geram apenas uma unidade tempor\u00e1ria, pois a verdadeira desordem n\u00e3o \u00e9 dissipada pelo bode expiat\u00f3rio; ela permanece dentro da comunidade.<\/p>\n<p>Por exemplo, imagine l\u00edderes do Partido Democrata marginalizando o deputado Dan Lipinski ou o senador Bob Casey porque suas posi\u00e7\u00f5es pr\u00f3-vida entravam em conflito com a defini\u00e7\u00e3o do partido do aborto como um direito da mulher. Ou imagine o presidente Trump intimidando Marjorie Taylor Greene para que deixasse o Congresso ou fazendo campanha contra Thomas Massie por apresentar peti\u00e7\u00f5es de obstru\u00e7\u00e3o indesejadas \u2014 o que em nada resolve as quest\u00f5es levantadas por Greene e Massie. Nesses casos, como em muitos outros, a busca por bodes expiat\u00f3rios simplesmente intimida as pessoas, impedindo-as de falar abertamente ou de resolver problemas que continuam latentes.<\/p>\n<h2>A metaf\u00edsica da priva\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Por tr\u00e1s desses conflitos superficiais reside a metaf\u00edsica da priva\u00e7\u00e3o. O mal, ensina Tom\u00e1s de Aquino na Suma Teol\u00f3gica, n\u00e3o possui exist\u00eancia real, mas \u00e9 a aus\u00eancia ou distor\u00e7\u00e3o do bem. De modo semelhante, os v\u00edcios da nossa pol\u00edtica s\u00e3o corrup\u00e7\u00f5es de virtudes genu\u00ednas: o sentimentalismo \u00e9 compaix\u00e3o desvinculada da prud\u00eancia, por exemplo. Subjacente a ambos esses v\u00edcios pol\u00edticos est\u00e1 uma concep\u00e7\u00e3o distorcida de liberdade, separada da verdade; a ordem torna-se domina\u00e7\u00e3o quando dissociada do amor.<\/p>\n<p>Para Tom\u00e1s de Aquino, a verdadeira liberdade n\u00e3o \u00e9 a capacidade de escolher indiferentemente, mas a perfei\u00e7\u00e3o do movimento em dire\u00e7\u00e3o ao bem. Uma vontade n\u00e3o guiada pela verdade \u00e9 poder cego. A verdadeira ordem, por sua vez, \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o na sabedoria divina, n\u00e3o a posse do bem por uma \u00fanica fac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando o conservadorismo absolutiza a ordem como sua propriedade, repete o erro liberal em sentido inverso: substitui a raz\u00e3o pela vontade coletiva. Ambos, portanto, reduzem a pol\u00edtica \u00e0 for\u00e7a, em vez da prud\u00eancia.<\/p>\n<h2>Obje\u00e7\u00f5es liberais e seus pontos cegos<\/h2>\n<p>Os liberais podem objetar que tal an\u00e1lise imp\u00f5e uma metaf\u00edsica \u00fanica a uma sociedade pluralista. Contudo, o pr\u00f3prio pluralismo \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica: a alega\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o pode existir um bem comum pressup\u00f5e o voluntarismo \u2014 a supremacia da vontade sobre a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Os regimes liberais n\u00e3o se abst\u00eam da metaf\u00edsica; imp\u00f5em a sua pr\u00f3pria, definindo a dignidade como autocria\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma. O verdadeiro pluralismo exige uma participa\u00e7\u00e3o compartilhada na verdade, n\u00e3o a sua nega\u00e7\u00e3o. Silenciar a metaf\u00edsica n\u00e3o \u00e9 neutralidade, mas dogma dissimulado.<\/p>\n<p>A segunda obje\u00e7\u00e3o liberal \u2014 de que rejeitar a neutralidade abre caminho para a teocracia \u2014 confunde modera\u00e7\u00e3o com nega\u00e7\u00e3o. A cura para a m\u00e1 metaf\u00edsica n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de metaf\u00edsica, mas a boa metaf\u00edsica: o reconhecimento de uma verdade transcendente que limita todo o poder. Na concep\u00e7\u00e3o de Tom\u00e1s de Aquino, a lei natural vincula tanto governantes quanto s\u00faditos; ela fundamenta os direitos na natureza humana, n\u00e3o no Estado.<\/p>\n<p>Outra cr\u00edtica liberal sustenta que a harmonia pr\u00e9-moderna \u00e0 qual os tomistas apelam nunca existiu. \u00c9 verdade que a cristandade medieval experimentou muita viol\u00eancia e injusti\u00e7a. A reivindica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 por nostalgia hist\u00f3rica, mas por um retorno ao realismo filos\u00f3fico: a metaf\u00edsica cl\u00e1ssica apreendeu verdades duradouras sobre o ser e a bondade que a modernidade ignora por sua pr\u00f3pria conta e risco. O progresso material n\u00e3o garante avan\u00e7o moral ou metaf\u00edsico; uma sociedade pode ser materialmente pr\u00f3spera e, ainda assim, moralmente empobrecida.<\/p>\n<p>A obje\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica \u2014 \u201csua cura \u00e9 politicamente imposs\u00edvel\u201d \u2014 confunde viabilidade com verdade. A pol\u00edtica n\u00e3o pode curar o que a filosofia nega. A renova\u00e7\u00e3o come\u00e7a n\u00e3o pelo voto da maioria, mas pelo testemunho: pequenas comunidades recuperando a gram\u00e1tica da participa\u00e7\u00e3o no bem. Rejeitar essa tarefa como impratic\u00e1vel \u00e9 aceitar uma patologia permanente.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Obje\u00e7\u00f5es conservadoras<\/h2>\n<p>As obje\u00e7\u00f5es conservadoras espelham as liberais. As primeiras alegam assimetria: o liberalismo det\u00e9m o poder, enquanto o conservadorismo apenas se defende. Contudo, a an\u00e1lise moral n\u00e3o segue diferen\u00e7as de poder. O v\u00edcio continua sendo v\u00edcio, seja praticado por governantes, seja por opositores. Uma tradi\u00e7\u00e3o que se define pela oposi\u00e7\u00e3o abandona a forma da pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o; substituir a raz\u00e3o pela vontade, mesmo em defesa, \u00e9 aderir ao voluntarismo que ela combate.<\/p>\n<p>Quando os conservadores falam em \u201cderrotar\u201d em vez de converter, aceitam a pol\u00edtica como guerra, n\u00e3o como um movimento racional em dire\u00e7\u00e3o ao bem comum. O grito de que \u201co erro n\u00e3o tem direitos\u201d reduz uma verdade sutil \u2014 a falsidade n\u00e3o tem direito \u00e0 verdade \u2014 a uma nega\u00e7\u00e3o da dignidade humana.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s de Aquino ensina que mesmo uma consci\u00eancia err\u00f4nea obriga; portanto, a cura de uma consci\u00eancia err\u00f4nea por meio da persuas\u00e3o, e n\u00e3o da coer\u00e7\u00e3o, \u00e9 o caminho da verdade. A vontade de vencer pode conquistar institui\u00e7\u00f5es, mas perder a alma, perpetuando a pr\u00f3pria guerra civil que se busca encerrar.<\/p>\n<p>Uma segunda cr\u00edtica conservadora \u2014 que acusa essa an\u00e1lise de \u201cracionalismo liberal\u201d \u2014 confunde raz\u00e3o com ideologia. O argumento racional n\u00e3o \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o liberal, mas a voca\u00e7\u00e3o universal do intelecto humano: participar da lei eterna por meio do conhecimento e do julgamento do que \u00e9 verdadeiro e bom.<\/p>\n<p>Raciocinar n\u00e3o \u00e9 adotar um m\u00e9todo partid\u00e1rio, mas exercer a capacidade natural do intelecto de buscar a ordem. Rejeitar a raz\u00e3o como ideol\u00f3gica \u00e9, portanto, abandonar a participa\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria lei natural e ceder espa\u00e7o ao relativismo \u2014 a mesma desordem metaf\u00edsica que o conservadorismo outrora buscou combater.<\/p>\n<p>A chamada r\u00e9plica realista \u2014 \u201cpol\u00edtica \u00e9 guerra, n\u00e3o di\u00e1logo\u201d \u2014 confunde o aspecto material com o aspecto formal da pol\u00edtica. Poder e conflito pertencem \u00e0 pol\u00edtica materialmente, mas seu fim formal \u00e9 o bem comum, ordenado pela raz\u00e3o. Reduzir a pol\u00edtica \u00e0 vontade \u00e9 faz\u00ea-la deixar de ser pol\u00edtica por completo.<\/p>\n<p>Por fim, o conservador pragm\u00e1tico exige pol\u00edticas. Contudo, pol\u00edticas sem metaf\u00edsica s\u00e3o cegas. Nenhuma reforma perdurar\u00e1 se n\u00e3o partir de uma compreens\u00e3o correta da pessoa e do bem comum.<\/p>\n<p>Educa\u00e7\u00e3o orientada para a virtude, direito orientado para a raz\u00e3o, economia orientada para o florescimento humano \u2014 tudo isso decorre apenas de princ\u00edpios fundamentais renovados. Cultura e pol\u00edtica fluem da metaf\u00edsica; sem convers\u00e3o de mentalidade, toda pol\u00edtica permanece provis\u00f3ria.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Recuperando a gram\u00e1tica da participa\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>O caminho a seguir, portanto, n\u00e3o \u00e9 o compromisso nem a conquista, mas a corre\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica: uma recupera\u00e7\u00e3o do ser como participa\u00e7\u00e3o \u2014 na qual a exist\u00eancia, a inteligibilidade e a bondade s\u00e3o recebidas de uma fonte que transcende a vontade, e n\u00e3o produzidas pelo poder absoluto ou por decis\u00f5es majorit\u00e1rias.<\/p>\n<p>A liberdade deve ser novamente compreendida como participa\u00e7\u00e3o na verdade, n\u00e3o como escolha indeterminada; a ordem, como participa\u00e7\u00e3o no amor, n\u00e3o como controle. O bem comum n\u00e3o \u00e9 autonomia coletiva nem uniformidade, mas uma aprecia\u00e7\u00e3o compartilhada dos maiores bens \u2014 o florescimento humano, a ordem moral, a verdade na caridade e a vida eterna.<\/p>\n<p>Tal ordem harmoniza a diferen\u00e7a sem dissolv\u00ea-la, porque a caridade, como forma das virtudes, n\u00e3o apaga as opera\u00e7\u00f5es e os objetos distintos das demais virtudes, mas os aperfei\u00e7oa, ordenando-os a um \u00fanico fim \u00faltimo \u2014 o amor a Deus \u2014, unificando assim a vida moral por meio da causalidade final, e n\u00e3o da uniformidade.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Para restaurar a sanidade na pol\u00edtica, \u00e9 preciso primeiro recuperar a contempla\u00e7\u00e3o \u2014 a capacidade de ver o ser como uma d\u00e1diva intelig\u00edvel, e n\u00e3o como material para manipula\u00e7\u00e3o ego\u00edsta.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Tal contempla\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 observa\u00e7\u00e3o passiva, mas uma reorienta\u00e7\u00e3o moral e intelectual da pessoa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade como ela \u00e9, sendo, portanto, o in\u00edcio da convers\u00e3o. Somente a partir dessa convers\u00e3o contemplativa a compaix\u00e3o do liberalismo poder\u00e1 ser purificada em miseric\u00f3rdia, e a fidelidade do conservadorismo poder\u00e1 ser ordenada em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de Girard encontra aqui sua plenitude: a rivalidade termina n\u00e3o com a vit\u00f3ria, mas com a convers\u00e3o \u2014 um desvio do desejo da competi\u00e7\u00e3o mim\u00e9tica para o bem enquanto bem.<\/p>\n<p>O Evangelho desmascara o mecanismo do bode expiat\u00f3rio ao revelar a inoc\u00eancia da v\u00edtima; o tomismo estende essa mesma l\u00f3gica \u00e0 pr\u00f3pria ontologia, mostrando que o ser n\u00e3o \u00e9 rival porque o bem \u00e9 autodifusivo. Participar do bem, portanto, n\u00e3o \u00e9 apoderar-se nem dominar, mas receber e compartilhar.<\/p>\n<h2>A paz como tranquilidade da ordem<\/h2>\n<p>A paz, escreve Tom\u00e1s de Aquino, \u00e9 \u201ca tranquilidade da ordem\u201d. N\u00e3o \u00e9 a cessa\u00e7\u00e3o da luta, mas a harmonia dos amores corretamente ordenados. Nossa civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o recuperar\u00e1 a paz enquanto n\u00e3o resgatar essa vis\u00e3o anal\u00f3gica: a liberdade iluminada pela verdade, a ordem animada pela caridade, a pol\u00edtica ancorada na metaf\u00edsica.<\/p>\n<p>As tradi\u00e7\u00f5es liberal e conservadora poder\u00e3o novamente servir a essa paz superior se renunciarem \u00e0 l\u00f3gica do poder em favor da l\u00f3gica da participa\u00e7\u00e3o. Caso contr\u00e1rio, permanecer\u00e3o prisioneiras do espelho, condenando umas \u00e0s outras aquilo que se recusam a curar em si mesmas.<\/p>\n<p>Para p\u00f4r fim \u00e0s guerras de espelhos, devemos voltar-nos para a luz que elas refletem \u2014 o bem transcendente no qual a liberdade e a ordem, a verdade e o amor encontram sua unidade. S\u00f3 ent\u00e3o a rivalidade mim\u00e9tica da pol\u00edtica moderna poder\u00e1 dar lugar \u00e0 reciprocidade, e a gram\u00e1tica do ser poder\u00e1 restaurar aquilo que a ideologia desfez.<\/p>\n<p><strong>\u00a92026 The Public Discourse. Publicado com permiss\u00e3o. Original em ingl\u00eas: <a href=\"https:\/\/www.thepublicdiscourse.com\/2026\/01\/100052\/\">Why Are Conservatism and Modern Liberalism at War?<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As democracias ocidentais modernas vivem um estado de guerra civil moral entre o liberalismo e o conservadorismo modernos. 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