{"id":171516,"date":"2026-02-03T16:23:35","date_gmt":"2026-02-03T20:23:35","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=171516"},"modified":"2026-02-03T16:23:35","modified_gmt":"2026-02-03T20:23:35","slug":"o-que-o-brasil-perde-e-ganha-com-o-fim-dos-orelhoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=171516","title":{"rendered":"O que o Brasil perde (e ganha) com o fim dos orelh\u00f5es"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Foi no dia 20 de janeiro de 1972. A imprensa, os populares, os burocratas e os pol\u00edticos se reuniram na Rua Uruguaiana para uma solenidade: a da inaugura\u00e7\u00e3o do primeiro orelh\u00e3o do Brasil. Cinco dias depois do evento no Rio de Janeiro, os primeiros orelh\u00f5es eram instalados em S\u00e3o Paulo e, nos meses seguintes, em todo o Brasil.<\/p>\n<p>L\u00e1 se v\u00e3o mais de 54 anos. Nesse tempo, os orelh\u00f5es fizeram parte da paisagem urbana, rural e praiana dos brasileiros, que por les conversaram sobre a ditadura, a anistia, as crises econ\u00f4micas, a hiperinfla\u00e7\u00e3o, os <em>impeachment<\/em>s, o Plano Real e as Copas do Mundo. A tudo isso e tamb\u00e9m a incont\u00e1veis enchentes os orelh\u00f5es sobreviveram. Mas n\u00e3o sobreviveram \u00e0 tecnologia.<\/p>\n<h2>A conta n\u00e3o fecha<\/h2>\n<p>E foi assim, sem muito alarde, que a Anatel determinou a retirada, at\u00e9 2028, de todos os orelh\u00f5es existentes no pa\u00eds. Isto \u00e9, dos mais de 30 mil de orelh\u00f5es restantes de um universo que, nos anos 1990, chegou a ter 1,5 milh\u00e3o de aparelhos.<\/p>\n<p>A expectativa da ag\u00eancia reguladora e das operadoras \u00e9 que, daqui a dois anos, restem apenas 9 mil orelh\u00f5es no Brasil, distribu\u00eddos em \u00e1reas que a cobertura 4G ainda n\u00e3o alcan\u00e7a, mas que um dia invariavelmente vai alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea? Os motivos s\u00e3o \u00f3bvios: os orelh\u00f5es se tornaram desnecess\u00e1rios e a conta n\u00e3o fecha mais.<\/p>\n<p>Para se ter uma ideia, de acordo com o IBGE, 88,9% da popula\u00e7\u00e3o com mais de 10 anos de idade tinha celular em 2025. Dados do mesmo ano apontam para a exist\u00eancia de mais de 500 milh\u00f5es de aparelhos de celular no Brasil.<\/p>\n<p>Por fim, entre 2018 e 2025 as operadoras de telefonia gastaram R$ 1,69 bilh\u00e3o na manuten\u00e7\u00e3o dos obsoletos orelh\u00f5es, raramente usados pela popula\u00e7\u00e3o e frequentemente alvos de vandalismo.<\/p>\n<h2>Design ic\u00f4nico<\/h2>\n<p>Os orelh\u00f5es existiam para satisfazer uma necessidade: a da comunica\u00e7\u00e3o urgente. Mas eles seriam apenas telefones p\u00fablicos se n\u00e3o fosse pelo seu design ic\u00f4nico.<\/p>\n<p>Criado pela arquiteta e designer Chu Ming Silveira, o formato do orelh\u00e3o n\u00e3o era inspirado na orelha humana, como muitos pensam, e sim&#8230; no ovo. Ali\u00e1s, duas informa\u00e7\u00f5es curiosas: o nome oficial do orelh\u00e3o \u00e9 Telefone de Uso P\u00fablico (TUP). E o conjunto de tr\u00eas ou mais orelh\u00f5es era chamado de \u201ctulipa\u201d.<\/p>\n<p>O formato ovaloide garantia um isolamento ac\u00fastico razo\u00e1vel. Os orelh\u00f5es aguentavam de 70 a 90 decib\u00e9is em meio ao caos urbano. Feitos em fibra de vidro, material resistente aos extremos do clima tropical, os orelh\u00f5es tamb\u00e9m serviam de prote\u00e7\u00e3o contra o sol e a chuva.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia porta, mas quem entrava naquele casulo realmente sentia, enquanto durasse a liga\u00e7\u00e3o, que a cidade e a amn\u00e9sia (\u201cpor que n\u00e3o trouxe um guarda-chuva?\u201d) ficavam do lado de fora.<\/p>\n<p>Apesar da concorr\u00eancia, como as cabines telef\u00f4nicas de Londres ou Nova York, o projeto brasileiro se mostrou t\u00e3o eficiente que virou produto de exporta\u00e7\u00e3o. Durante algum tempo, orelh\u00f5es podiam ser encontrados em Mo\u00e7ambique, Angola, Peru, Col\u00f4mbia, Paraguai e at\u00e9 na China.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, em 2012, quando o orelh\u00e3o j\u00e1 tinha come\u00e7ado a desaparecer ou virar ru\u00edna ou lata de lixo improvisada, S\u00e3o Paulo organizou a Call Parade, uma brincadeira com a Cow Parade (exposic\u00e3o urbana de esculturas de vacas decoradas), transformando cem orelh\u00f5es em esculturas e instala\u00e7\u00f5es art\u00edsticas. Era o in\u00edcio do fim.<\/p>\n<h2>Cenas que s\u00f3 os orelh\u00f5es produziram<\/h2>\n<p>A novidade n\u00e3o s\u00f3 pegou como fez sucesso. Ainda na d\u00e9cada de 1970, Carlos Drummond de Andrade dedicou ao orelh\u00e3o uma cr\u00f4nica, dizendo que \u201cA verdade \u00e9 que a rua ficou sendo outra coisa, com as pessoas descobrindo que n\u00e3o precisam mais fazer fila no boteco ou na farm\u00e1cia para dar um recado telef\u00f4nico. Na pr\u00f3pria cal\u00e7ada, uma vez comprada a ficha no jornaleiro, comunicam-se. T\u00e3o simples\u201d.<\/p>\n<p>Orelh\u00f5es tamb\u00e9m foram disponibilizados no show de Frank Sinatra no Maracan\u00e3, em 1980. Na verdade, eram \u201corelh\u00f5es volantes\u201d instalados pela Telerj em kombis.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil imaginar hoje o que justificaria interromper o show do Sinatra para fazer uma liga\u00e7\u00e3o. Mas o fato \u00e9 que os \u201corelh\u00f5es volantes\u201d fizeram sucesso. Tanto que, tr\u00eas anos mais tarde, eles aparecem em Ipanema, oferecendo telefonemas aos banhistas.<\/p>\n<p>Isso sem falar no tradicional orelh\u00e3o instalado dentro do gramado do Maracan\u00e3. Ali\u00e1s, outros est\u00e1dios tamb\u00e9m tinham orelh\u00f5es, como o Pacaembu e o Parque Antarctica (atual Allianz Parque). Originalmente destinados ao uso da imprensa, os orelh\u00f5es rapidamente se transformaram em palco para comemora\u00e7\u00f5es entusiasmadas dos jogadores depois do gol.<\/p>\n<h2>Perdas e ganhos<\/h2>\n<p>Era uma rela\u00e7\u00e3o diferente, a que as pessoas tinham com o telefone. Ainda mais o telefone p\u00fablico. Pelos orelh\u00f5es, m\u00e3es davam recados urgentes, casais marcavam encontros, namorados atravessavam a noite ao tilintar irritante das fichas caindo e at\u00e9 jornalistas transmitiam not\u00edcias exclusivas para editores estressados e movidos a cigarro e cafe\u00edna.<\/p>\n<p>Falar ao orelh\u00e3o era tamb\u00e9m um exerc\u00edcio de conviv\u00eancia. Afinal, havia fila e, quando havia fila, havia negocia\u00e7\u00e3o. Porque tamb\u00e9m havia n\u00edveis diferentes de urg\u00eancia. E havia o pudor \u2014 certas coisas n\u00e3o se falavam em p\u00fablico. Nem baixinho.<\/p>\n<p>Havia, por vezes, a necessidade de pedir uma ficha emprestada. Havia a gentileza de ceder o orelh\u00e3o. E havia algo de impens\u00e1vel em tempos de redes sociais: o esfor\u00e7o consciente para respeitar a privacidade e n\u00e3o ouvir a conversa alheia.<\/p>\n<p>Com o celular, tudo isso desapareceu e, como sempre acontece nesses casos, houve perdas e ganhos. Isto \u00e9, se por um lado ganhamos autonomia, velocidade e privacidade, por outro perdemos o contato com o outro, bem como a capacidade de dividir o mundo com desconhecidos.<\/p>\n<h2>Pe\u00e7a de museu<\/h2>\n<p>O fato \u00e9 que os orelh\u00f5es desaparecer\u00e3o da paisagem urbana daqui a dois anos. E, quando isso acontece, \u00e9 normal que um objeto t\u00e3o ic\u00f4nico vire pe\u00e7a de colecionador.<\/p>\n<p>Tanto \u00e9 assim que, numa pesquisa r\u00e1pida em sites como OLX e Mercado Livre, pode-se encontrar orelh\u00f5es completos por cerca de R$ 2 mil, dependendo do estado do aparelho. J\u00e1 as fichas telef\u00f4nicas, aquelas que a Gera\u00e7\u00e3o Z n\u00e3o sabe, mas deram origem \u00e0 express\u00e3o \u201ccaiu a ficha\u201d, saem por R$ 10 cada.<\/p>\n<p>Mas, antes que os orelh\u00f5es desapare\u00e7am de vez e esta mat\u00e9ria descambe para um saudosismo t\u00e3o barato quanto in\u00fatil, vale a pena perguntar: qual foi o seu telefonema mais importante num orelh\u00e3o? Aquela liga\u00e7\u00e3o que mudou tudo, o recado que n\u00e3o podia esperar, a conversa que precisava acontecer ali, naquele momento, naquela concha laranja no meio da rua?<\/p>\n<p>Porque os orelh\u00f5es v\u00e3o virar pe\u00e7a de museu e, em alguns casos, pe\u00e7a de decora\u00e7\u00e3o cafona na casa de novo rico, mas as hist\u00f3rias que eles testemunharam ainda est\u00e3o por a\u00ed e merecem ser contadas antes que a gente esque\u00e7a que um dia foi preciso sair de casa, procurar um telefone p\u00fablico, enfrentar fila e usar uma ficha ou cart\u00e3o para dizer algo realmente urgente a algu\u00e9m distante.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi no dia 20 de janeiro de 1972. 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