{"id":167623,"date":"2026-02-02T05:01:00","date_gmt":"2026-02-02T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=167623"},"modified":"2026-02-02T05:01:00","modified_gmt":"2026-02-02T09:01:00","slug":"educacao-e-cultura-para-superar-o-brasil-de-macunaima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=167623","title":{"rendered":"Educa\u00e7\u00e3o e cultura para superar o Brasil de Macuna\u00edma"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Em uma \u00e9poca de transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e sociais em ritmo vertiginoso, o Brasil se encontra diante de uma encruzilhada. De um lado, o abismo do atraso, sustentado por velhos v\u00edcios comportamentais; do outro, a possibilidade de se tornar uma na\u00e7\u00e3o pr\u00f3spera e desenvolvida. A ponte para atravessar esse abismo n\u00e3o ser\u00e1 constru\u00edda apenas com reformas econ\u00f4micas ou infraestrutura f\u00edsica, mas sim com a mat\u00e9ria-prima mais nobre que uma na\u00e7\u00e3o possui: o capital humano. \u00c9 imperativo reconhecer que a cultura e a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o \u201cacess\u00f3rios\u201d de luxo, mas os pilares centrais e estrat\u00e9gicos de uma sociedade.<\/p>\n<p>Durante muito tempo, o Brasil se viu refletido no espelho de <em>Macuna\u00edma<\/em>, a obra-prima de M\u00e1rio de Andrade. O \u201cher\u00f3i sem car\u00e1ter\u201d, s\u00edmbolo de uma identidade nacional fluida, pregui\u00e7osa e sem b\u00fassola moral definida, serviu como uma cr\u00edtica mordaz e necess\u00e1ria ao modernismo de 1922. N\u00e3o podemos mais nos dar ao luxo de perpetuar essa falta de defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Superar <em>Macuna\u00edma<\/em> significa formar cidad\u00e3os que tenham &#8216;car\u00e1ter&#8217; n\u00e3o no sentido moralista, mas no sentido de integridade, prop\u00f3sito e responsabilidade c\u00edvica<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o e a cultura s\u00e3o os ant\u00eddotos para a falta de car\u00e1ter coletivo. Enquanto a educa\u00e7\u00e3o formal fornece as ferramentas cognitivas para a compreens\u00e3o do mundo, a cultura fornece o pertencimento e a identidade. Uma crian\u00e7a que tem acesso \u00e0 literatura, \u00e0 m\u00fasica, \u00e0 hist\u00f3ria e \u00e0s artes desenvolve empatia e senso cr\u00edtico. Ela deixa de ser um indiv\u00edduo isolado para se tornar parte de um todo. Superar <em>Macuna\u00edma<\/em> significa formar cidad\u00e3os que tenham \u201ccar\u00e1ter\u201d n\u00e3o no sentido moralista, mas no sentido de integridade, prop\u00f3sito e responsabilidade c\u00edvica.<\/p>\n<p>Talvez o maior obst\u00e1culo ao nosso desenvolvimento social seja a perniciosa \u201cLei de Gerson\u201d \u2013 a ideia de que \u00e9 preciso \u201clevar vantagem em tudo, certo?\u201d. Essa mentalidade corrosiva, que celebra a esperteza em detrimento da \u00e9tica, \u00e9 a ant\u00edtese do desenvolvimento sustent\u00e1vel. A educa\u00e7\u00e3o de qualidade atua diretamente na desconstru\u00e7\u00e3o desse paradigma. Uma educa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 ensina que a vantagem individual obtida \u00e0s custas do coletivo \u00e9, na verdade, um preju\u00edzo no longo prazo para todos.<\/p>\n<p>Pa\u00edses com altos \u00edndices de bem-estar social, como as na\u00e7\u00f5es escandinavas ou o Jap\u00e3o, n\u00e3o o s\u00e3o apenas porque s\u00e3o ricos, mas porque sua cultura e educa\u00e7\u00e3o valorizam o respeito \u00e0s regras e ao pr\u00f3ximo. Nesses pa\u00edses, a regra \u00e9 respeitada n\u00e3o por medo da puni\u00e7\u00e3o, mas por consci\u00eancia c\u00edvica \u2013 fruto direto de um sistema educacional robusto. A diferen\u00e7a crucial entre o Brasil e essas na\u00e7\u00f5es reside, portanto, em uma cultura de valoriza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o formal como um bem estrat\u00e9gico para toda a sociedade. Em muitos pa\u00edses, o investimento em educa\u00e7\u00e3o \u00e9 visto como o alicerce do futuro de uma na\u00e7\u00e3o. No Brasil, infelizmente, persiste uma mentalidade que, por vezes, desvaloriza o conhecimento \u201caprendido nas escolas\u201d em favor da \u201cesperteza das ruas\u201d ou do ganho imediato, uma heran\u00e7a que precisa ser ativamente extirpada.<\/p>\n<p>Para aqueles que ainda duvidam que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o motor da prosperidade, os dados internacionais de avalia\u00e7\u00e3o s\u00e3o claros. O Brasil figura nas \u00faltimas posi\u00e7\u00f5es do Pisa. Os resultados mais recentes mostram que uma parcela alarmante dos nossos estudantes de 15 anos n\u00e3o possui compet\u00eancias b\u00e1sicas em leitura e matem\u00e1tica. De acordo com o relat\u00f3rio <em>Education at a Glance 2025<\/em>, da OCDE, o gasto governamental por estudante da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 de cerca de US$ 3.872, valor significativamente inferior ao observado em pa\u00edses desenvolvidos. Sem educa\u00e7\u00e3o de base, condenamos nossos jovens a subempregos e perpetuamos o ciclo da pobreza.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Enquanto a Coreia do Sul, que na d\u00e9cada de 1960 tinha um PIB <em>per capita <\/em>similar ao do Brasil, investiu maci\u00e7amente em educa\u00e7\u00e3o e hoje \u00e9 uma pot\u00eancia tecnol\u00f3gica, n\u00f3s estagnamos. A diferen\u00e7a n\u00e3o foi sorte nem recursos naturais; foi uma escolha estrat\u00e9gica de prioridades.<\/p>\n<p>A cultura, por sua vez, vai al\u00e9m do entretenimento: ela expressa identidade, hist\u00f3ria, valores e formas de ver o mundo. No plano econ\u00f4mico, a cultura tem peso consider\u00e1vel. Segundo relat\u00f3rio da Unesco, o setor cultural e criativo representa cerca de 3,1% do PIB mundial e emprega 6,2% da for\u00e7a de trabalho global \u2013 n\u00fameros que colocam a cultura como um motor significativo de oportunidades econ\u00f4micas. No Brasil, toda essa \u201cind\u00fastria cultural\u201d movimentou R$ 230,14 bilh\u00f5es em 2020, superando inclusive o peso de setores tradicionais como a ind\u00fastria automobil\u00edstica.<\/p>\n<p>Ler, interpretar, criar, dialogar e identificar significados s\u00e3o habilidades que se refor\u00e7am mutuamente entre educa\u00e7\u00e3o e cultura. Participar de atividades art\u00edsticas no contexto escolar, por exemplo, \u00e9 crucial para o desenvolvimento integral. Contudo, dados apontam desafios reais de acesso \u00e0 leitura e bibliotecas no Brasil: uma pesquisa internacional reportou que o pa\u00eds perdeu quase 7 milh\u00f5es de leitores em quatro anos, e o Censo Escolar indica que mais da metade das escolas p\u00fablicas n\u00e3o disp\u00f5e de bibliotecas adequadas \u2013 fatores que impactam diretamente na forma\u00e7\u00e3o leitora e cultural dos estudantes.<\/p>\n<p>Vivemos a era da Intelig\u00eancia Artificial e da hiperconex\u00e3o. A educa\u00e7\u00e3o nos d\u00e1 a flexibilidade cognitiva para aprender a aprender; a cultura nos d\u00e1 a criatividade e a humanidade para nos diferenciarmos das m\u00e1quinas. Investir na forma\u00e7\u00e3o das nossas crian\u00e7as, garantindo que elas dominem a linguagem, a ci\u00eancia e as artes, \u00e9 uma estrat\u00e9gia de soberania nacional. Sem isso, seremos eternos consumidores de tecnologia alheia.<\/p>\n<p>Educa\u00e7\u00e3o e cultura s\u00e3o instrumentos estrat\u00e9gicos de desenvolvimento sustent\u00e1vel. A neglig\u00eancia nessas \u00e1reas reverbera em desigualdades, baixa produtividade e perda de competitividade global. Investir em professores, bibliotecas, museus, centros culturais, ensino integral, artes e literatura \u00e9 investir na capacidade de pensar, inovar e transformar.<\/p>\n<p>O mundo est\u00e1 em constante transforma\u00e7\u00e3o: novas tecnologias, mercados emergentes e desafios sociais exigem um povo capaz de compreender contextos complexos e de reagir com criatividade e \u00e9tica. S\u00f3 por meio de uma educa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e de uma cultura vibrante poderemos formar indiv\u00edduos conscientes de sua hist\u00f3ria, integrados em sua comunidade e ativos na constru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds mais justo, pr\u00f3spero e solid\u00e1rio.<\/p>\n<p><em><strong>Renato de S\u00e1 Teles<\/strong>\u00a0\u00e9 professor universit\u00e1rio na Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) e\u00a0doutor em Matem\u00e1tica\u00a0Aplicada.\u00a0<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma \u00e9poca de transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e sociais em ritmo vertiginoso, o Brasil se encontra diante de uma encruzilhada. 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